Textos sobre Honestos

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Textos de honestos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Uma Alma Grande e Corajosa

Um esp√≠rito corajoso e grande √© reconhecido principalmente devido a duas caracter√≠sticas: uma consiste no desprezo pelas coisas exteriores, na convic√ß√£o de que o homem, independentemente do que √© belo e conveniente, n√£o deve admirar, decidir ou escolher coisa alguma nem deixar-se abater por homem algum, por qualquer quest√£o espiritual ou simplesmente pela m√° fortuna. A outra consiste no facto – especialmente quando o esp√≠rito √© disciplinado na maneira acima referida – de se dever realizar feitos, n√£o s√≥ grandes e seguramente, bastante √ļteis, mas ainda em grande n√ļmero, √°rduos e cheios de trabalhos e perigos, tanto para a vida como para as muitas coisas que √† vida interessam.
Todo o esplendor, toda a dimensão (devo acrescentar ainda a utilidade), pertencem à segunda destas duas características; porém, a causa e o princípio eficiente, que os tornam homens grandes, à primeira.
Naquela est√°, com efeito, aquilo que torna os esp√≠ritos excelentes e desdenhosos das coisas humanas. Na verdade, pode isto ser reconhecido por duas condi√ß√Ķes: em primeiro lugar, se estimares alguma coisa como sendo boa unicamente porque √© honesta, em segundo lugar, se te encontrares livre de toda a perturba√ß√£o de esp√≠rito. Consequentemente, o facto de se ter em pouca conta aquelas coisas humanas e de se desprezar,

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O Professor como Mestre

N√£o me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma √© burocr√°tica e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profiss√£o; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa intelig√™ncia e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das aten√ß√Ķes das pessoas mais s√©rias; creio mesmo que tal distin√ß√£o foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, √© sempre poss√≠vel a compara√ß√£o com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de m√©rito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre n√£o √© de modo algum um emprego e que a sua actividade se n√£o pode aferir pelos m√©todos correntes; ganhar a vida √© no professor um acr√©scimo e n√£o o alvo; e o que importa, no seu ju√≠zo final, n√£o √© a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente h√°-de pesar na balan√ßa √© a pedra que lan√ßou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama;

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O Problema da Especialização

O dom√≠nio dos factos explic√°veis pela ci√™ncia alargou enormemente, e o conhecimento te√≥rico em todos os campos da ci√™ncia tem sido aprofundado, para al√©m do que podia esperar-se. A capacidade de compreens√£o humana, por√©m, √© e ser√° sempre muito limitada. Assim n√£o podia deixar de acontecer que a actividade do investigador individual tivesse que restringir-se a um sector, cada vez mais limitado, do conhecimento cient√≠fico geral. Mas o mais grave √© que esta especializa√ß√£o faz que a compreens√£o geral da ci√™ncia como um todo ‚ÄĒ sem a qual o verdadeiro investigador cristaliza for√ßosamente ‚ÄĒ tenha de marcar passo com a evolu√ß√£o, o que se torna cada vez mais dif√≠cil. Cria-se, assim, uma situa√ß√£o id√™ntica √†quela que, na B√≠blia, √© simbolicamente representada pela Hist√≥ria da torre de Babel. Todo o investigador honesto tem a dolorosa consci√™ncia dessa limita√ß√£o involunt√°ria a um c√≠rculo de compreens√£o cada vez mais apertado, que amea√ßa roubar as grandes perspectivas ao investigador e o reduz a simples obreiro.

A Diplomacia é um Exercício de Grande Violência Interior

Há momentos em que somos obrigados a conviver com pessoas de natureza tão distinta da nossa que bastam cinco minutos de contacto para percebermos que, cedo ou tarde, os diques que sustêm a hostilidade latente acabarão por ceder e quanto mais pressão pusermos sobre eles maior será a catástrofe. A questão que nos colocamos é a de saber se o ideal é passar de imediato para a fase de conflito declarado ou aguardar diplomaticamente que, como dizem alguns entendidos nas matérias, as coisas sigam ao seu ritmo, na vã esperança de que uma relação franca e honesta, ainda que difícil, seja possível. A diplomacia, sabe quem já esteve na guerra, é um exercício de grande violência interior.

