Poemas sobre Mundo

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Poemas de mundo escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Cantigas

Quando vejo a minha amada
Parece que o Sol nasceu;
Cantai, cantai alvorada
√ď avezinhas do c√©u.

Nessas √°guas do Mondego
Se pode a gente mirar,
Elas procuram sossego…
E v√£o caminho do mar.

A rosa que tu me deste
Peguei-lhe, mudou de cor;
Tornou-se de azul-celeste
Como o céu do nosso amor.

N√£o me fales da janela,
Que te não ouço da rua;
Fala-me de alguma estrela,
Que te vou ouvir da Lua.

Dizes que a letra n√£o deve
Ser nunca miudinha;
Mas grada ou mi√ļda escreve,
Que o coração adivinha.

N√£o digas que me n√£o amas
A ver se tenho ci√ļme;
Os laços do amor são chamas,
E n√£o se brinca com lume.

A virgem dos meus amores
Sobressai entre as mais belas:
√Č como a rosa entre flores,
√Č como o Sol entre estrelas.

Eu zombo de sol e chuva,
Noite e dia, terra e mar;
Ais de uma pobre vi√ļva,
Se os ouço, dá-me em chorar.

A sombra da nuvem passa
depressa pela seara;

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Embirração

(A Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo,
Onde poetas mil, flagelo deste mundo,
Patinham sem parar, chamando l√° por mim.
N√£o morrer√£o, se um verso, estiradinho assim,
Da beira for do poço, extenso como ele é,
Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé
Que volte um afogado, à luz da mocidade,
A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;
Permite o desabafo aqui, a sós contigo,
Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal;
Nem vence o positivo o frívolo ideal;
Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã,
E até da vã loucura a moda é prima-irmã:
Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus,
Do verso alexandrino h√° de livrar-nos Deus.

Deus quando abre ao poeta as portas desta vida,

Não lhe depara o gozo e a glória apetecida;
E o triste, se morreu, deixando mal escritas
Em verso alexandrino histórias infinitas,
Vai ter lá noutra vida insípido desterro,
Se Deus, por compaix√£o, n√£o d√° perd√£o ao erro;

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Natal Diferente

I

Catedrais de luz erguidas na cidade.
Neve artificial nas montras com brinquedos.
Soa um C√Ęntico antigo no vento da tarde
que arrefece. Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê de pasmo nesta hora de Natal.

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas.
Cinzenta é a cor do céu. Decerto vai chover.
No ambiente superficial
representam-se alegrias.
As notícias nos jornais agravam
o cepticismo deste Natal a haver.

Sinto-me vazio. Lasso. Sem vontade.
Uma grande ternura a boiar dentro de rnirn:
L√°stima, piedade, amor pelos humanos?
Mas de que serve comover-me assim?

Vou aceitar este Natal, tal como est√°.
Com √°lcool. Com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilus√Ķes.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

II

Meu Menino Jesus que deves estar no Céu
vem tiritar nas cidades sem calor.
Vem dar realidade a este dia, vem!
‚ÄĒ Trinta e tr√™s anos e a consci√™ncia em flor.
Mas n√£o venhas de fraldas: a Estrela j√° brilhou.
Traz o corpo macerado,

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Somos Estrangeiros Onde quer que Estejamos

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde que quer que estejamos.

Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos, tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Façamos de nós mesmos o retiro
Onde esconder-nos, tímidos do insulto
Do tumulto do mundo.
Que quer o amor mais que n√£o ser dos outros?
Como um segredo dito nos mistérios,
Seja sacro por nosso.

Psiquetipia

Símbolos. Tudo símbolos
Se calhar, tudo √© s√≠mbolos…
Serás tu um símbolo também?

Olho, desterrado de ti, as tuas m√£os brancas
Postas, com boas maneiras inglesas, sobre a toalha da mesa.
Pessoas independentes de ti…
Olho-as: também serão símbolos?
Então todo o mundo é símbolo e magia?
Se calhar √©…
E por que n√£o h√° de ser?

S√≠mbolos…
Estou cansado de pensar…
Ergo finalmente os olhos para os teus olhos que me olham.
Sorris, sabendo bem em que eu estava pensando…

Meu Deus! e n√£o sabes…
Eu pensava nos s√≠mbolos…
Respondo fielmente √† tua conversa por cima da mesa…
“It was very strange, wasn‚Äôt it?”
“Awfully strange. And how did it end?”
“Well, it didn’t end. It never does, you know.”
Sim, you know… Eu sei…
Sim eu sei…
√Č o mal dos s√≠mbolos, you know.
Yes, I know.
Conversa perfeitamente natural… Mas os s√≠mbolos?
N√£o tiro os olhos de tuas m√£os… Quem s√£o elas?
Meu Deus! Os s√≠mbolos… Os s√≠mbolos…

Terra – 3

Eles subiram o monte com o povo arrebanhado
e padre-nossos nos l√°bios.
Eles subiram o monte e eram negros, grandiosos e medonhos.
Vinham de longe e diziam duma verdade nos l√°bios firmes e finos.
Vinham de longe, de Miss√Ķes do cabo do mundo;
– da √Āfrica? dos Brasis? ‚Äď vinham de longe…
E ficou aquela cruz branca e esguia
erguida na serra.
Serm√Ķes na igreja, comunh√£o geral
e prociss√£o na rua.
Cristo, na cruz do alto, protegendo a freguesia ‚Äď Hosana!
Terra e gente ficaram santos nesse dia ‚Äď Hosana!
Hoje, todos sentem aqueles olhos parados l√° do cimo
– caminheiros da serra, viajante da estrada –
todos sentem os olhos l√° do cimo
Рolhar imóvel e indiferente
daqueles que subiram o monte.

