Passagens sobre Opostos

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A Natureza do Homem

A natureza est√° muitas vezes escondida, algumas vezes vencida, raramente extinta. A for√ßa torna a natureza mais violenta na reac√ß√£o; a doutrina e o discurso fazem a natureza menos exigente; mas s√≥ o h√°bito altera e subjuga a natureza. Aquele que deseja vencer a sua natureza, n√£o tente dar a si pr√≥prio tarefas muito grandes ou muito pequenas; porque as primeiras podem desanim√°-lo com frequentes frustra√ß√Ķes, e as segundas dar-lhe-√£o insignificantes progressos, apesar de serem bem sucedidas. No princ√≠pio, ir√° praticando com auxiliares, como os nadadores se socorrem de b√≥ias e coletes; mas, ao fim de algum tempo, dever√° realizar o treino entre dificuldades, como os dan√ßarinos fazem com os socos. Isto porque resulta sempre maior perfei√ß√£o quando o exerc√≠cio √© mais √°rduo do que a pr√°tica.
(…) N√£o √© m√° a antiga regra que mandava curvar a natureza at√© ao extremo oposto, para que ela se rectificasse; subentendendo-se, por√©m, que o extremo oposto n√£o seja o v√≠cio. O homem n√£o se deve for√ßar a um h√°bito com cont√≠nua persist√™ncia, mas com alguma interrup√ß√£o; porque a pausa refor√ßa a nova investida; e se o homem que n√£o √© perfeito estiver sempre a exercitar-se, ser√° t√£o perito nos seus erros como nas suas virtudes,

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Qualquer tolo inteligente consegue fazer coisas maiores e mais complexas. √Č necess√°rio um toque de g√™nio e muita coragem para ir na dire√ß√£o oposta.

O Terror como Base da Religi√£o

√Č verdade que tanto o medo como a esperan√ßa entram na religi√£o, porque estas duas paix√Ķes, em alturas diferentes, agitam a mente humana e cada uma delas forma uma esp√©cie de divindade que lhe √© adequada. Mas, quando um homem se sente bem, ele est√° inclinado para os neg√≥cios, para o conv√≠vio ou para qualquer esp√©cie de divertimento, e dedica-se naturalmente a essas actividades e n√£o pensa em religi√£o. Quando est√° melanc√≥lico e abatido, tudo o que para fazer √© meditar sobre os terrores do mundo invis√≠vel, e mergulhar mais profundamente ainda na afli√ß√£o. Pode realmente acontecer que, ap√≥s ter assim gravado profundamente as opini√Ķes religiosas no seu pensamento e imagina√ß√£o, ocorra uma altera√ß√£o da sa√ļde ou das circunst√Ęncias que restaure o seu bom humor e, ocasionando boas perspectivas de futuro, o fa√ßa cair no extremo oposto da alegria e triunfo. Mas, ainda assim deve reconhecer-se que, como o terror √© o princ√≠pio primordial da religi√£o, √© essa a paix√£o que predomina nela e que s√≥ admite pequenos intervalos de prazer.

Esta obra √©, na ess√™ncia, uma cr√≠tica √† modernidade ‚Äď n√£o exclu√≠das as ci√™ncias modernas, as artes modernas, e at√© a pol√≠tica moderna -, dando tamb√©m indica√ß√Ķes acerca de um tipo oposto, bem mais que moderno, um tipo nobre, afirmativo.

Mostrar espírito e entendimento é uma maneira indirecta de repreender nos outros a sua incapacidade e estupidez. Ademais, o indivíduo comum revolta-se ao avistar o seu oposto, sendo a inveja o seu instigador secreto.

Todos esses meses de autocontrole, de recusa do amor, resultaram exatamente no oposto: deixar-me levar pela primeira pessoa que me deu uma atenção diferente.

Invocação à Noite

√ď deusa, que proteges dos amantes
O destro furto, o crime deleitoso,
Abafa com teu manto pavoroso
Os importantes astros vigilantes:

Quero adoçar meus lábios anelantes
No seio de Rit√°lia melindroso;
Estorva que os maus olhos do invejoso
Turbem d’amor os s√īfregos instantes:

Tétis formosa, tal encanto inspire
Ao namorado Sol teu níveo rosto,
Que nunca de teus braços se retire!

Tarda ao menos o carro à Noite oposto,
Até que eu desfaleça, até que expire
Nas ternas √Ęnsias, no inef√°vel gosto.

Confundimos os nossos segredos com a nossa identidade, confundimos as nossas fraquezas connosco próprios e, sem que ninguém saiba, sem que ninguém possa saber ou ajudar-nos, transformamo-nos efectivamente nos nossos segredos e nas nossas fraquezas. A verdade existe no oposto desse medo. Quanto mais damos, mais nos permitimos ser. Quanto mais damos, mais somos.

