Passagens sobre Carne

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Frases sobre carne, poemas sobre carne e outras passagens sobre carne para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
√Č por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

Vol√ļpia

Quisera te associar à pureza e à candura
quando pensasse em ti… Mas a emo√ß√£o, teimosa,
transforma sem querer toda a minha ternura
numa estranha lembran√ßa ardente voluptuosa…

Não poderei dizer apenas que és formosa
quando a própria beleza em ti se transfigura,
Рe pela tua carne há pétalas de rosa
e no teu corpo h√° um canto fresco de √°gua pura!

Um sincero pudor vislumbro em teus enleios,
mas se disser que te amo com pureza, eu minto,
– no olhar trago tatuada a vis√£o de teus seios…

E em vão tento associar-te ao céu, à fonte, à flor!
Quando falo de ti, penso em teu corpo, e sinto
que ainda estremece em mim teu √ļltimo estertor!

O cinema √© imaterial, o teatro √© material: os actores t√™m carne e osso, est√£o l√°, vivos, nos cen√°rios. Mas o cinema, n√£o ‚Äď √© um fantasma da realidade.

A Vida

√ď grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
√ď olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d’Hamlet, das gangrenas do Senhor!
√ď olhos negros como noites, como po√ßos!
√ď fontes de luar, n’um corpo todo ossos!
√ď puros como o c√©u! √≥ tristes como levas
De degredados!

√ď Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
√ď velas do perd√£o! candeias da desgra√ßa!
√ď grandes olhos outomnaes, cheios de Gra√ßa!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
√ď carv√Ķes que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas…
√ď pharolim da barra a guiar os navegantes!
√ď pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que v√£o na diligencia pela serra!
√ď Extrema-Unc√ß√£o final dos que se v√£o da Terra!
√ď janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d’Agosto!
Luas d’Estio! Luas negras de velludo!
√ď luas negras,

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Campesinas VIII

Orgulho das raparigas,
Encanto ideal dos rapazes,
Acendes crenças vivazes
Com tuas belas cantigas.

No louro ondear das espigas,
Boca cheirosa a lilazes,
Carne em polpa de ananases
Lembras baladas antigas.

Tens uns tons enevoados
De castelos apagados
Nas eras medievais.

Falta-te o pajem na ameia
Dedilhando, a lua cheia,
O bandolim dos seus ais!

Evolução

Arde o corpo do sol, brotam feixes de luz:
O que é a luz?
Sol que morreu.

Dardeja a luz, dardeja e pulveriza a fraga:
Vai nesse pó, que há-de ser terra,
A luz extinta.

Gerou a terra a seara verde:
Hastes e folhas da seara verde
Comeram terra.

A seara é grada, o trigo é loiro:
Deu trigo loiro,
Morrendo ela.

O trigo é pão, é carne e é sangue:
Sangue vermelho, carne vermelha,
Trigo defunto.

Em carne e em sangue, eis o desejo:
Vive o desejo,
De carne morta.

Arde o desejo, eis o pecado:
Que s√£o pecados?
Desejos mortos.

Queima o pecado o pecador:
Nasceu a dor; findou na dor
Pecado e morte.

A alma branca, iluminada,
Transfigurada pela dor,
Essa não vai à sepultura
Porque é já Deus na criatura,
Porque é o Espírito, é o Amor.

Na vida v√£ da terra sepulcral
Só o amor é infinito e só ele é imortal.

Morreu a luz,

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Aperta-me para Sempre

O dia adormece-me debaixo dos olhos, e as tuas mãos são a pele que Deus escolheu para tocar o mundo; não existe nenhum lugar mais divino do que o teu beijo, e quando quero voar deito-me a teus pés.
Peço-te que não vás, que fiques apenas para eu ficar, que permaneças no teu lado da cama, e eu no meu, a sentirmos que o tempo corre, e podes até adormecer, podes ler a revista das mulheres das passadeiras vermelhas e os homens com os abdominais que ninguém tem, ou simplesmente olhar o tecto e pensar em ti; eu fico aqui, a olhar-te para saber que existo, a pensar no quanto te quero e no tamanho que tem o teu corpo dentro do meu. Saber que há a curva das tuas costas para encontrar a curva da vida, percorrer com os olhos o cair do teu suor, e perceber a eternidade possível.
A imortalidade é um orgasmo contigo.
Gemes até ao fim do mundo por dentro dos meus ouvidos, todo o meu corpo se vem quando estás a chegar, e a verdade do universo é a física exígua do espaço entre nós. Aperta-me para sempre até ao princípio dos ossos,

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A ilusão desconhece o Pai. A carne desconhece Deus. Somente o filho conhece o Pai. O corpo carnal não é filho do Pai.

Presídio

Nem todo o corpo √© carne… N√£o, nem todo
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco…?

