Poemas sobre Mundo

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Poemas de mundo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Mundo, o Demónio e a Carne

Rel√Ęmpago adormecido
entre a malva e o estalo
tua pen√ļria, √≥ Mundo
√© a minha pen√ļria.
Somos a mesma falta
de olhos a perseguir
a vis√£o que negou
o barro de meu rosto.

Demónio entre o retinir
das esporas e o redondo
dia,
que fizeste da luz
a arder em minha alma?
Sou teu c√ļmplice na m√£o
que apertou o pensamento
em sua nudez.

Carne de minha carne
entre uma pedra e outra
abre-se o trigo
da maldição.
Nossos corpos s√£o nossos
mas o abraço rói
o h√°lito que foi um
antes de existirmos.

Podes Ter os Amores que Quiseres…

Podes dizer que me n√£o amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!

Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes…

N√£o creias no remorso
– o remorso n√£o existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
s√£o o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!…

N√£o julgues, n√£o, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres…
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
h√°-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!

Queria que os Portugueses

Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que s√£o formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das d√ļvidas da raz√£o
que a si própria se devia
olhar pura opini√£o

que hoje é uma manhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
n√£o me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.

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Sabedoria do Mundo

N√£o fiques em terreno plano.
N√£o subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Est√° a meia encosta.

O Selvagem

Eu n√£o amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
– Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N’um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regi√Ķes dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de p√īr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os c√£es ladram √† lua…

Recusa

a Alberto de Serpa

Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a m√£o aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
N√£o falarei de minha poesia.
N√£o rimarei minha ang√ļstia
Com a solenidade de suas quest√Ķes.
A poesia n√£o est√° na discuss√£o.
A poesia n√£o est√° no n√£o estar com este ou com aquele.
A poesia est√° em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a vida renasça.
A poesia está em gritar do alto dos arranha-céus
E das planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo vai acabar
Que o mundo est√° maduro para o sangue
Que o mundo perverso e caótico vai vagar.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo defendendo sua solid√£o
De todos os truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas rendilheiros n√£o perdoar√£o.
Os poetas vaidosos v√£o barafustar
E exigir a expuls√£o imediata
Do √ļltimo vendilh√£o do Templo,
Em nome da religi√£o,
Em nome da estética,
Em nome da dignidade amarfanhada,

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Fé

As ora√ß√Ķes dos homens
Subam eternamente aos teus ouvidos;
Eternamente aos teus ouvidos soem
Os c√Ęnticos da terra.

No turvo mar da vida,
Onde aos parcéis do crime a alma naufraga,
A derradeira b√ļssola nos seja,
Senhor, tua palavra.

A melhor segurança
Da nossa íntima paz, Senhor, é esta;
Esta a luz que h√° de abrir √† est√Ęncia eterna
O fulgido caminho.

Ah ! feliz o que pode,
No extremo adeus às cousas deste mundo,
Quando a alma, despida de vaidade,
Vê quanto vale a terra;

Quando das glórias frias
Que o tempo d√° e o mesmo tempo some,
Despida j√°, ‚ÄĒ os olhos moribundos
Volta às eternas glórias;

Feliz o que nos l√°bios,
No cora√ß√£o, na mente p√Ķe teu nome,
E só por ele cuida entrar cantando
No seio do infinito.

Voto de Natal

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as m√£os dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho n√£o se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas m√£os! E a solid√£o estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas m√£os nos meus dedos t√£o frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Por Todos os Caminhos do Mundo

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,

por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,

ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do o√°sis,
ora os pés cansados, sem forças para além.

Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na m√£o o profetizado
de que a tempestade n√£o lhe abalar√° o pal√°cio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.

Na minha vida nem sempre a b√ļssola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.

N√£o sei caminhos de cor.

√Č Brando o Dia, Brando o Vento

√Č brando o dia, brando o vento
√Č brando o sol e brando o c√©u.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Interv√™m sonhos e mem√≥rias…
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
H√° porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Diz-me a Verdade acerca do Amor

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
H√° quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso n√£o servia para nada.

Ser√° parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agrad√°vel?
√Č √°spero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
√Č cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
√Č um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatl√Ęnticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferrovi√°rios.

Uiva como um c√£o de Als√°cia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?

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A Manh√£

A rosada manh√£ serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino alj√īfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
V√£o em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Sa√ļdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras √°guas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A √ļmida cabe√ßa ergue vi√ßosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha,

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O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, j√° n√£o separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um v√īo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibra√ß√Ķes, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados…

Eu, por n√£o ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decep√ß√Ķes e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

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Testemunho Incontestado

1

Cam√Ķes, mas que Cam√Ķes?
Que mundo em transição se fixa nesta língua
Que margem se afirma
na língua que se inventa?
Que poeta transita
no mundo que se fixa?
Que poema se afixa
na mente que se alarga
à escala do Globo Universal
e amarga?
Que contr√°rios se afrontam
nos ossos que nos tentam?
Cam√Ķes, mas que Cam√Ķes √© este
que nos marca?