Os Povos Felizes não têm História

‘Os povos felizes n√£o t√™m hist√≥ria’. De onde se infere que a supress√£o da hist√≥ria tornaria os povos mais felizes. O menor olhar sobre os acontecimentos deste mundo reencontra essa mesma conclus√£o. O esquecimento √© o benef√≠cio que a hist√≥ria quer corromper. Nada, na hist√≥ria, serve para ensinar aos homens a possibilidade de viverem em paz. √Č o ensino oposto que dela se destaca – e se faz acreditar.

A Diferença Entre o Génio e a Inteligência Normal

A diferen√ßa entre o g√©nio e a intelig√™ncia normal √©, na verdade, apenas quantitativa, na medida em que √© apenas uma diferen√ßa de grau: no entanto, as pessoas t√™m tend√™ncia para a considerar qualitativa, quando se observa como os homens normais, apesar da sua diversidade individual, pensam todos segundo certas linhas comuns, de modo que est√£o frequentemente em acordo un√Ęnime acerca de julgamentos que, na realidade, s√£o falsos. Isto chega ao ponto de terem certas opini√Ķes b√°sicas que s√£o mantidas em todas as eras e continuamente reiteradas, embora as grandes mentes de todas as eras tenham, aberta ou secretamente, oposto a essas opini√Ķes.

O Verdadeiro e o Falso

A primeira dilig√™ncia do esp√≠rito √© a de distinguir o que √© verdadeiro do que √© falso. No entanto, logo que o pensamento reflecte sobre si pr√≥prio, o que primeiro descobre √© uma contradi√ß√£o. Seria ocioso procurar, neste ponto, ser-se convincente. Ningu√©m, h√° s√©culos, deu uma demonstra√ß√£o mais clara e mais elegante do caso do que Arist√≥teles: “A consequ√™ncia, muitas vezes ridicularizada, dessas opini√Ķes √© que elas se destroem a si pr√≥prias”.

Porque, se afirmarmos que tudo √© verdadeiro afirmamos a verdade da afirma√ß√£o oposta, e, em consequ√™ncia, a falsidade da nossa pr√≥pria tese (porque a afirma√ß√£o oposta n√£o admite que ela possa ser verdadeira). E, se dissermos que tudo √© falso, essa afirma√ß√£o tamb√©m √© falsa. Se declararmos que s√≥ √© falsa a afirma√ß√£o oposta √† nossa, ou ent√£o que s√≥ a nossa e que n√£o √© falsa, somos, todavia, obrigados a admitir um n√ļmero infinito de ju√≠zos verdadeiros ou falsos.

Porque aquele que anuncia uma afirmação verdadeira, pronuncia ao mesmo tempo o juízo de que ela é verdadeira, e assim sucessivamente, até ao infinito.

O Significado do Amor

Eu pensava que conhecia o significado do amor. O amor é o sangue do sol dentro do sol. A inocência repetida mil vezes na vontade sincera de desejar que o céu compreenda. Levantam-se tempestades frágeis e delicadas na respiração vegetal do amor. Como uma planta a crescer da terra. O amor é a luz do sol a beber a voz doce dessa planta. Algo dentro de qualquer coisa profunda.

O amor √© o sentido de todas as palavras imposs√≠veis. Atravessar o interior de uma montanha. Correr pelas horas originais do mundo. O amor √© a paz fresca e a combust√£o de um inc√™ndio dentro, dentro, dentro, dentro, dentro dos dias. Em cada instante de manh√£, o c√©u a deslizar como um rio. A tarde, o sol como uma certeza. O amor √© feito de claridade e da seiva das rochas. O amor √© feito de mar, de ondas na dist√Ęncia do oceano e de areia eterna. O amor √© feito de tantas coisas opostas e verdadeiras. Nascem lugares para o amor e, nesses jardins et√©reos, a salva√ß√£o √© uma brisa que cai sobre o rosto suavemente.

Eu acreditava mesmo que o amor é o sangue do sol dentro do sol.

