Passagens sobre Gente

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Frases sobre gente, poemas sobre gente e outras passagens sobre gente para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.

O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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Tudo é Belo

Tudo é belo
Mulher e por exemplo uma √°gua quando a gente bebe
ou uma √°gua que a gente joga na cara
e fica deixando a frieza vir penetrando na pele;
a √°gua que escorre da bica e cai no monjolo e o monjolo toca;
a água de um poço na mata.
A água quando a gente bebe é por exemplo como um beijo.

Mulher e por exemplo café, ou estrada quando o trem-de-ferro
atravessa um rio;
um rio que banha terras verdes, longe.

Tudo é belo.
√Ārvore de cedro e por exemplo um homem que est√°
preso injustamente, um homem que tem esperança
e que é mais forte que os risos e sevícias,
quando tentam matar nele a esperança…

Tudo é belo.
A cabeça fatigada de um homem.
As pernas solit√°rias. As m√£os solid√°rias.
O peito largo como um tronco de √°rvore secular.

Tudo é belo.
Mulher e por exemplo, as can√ß√Ķes.
O caminho do nascimento à morte de um homem.

Eu escrevo sem esperan√ßa de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. N√£o altera em nada… Porque no fundo a gente n√£o est√° querendo alterar as coisas. A gente est√° querendo desabrochar de um modo ou de outro…

O Segredo do Mar

A ‚ÄúFlor do Mar‚ÄĚ avan√ßando
Navegava, navegava,
L√° para onde se via
O vulto que ela buscava.

Era t√£o grande, t√£o grande
Que a vista toda tapava.

E Bartolomeu erguido
Aos marinheiros bradava
Que ninguém tivesse medo
Do gigante que ali estava.

E mais perto agora est√£o
Do que procurando v√£o!

Bartolomeu que viu?
Que descobriu o valente?
– Que o gigante era um penedo
que tinha forma de gente?

Que era dantes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir.
Agora o mar é livre e é seguro
E foi um português que o foi abrir.

VI

Brandas ribeiras, quanto estou contente
De ver nos outra vez, se isto é verdade!
Quanto me alegra ouvir a suavidade,
Com que Fílis entoa a voz cadente!

Os rebanhos, o gado, o campo, a gente,
Tudo me est√° causando novidade:
Oh como é certo, que a cruel saudade
Faz tudo, do que foi, mui diferente!

Recebei (eu vos peco) um desgraçado,
Que andou té agora por incerto giro
Correndo sempre atr√°s do seu cuidado:

Este pranto, estes ais, com que respiro,
Podendo comover o vosso agrado,
Façam digno de vós o meu suspiro.

A Conversa Nunca é Imparcial

√Č espantoso qu√£o f√°cil e rapidamente a homogeneidade ou a heterogeneidade de esp√≠rito e de √Ęnimo entre os homens se faz manifesta na conversa√ß√£o: ela torna-se sens√≠vel √† menor situa√ß√£o. Entre duas pessoas de natureza substancialmente heterog√©nea, que conversam sobre os assuntos mais estranhos e indiferentes, cada frase de uma desagradar√° mais ou menos √† outra, em muitos casos irritar√°. Naturezas homog√©neas, pelo contr√°rio, sentem de imediato, em tudo, uma certa concord√Ęncia, que, tratando-se de grande homogeneidade, logo converge para a harmonia perfeita, para o un√≠ssono.
A partir disso, explica-se, em primeiro lugar, porque os tipos ordin√°rios s√£o t√£o soci√°veis e em qualquer lugar encontram boa companhia com tanta facilidade – gente estimada, am√°vel e honesta. Com os indiv√≠duos incomuns acontece o contr√°rio, e tanto mais quanto mais distintos forem, de tal maneira que, de tempos em tempos, no seu isolamento, podem alegrar-se por terem descoberto em algu√©m, uma fibra, por menor que seja, homog√©nea √† sua! De facto, cada um s√≥ pode ser para outrem o que este √© para ele. Esp√≠ritos verdadeiramente eminentes fazem o seu ninho nas alturas, como as √°guias, solit√°rios. Em segundo lugar, isso explica por que os indiv√≠duos de disposi√ß√£o igual se re√ļnem de imediato,

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Irm√£o

Eu não fiz uma revolução.
Mas me fiz irm√£o de todas as revolu√ß√Ķes.
Eu fiquei irm√£o de muitas coisas no mundo.
Irm√£o de uma certa camisa.
Uma certa camisa que era de um gesto de céu
e com certo carinho me vestia, como se me
vestisse de √°rvore e de nuvens.
Eu fiquei irm√£o de uma vaca, como se ela
também sonhasse. Fiquei irmão de um vira-lata
com o brio com que ele também me abraçava.
Fiquei irmão de um riacho, que é nome
de rio pequeno, um pequeno que cabe
todo dentro de mim, me falando,
me beijando, me lambendo, me lembrando.
Brincava e me envolvia, certos dias eu
girava em torno do redemoinho do cachorro
e do riacho e da vaca, sem às vezes saber
se estava beijando o riacho, o cachorro
ou a vaca, com um grande céu
me entornando, com um grande céu
com a vaca no lombo e com o c√£o,
com o riacho rindo de nós todos.
Eu fiquei irm√£o de livros, de gentes.
Eu fiquei irm√£o de uma certa montanha.