2

homem ou texto
olho vazado ou letra
miséria ou redondilha
bruxo velho ou brochura
sabedoria ou ilha
pesadelo ou vis√£o
aventureiro ou m√°quina
tensa gasta ou tens√£o
um cego amor ou mundo
novidade ou idade
horizonte ou imagem
Cam√Ķes ou re-Cam√Ķes
Fortuna ou coisa amada
mudança ou só desejo
?

3

o lírico nas lonas

o épico e o hípico
que só a pé andou

corre o mundo em degredo
liberta-se em pris√Ķes

só um olho lhe basta
para a vis√£o dos tempos
que novos se dispersam

e em não contradição se contradiz

4

dissipo a vida
se
dissipo a morte

aprendo a vida
se
aprendo a morte

sustento a vida
se
sustenho a morte

re contenho a vida

se retenho a morte

Noite por Ti Despida

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que se d√° em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os √°lamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. √ćntimo rumor do mundo.

Inutilmente Parecemos Grandes

O mar jaz; gemem em segredo os ventos
Em Eolo cativos;
Só com as pontas do tridente as vastas
√Āguas franze Netuno;
E a praia é alva e cheia de pequenos
Brilhos sob o sol claro.
Inutilmente parecemos grandes.
Nada, no alheio mundo,
Nossa vista grandeza reconhece
Ou com raz√£o nos serve.
Se aqui de um manso mar meu fundo indício
Três ondas o apagam,
Que me far√° o mar que na atra praia
Ecoa de Saturno?

Natal

1

A voz clamava no Deserto.

E outra Voz mais suave,
Lírio a abrir, esvoaçar incerto,
Tímido e alvente, de ave
Que larga o ninho, melodia
Nascente, docemente,
Uma outra Voz se erguia…

A voz clamava no Deserto…

Anunciando
A outra Voz que vinha:
Balbuciar de fonte pequenina,
Dando
√Ä luz da Terra o seu primeiro beijo…
Inef√°vel an√ļncio, dealbando
Entre as estrelas moribundas.

2

Das entranhas profundas
Do Mundo, eco do Verbo, a profecia,
– √Ä dist√Ęncia de S√©culos, – dizia,
Pressentia
Fragor de sismos, o dum mundo ruindo,
Redimindo
Os c√°rceres do mundo…

A voz dura e ardente
Clamava no Deserto…

Natal de Primavera,
A nova Luz nascera.
Voz do céu, Luz radiante,
Mais humana e mais doce
E irm√£ dos Poetas
Que a voz trovejante
Dos profetas
Solit√°rios.

3

A divina alvorada
Trazia
Lírios no regaço
E rosas.
Natal. Primeiro passo
Da secular Jornada,
Era um canto de Amor
A anunciar Calv√°rios,

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Vimos do Tempo da Falta Mínima

Vimos do tempo da falta mínima
da casa construindo as folhas de quadrícula
(quando um traço mais que expressivo preenche
o vazio de uma folha)
nem beleza nem fim
nem n√ļmero ordenador como fantasma.

Todas as memórias partilhámos
a ruína compreende tudo.
Compreender quer dizer abraçar
(linhas e cruzamentos na procura da folha)
o mundo inteiro nos é dado.

Mais tarde (mais além
dois furos a passagem para o √ļtil)
as dunas dar√£o lugar a campos cultivados?
Quero dizer
não rejeito do movimento toda a impaciência
toda a dissolução.
(pouco a pouco) Até onde podemos ir?

Eu Digo do Amor n√£o Mais que a Sombra

Eu digo do amor n√£o mais que a sombra.
Agora o quarto oferece toda a inclinação da luz
aos dedos que tremem só de aflorar
o que da carne é já incorruptível saber
e crispação sem causa natural.
S√£o nossas inimigas as cortinas
amplas do ver√£o, os fumos e vapores
que esta terra nos devolve, a fria
repercussão do espírito que treme
sobre um tão ausente e despossuído mundo.
Disse-te que voltasses devagar os teus olhos
para o mecanismo simples da eros√£o.
Eu parti h√° muito e neste quarto
apenas aguardo o rel√Ęmpago surdo do teu corpo,
a contenção muda e não menos esplendorosa
da carne recordada e pressentida.
No entanto, deix√°mos escurecer
excessivamente o mundo. Ele acolhe-se
a nós, com terror e evidência,
e nós, em verdade, que podemos dizer?
Eu digo do amor n√£o mais que a sombra,
mas o teu rosto e a luz nada pode conter.