Passagens sobre Notas

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Frases sobre notas, poemas sobre notas e outras passagens sobre notas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No b√ļzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua m√£o, decifro a causa
De querer e n√£o crer, final, intimidade.

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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Crítica e Auto-Crítica

Assim como o homem carrega o peso do pr√≥prio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tamb√©m n√£o nota os pr√≥prios defeitos e v√≠cios, mas s√≥ os dos outros. Entretanto, cada um tem no seu pr√≥ximo um espelho, no qual v√™ claramente os pr√≥prios v√≠cios, defeitos, maus h√°bitos e repugn√Ęncias de todo o tipo. Por√©m, na maioria da vezes, faz como o c√£o, que ladra diante do espelho por n√£o saber que se v√™ a si mesmo, crendo ver outro c√£o.
Quem critica os outros trabalha em prol da sua pr√≥pria melhoria. Portanto, quem tem a inclina√ß√£o e o h√°bito de submeter secretamente a conduta dos outros, e em geral tamb√©m as suas ac√ß√Ķes e omiss√Ķes, a uma atenta e severa cr√≠tica, trabalha na verdade em prol da pr√≥pria melhoria e do pr√≥prio aperfei√ßoamento, pois possui o suficiente de justi√ßa, ou de orgulho e vaidade, para evitar o que ami√ļde censura com tanto rigor.

A Import√Ęncia da Arte

A arte √©, provavelmente, uma experi√™ncia in√ļtil; como a ¬ępaix√£o in√ļtil¬Ľ em que cristaliza o homem. Mas in√ļtil apenas como trag√©dia de que a humanidade beneficie; porque a arte √© a menos tr√°gica das ocupa√ß√Ķes, porque isso n√£o envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de m√ļsica, fazia-se um deserto extraordin√°rio. Acreditem que os teares paravam, tamb√©m, e as f√°bricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte √©, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e h√° decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam √† experi√™ncia in√ļtil que √© a arte, pessoas como Virg√≠lio, por exemplo, e que sabem que o seu sil√™ncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e s√≥ ficasse no ar o ru√≠do dos motores, porque at√© o vento se calava no fundo dos vales, penso que at√© as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vit√≥ria, com a mansid√£o das coisas est√©reis. O la√ßo da fic√ß√£o, que gera a expectativa, √© mais forte do que todas as realidades acumul√°veis. Se ele se quebra, o equil√≠brio entre os seres sofre grave preju√≠zo.

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Soneto V РÀ Sra. Marieta Landa

Disseste a nota amena d’alegria,
E, arrebatado ent√£o nesse momento
De um doce, divinal contentamento,
Eu senti que minh’alma aos c√©us subia.

Disseste a nota da melancolia,
Negra nuvem toldou-me o pensamento;
Senti que agudo espinho virulento
Do coração as fibras me rompia.

√Čs anjo ou nume, tu que desta sorte
Trazes o peito humano arrebatado
Em sucessivo e r√°pido transporte?!

Anjo ou nume não és; mas, se te é dado
No canto dar a vida, ou dar a morte,
Tens nas m√£os teu Porvir, teu bem, teu fado.

Luar

Pelas esferas, nuvens peregrinas,
Brandas de toques, encaracoladas,
Passam de longe, tímidas, nevadas,
Cruzando o azul sereno das colinas.

Sombras da tarde, sombras vespertinas
Como escumilhas leves, delicadas,
Caem da serra oblonga nas quebradas,
V√£o penumbrando as coisas cristalinas.

Rasga o silêncio a nota chã, plangente,
Da Ave-Maria, — e ent√£o, nervosamente,
Nuns inef√°veis, espont√Ęneos jorros

Esbate o luar, de forma admir√°vel,
Claro, bondoso, elétrico, saudável,
Na curvilínea compridão dos mortos.

Mil Escudos

podia jurar que j√° tive esta nota na
m√£o gostava mais das de cem (Bocage
sempre era poeta) um de nós nunca
esquecia bigodes e cicatrizes sobre

o seu car√£o moreno assinando o curto
nome pelo banco de Portugal nomeando
nosso Bocage governador por uns dias.

a nota de mil amanh√£ ser√° como a
tangerina (h√° tanto tempo na terrina
caiu na classe dos frutos secos).

vem aí outro dinheiro (aposto: vai
ser azul) guardo esta nota antiga na
caixa da ilusão esta nota é um país
em vias de extinção

