Passagens sobre Regi√£o

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Frases sobre regi√£o, poemas sobre regi√£o e outras passagens sobre regi√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

XXVII

Apressa se a tocar o caminhante
O pouso, que lhe marca a luz do dia;
E da sua esperança se confia,
Que chegue a entrar no porto o navegante;

Nem aquele sem termo passa avante
Na longa, duvidosa e incerta via;
Nem este atravessando a regi√£o fria
Vai levando sem rumo o curso errante:

Depois que um breve tempo houver passado,
Um se ver√° sobre a segura areia,
Chegará o outro ao sítio desejado:

Eu só, tendo de penas a alma cheia,
N√£o tenho, que esperar; que o meu cuidado
Faz, que gire sem norte a minha idéia.

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o ju√≠zo que eu formo do homem transcendente em g√©nio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento √© sempre um mau homem. Alguns conhe√ßo eu que o mundo proclama virtuosos e s√°bios. Deix√°-los proclamar. O talento n√£o √© sabedoria. Sabedoria √© o trabalho incessante do esp√≠rito sobra a ci√™ncia. O talento √© a vibra√ß√£o convulsiva de esp√≠rito, a originalidade inventiva e rebelde √† autoridade, a viagem ext√°tica pelas regi√Ķes inc√≥gnitas da ideia. Agostinho, F√©nelon, Madame de Sta√ęl e Bentham s√£o sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron s√£o talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os servi√ßos prestados √† humanidade por esses homens, e ter√°s encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque √© mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa espl√™ndida ta√ßa de brilhantes e ouro porque √© que cont√©m o fel, que abrasa os l√°bios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores √† cabe√ßa de uma mulher, ainda mesmo refor√ßada por duas d√ļzias de cabe√ßas acad√©micas !

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Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

XCIX

Parece, ou eu me engano, que esta fonte
De repente o licor deixou turvado;
O céu, que estava limpo, e azulado,
Se vai escurecendo no horizonte:

Por que n√£o haja horror, que n√£o aponte
O agouro funestíssimo, e pesado,
Até de susto já não pasta o gado;
Nem uma voz se escuta em todo o monte.

Um raio de improviso na celeste
Região rebentou; um branco lírio
Da cor das violetas se reveste;

Será delírio! não, não é delírio.
Que √© isto, pastor meu? que an√ļncio √© este?
Morreu Nise (ai de mim!) tudo é martírio.

Amor e Eternidade

Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d’um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
N√£o p√īde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funer√°rias!
E o sol, ao descahir l√° no occidente,
Qu√£o bello lhes fulgura
Nas campas solit√°rias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murchar√£o flores…
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, n√£o perturbemos a ventura
Do cora√ß√£o, que jubiloso anceia…
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas n√£o receies o funesto corte…
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.

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O Bom Orador

Todo o pensador que se quiser tornar orador, todo o homem de espírito e de coração que se queira fazer eloquente e ser eloquente, comover as massas, dominar as assembléias, agitar os impérios, com a sua palavra, bastará que passe da região das idéias para o domínio dos lugares-comuns.

VII

Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez t√£o diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte est√° mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

√Ārvores aqui vi t√£o florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a regi√£o esta n√£o era:
Mas que venho a estranhar, se est√£o presentes
Meus males, com que tudo degenera!

Mors – Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fant√°sticas estradas,

Donde vem ele? Que regi√Ķes sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
N√£o sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de express√£o potente,
Formid√°vel, mas pl√°cido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!”
Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

O Amor Infinito

Da mulher o que nos comove e enleva √© a parte impoluta que ela tem do c√©u; √© a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, n√£o sabido dela, n√£o sabido de n√≥s. Ali h√° mensagem de outras regi√Ķes; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas l√°grimas, h√° um espirar para o alto, um ir-se o cora√ß√£o avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. N√≥s √© que n√£o sabemos nem podemos ver sen√£o o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas gra√ßas do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de s√ļbita embriaguez nos fazem crer que despimos o inv√≥lucro de barro e pairamos alados sobre a regi√£o das l√°grimas.

√Č Deus que n√£o quer ou somos n√≥s que n√£o podemos prorrogar a dura√ß√£o ao sonho? Se Deus, que mal faria √† sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai t√£o r√°pida aquela esta√ß√£o em que o homem √© bom porque ama, e √© caritativo e dadivoso porque tudo sobeja √† sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das inten√ß√Ķes? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgra√ßas estranhas?

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Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

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LX

Valha-te Deus, cansada fantasia!
Que mais queres de mim? que mais pretendes?
Se quando na esperança mais te acendes,
Se desengana mais tua porfia!

Vagando regi√Ķes de dia em dia,
Novas conquistas, e troféus empreendes:
Ah que conheces mal, que mal entendes,
Onde chega do fado a tirania!