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Torniquete

A t√īmbola anda depressa,
Nem sei quando ir√° parar –
Aonde, pouco me importa;
O importante √© que pare…
– A minha vida n√£o cessa
De ser sempre a mesma porta
Eternamente a abanar…

Abriu-se agora o sal√£o
Onde h√° gente a conversar.
Entrei sem hesita√ß√£o –
Somente o que se vai dar?
A meio da reuni√£o,
Pela certa disparato,
Volvo a mim a todo o pano:

Às cambalhotas desato,
E salto sobre o piano…
РVai ser bonita a função!
Esfrangalho as partituras,
Quebro toda a caqueirada,
Arrebento à gargalhada,
E fujo pelo sagu√£o…

Meses depois, as gazetas
Darão críticas completas,
Indecentes e patetas,
Da minha √ļltima obra…
E eu Рprà cama outra vez,
Curtindo febre e revés,
Tocado de Estrela e Cobra…

A Independência da Solidão

O que me importa unicamente √© o que tenho de fazer, n√£o o que pensam os outros. Esta regra, igualmente √°rdua na vida imediata como na intelectual, pode servir para a distin√ß√£o total entre a grandeza e a baixeza. E √© tanto mais dura quanto sempre se encontrar√£o pessoas que acreditam saber melhor do que tu qual √© o teu dever. √Č f√°cil viver no mundo de conformidade com a opini√£o das gentes; √© f√°cil viver de acordo consigo pr√≥prio na solid√£o; mas o grande homem √© aquele que, no meio da turba, mant√©m, com perfeita serenidade, a independ√™ncia da solid√£o.

S√≥ em tais extremos √© que nos apercebemos de como toda a gente est√° perdida em si pr√≥pria para l√° da esperan√ßa da salva√ß√£o, e a √ļnica consola√ß√£o √© ver outras pessoas e a lei que as governa a elas e a tudo.

(dream)

Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
√Č at√© onde, por fim mal, trope√ßo
No que de mim em mim de si se esquece.

Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.

Mas, vinda dos vest√≠gios da dist√Ęncia
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou √Ęnsia.

Remiu-se o pecador impenitente
√Ä sombra e cisma. Teve a eterna inf√Ęncia,
Em que comigo forma um mesmo ente.

A Vida

√ď grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
√ď olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
√ď olhos negros como noites, como po√ßos!
√ď fontes de luar, n’um corpo todo ossos!
√ď puros como o c√©u! √≥ tristes como levas
De degredados!

√ď Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
√ď velas do perd√£o! candeias da desgra√ßa!
√ď grandes olhos outomnaes, cheios de Gra√ßa!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
√ď carv√Ķes que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
√ď pharolim da barra a guiar os navegantes!
√ď pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que v√£o na diligencia pela serra!
√ď Extrema-Unc√ß√£o final dos que se v√£o da Terra!
√ď janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d’Agosto!
Luas d’Estio! Luas negras de velludo!
√ď luas negras,

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Muita gente fala como os papagaios e obra como os macacos: só repetem o que ouviram e só fazem o que viram fazer.

O Amor a Dois

O amor a dois só funciona se as individualidades se amarem a elas próprias em primeiro lugar.

E quem pensar o contrário ou é infeliz ou tem os dias contados para ser solteiro outra vez.

Existem três tipos de relacionamento a dois:

1 – Cada um dos dois vive primeiro para o outro e s√≥ depois para si mesmo, ou seja, o que interessa s√£o as vontades do parceiro e nunca as suas, o que torna as coisas esquisitas, pois nenhum vive a sua verdade nem se respeita em momento algum, porque vivem ambos com medo de se perder. Deve ser enfadonho e, muitas vezes, confuso. √Č do g√©nero, eu quero uma coisa que n√£o vou ter para dar ao outro, no entanto vou receber algo parecido com aquilo que queria mas n√£o √© bem a mesma coisa, o que √© normal, pois mais ningu√©m al√©m de n√≥s sabe o que nos sabe melhor e quando nos sabe bem.

2 – As duas pessoas vivem em fun√ß√£o da mesma. Pior ainda. √Č que se no exemplo acima ainda existe alguma energia, embora desfasada, a ser trocada de um para o outro, aqui nem isso.

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Hino à Dor

Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus l√°bios beberam;
√Č mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as l√°grimas correram.

Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso cora√ß√£o nunca pode chegar…
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de √°gua,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
√Č frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta express√£o… mesmo a Suprema Gra√ßa,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspiração que passa.

√Č por isso que a Dor, sem tr√©gua nem guarida,

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