História não é só Cronologia

Um dos principais defeitos dos trabalhos históricos no nosso país parece-me ser a insulação de cada um dos aspectos sociais de qualquer época, que nunca se conhecerá, nem entenderá, enquanto a sociedade se não estudar em todas as suas formas de existir, enquanto se não contemplar em todos os seus caracteres.
Estas cartas, se merecerem a aprovação de V. Exas., poderão algum dia servir, no que tiverem de bom, se o tiverem, de esclarecimento e notas a uma parte da História Portuguesa, como eu concebo que ela se deveria escrever: história não tanto dos indivíduos como da Nação; história que não ponha à luz do presente o que se deve ver à luz do passado; história, enfim, que ligue os elementos diversos que constituem a existência de um povo em qualquer época, em vez de ligar um ou dois desses elementos, não com os outros que com ele coexistem, mas com os seus afins na sucessão dos tempos.
A hist√≥ria pode comparar-se a uma coluna pol√≠gona de m√°rmore. Quem quiser examin√°-la deve andar ao redor dela, contempl√°-la em todas as suas faces. O que entre n√≥s se tem feito, com honrosas excep√ß√Ķes, √© olhar para um dos lados,

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Daqui a Vinte e Cinco Anos

Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a vinte e cinco anos. Nem daqui a vinte e cinco minutos, quanto mais vinte e cinco anos. Mas a impressão-desejo é a de que num futuro não muito remoto talvez compreendamos que os movimentos caóticos atuais já eram os primeiros passos afinando-se e orquestrando-se para uma situação económica mais digna de um homem, de uma mulher, de uma criança. E isso porque o povo já tem dado mostras de ter maior maturidade política do que a grande maioria dos políticos, e é quem um dia terminará liderando os líderes. Daqui a vinte e cinco anos o povo terá falado muito mais.
Mas se n√£o sei prever, posso pelo menos desejar. Posso intensamente desejar que o problema mais urgente se resolva: o da fome. Muit√≠ssimo mais depressa, por√©m, do que em vinte e cinco anos, porque n√£o h√° mais tempo de esperar: milhares de homens, mulheres e crian√ßas s√£o verdadeiros moribundos ambulantes que tecnicamente deviam estar internados em hospitais para subnutridos. Tal √© a mis√©ria, que se justificaria ser decretado estado de prontid√£o, como diante de calamidade p√ļblica. S√≥ que √© pior: a fome √© a nossa endemia, j√° est√° fazendo parte org√Ęnica do corpo e da alma.

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Quase ningu√©m repara em ningu√©m. Em parte porque o espa√ßo que nos circunda est√° cheio de chamadas, de perigos e de j√ļbilos; o ser humano, longe do que se pensa, √© o que menos se nota no mundo.

Apocalipse

Minha divinatória Arte ultrapassa
os séculos efêmeros e nota
Diminui√ß√£o din√Ęmica, derrota
Na atual força, integérrima, da Massa.

√Č a subvers√£o universal que amea√ßa
A Natureza, e, em noite aziaga e ignota,
Destrói a ebulição que a água alvorota
E p√Ķe todos os astros na desgra√ßa!

São despedaçamentos, derrubadas,
Federa√ß√Ķes sid√©ricas quebradas…
E eu s√≥, o √ļltimo a ser, pelo orbe adeante,

Espião da cataclísmica surpresa
A √ļnica luz tragicamente acesa
Na universalidade agonizante!

Ambiente

A Alexandre de Médicis

A rua é tão estreita
que o luar mal chega às pedras
que pisei, ao vir aqui.

A casa tem pior fama
do que a rua, onde só passa
quem n√£o tem outro caminho.

A sala, onde vim juntar-me
com a baixeza da vida,
tem menos luz do que a rua
e os olhos não têm estrelas.
H√° uma mulher perdida
que diz a sua desgraça.
Um marinheiro possante
fala de terras, do mar,
e as suas mãos têm saudade
da guitarra que est√° longe…

Anda, no ar, perturbante,
um cheiro de vinho novo
que enjoa, mas faz querê-lo
junto com reles comidas.

O pensamento da gente
n√£o se fixa em coisa alguma:
vai como nota de m√ļsica…

As almas est√£o com sono.
As horas passam
sem se dar por elas…

… E s√≥ longe
alguém cantará o fado.

As Bem-Aventuranças são um mapa para atingir a santidade, isto é, a plena realização humana. Nas Bem-Aventuranças estão engastadas como num partitura musical as notas mais preciosas e intensas da espiritualidade cristã como aventura de beleza.

Alarga os Teus Horizontes

Por que é que combateis? Dir-se-á, ao ver-vos,
Que o Universo acaba aonde chegam
Os muros da cidade, e nem h√° vida
Além da órbita onde as vossas giram,
E além do Fórum já não há mais mundo!

