Passagens sobre Adolescentes

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Frases sobre adolescentes, poemas sobre adolescentes e outras passagens sobre adolescentes para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Ilha

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar t√£o alongadas
com t√£o prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me d√°s todos os dias

O Mundo Avança

O mundo avan√ßa. √Č verdade, disse eu, avan√ßa, mas dando voltas em torno do sol. (…) Os adolescentes da minha gera√ß√£o, alvora√ßados pela vida, esqueceram em corpo e alma as ilus√Ķes do futuro, at√© que a realidade lhes ensinou que o futuro n√£o era como o sonhavam, e descobriram a nostalgia. Ali estavam as minhas cr√≥nicas dominicais, como uma rel√≠quia arqueol√≥gica entre os escombros do passado, e aperceberam-se que n√£o eram s√≥ para velhos mas tamb√©m para jovens que n√£o tivessem medo de envelhecer.

Retrato do Artista em C√£o Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por tr√°s de l√°grimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos

aqui est√°s tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o c√£o vadio dos outros dias da semana
o c√£o de sempre
cada vez que h√° um c√£o jovem
neste local da terra

Os Poetas

Nunca os vistes
Sentados nos cafés que há na cidade,
Um livro aberto sobre a mesa e tristes,
Incógnitos, sem oiro e sem idade?

Com magros dedos, coroando a fronte,
Sugerem o nost√°lgico sentido
De quem rasgasse um pouco de horizonte
Proibido…

Fingem de reis da Terra e do Oceano
(E filhos são legítimos do vício!)
Tudo o que neles nos pareça humano
√Č fogo de artif√≠cio.

Por vezes, fecham-lhes as portas
‚ÄĒ √ďdio que a nada se resume ‚ÄĒ
Voltam, depois, a horas mortas,
Sem um queixume.

E mostram sempre novos laivos
De poesia em seu olhar…

Adolescentes! Afastai-vos
Quando algum deles vos fitar!

O poeta n√£o ser√° mais que mem√≥ria fundida nas mem√≥rias, para que um adolescente possa dizer-nos que tem em si todos os sonhos do mundo, como se ter sonhos e declar√°-lo fosse primeira inven√ß√£o sua. H√° raz√Ķes para pensar que a l√≠ngua √©, toda ela, obra de poesia.

Uma Certa Quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avi√£o

Entretanto
e justamente quando
j√° n√£o eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito est√ļpidos
pois uma e outra coisa eles s√£o
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Gosto muito do meu marido, o respeito muito, ele é um homem extraordinário. Casei-me pela primeira vez quando era adolescente. Depois encontrei-o, fixei-me. O resto da minha vida é escrever, sonhar, viver, mais nada!

An√ļncio no Ar

Céus, nuvens, ondas, ventos,
dai-me notícias do meu amor norueguês.

Elementos da natureza gastos por tantos versos,
ferralha rom√Ęntica, brilhai de novo
e trazei-me notícias do meu amor norueguês.

Aquela que eu amei um ver√£o na praia
Рpérola cuja ostra era um barco de carvão,
matrícula de Bergen, essa mesma, elementos!,
notícias, notícias do meu amor norueguês.

A que veio dos fiordes e vivia num barco
encostado ao cais, junto de um guindaste;
a que me acendeu a manh√£ do amor,
a que abriu a porta às tempestades,
a que me deu a chave da inven√ß√£o…
Existe? Fugiu à ocupação? Morreu prisioneira?

Notícias, notícias do seu rosto que mal lembro,
do seu corpo de caule adolescente…
Notícias do seixo branco que trocámos
com palavras de amor em inglês mal decorado.

Notícias da que foi espiga mal madura,
notícias do meu amor norueguês.

Menina Dos Olhos Verdes

√ď! menina dos olhos verdes, que √† tardinha
est√°s sempre √† janela √† hora de minha volta…
Que cousas pensarás? Que fazes aí sozinha?
Por que regi√Ķes de sonho a tua alma se solta?

Sempre que dobro a esquina encontro o teu olhar
e o teu claro sorriso adolescente ainda…
Habituei-me a te ver Рe és tão criança e tão linda
que sem querer, tamb√©m sorrio ao te encontrar…

Menina dos olhos verdes… A quem esperas
com teus olhos gritando a cor das primaveras?
Queres versos? Pois bem, estes s√£o teus, recolhe-os!

Escrevi-os pensando em ti, tímida e bela,
– a menina dos olhos verdes da janela
debruçada à janela verde dos meus olhos!

Os Supermercados

Os supermercados s√£o os pal√°cios dos pobres. N√£o s√£o s√≥ os azarentos e os mal alojados, os que ao longo das gera√ß√Ķes foram reduzindo os gastos da imagina√ß√£o, que frequentam e, de certo modo, vivem o supermercado, as chamadas grandes superf√≠cies. As grandes superf√≠cies com a sua √°rea iluminada e sempre em festa; a concentra√ß√£o dos prazeres correntes, como a alimenta√ß√£o e a imagem oferecida pelo cinema, satisfazem as pequenas ambi√ß√Ķes do quotidiano. N√£o h√° euforia mas h√° um sentimento de parentesco face √†s limita√ß√Ķes de cada um. A chuva e o calor s√£o poupados aos passeantes; a comida ligeira confina com a dieta dos adolescentes; h√° uma emo√ß√£o pr√≥pria que paira nas naves das grandes superf√≠cies. S√£o as catedrais da conveni√™ncia, d√£o a ilus√£o de que o sol quando nasce √© para todos e que a cultura e a seguran√ßa est√£o ao alcance das pequenas bolsas. N√£o h√° pol√≠cia, h√° uma paz de transeunte que a cidade j√° n√£o oferece.