N√£o Existe um Verdadeiro Sistema de Pensamentos

Enfaticamente, n√£o pode existir um verdadeiro sistema de pensamentos, pois nenhum sinal pode substituir a realidade. Pensadores profundos e honestos chegam sempre √† conclus√£o de que toda a cogni√ß√£o √© condicionada a priori pela sua pr√≥pria forma e nunca pode alcan√ßar aquela que as palavras significam… E este ignorabimus tamb√©m est√° em conformidade com a intui√ß√£o de todo o verdadeiro s√°bio: que os princ√≠pios abstractos da vida s√£o aceit√°veis somente como formas de express√£o, m√°ximas banais de uso quotidiano sob as quais a vida corre, como sempre correu, para a frente. Em √ļltima an√°lise, a ra√ßa √© mais forte do que as l√≠nguas, e √© assim que, debaixo de todos os grandes nomes, houve pensadores, que s√£o personalidades, e n√£o sistemas, que s√£o mut√°veis, que produziram efeito sobre a vida.

Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

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A Amizade como Auxiliar da Virtude

A maioria dos homens, na sua injusti√ßa, para n√£o dizer na sua imprud√™ncia, quer possuir amigos tais como eles pr√≥prios n√£o seriam. Exigem o que n√£o t√™m. O que √© justo √© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pare√ßa s√™-lo. S√≥ entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveni√™ncia em amizade, sobre a qual insisto h√° muito tempo. Unidos pela benevol√™ncia, guiar-se-√£o nas paix√Ķes a que se escravizam os outros homens. Amar√£o a justi√ßa e a equidade. Estar√£o sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e n√£o se exigir√£o reciprocamente nada que n√£o seja honesto e leg√≠timo. Enfim, ter√£o uns para os outros, n√£o somente defer√™ncias e ternuras, mas, tamb√©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade √© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
√Č pois erro funesto crer que a amizade abre via livre √†s paix√Ķes e a todos os g√©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, n√£o como cumplice do v√≠cio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá,

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Regras Essenciais para os Negócios

Mais vale em geral negociar oralmente do que por cartas, e por media√ß√£o, de terceiro do que pessoalmente. As cartas s√£o melhores quando se deseja provocar resposta escrita, ou quando podem servir para justifica√ß√£o de um procedimento a tomar depois de escrita a carta. Tratar o assunto pessoalmente √© bom, quando a presen√ßa imp√Ķe respeito, como acontece geralmente perante inferiores. Na escolha dos intermedi√°rios, √© melhor optar por pessoas francas, que far√£o aquilo de que foram encarregadas, e que transmitir√£o fielmente o resultado, do que escolher pessoas h√°beis em tirar proveito dos neg√≥cios alheios, e que podem alterar a verdade dos factos, apenas para vos dar satisfa√ß√£o. √Č melhor sondar a pessoa com a qual se trata um neg√≥cio, antes de entrar abruptamente no assunto, excepto quando se pretende surpreend√™-la com alguma quest√£o especiosa.
√Č melhor tratar com pessoas que ainda t√™m apetite do que com aquelas que j√° o perderam. Se se trata com algu√©m sob condi√ß√Ķes, o essencial, √© o primeiro acto, porque tudo n√£o se pode razoavelmente pedir, excepto se a natureza da coisa for tal que se possa levar avante; ou tal que uma parte possa persuadir a outra que precisar√° dela em futuro neg√≥cio;

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Onde Est√° a Sinceridade ?

Entre as recorda√ß√Ķes que cada um de n√≥s guarda, algumas h√° que s√≥ contamos aos amigos. H√° ainda outras que nem sequer aos amigos confessamos, que s√≥ a n√≥s pr√≥prios dizemos e, mesmo assim, no m√°ximo segredo. Finalmente, h√° coisas que o homem nem sequer se permite confessar a si mesmo. Ao longo da exist√™ncia, toda a pessoa honesta acumulou n√£o poucas destas recorda√ß√Ķes. Diria mesmo que a quantidade √© tanto maior quanto mais honesto o homem. Eu, em todo o caso, n√£o foi h√° muito que me decidi a recordar algumas das minhas antigas aventuras; at√© agora evitava faz√™-lo, ali√°s com um certo desassossego. Por√©m agora, quando as evoco e desejo mesmo anot√°-las, agora vou tirar a prova: ser√° poss√≠vel sermos francos e sinceros, pelo menos com n√≥s pr√≥prios, e dizermo-nos toda a verdade?
Observo, a propósito, que Heine afirma não poderem existir autobiografias exactas e que o homem mente sempre quando fala de si próprio. Em sua opinião, Rousseau enganou-nos à certa nas suas Confessions, e até deliberadamente, por vaidade. Tenho a certeza de que Heine tem razão: compreendo muitíssimo bem que nos possamos acusar de crimes abomináveis apenas por vaidade e também compreendo o que pode ser esse sentimento.

