Passagens sobre Braços

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Frases sobre bra√ßos, poemas sobre bra√ßos e outras passagens sobre bra√ßos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Mais Bela Noite do Mundo

Hoje,
ser√° o fim!

Hoje
nem este falso silêncio
dos meus gestos malogrados
debruçando-se
sobre os meus ombros nus
e esmagados!

Nem o luar, pano baço de cenário velho,
escutando
a minha pris√£o de viver
a lição que me ditavam:
– Menino! acende uma vela na tua vida,
que o sol, a luz e o ar
s√£o perfumes de pecado.
Tem bra√ßos longos e tentadores ‚Äď o dia!

РMenino! recolhe-te na sombra do meu regaço
que teus pés
são feitos de barro e cansaço!

(Era esta a voz do pap√£o
pintado de belo
na m√°scara de papel√£o).

Eram in√ļteis e magoadas as noites da minha rua…
Noites de lua
que lembravam as grilhetas
da minha vida parada.

– Amanh√£,
ter√°s os mestres, as aulas, os amigos e os livros
e o espect√°culo da morgue
morando durante dias
nos teus sentidos gorados.

Amanh√£,
ser√° o ultrapassar outra curva
no teu caminho destinado.

(Era esta a voz do pap√£o
que acendia a vela,

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Hora Vermelha

Por que vieste, pensamento?
J√° me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
n√£o sei l√° bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.

J√° me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.

Boca rasgada num pedido
a que se quer e se n√£o quer
dizer que n√£o.
Os braços longos estendidos.
A m√£o em concha sobre o sexo
que nem a V√©nus de Cam√Ķes.

Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua m√£o branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
P√īr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.

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Bicarbonato de Soda

S√ļbita, uma ang√ļstia…
Ah, que ang√ļstia, que n√°usea do est√īmago √† alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma ang√ļstia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os bra√ßos ao sol-p√īr do esfor√ßo…
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que √© que me falta, que o sinto faltar-me no est√īmago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
N√£o: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir …

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas est√£o todas abertas!
Que ver√£o agrad√°vel dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

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A Castração da Personalidade

O homem √© um animal greg√°rio. Pol√≠tico, dizia Arist√≥teles, ou seja, membro da cidade. Mas n√£o s√≥ da cidade – de todas as greis espont√Ęneas ou artificiais, est√°veis ou prec√°rias, onde quer que se encontre. N√£o pode suportar a ideia de estar s√≥, consigo – quer ser unidade e n√£o individualidade. Tem necessidade de se sentir cotovelo com cotovelo, pele com pele, no calor de uma multid√£o, ligado, seguro, uniforme, conforme. Se o le√£o anda s√≥, em n√≥s predomina o instinto ovino, do rebanho – os pr√≥prios individualistas, para afirmar o seu individualismo, congregam-se: sempre segundo a pr√°tica ovina.

O homem, quando s√≥, sente-se incompleto – tem medo. Opor-se √† grei significa separar-se, permanecer s√≥, morrer. Os conceitos do bem e do mal nascem da necessidade de conviv√™ncia. √Č bem o que aproveita ao grupo, mal o que o prejudica ou n√£o beneficia. O rebanho n√£o quer que cada ovelha pense demasiado em si, e como a privilegiada √© a que obt√©m a boa opini√£o das outras, v√™-se for√ßada, ainda que contra os seus gostos e interesses, a agir no sentido do bem supremo do rebanho. H√° que pagar, com a castra√ß√£o da personalidade, a seguran√ßa contra o medo.

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Só o Amor me Interessa

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor √© a m√ļsica de r√°dio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
– aqui est√° uma janela acol√° voam as pombas –

podes vir e sentar-te a falar com as p√°lpebras
p√īr a m√£o sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores

O Livro

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso √©, indubitavelmente, o livro. Os outros s√£o extens√Ķes do seu corpo. O microsc√≥pio e o telesc√≥pio s√£o extens√Ķes da vista; o telefone √© o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extens√Ķes do seu bra√ßo. Mas o livro √© outra coisa: o livro √© uma extens√£o da mem√≥ria e da imagina√ß√£o.
Em ¬ęC√©sar e Cle√≥patra¬Ľ de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela √© a mem√≥ria da humanidade. O livro √© isso e tamb√©m algo mais: a imagina√ß√£o. Pois o que √© o nosso passado sen√£o uma s√©rie de sonhos? Que diferen√ßa pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal √© a fun√ß√£o que o livro realiza.
(…) Se lemos um livro antigo, √© como se l√™ssemos todo o tempo que transcorreu at√© n√≥s desde o dia em que ele foi escrito. Por isso conv√©m manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos n√£o estar de acordo com as opini√Ķes do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, n√£o para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade,