E o ventre, inconsistente como o lodo?…
E o morno gradeamento dos teus braços?
N√£o, meu amor… Nem todo o corpo √© carne:
√© tamb√©m √°gua, terra, vento, fogo…

√Č sobretudo sombra √† despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Desce em Folhedos Tenros a Colina

Desce em folhedos tenros a colina:
Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quais a chama do furor declina…

Oh vem, de branco, do imo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua m√£o aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,
Refletir virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquiva.
Qu√£o delicada te osculou num dedo
Com um alj√īfar cor de rosa viva!…

Ligeira a saia… Doce brisa impele-a…
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!
Alma de silfo, carne de cam√©lia…

Plena Nudez

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pag√£s nuas no m√°rmore entalhadas;
N√£o essas produ√ß√Ķes que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as sali√™ncias destacadas…

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente t√ļnica atrav√©s:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus… toda nua, da cabe√ßa aos p√©s!

Aparência

Cismo, numa tarde, entre esta tarde e a mor-
te, a verdade que nasce na minha carne:

Vivemos de beleza, de silêncio e beleza.
Trilhamos uma estrada incerta e traiçoeira,
A estrada perfumada por um crime.

Que para nós toda certeza surge, frágil e efé-
mera, como o desenho de um dedo nos vi-
dros embaçados de uma janela durante o
mês inverno.

Se o vosso médico não acha bom que durmais, que useis vinho ou tal carne, não vos preocupeis: encontrar-vos-ei outro que não será da opinião dele.

Braços

Braços nervosos, brancas opulências,
Brumais brancuras, fulgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.

As fascinantes, mórbidas dormências
Dos teus abraços de letais flexuras,
Produzem sensa√ß√Ķes de agres torturas,
Dos desejos as mornas florescências.

Braços nervosos, tentadoras serpes
Que prendem, tetanizam como os herpes,
Dos del√≠rios na tr√™mula coorte…

Pompa de carnes tépidas e flóreas,
Bra√ßos de estranhas corre√ß√Ķes marm√≥reas,
Abertos para o Amor e para a Morte!

A Tempestade do Destino

Por vezes o destino √© como uma pequena tempestade de areia que n√£o p√°ra de mudar de direc√ß√£o. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atr√°s de ti. Voltas a mudar de direc√ß√£o, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encal√ßo. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma esp√©cie de dan√ßa maldita com a morte ao amanhecer. Porqu√™? Porque esta tempestade n√£o √© uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade √©s tu. Algo que est√° dentro de ti. Por isso, s√≥ te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para n√£o deixar entrar a areia e, passo a passo, atravess√°-la de uma ponta a outra. Aqui n√£o h√° lugar para o sol nem para a lua; a orienta√ß√£o e a no√ß√£o de tempo s√£o coisas que n√£o fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direc√ß√£o ao c√©u. √Č uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(…) E n√£o h√° maneira de escapar √† viol√™ncia da tempestade, a essa tempestade metaf√≠sica, simb√≥lica. N√£o te iludas: por mais metaf√≠sica e simb√≥lica que seja, rasgar-te-√° a carne como mil navalhas de barba.

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Para uma m√£e, o projeto de criar um menino √© o projeto mais satisfat√≥rio que ela pode esperar. Ela pode assist√≠-lo, enquanto uma crian√ßa, brincar com os jogos que ela n√£o era autorizada a brincar; ela pode investir nele suas ideias, aspira√ß√Ķes, ambi√ß√Ķes, e valores ‚ÄĒ ou tudo o que tenha sobrado delas; ela pode assistir ao seu filho, que veio da sua carne e cuja vida foi sustentada pelo seu trabalho e devo√ß√£o, personific√°-la no mundo. Ent√£o, enquanto o projeto de criar um menino √© repleto de ambival√™ncia e leva inevitavelmente √† amargura, ele √© o √ļnico projeto que permite a uma mulher ser ‚ÄĒ ser atrav√©s do seu filho, viver por meio do seu filho.

P√°ssaro Marinho

Manh√£ de maio, rosas pelo prado,
Gorjeios, pelas matas verdurosas
E a luz cantando o idílio de um noivado
Por entre as matas e por entre as rosas.

Uma toilette matinal que o alado
Corpo te enflora em graças vaporosas,
Mergulhas, como um p√°ssaro rosado,
Nas cristalinas √°guas murmurosas.

D√°s o bom dia ao Mar nesse mergulho
E das √°guas salgadas ao marulho
Sais, no esplendor dos límpidos espaços.

Trazes na carne um reflorir de vinhas,
Auroras, virgens m√ļsicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços!

Assistirmos ao sofrimento do nosso filho é estarmos em carne viva por dentro, é não termos pele, é um incêndio a arder no mundo inteiro, mesmo no mundo inteiro. E cada som do nosso filho a sofrer é silêncio em brasa, é a cabeça cheia de silêncio em brasa, o peito cheio, incandescente, o mundo inteiro em brasa.

O teatro é mais rico. Os actores estão lá, em carne e osso. No cinema, só está a personagem. O actor já não se encontra lá quando o filme é exibido. O cinema é complementar mas tem uma vantagem perdura no tempo. Se houvesse cinema no tempo áureo das tragédias gregas saberíamos como elas eram. Como não há, apenas calculamos como seriam.