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A Ligação das Ideias

√Č a liga√ß√£o das ideias que sustenta todo o edif√≠cio do entendimento humano. Sem ela, o prazer e a dor seriam sentimentos isolados, sem efeito, t√£o cedo esquecidos quanto sentidos. Os homens sem ideias gerais e princ√≠pios universais, isto √©, os homens ignorantes e embrutecidos, n√£o agem sen√£o segundo as ideias mais vizinhas e mais imediatamente unidas. Negligenciam as rela√ß√Ķes distantes, e essas ideias complicadas, que s√≥ se apresentam ao homem fortemente apaixonado por um objecto, ou aos esp√≠ritos esclarecidos. A luz da aten√ß√£o dissipa no homem apaixonado as trevas que cercam o vulgar. O homem instru√≠do, acostumado a percorrer e a comparar rapidamente um grande n√ļmero de ideias e de sentimentos opostos, tira do contraste um resultado que constitui a base da sua conduta, desde ent√£o menos incerta e menos perigosa.

Hoje fala-se com disfarces e com palidez e as ac√ß√Ķes s√£o o oposto das palavras e a sociedade √© t√£o corrompida, que pais e maridos ofendidos passeiam de bra√ßo dado com os her√≥is de sala.

O Cortejo Ingénuo dos Nossos Sonhos

N√£o desenhamos uma imagem ilus√≥ria de n√≥s pr√≥prios, mas in√ļmeras imagens, das quais muitas s√£o apenas esbo√ßos, e que o esp√≠rito repele com embara√ßo, mesmo quando porventura haja colaborado, ele pr√≥prio, na sua forma√ß√£o. Qualquer livro, qualquer conversa podem faz√™-las surgir; renovadas por cada paix√£o nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos √ļltimos desgostos. S√£o, contudo, bastante fortes para deixarem, em n√≥s, lembran√ßas secretas que crescem at√© formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consci√™ncia que temos de n√≥s mesmos t√£o velada, t√£o oposta a toda a raz√£o, que o pr√≥prio esfor√ßo do esp√≠rito para a captar a faz anular-se.
Nada de definido, nem que nos permita definir-nos; uma esp√©cie de pot√™ncia latente… como se houvesse apenas faltado a ocasi√£o para cumprirmos no mundo real os gestos dos nossos sonhos, conservamos a impress√£o confusa, n√£o de os ter realizado, mas de termos sido capazes de os realizar. Sentimos esta pot√™ncia em n√≥s como o atleta conhece a sua for√ßa sem pensar nela. Actores miser√°veis que j√° n√£o querem deixar os seus pap√©is gloriosos, somos, para n√≥s mesmos, seres nos quais dorme, amalgamado, o cortejo ing√©nuo das possibilidades das nossas ac√ß√Ķes e dos nossos sonhos.

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O Equilibrio das Virtudes

O que pode a virtude de um homem não deve medir-se nos momentos de esforço, mas na vida de todos os dias.
N√£o admiro o excesso de uma virtude, como a coragem, se n√£o vir ao mesmo tempo o excesso da virtude oposta, como em Epaminondas, que tinha a extrema coragem e a extrema benignidade. Pois de outro modo n√£o √© subir, √© cair. A grandeza n√£o consiste em estar num extremo, mas em tocar os dois ao mesmo tempo e em preencher todo o espa√ßo interm√©dio. Mas talvez ela seja apenas um s√ļbito movimento de alma de um extremo ao outro, talvez nunca esteja em mais que um ponto, como o ti√ß√£o de fogo? Seja; mas pelo menos isso indica a agilidade da alma, se n√£o a sua extens√£o.

A Arte da Recordação

A mem√≥ria √© n√£o-mediada, e o que vem em seu aux√≠lio vem directamente; a recorda√ß√£o √© sempre reflectida. √Č por isso que recordar √© uma arte. Como Tem√≠stocles, em vez de lembrar, desejo poder esquecer; por√©m, recordar e esquecer n√£o s√£o opostos. N√£o √© f√°cil a arte de recordar, porque a recorda√ß√£o, no momento em que √© preparada, pode modificar-se, enquanto a mem√≥ria se limita a flutuar entre a lembran√ßa certa e a lembran√ßa errada. Por exemplo, o que √© a saudade? √Č vir √† recorda√ß√£o algo que est√° na mem√≥ria. A saudade gera-se simplesmente pelo facto de se estar ausente. Arte seria conseguir sentir-se saudade sem se estar ausente. Para tanto √© preciso estar-se treinado em mat√©ria de ilus√£o. Viver numa ilus√£o, em que o crep√ļsculo √© cont√≠nuo e nunca se faz dia, ou algu√©m ver-se reflectido numa ilus√£o, n√£o √© t√£o dif√≠cil como algu√©m reflectir-se para dentro de uma ilus√£o e ser capaz de deix√°-la agir sobre si, com todo o poder que √© o da ilus√£o, apesar de se ter pleno conhecimento disso. A magia de trazer at√© si o passado n√£o √© t√£o dif√≠cil como a de fazer desaparecer o que est√° presente em benef√≠cio da recorda√ß√£o.

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