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Um Século de Discursos sem Resultados

O eterno ¬ędeficit¬Ľ; o mist√©rio tenebroso das contas e da d√≠vida p√ļblica; o espectro da bancarrota; a quebra da moeda; o ¬ędeficit¬Ľ da balan√ßa comercial; a insufici√™ncia econ√≥mica; a mis√©ria agr√≠cola; a irriga√ß√£o do Alentejo; o repovoamento florestal; as estradas; os portos; o analfabetismo; o abandono das popula√ß√Ķes rurais; a pesca; a marinha mercante ; a administra√ß√£o colonial; a instru√ß√£o e rearmamento do Ex√©rcito; a reconstru√ß√£o da marinha de guerra; a viciosa educa√ß√£o da gente portuguesa; a emigra√ß√£o; o quadro das nossas rela√ß√Ķes internacionais; a quest√£o religiosa ‚ÄĒ tudo isto absorveu literalmente um s√©culo de discursos, toneladas de artigos e n√£o deu um passo, salvo sempre o respeito pelos esfor√ßos honestos e realiza√ß√Ķes parciais √ļteis, entre as quais se destacam o fomento das comunica√ß√Ķes e a ocupa√ß√£o colonial.

Nos Extremos é que Está a Sabedoria

Pode-se dizer que, muito plausivelmente, h√° uma ignor√Ęncia abeced√°ria que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignor√Ęncia esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destr√≥i aqueloutra. Dos esp√≠ritos simples, menos curiosos e menos instru√≠dos, fazem-se bons crist√£os, que, por rever√™ncia e obedi√™ncia, com simplicidade, cr√™em e mant√™m-se submissos √†s leis. √Č nos esp√≠ritos de vigor e capacidade m√©dios que se engendram as opini√Ķes err√≥neas, pois eles seguem a apar√™ncia das suas primeiras impress√Ķes e t√™m pretextos para interpretar como simpleza e estult√≠cia o nosso apego aos antigos usos, considerando que n√≥s a√≠ n√£o cheg√°mos por via do estudo dessas mat√©rias.
Os grandes esp√≠ritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro g√©nero de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investiga√ß√£o, penetram nas Escrituras at√© atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa pol√≠tica eclesi√°stica. Vemos, por√©m, alguns, com maravilhoso proveito e com consolida√ß√£o da sua f√©, chegarem, atrav√©s do segundo, a este √ļltimo n√≠vel, como o extremo limite da intelig√™ncia crist√£, e rejubilar na sua vit√≥ria com refrig√©rio, ac√ß√Ķes de gra√ßas, reformas dos costumes e grande mod√©stia. N√£o entendo nesta categoria situar aqueloutros que,

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A Import√Ęncia da Boa Vontade

No decurso da minha longa vida recebi dos meus companheiros um reconhecimento muito maior do que aquele que mere√ßo e confesso que o meu sentido de humildade sempre se sobrep√īs ao meu prazer. Mas nunca, em ocasi√Ķes anteriores, a dor se sobrep√īs tanto ao prazer como agora. Todos n√≥s, que estamos preocupados com a paz e o triunfo da raz√£o e da justi√ßa, devemos estar hoje claramente conscientes do peso que uma pequen√≠ssima justifica√ß√£o e uma boa vontade honesta podem exercer sobre os acontecimentos na vida pol√≠tica. Mas, independentemente disso, e independentemente do nosso destino, podemos estar certos de que sem os esfor√ßos incans√°veis daqueles que est√£o preocupados com o bem-estar da humanidade como um todo a maioria da esp√©cie humana estaria muito pior do que se encontra realmente agora.

