Passagens sobre Verso

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Frases sobre verso, poemas sobre verso e outras passagens sobre verso para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Soneto Com Estrambote Enviesado

Alfaiate de mim costuro a roupa
que cabe ao figurino que me coube.

Só meu verso protege essa amargura
desfiada de dia ao sol veloz,
para à noite tecer nova textura,
novelo de silêncio ao rés da voz.

Enxoval construído nessa usura
solitária de andaimes, num retrós
de linha vertical, que se pendura
na pênsil teia atada, fio em foz

desse rio agulha que me costura
ao rendilhado de √°guas tropicais,
que sabe de saudades no meu cais.

Viageiro de uma sanha que me traz
sempre de volta ao tear do meu destino
na seda depressiva me assassino.

Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as m√£os e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manh√£s proibidas
quando as nossas m√£os surgiam por detr√°s de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de p√°ssaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Vida Toda Linguagem

Vida toda linguagem,
frase perfeita sempre, talvez verso,
geralmente sem qualquer adjectivo,
coluna sem ornamento, geralmente partida.

Vida toda linguagem,
h√° entretanto um verbo, um verbo sempre, e um nome
aqui, ali, assegurando a perfeição
eterna do período, talvez verso,
talvez interjectivo, verso, verso.
Vida toda linguagem,
feto sugando em língua compassiva
o sangue que crian√ßa espalhar√° ‚ÄĒ oh met√°fora activa!
leite jorrado em fonte adolescente,
sémen de homens maduros, verbo, verbo.
Vida toda linguagem,
bem o conhecem velhos que repetem,
contra negras janelas, cintilantes imagens
que lhes estrelam turvas trajectórias.
Vida toda linguagem ‚ÄĒ
como todos sabemos
conjugar esses verbos, nomear
esses nomes:
amar, fazer, destruir,
homem, mulher e besta, diabo e anjo
e deus talvez, e nada.
Vida toda linguagem,
vida sempre perfeita,
imperfeitos somente os voc√°bulos mortos
com que um homem jovem, nos terraços do inverno, contra
[a chuva,
tenta faz√™-la eterna ‚ÄĒ como se lhe faltasse
outra, imortal sintaxe
à vida que é perfeita
língua
eterna.

O autor aos seus versos

Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela m√£o da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, n√£o busqueis, desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da s√°tira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz e tirania:

Desculpa tendes, se valeis t√£o pouco,
Que n√£o pode cantar com melodia
Um peito de gemer cansado e rouco.

A posteridade é um colegial condenado a decorar cem versos. Chega a aprender dez de cor, balbucia algumas sílabas do resto: os dez, são a glória; o resto, a história literária.

M√£ezinha

Andam em mim fantasmas, sombras, ais…
Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora;
Névoas de dantes, dum longínquo outrora;
Castelos d’oiro em mundos irreais…

Gotas d’√°gua tombando… Roseirais
A desfolhar-se em mim como quem chora…
‚ÄĒ E um ano vale um dia ou uma hora,
Se tu me vais fugindo mais e mais!…

√ď meu Amor, meu seio √© como um ber√ßo
Ondula brandamente… Brandamente…
Num ritmo escultural d’onda ou de verso!

No mundo quem te v√™?! Ele √© enorme!…
Amor, sou tua m√£e! V√°… docemente
Poisa a cabe√ßa… fecha os olhos… dorme…

Vou tentar ser bom marido, cumpridor. Mas quero que saibas, enquanto √© tempo, que em todas as circunst√Ęncias te troco por um verso.

O destino quis que a gente se achasse, na mesma estrofe e na mesma classe, no mesmo verso e na mesma frase.

Versos de Orgulho

O mundo quer-me mal porque ninguém
Tem asas como eu tenho! Porque Deus
Me fez nascer Princesa entre plebeus
Numa torre de orgulho e de desdém!

Porque o meu Reino fica para Além!
Porque trago no olhar os vastos céus,
E os oiros e os clar√Ķes s√£o todos meus!
Porque Eu sou Eu e porque Eu sou Alguém!

O mundo! O que é o mundo, ó meu amor?!
O jardim dos meus versos todo em flor,
A seara dos teus beijos, p√£o bendito,

Meus √™xtases, meus sonhos, meus cansa√ßos…
São os teus braços dentro dos meus braços:
Via L√°ctea fechando o Infinito!…

Magnólia Dos Trópicos

A Ara√ļjo Figueredo

Com as rosas e o luar, os sonhos e as neblinas,
√ď magn√≥lia de luz, cotovia dos mares,
Formaram-te talvez os brancos nen√ļfares
Da tua carne ideal, de corre√ß√Ķes felinas.

O teu colo pag√£o de virgens curvas finas
√Č o mais imaculado e fl√≥reo dos altares,
Donde eu vejo elevar-se eternamente aos ares
Vi√°ticos de amor e preces diamantinas.

Abre, pois, para mim os teus braços de seda
E do verso através a límpida alameda
Onde h√° frescura e sombra e sol e murmurejo;

Vem! com a asa de um beijo a boca palpitando,
No alvoroço febril de um pássaro cantando,
Vem dar-me a extrema-unção do teu amor num beijo.

Ode ao Destino

Destino: desisti, regresso, aqui me tens.

Em vão tentei quebrar o círculo mágico
das tuas coincidências, dos teus sinais, das ameaças,
do recolher felino das tuas unhas retracteis
Рah então, no silêncio tranquilo, eu me encolhia ansioso
esperando já sentir o próximo golpe inesperado.