Trata de acomodar-te ao movimento
Dessa roda vol√ļvel, e descansa
Sobre t√£o fatigado pensamento.

E se inda crês no rosto da esperança,
Examina por dentro o fingimento;
E verás tempestade o que é bonança.

J√° Foste Rico e Forte e Soberano

J√° foste rico e forte e soberano,
J√° deste leis a mundos e na√ß√Ķes,
Her√≥ico Portugal, que o gram Cam√Ķes
Cantou, como o n√£o p√īde um ser humano!

Zombando do furor do mar insano,
Os teus nautas, em fracos gale√Ķes,
Descobriram long√≠nquas regi√Ķes,
Perdidas na amplid√£o do vasto oceano.

Hoje vejo-te triste e abatido,
E quem sabe se choras, ou ent√£o,
Relembras com saudade o tempo ido?

Mas a queda fatal n√£o temas, n√£o.
Porque o teu povo, outrora t√£o temido,
Ainda tem ardor no coração.

A Moral é a Base da Sociedade

A moral é a base da sociedade; se tudo, porém, é matéria em nós, não há realmente vício nem virtude, e por consequência não há moral.
As nossas leis, sempre relativas e mut√°veis, n√£o podem servir de ponto de apoio √† moral, sempre absoluta e inalter√°vel; √© pois preciso que ela tenha origem numa regi√£o mais est√°vel que esta, e cau√ß√Ķes mais seguras que recompensas prec√°rias ou castigos passageiros. Alguns fil√≥sofos acreditaram que a religi√£o f√īra inventada para a sustentar, sem se avisarem de que tomavam o efeito pela causa. N√£o √© a religi√£o que deriva da moral, √© a moral que nasce da religi√£o, pois √© certo, como h√° pouco dissemos, que a moral n√£o pode ter a sua origem no homem physico, ou na simples mat√©ria; pois √© certo ainda, que, quando os homens perdem a ideia de Deus, se despenham em todos os crimes, a despeito das leis e dos verdugos.

Carnal E Místico

Pelas regi√Ķes tenu√≠ssimas da bruma
Vagam as Virgens e as Estrelas raras…
Como que o leve aroma das searas
Todo o horizonte em derredor perfume.

N’uma evapora√ß√£o de branca espuma
V√£o diluindo as perspectives claras…
Com brilhos crus e f√ļlgidos de tiaras
As Estrelas apagam-se uma a uma.

E então, na treva, em místicas dormências
Desfila, com sidéreas lactescências,
Das Virgens o son√Ęmbulo cortejo…

√ď Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
√ď intensas quimeras do Desejo…

O Selvagem

Eu n√£o amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
– Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N’um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regi√Ķes dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de p√īr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os c√£es ladram √† lua…

A Minha Religião é o Novo

A minha Religião é o Novo.
Este dia, por exemplo; o p√īr do Sol,
estas inven√ß√Ķes habituais: o Mar.
Ainda:
os cisnes a Ralhar com a √°gua. A Rapariga mais bonita que
ontem.
Deus como habitante √ļnico.
Todos somos estrangeiros a esta Regi√£o, cujo √ļnico habitante
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso
Frasco).
Dele também se podia dizer, como homenagem:
Hóspede discreto.
Ou mais pomposamente:
O Enorme Hóspede discreto.
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos l√°bios ou
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epit√°fio que
nunca chega, que nunca ser√° √ļtil, dizer dele:
em todo o lado é hóspede,
e em todo o lado é Discreto.

Logos

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim
E, o que √© mais, dentro de mim ‚ÄĒ que me rodeias
Com um nimbo de afectos e de idéias,
Que s√£o o meu princ√≠pio, meio e fim…

Que estranho ser és tu (se és ser) que assim
Me arrebatas contigo e me passeias
Em regi√Ķes inominadas, cheias
De encanto e de pavor… de n√£o e sim…

√Čs um reflexo apenas da minha alma,
E em vez de te encarar com fronte calma,
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te…

Falo-te, calas… calo, e vens atento…
√Čs um pai, um irm√£o, e √© um tormento
Ter-te a meu lado… √©s um tirano, e adoro-te!

Floripes

Fazes lembrar as mouras dos castelos,
As errantes vis√Ķes abandonadas
Que pelo alto das torres encantadas
Suspiravam de trêmulos anelos.

Traços ligeiros, tímidos, singelos
Acordam-te nas formas delicadas
Saudades mortas de regi√Ķes sagradas,
Carinhos, beijos, l√°grimas, desvelos.

Um requinte de graça e fantasia
D√°-te segredos de melancolia,
Da Lua todo o l√Ęnguido abandono…

Desejos vagos, olvidadas queixas
V√£o morrer no calor dessas madeixas,
Nas virgens florescências do teu sono.