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No Amor, Mil Almas, Mil Maneiras Diferentes

Nem todas as mulheres experimentam os mesmos sentimentos. Encontrareis mil almas com mil maneiras diferentes. Para as conquistar, empregai mil maneiras. A mesma terra n√£o produz todas as coisas: tal conv√©m √† vinha, tal √† oliveira; aqui despontar√£o cereais em abund√Ęncia. H√° nos cora√ß√Ķes tantos caracteres diferentes, quantos rostos h√° no mundo. O homem prudente acomodar-se-√° a estes inumer√°veis caracteres; novo Proteu, t√£o depressa se diluir√° em ondas fluidas para logo ser um le√£o, uma √°rvore, um javali de eri√ßadas cerdas. Os peixes apanham-se aqui com o arp√£o, ali com o anzol, acol√° com as redes puxadas pela corda estendida. E o mesmo m√©todo n√£o convir√° a todas as idades: uma cor√ßa velha descobrir√° a armadilha de mais longe; se te mostrares experiente junto de uma novi√ßa, demasiado petulante junto de uma recatada, ela desconfiar√° que a vais tornar infeliz. Assim √© que a mulher que √†s vezes teme entregar-se a um homem honesto, caiu vergonhosamente nos bra√ßos de algu√©m que a n√£o merece.

Contra a Morte e o Amor n√£o H√° Quem Tenha Valia

Era ainda o mês de abril,
de maio antes um dia,
quando lírios e rosas
mostram mais sua alegria;
pela noite mais serena
que fazer o céu podia,
quando Flérida, a formosa
infanta, j√° se partia,
ela na horta do pai
para as √°rvores dizia:
“Ficai, adeus, minhas flores,
em que glória ver soía.
Vou-me a terras estrangeiras,
a que ventura me guia.
Se meu pai me for buscar,
que grande bem me queria,
digam-lhe que amor me leva,
e que eu sem culpa o seguia;
que tanto por mim porfiava
que venceu sua porfia.
Triste, n√£o sei aonde vou,
e a mim ningu√©m o dizia!‚ÄĚ
Eis que fala Dom Duardos:
“Não choreis, minha alegria,
que nos reinos de Inglaterra
mais claras √°guas havia,
e mais formosos jardins,
e vossos, senhora, um dia:
tereis trezentas donzelas
de alta genealogia,
de prata s√£o os pal√°cios
para vossa senhoria;
de esmeraldas e jacintos,
de ouro fino da Turquia,
com letreiros esmaltados
que minha vida à porfia
v√£o contando,

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Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clar√Ķes s√£o todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, p√£o bendito,

Meus √™xtases, meus sonhos, meus cansa√ßos…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via L√°ctea fechando o Infinito!…

Magnólia Dos Trópicos

A Ara√ļjo Figueredo

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
√ď magn√≥lia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nen√ļfares
Da tua carne ideal, de corre√ß√Ķes felinas.

O teu colo pag√£o de virgens curvas finas
√Č o mais imaculado e fl√≥reo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Vi√°ticos de amor e preces diamantinas.

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde h√° frescura e sombra e sol e murmurejo;

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.

Assovio

Ninguém abra a sua porta
para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela n√£o sabe o meu rumo,
eu n√£o lhe pergunto o seu:
n√£o posso perder mais nada,
se o que houve j√° se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
‚ÄĒ a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

Os Grandes Forjam-se na Adversidade

Todo o ambiente √© favor√°vel ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a miss√£o que se imp√īs e a conseguir ir porventura mais al√©m das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se √† invalidez do impulso interior do que aos obst√°culos que lhe ponham diante, mais √† alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que √†s resist√™ncias, √†s invejas e √†s dificuldades que o mundo possa levantar perante H√©rcules que luta.
O mal que se v√™ √© aguilh√£o para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de a√ßo, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a vis√£o do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude s√£o estufa para homens; por a√≠ se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos cora√ß√Ķes que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam.
Mais custa quebrar rochar do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar,

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XXXIII

Quando adivinha que vou vê-Ia, e à escada
Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
Fica p√°lida, assusta-se, estremece,
E n√£o sei por que foge envergonhada.

Volta depois. À porta, alvoroçada,
Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
E talvez entendendo a muda prece
De meus olhos, adianta-se apressada.

Corre, delira, multiplica os passos;
E o ch√£o, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de um rumor de festa

E ah! que desejo de a tomar nos braços,
O movimento r√°pido sustando
Das duas asas que a paix√£o lhe empresta.