A Grandeza de Car√°cter

Obedecer aos pr√≥prios sentimentos? Arriscar a vida ao ceder a um sentimento generoso ou a um impulso de momento… Isso n√£o caracteriza um homem: todos s√£o capazes de faz√™-lo; neste ponto, um criminoso, um bandido, um corso certamente superam um homem honesto. O grau de superioridade √© vencer em si esse el√£ e realizar o acto her√≥ico, n√£o por um impulso, mas friamente, razoavelmente, sem a expans√£o de prazer que o acompanha. Outro tanto acontece com a piedade: ela h√°-de ser habitualmente filtrada pela raz√£o; caso contr√°rio, √© t√£o perigosa como qualquer outra emo√ß√£o. A docilidade cega perante uma emo√ß√£o – tanto importa que seja generosa ou piedosa como odienta – √© causa dos piores males. A grandeza de car√°cter n√£o consiste em n√£o experimentar emo√ß√Ķes; pelo contr√°rio, estas s√£o de ter no mais alto grau; a quest√£o √© control√°-las e, ainda assim, havendo prazer em model√°-las, em fun√ß√£o de algo mais.

Somos Todos Casos Excepcionais

Somos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o g√©nero humano e o c√©u. Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos parab√©ns pelos esfor√ßos gra√ßas aos quais se tornou inteligente ou generoso. Pelo contr√°rio, ele rejubilar√°, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se disssermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu car√°cter, mas com infelizes circunst√Ęncias, ele ficar-nos-√° violentamente reconhecido. Durante a defesa, escolher√° mesmo este momento para chorar. No entanto, n√£o h√° m√©rito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente, de nascen√ßa! Como se n√£o √© certamente mais respons√°vel em ser-se criminoso por natureza que em s√™-lo devido √†s circunst√Ęncias. Mas estes patifes querem a absolvi√ß√£o, isto √©, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justifica√ß√Ķes da natureza ou desculpas das circunst√Ęncias, mesmo que sejam contradit√≥rias. O essencial √© que sejam inocentes, que as suas virtudes, pela gra√ßa do nascimento, n√£o possam ser postas em d√ļvida, e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageria, nunca sejam sen√£o provis√≥rios. J√° lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como √© dif√≠cil escapar e melindroso fazer,

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Deixo-me Ir Como Me Apraz

A ci√™ncia e a verdade podem residir em n√≥s sem ju√≠zo, e este pode habitar-nos desacompanhado delas: o reconhecimento da pr√≥pria ignor√Ęncia √© um dos mais belos e seguros testemunhos de ju√≠zo que conhe√ßo. N√£o tenho outro sargento para p√īr em ordem os meus escritos al√©m da fortuna. √Ä medida que as divaga√ß√Ķes me ocorrem, eu as empilho; ora se atropelam em bando, ora se disp√Ķem em fila. Quero que todos vejam o meu passo natural e simples, por irregular que ele seja. Deixo-me ir como me apraz, e estes n√£o s√£o assuntos que n√£o seja permitido a um homem ignorar ou tratar de maneira ligeira e casual
Bem que eu desejaria ter conhecimento mais perfeito das coisas, mas não quero comprá-lo por ser muito caro. O meu desejo é passar airada e não laborosiamente o tempo que me resta de vida. Bem nenhum existe que seja capaz de levar-me a quebrar a cabeça por ele, nem mesmo a ciência, por valiosa que seja. Não procuro nos livros senão alcançar prazer mediante um divertimento honesto, ou, se estudo, não busco senão a ciência que trata do conhecimento de nós próprios, e que me ensina a morrer e a viver bem.

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A Embriaguez também é Necessária

√Äs vezes tamb√©m √© preciso chegar at√© a embriaguez, n√£o para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupa√ß√Ķes, revolve at√© o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. E L√≠ber foi chamado o inventor do vinho n√£o porque solta a l√≠ngua, mas sim porque liberta a alma da escravid√£o das inquieta√ß√Ķes; restabelece-a, fortalece-a e f√°-la mais audaz para todos os esfor√ßos. Mas, como na liberdade, tamb√©m no vinho √© salutar a modera√ß√£o. Cr√™-se que S√≥lon e Arc√©silas eram dados ao vinho; a Cat√£o, reprovou-se-lhe a embriaguez: mais facilmente se far√° honesto esse crime do que Cat√£o desonroso.