Terra – 7

Onde ficava o mundo?
Só pinhais, matos, charnecas e milho
para a fome dos olhos.
Para l√° da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda.
E o mar? E a cidade? E os rios?
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos,
onde chiam carros de bois e há poças de chuva.
Onde ficava o mundo?
Nem a alma sabia julgar.
Mas vieram engenheiros e m√°quinas estranhas.
Em cada dia o povo abraçava um outro povo.
E hoje a terra é livre e fácil como o céu das aves:
a estrada branca e menina é uma serpente ondulada
e dela nasce a sede da fuga como as √°guas dum rio.

Igual-Desigual

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos s√£o iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers s√£o iguais
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol s√£o
iguais.
Todos os partidos políticos
s√£o iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
s√£o iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em verso livre s√£o enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo s√£o iguais.
Todas as fomes s√£o iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as cria√ß√Ķes da natureza s√£o iguais.
Todas as ac√ß√Ķes, cru√©is, piedosas ou indiferentes, s√£o iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
[coisa.

Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade, in ‘A Paix√£o Medida’

Coda

In√ļtil escapar. A presen√ßa perdura.
Desde que sinto ch√£o
ou de verde
ou de pedra

é teu rastro que encontro e encontro em ti meu chão.

E quando te pressinto
o de verde é mais terno
e o de mais dura pedra
um sens√≠vel dur√Ęmen.

Tu que arrancas até da rocha viva o sangue,
tu que vens pela foz destes veios de eu te amo:
‚ÄĒ Em que s√©culo, amor, nossas almas se fundem?
Em que terra?

Através de que mar? Ah que céu
velho c√©u j√° chorou por n√≥s ‚ÄĒ perdidos c√ļmulos ‚ÄĒ
guaiando em nosso mundo impossíveis azuis?
E desde quando o amor se abriu aos nossos olhos?
De que abrolhos e sal de amar nos marejou?

Em meu solo és madeiro
e nave
e asa que sonha.
Em todo canto te acho e onde é teu canto eu sou.

Poeminha de Homenagem à Preguiça Universal

Que nada é impossível
não é verdade;
todo o mundo faz nada
com facilidade

Para os L√°bios que o Homem Faz

Para os l√°bios
que o homem faz
que atraem beijos
ao redor do mundo
ficou na nossa memória
em qualquer parte    a qualquer hora
um pedaço
de p√£o

Promessa
que se cumpre
que alimenta
o mundo

Olhos
a exigir
uma floresta

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos…
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– √ļnico acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passar√°
por sobre a barreira alfandeg√°ria
e a tua mala levar√° fotografias,
um mapa, duas cartas, uma l√°grima…

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais di√°rios
ou escreve com √°cido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos j√° esperados.

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O √önico Amigo

Não me alcançarás, amigo.
Chegar√°s ansioso, louco;
mas eu j√° terei partido.

(E que medonho vazio
tudo o que tiveres deixado
atr√°s, para vir comigo!

Que lament√°vel abismo
tudo quanto eu tenha posto
entre nós, sem culpa, amigo!)

N√£o poder√°s ficar, amigo.
Voltarei talvez ao mundo.
Mas tu j√° ter√°s partido…

Tradução de José Bento

O Somno de Jo√£o

O Jo√£o dorme… (√ď Maria,
Dize √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O Jo√£o seria… um morango!
Podia engulil-o um le√£o
Quando nasce! As pombas s√£o
Um poucochinho maiores…
Mas os astros s√£o menores!

O Jo√£o dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
√ď mar! falla mais baixinho…
E tu, M√£e! e tu, Maria!
Pede √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…

O Jo√£o dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
N√£o acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto √©…

√ď Mae! canta-lhe a can√ß√£o,
Os versos do teu irm√£o:
¬ęNa Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que √© dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.¬Ľ

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… at√© morrer!

E tu vel-o-√°s crescendo
A teu lado (estou-o vendo
Jo√£o!

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Moral Estelar

Presdestinada à tua órbita,
Que te importa, estrela, a noite?
Rola, bem-aventurada, através do tempo!
Que a sua miséria te permaneça estranha.
A tua luz est√° destinada ao mais distante dos mundos:
A piedade deve ser-te um pecado.
Admite apenas uma lei: sê pura!

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou gr√£o de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das √°rvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necess√°ria
de um Sol que n√£o vejo,
onde cabe o p√°ria,
a Revolução
e a Reforma Agr√°ria
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
p√°tria mal-amada,
chame-se “amar nada”
chame-se “amar tudo”.

E porque n√£o minto
sou um labirinto.

Inocência

Vou aqui como um anjo, e carregado
De crimes!
Com asas de poeta voa-se no c√©u…
De tudo me redimes,
Penitência
De ser artista!
Nada sei,
Nada valho,
Nada faço,
E abre-se em mim a força deste abraço
Que abarca o mundo!

Tudo amo, admiro e compreendo.
Sou como um sol fecundo
Que adoça e doira, tendo
Calor apenas.
Puro,
Divino
E humano como os outros meus irm√£os,
Caminho nesta ingénua confiança
De criança
Que faz milagres a bater as m√£os.

Nas Praças

Nas pra√ßas vindouras ‚ÄĒ talvez as mesmas que as nossas ‚ÄĒ
Que elixires ser√£o apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que j√° s√£o nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solit√°rias de tanta trapeira de falhado,
As id√©ias casuais de tanto casual, as intui√ß√Ķes de tanto ningu√©m ‚ÄĒ
Um dia talvez, em fluido abstrato, e subst√Ęncia implaus√≠vel,
Formem um Deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
N√£o h√° sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que n√£o desvendo,
Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto.

N√£o h√° sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
N√£o seriam montes, n√£o estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

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