Os Expectantes

Entre as defini√ß√Ķes da ilha planet√°ria em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. Uma ter√ßa parte da vida √© anulada numa semimorte, outra gasta em fazer mal a n√≥s mesmos e aos outros e a √ļltima esboroa-se e consome-se na expectativa. Esperamos sempre alguma coisa ou algu√©m – que vem ou n√£o, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. Come√ßa-se, em crian√ßa, a esperar a juventude com impaci√™ncia quase alucinada; depois, quando adolescente, espera-se a independ√™ncia, a fortuna ou porventura apenas um emprego e uma esposa. Os filhos esperam a morte dos pais, os enfermos a cura, os soldados a passagem √† disponibilidade, os professores as f√©rias, os universit√°rios a formatura, as raparigas um marido, os velhos o fim. Quem entrar numa pris√£o verificar√° que todos os reclusos contam os dias que os separam da liberdade; numa escola, numa f√°brica ou num escrit√≥rio, s√≥ encontrar√° criaturas que esperam, contando as horas, o momento da sa√≠da e da fuga. E em toda a parte – nos parques p√ļblicos, nos caf√©s, nas salas – h√° o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem. Exames, concursos, noivados, lotarias, semin√°rios,

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Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma ang√ļstia j√° purificada

N√£o tu n√£o podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avan√ßa mugindo pelo t√ļnel
de uma velha dor

N√£o podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocr√°tico
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
√† alegria son√Ęmbula √† v√≠rgula man√≠aca
do modo funcion√°rio de viver

N√£o podias ficar nesta cama comigo
em tr√Ęnsito mortal at√© ao dia s√≥rdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

N√£o podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela m√£o
a esta dor portuguesa
t√£o mansa quase vegetal

N√£o tu n√£o mereces esta cidade n√£o mereces
esta roda de n√°usea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa raz√£o absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives n√£o de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva t√£o terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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O Verbo Amar

Te amei: – era de longe que eu te olhava
e de longe me olhavas vagamente…
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente
sente, que a alma da gente faz escrava…

Te amava: – como inquieto adolescente,
tremendo ao te enla√ßar… E te enla√ßava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava!

Te amo: – e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo… e eu, vou te amando…

Te amar é mais que um verbo, é a minha lei:
Рe é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!

A Cidade de Palaguin

Na cidade de Palaguin
o dinheiro corrente era olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multid√£o de prostitutas
frequentava aos grupos casas de ch√°.
Havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e pris√Ķes descomunais sem portas.
Havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de p√Ęntanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as m√£es cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.

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Quantas Loucuras h√° num Homem!

H√° tantos amores na vida de um homem! Aos quatro anos, ama-se os cavalos, o sol, as flores, as armas que brilham, os uniformes de soldado; aos dez, ama-se a menina que brinca connosco.; aos treze, ama-se uma mulher de colo t√ļrgido, porque me lembro de que o que os adolescentes amam loucamente √© um colo de mulher, branco e mate, e como diz Marot:

Tetin refaict plus blanc qu’un oeuf
Tetin de satin blanc tout neuf.

Quase me senti mal quando vi pela primeira vez os seis desnudados de uma mulher. Por fim, aos catorze ou quinze anos, ama-se uma jovem que vem a nossa casa, e que √© um pouco mais que uma irm√£, menos que uma amante; depois, aos dezasseis anos, ama-se uma outra mulher, at√© aos vinte e cinco; depois, talvez se ame a mulher com quem casamos. Cinco anos mais tarde, ama-se a dan√ßarina que faz saltar o seu vestido sobre as suas coxas carnudas; por fim, aos trinta e seis, ama-se a deputa√ß√£o, a especula√ß√£o, as honrarias; aos cinquenta, ama-se o jantar do ministro ou do presidente da c√Ęmara; aos sessenta, ama-se a prostituta que nos chama atrav√©s dos vidros e a quem se lan√ßa um olhar de impot√™ncia,

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Que Aborrecido!

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manh√£, contente.
P√°lido sempre com os l√°bios frios,
Ora, desfiando os meus ros√°rios pios…
Fora melhor dormir, eternamente!

Mas n√£o ter eu aspira√ß√Ķes vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, l√°bio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas n√£o posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, ent√£o, depois de velho.

Genérico

E tu, meu pai? Adivinho esses vidrilhos
das l√°grimas quebrando
um a um na boca triste mas
por dentro, para que digamos
mais tarde, sem invenção escusada:
o pai n√£o chorou.

Eu soube das tuas f√ļrias
mordendo-se em silêncio,
ou de como te p√Ķes
às vezes tão de cinza.
O barco, o barco. Ficaremos
ainda estes minutos quantos.
Do que quiseres. E como quiseres.
Fala. Mas nada de telegramas
para depois da barra
– posso n√£o os abrir,
juro que posso.
Se eu fosse um amigo, se estivesses
em frente dum copo.
Custava menos. Assim
deslizas a unha
pelo tecido da farda, in√ļtil
dedo terno com os olhos longe.
O pai, que n√£o chorou, tremia
de modo imperceptível.

Lembro-me da bebedeira
em Alpedrinha, na estalagem,
com o Luís Melo
subitamente velho.
¬ęTramados, p√°, tramados.¬Ľ
O carro falha, s√£o as velas
os platinados sujos
¬ęa puta que os pariu¬Ľ (Lu√≠s).

Um √ļltimo aceno s√≥ vinho
para estas adolescentes
ao balc√£o do bar e depois e depois?

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