Já não Vivi, Só Penso

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crep√ļsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido j√° sem o saber?
Seria bom mas n√£o, n√£o pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Exaltação

Viver!… Beber o vento e o sol!… Erguer
Ao C√©u os cora√ß√Ķes a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto, a arder!…
Asas sempre perdidas a pairar,
Mais alto para as estrelas desprender!…
A gl√≥ria!… A fama!… O orgulho de criar!…

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos ext√°ticos, pag√£os!…

Trago na boca o coração dos cravos!
Boémios, vagabundos, e poetas:
– Como eu sou vossa Irm√£, √≥ meus Irm√£os!…

O Casulo

No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua n√£o penetra
uma m√°quina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arp√Ķes a√ßorianos sinos de n√£o sei donde
ou sei esperem sinos da tróica em natais nocturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador J√ļlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lam√ļrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finl√Ęndia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e n√£o as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo n√£o se lendo j√°
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferogr√°ficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da R√ļssia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a p√īr bem em frente das minhas divaga√ß√Ķes
anémonas nórdicas da Anne
mios√≥tis b√ļlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objectos objectos o pote tem as armas de n√£o lembro
[quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor n√£o saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras mi√ļdas ou letras farfalhudas
depende da ocasi√£o
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha m√£e em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de cactos
amuletos africanos o mata-borr√£o que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de
[veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios n√£o p√°ram
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo h√° cordas cord√Ķes medalhas
[medalh√Ķes
armas laur√©is proibi√ß√Ķes
perfumes em minaretes levantinos.

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Entre Sombras

Vem ás vezes sentar-se ao pé de mim
‚ÄĒ A noite desce, desfolhando as rosas ‚ÄĒ
Vem ter commigo, √°s horas duvidosas,
Uma vis√£o, com azas de setim…

Pousa de leve a delicada m√£o
‚ÄĒ Rescende amena a noite socegada ‚ÄĒ
Pousa a m√£o compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido cora√ß√£o…

E diz-me essa vis√£o compadecida
‚ÄĒ Ha suspiros no espa√ßo vaporoso ‚ÄĒ
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem commigo! Embalado nos meus braços
‚ÄĒ Na noite funda ha um silencio santo ‚ÄĒ
N’um sonho feito s√≥ de luz e encanto
Transpor√°s a dormir esses espa√ßos…

Porque eu habito a regi√£o distante
‚ÄĒ A noite exhala uma do√ßura infinda ‚ÄĒ
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante…

Habito ali, e tu vir√°s commigo
‚ÄĒ Palpita a noite n’um clar√£o que offusca ‚ÄĒ
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alivio, pobre amigo…

Assim me fala essa vis√£o nocturna
‚ÄĒ No vago espa√ßo ha vozes dolorosas ‚ÄĒ
S√£o as suas palavras carinhosas
Agua correndo em crystalina urna…

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Conhecimento do Amor

Amor, como o compreendo agora, é mais
ren√ļncia que desejo. Outrora hostil,
agressivo, hoje s√ļplica, murm√ļrio
íntimo, cinzas em silêncio, amor,
à morte assemelhando-se, besouro
em agonia, dor da perda, o sonho
estraçalhado, renunciar, renu-
nciar sempre, e sem espera, ao corpo amado.

A vida me consente essa amargura
e é preciso vivê-la sem demora,
abrir os olhos, aceitar a sombra,
meditar sem rancor a decep√ß√£o ‚ÄĒ
instante em que a mulher se distancia
e a voz ao telefone ri tranquila
anunciando a partida: outros braços,
agora, amor, mesclado de impotência
e irris√£o, l√°grimas que n√£o se mostram.

Toda ren√ļncia comp√Ķe jogo amargo
de desespero e morte. Renunciar,
ainda que de joelhos, deitado, o corpo
ansiando pelo teu amor se fira,
e o coração, tumulto, empalideça
e nada reste enfim que a vida mesma,
percorrida com calma e indiferença.

Assim, amor, te compreendo agora:
‚ÄĒ devo√ß√£o malquerida a toda hora.

Pensamentos Nocturnos

Lastimo-vos, ó estrelas infelizes,
Que sois belas e brilhais t√£o radiosas,
Guiando de bom grado o marinheiro aflito,
Sem recompensa dos deuses ou dos homens:
Pois n√£o amais, nunca conhecestes o amor!
Continuamente horas eternas levam
As vossas rondas pelo vasto céu.
Que viagem levastes j√° a cabo!,
Enquanto eu, entre os braços da amada,
De vós me esqueço e da meia-noite.

Tradução de Paulo Quintela