Em v√£o tentei n√£o conhecer-te, n√£o notar
como tudo se ordenava, como as pessoas e as coisas chegavam
que eu, de soslaio, e disfarçando, observava                               [em bandos,
pura conter as palavras, as minhas e as dos outros,
para dominar a tempo um gesto de amizade inoportuna.

Eu sabia, sabia, e procurei esconder-te,
afogar-te em sistemas, em esperanças, em audácias;
descendo à fé só em mim próprio, até busquei
sentir-te imenso, exacto, magn√Ęnimo,
√ļnico mist√©rio de um mundo cujo mist√©rio eras tu.

Lei universal que a sem-razão constrói,
de um Deus ínvio caminho, capricho dos Deuses,
soberana essência do real anterior a tudo,
Providência, Acaso, falta de vontade minha,
superstição, metafísica barata, medo infantil, loucura,
complexos variados mais ou menos freudianos,
contradição ridícula não superada pelo menino burguês,
educação falhada,

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Deste Modo ou daquele Modo

Deste modo ou daquele modo.
Conforme calha ou n√£o calha.
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever n√£o fosse uma cousa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.
Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à idéia
E n√£o precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras
Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a
nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me
ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minhas emo√ß√Ķes verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, n√£o Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.
E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer
como um homem,
Mas como quem sente a Natureza,

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Sonetos

Do som, da luz entre os joviais duetos,
Como uma chusma alada de gaivotas,
Vindos das largas amplid√Ķes remotas,
Batem as asas todos os sonetos.

V√£o — por estradas, por dif√≠ceis rotas,
Quatorze versos — entre dois quartetos
E duas belas e luzidas frotas
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

Com a brunida l√Ęmina da lima,
Vão céus radiosos, horizontes acima,
Pelas paragens límpidas, gentis,

Atravessando o campo das quimeras,
Aberto ao sol das flóreas primaveras,
Todo estrelado de √°ureos colibris.

Nossa Língua

para o poeta Antoniel Campos*

O doce som de mel que sai da boca
na l√≠ngua da saudade e do crep√ļsculo
vem adoçando o mar de conchas ocas
em mansa voz domando tons mai√ļsculos.

√Č bela fiandeira em sua roca
tecendo a fala forte com seu m√ļsculo
na hora que é preciso sai da toca
como fera que sabe o tomo e o op√ļsculo.

Dizer e maldizer do mel ao fel
é fado de cantigas tão antigas
desde Cam√Ķes, Bandeira a Antoniel,
este jovem poeta que se abriga

na língua portuguesa em verso e fala
nau de calado ao mar que n√£o se cala.

* “filiu brasilis, mater portucale,
Que em outra l√≠ngua a minha l√≠ngua cale.”

A uma Bailarina

Quero escrever meu verso no momento
Em que o limite extremo da ribalta
Silencia teus pés, e um deus se exalta
Como se o corpo fosse um pensamento.

Além do palco, existe o pavimento
Que nunca imaginamos em voz alta,
Onde teu passo puro sobressalta
Os p√°ssaros sutis do movimento.

Amo-te de um amor que tudo pede
No sensual momento em que se explica
O desejo infinito da tristeza,

Sem que jamais se explique ou desenrede,
Mariposa que pousa mas n√£o fica,
A tentação alegre da pureza.

XI

Todos esses louvores, bem o viste,
N√£o conseguiram demudar-me o aspecto:
Só me turbou esse louvor discreto
Que no volver dos olhos traduziste…

Inda bem que entendeste o meu afeto
E, através destas rimas, pressentiste
Meu coração que palpitava, triste,
E o mal que havia dentro em mim secreto.

Ai de mim, se de l√°grimas in√ļteis
Estes versos banhasse, ambicionando
Das n√©scias turbas os aplausos f√ļteis!

Dou-me por pago, se um olhar lhes deres:
Fi-los pensando em ti, fi-los pensando
Na mais pura de todas as mulheres.

P√°ssaros

Eu n√£o sei o nome destes p√°ssaros que viajam alto.
Anjos? Não. Ouve-se-lhes bater o coração.

Os nazis distribuíam sopa aos pobres
(vejo na TV como quem diz ¬ęnem tudo foi mau¬Ľ).
Revejo-me numa foto de 70
dando sopa aos pobres de Cangombe. – ¬ęTu √©s nazi,
pergunto?¬Ľ

N√£o te compete a ti explicares-te, rapaz
sobretudo quando escreves versos
e pensas que em qualquer caso vale sempre a pena
adiar um pouco mais a morte.
E nem nunca mesmo ninguém explicou se um império que morre
morre de imortalidade ou de morte natural.

Tranquiliza-te: a besta que és
tu a suportas cada vez menos. Isso é bom, tão sério sendo?

Pareceu-me e parece-me que o mais tosco verso de um livre √† mem√≥ria de um her√≥i [Tiradentes] esmaga o mais brilhante poema que se atira aos p√©s de um rei…

Preso Político

1

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite s√£o iguais por dentro.
N√£o h√° papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros t√£o tranquila;
t√£o tranquila que j√° nem desespera
de ser apenas voz, n√£o uma guerra.

Quiseram p√īr-me inteiro numa ficha.
N√£o h√° papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta m√£o estendida
por sobre os muros só de medo e pedra.

2

Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que far√°s da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças.

Quero mais fazimento que promessas.
S√£o de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças.

1966