Tal é o vosso ardor! tão cegos tendes
Os olhos de mirar a própria sombra,
Que dir-se-á, vendo a força, as energias
Da vossa vida toda, acumuladas

Sobre um s√≥ ponto, e a √Ęnsia, o ardente v√≥rtice,
Com que girais em torno de vós mesmos,
Que limitais a terra √† vossa sombra…
Ou que a sombra vos torna a terra toda!
Dir-se-√° que o oceano imenso e fundo e eterno,
Que Deus h√° dado aos homens, por que banhem
O corpo todo, e nadem à vontade,
E vaguem a sabor, com todo o rumo,
Com todo o norte e vento, v√£o e percam-se
De vista, no horizonte sem limites…
Dir-se-√° que o mar da vida √© gota d’√°gua
Escassa, que nas mãos vos há caído,
De avara nuvem que fugiu, largando-a…
Tamanho é o ódio com que a uns e a outros
A disputais,

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N√£o faz parte da minha cultura guardar notas. Nunca ouvi falar de um escritor que preservasse os seus primeiros rascunhos.

Educação para a Independência do Pensamento

N√£o basta preparar o homem para o dom√≠nio de uma especialidade qualquer. Passar√° a ser ent√£o uma esp√©cie de m√°quina utiliz√°vel, mas n√£o uma personalidade perfeita. O que importa √© que venha a ter um sentido atento para o que for digno de esfor√ßo, e que for belo e moralmente bom. De contr√°rio, vir√° a parecer-se mais com um c√£o amestrado do que com um ser harmonicamente desenvolvido, pois s√≥ tem os conhecimentos da sua especializa√ß√£o. Deve aprender a compreender os motivos dos homens, as suas ilus√Ķes e as suas paix√Ķes, para tomar uma atitude perante cada um dos seus semelhantes e perante a comunidade.
Estes valores s√£o transmitidos √† jovem gera√ß√£o pelo contacto pessoal com os professores, e n√£o ‚ÄĒ ou pelos menos n√£o primordialmente ‚ÄĒ pelos livros de ensino. S√£o os professores, antes de mais nada, que desenvolvem e conservam a cultura. S√£o ainda esses valores que tenho em mente, quando recomendo, como algo de importante, as ¬ęhumanidades¬Ľ e n√£o o mero tecnicismo √°rido, no campo hist√≥rico e filos√≥fico.
A import√Ęncia dada ao sistema de competi√ß√£o e a especializa√ß√£o precoce, sob pretexto da utilidade imediata, √© o que mata o esp√≠rito de que depende toda a actividade cultural e at√© mesmo o pr√≥prio florescimento das ci√™ncias de especializa√ß√£o.

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As Vozes Da Natureza

As vozes que nos vêm da natureza
Traduzem sempre um m√ļtuo sentimento.
Cantam as frondes pela voz do vento,
Pelo manancial canta a represa.

Pelas estrelas canta o firmamento
Nas suas grandes noites de beleza.
Cada nota a outra nota vive presa,
√Č um pensamento de outro pensamento.

Pelas folhas murmura a voz da estrada,
Pelos salgueiros canta a √°gua parada
E o amigo sol, apenas se levanta,

Jogando o manto de ouro ao céu deserto,
Chama as cigarras todas para perto,
Que é na voz das cigarras que ele canta.

Minhas notas na escola variaram de abaixo da média a abaixo de zero. Fui reprovado no exame de Metafísica. O professor me acusou de estar olhando para a alma do rapaz sentado ao meu lado.

Correspondências

A natureza é um templo augusto, singular,
Que a gente ouve exprimir em língua misteriosa;
Um bosque simbolista onde a √°rvore frondosa
Vê passar os mortais, e segue-os com o olhar.

Como distintos sons que ao longe v√£o perder-se,
Formando uma só voz, de uma rara unidade,
Tem vasta como a noite a claridade,
Sons, perfumes e cor logram corresponder-se

H√° perfumes subtis de carnes virginais,
Doces como o oboé, verdes como o alecrim,
E outros, de corrupção, ricos e triunfais

Como o √Ęmbar e o musgo, o incenso e o benjoim,
Entoando o louvor dos arroubos ideais,
Com a larga expans√£o das notas d’um clarim.

Tradução de Delfim Guimarães

Ontem, matou-se um doente, enforcando-se. Escrevi nas minhas notas: suicidou-se no pavilh√£o um doente. O dia est√° lindo. Se voltar a terceira vez aqui, farei o mesmo. Queira Deus que seja o dia t√£o belo como o de hoje.