Passagens sobre Espaço

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Frases sobre espa√ßo, poemas sobre espa√ßo e outras passagens sobre espa√ßo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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Falaram-me os Homens em Humanidade

Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi v√°rios homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do Seu amor, nem pulsa o entusiasmo de fazer o bem.

O perd√£o e a miseric√≥rdia n√£o t√™m muito espa√ßo no mundo que vimos construindo, na vida de todos os dias, nas rela√ß√Ķes entre pessoas, entre fam√≠lias, entre comunidades e povos diferentes. O Cristo da Cruz mostra-nos o cume humano do perd√£o: ¬ęPai, perdoa-lhes, porque n√£o sabem o que fazem¬Ľ (Lucas 23:34).

Quando encontro uma pessoa a dormir ao relento, numa noite fria, posso sentir que esse vulto seja um imprevisto que me demora, um delinquente ocioso, um obst√°culo no meu caminho, um aguilh√£o molesto para a mina consci√™ncia, um problema que os pol√≠ticos devem resolver e, talvez at√©, uma imund√≠cie que suja o espa√ßo p√ļblico. Ou ent√£o posso reagir a partir da f√© e da caridade e reconhecer nele um ser humano com a mesma dignidade que eu.

A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade

A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
H√ļmus, e alma, √© a solid√£o. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua pris√£o pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
‚ÄĒ fruto de solid√£o compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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A Vida

√ď grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
√ď olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
√ď olhos negros como noites, como po√ßos!
√ď fontes de luar, n’um corpo todo ossos!
√ď puros como o c√©u! √≥ tristes como levas
De degredados!

√ď Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
√ď velas do perd√£o! candeias da desgra√ßa!
√ď grandes olhos outomnaes, cheios de Gra√ßa!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
√ď carv√Ķes que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
√ď pharolim da barra a guiar os navegantes!
√ď pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que v√£o na diligencia pela serra!
√ď Extrema-Unc√ß√£o final dos que se v√£o da Terra!
√ď janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d’Agosto!
Luas d’Estio! Luas negras de velludo!
√ď luas negras,

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Pessoas, acho, s√£o as √ļnicas coisas que sabem ocupar mais espa√ßo do que o espa√ßo em que realmente est√£o.

O Amor Inspira-se no Clandestino

O amor inspira-se no clandestino, est√°vamos escondidos do mundo e abertos para n√≥s, olhei-te nos olhos e encontrei-te os meses que pass√°mos separados, a grande dor de n√£o te ter, a casa era desconhecida, desabitada, disseste-me tu, n√£o quero saber como tinhas a chave, ainda hoje n√£o quero, o mist√©rio √© um amor por descobrir, e quando se descobre pode n√£o ser amor nenhum ‚Äď

aguentar nesta vida é preservar mistérios, segredos que nunca podem deixar de o ser, espaços por preencher, lacunas que passamos o tempo a tentar ocupar, descodificar, tentar que não falte nada é a melhor receita para nunca faltar nada,
desde que continue sempre a faltar qualquer coisa.

O Homem e a M√°quina

À técnica seria absurdo que a recusássemos, lhe recusássemos a espantosa facilitação da vida, por mais que a essa vida ela perturbe Рcomo aos seus doutrinadores. Uma máquina é pura, desde a inocência com que se nos revela, ou seja precisamente a exterioridade em que se nos dá. Mas uma inocência é uma abertura à realização do que o não é. O destino de uma máquina tem o destino que lhe dermos, e um dos piores é o finalizá-la nela própria. Assim e para lá da criação do seu próprio espaço, por uma máquina, da alteração que a sua própria existência em nós promove, todo o problema se decide no lugar-comum desta alternativa: remeter a máquina ao homem ou degradar o homem à máquina.

O Incêndio De Roma

Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.

E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as erectas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.

Longe, reverberando o clar√£o purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte.
Impassível, porém, no alto do Palatino,

Nero, com o manto grego ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.

Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos,

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Leitor e Autor, num Mundo √° Parte

Ler um livro √© desinteressar-se a gente deste mundo comum e objectivo para viver noutro mundo. A janela iluminada noite adentro isola o leitor da realidade da rua, que √© o sumidouro da vida subjectiva. √Ārvores ramalham. De vez em quando passam passos. L√° no alto estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do c√≠rculo claro da l√£mpada, apenas ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa do seu corpo, est√° suspenso no ponto ideal de uma outra dimens√£o, al√©m do tempo e do espa√ßo. No tapete voador s√≥ h√° lugar para dois passageiros: leitor e autor.

Chuva De Ouro

A Rainha desceu do Capitólio
Agora mesmo — vede-lhe o rega√ßo…
Como tem flores, como traz o braço
Farto de jóias, como pisa o sólio

Triunfantemente, numa unção, num óleo
Mais santo e doce que essa luz do espa√ßo…
E como desce com bravura de a√ßo…
Pois se a Rainha, como um rico espólio,

O seu brioso coração foi dando
Aos pobrezinhos, que inda est√£o gozando
B√™n√ß√£os mais puras qu’os clar√Ķes diurnos,

Por certo que h√° de vir descendo a escada
Do Capit√≥lio da virtude — olhada
Pelos Albergues infantis, noturnos!

Bens Ilusórios

Por nosso mal l√° chega a idade, em que n√£o queremos mais fortunas, que o viver; conhecemos a ilus√£o delas, e se as buscamos, √© como por costume, mas sem √Ęnsia, e sem desassossego; o desejo de as alcan√ßar, √© como um resto de calor, que apenas se faz sentir. N√£o reflectimos sobre o pouco tempo, que devemos gozar um bem, sen√£o depois de o ter: s√≥ ent√£o consideramos o muito que custou a alcan√ßar, e o pouco que o havemos possuir.
Em cada país há um modo com que as cousas se imaginam; o que é fortuna em uma parte, é desgraça em outra, o que aqui se busca com empenho, ali se despreza totalmente. Os objectos que entretêm a vaidade, e estimação dos homens, são como ídolos, que só se veneram em lugar determinado, e fora daquele tal espaço, a adoração se troca em vitupério; o mesmo mármore de que em Atenas se faria uma Minerva, transportado a outro lugar, apenas servirá de base a uma coluna; assim é a vaidade, por mais que seja universal nos homens, os motivos dela não são universais.

Os homens trazem em si a crueldade. N√£o devemos esquecer-nos disso, devemos ter cuidado. √Č preciso defender a possibilidade de criar e defender esse espa√ßo de consci√™ncia, de lucidez. Essa √© a nossa pequenina esperan√ßa.

Madona Da Tristeza

Quando te escuto e te olho reverente
E sinto a tua graça triste e bela
De ave medrosa, tímida, singela,
Fico a cismar enternecidamente.

Tua voz, teu olhar, teu ar dolente
Toda a delicadeza ideal revela
E de sonhos e l√°grimas estrela
O meu ser comovido e penitente.

Com que m√°goa te adoro e te contemplo,
√ď da Piedade soberano exemplo,
Flor divina e secreta da Beleza.

Os meus soluços enchem os espaços
Quando te aperto nos estreitos braços,
solit√°ria madona da Tristeza!

O Equilibrio das Virtudes

O que pode a virtude de um homem não deve medir-se nos momentos de esforço, mas na vida de todos os dias.
N√£o admiro o excesso de uma virtude, como a coragem, se n√£o vir ao mesmo tempo o excesso da virtude oposta, como em Epaminondas, que tinha a extrema coragem e a extrema benignidade. Pois de outro modo n√£o √© subir, √© cair. A grandeza n√£o consiste em estar num extremo, mas em tocar os dois ao mesmo tempo e em preencher todo o espa√ßo interm√©dio. Mas talvez ela seja apenas um s√ļbito movimento de alma de um extremo ao outro, talvez nunca esteja em mais que um ponto, como o ti√ß√£o de fogo? Seja; mas pelo menos isso indica a agilidade da alma, se n√£o a sua extens√£o.

Se faz parte dos desígnios da Providência extirpar esses selvagens para abrir espaço aos cultivadores da terra, parece-me oportuno que o rum seja o instrumento apropriado. Ele já aniquilou todas as tribos que antes habitavam a costa