√Č Virtude Dissimular a Virtude

– Vede, caro Roberto, o senhor de Salazar n√£o diz que o sensato deve simular. Sugere-vos, se bem entendi, que deve aprender a dissimular. Simula-se o que n√£o se √©, dissimula-se o que se √©. Se vos gabardes do que n√£o fizestes, sois um simulador. Mas se evitardes, sem faz√™-lo notar, mostrar em pleno o que fizestes, ent√£o dissimulais. √Č virtude acima de todas as virtudes dissimular a virtude. O senhor de Salazar est√° a ensinar-vos um modo prudente de ser virtuoso, ou de ser virtuoso de acordo com a prud√™ncia. Desde que o primeiro homem abriu os olhos e soube que estava nu, procurou cobrir-se at√© √† vista do seu Fazedor: assim a dilig√™ncia no esconder quase nasceu com o pr√≥prio mundo. Dissimular √© estender um v√©u composto de trevas honestas, do qual n√£o se forma o falso mas sim d√° algum repouso ao verdadeiro.
A rosa parece bela porque à primeira vista dissimula ser coisa tão caduca, e embora da beleza mortal costume dizer-se que não parece coisa terrena, ela não é mais do que um cadáver dissimulado pelo favor da idade. Nesta vida nem sempre se deve ser de coração aberto, e as verdades que mais nos importam dizem-se sempre até meio.

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O Verdadeiro e o Falso Ci√ļme

O ci√ļme √© uma esp√©cie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e n√£o prov√©m tanto da for√ßa das raz√Ķes que levam a julgar que podemos perd√™-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar at√© os menores motivos de suspeita e a tom√°-los por raz√Ķes muito dignas de considera√ß√£o.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que s√£o muito grandes do que os que s√£o menores, em algumas ocasi√Ķes essa paix√£o pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de ex√©rcito que defende uma pra√ßa de grande import√£ncia tem o direito de ser zeloso dela, isto √©, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta n√£o √© censurada por ser zelosa de sua honra, isto √©, por n√£o apenas abster-se de agir mal como tamb√©m evitar at√© os menores motivos de maledic√™ncia.
Mas zombamos de um avarento quando ele é ciumento do seu tesouro, isto é, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro não vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado.

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A Nossa Vida é Estilhaçada pelo Pormenor

Vivemos mesquinhamente, quais formigas, ainda que a fábula nos relate que há muito tempo atrás fomos transformados em homens; como os pigmeus lutamos com gruas; e é erro sobre erro, remendo sobre remendo, e a nossa melhor virtude decorre de uma miséria supérflua e evitável. A nossa vida é estilhaçada pelo pormenor.
Um homem honesto dificilmente precisa de contar para al√©m dos seus dez dedos das m√£os, acrescentando, em caso extremo, os seus dez dedos dos p√©s, e o resto que se amontoe. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: ocupai-vos de dois ou tr√™s afazeres, e n√£o de cem ou mil; contai meia d√ļzia em vez de um milh√£o e tomai nota das receitas e despesas na ponta do polegar. A meio do agitado mar da vida civilizada, tantas s√£o as nuvens, as tempestades, as areias movedi√ßas, tantos s√£o os mil e um imprevistos a ser levados em conta, que para n√£o se afundar, para n√£o ir a pique antes de chegar ao porto, um homem tem de ser um grande calculista para lograr √™xito.
Simplificar, simplificar, simplificar. Em vez de tr√™s refei√ß√Ķes por dia, se preciso for, comer apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzir proporcionalmente as outras coisas.

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Nenhuma Lei é Sagrada Para Mim

Nenhuma lei pode ser sagrada para mim, excepto a da minha natureza. Bom ou mau s√£o apenas nomes, prontamente transfer√≠veis disto para aquilo; a √ļnica coisa certa √© aquela que est√° de acordo com a minha consci√™ncia; a √ļnica coisa errada, a que est√° contra ela. Na presen√ßa de qualquer oposi√ß√£o, o homem deve comportar-se como se tudo fosse nominal e ef√©mero, excepto ele. Envergonho-me de pensar qu√£o facilmente capitulamos diante de bandeiras e nomes, de grandes sociedades e institui√ß√Ķes mortas. Todo o homem decente e bem falante afecta-me e cativa-me mais do que o devido. Eu deveria manter-me √≠ntegro e honesto, e dizer a rude verdade de todas as maneiras.