Textos sobre Confus√£o

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Textos de confusão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Amor é Mais Forte

Os amantes de hoje preferem a droga mais leve, o tabaco mais light ou o caf√© descafeinado. J√° ningu√©m quer ficar pedrado de amor ou sofrer de uma overdose de paix√£o. As emo√ß√Ķes fortes s√£o fracas e as pr√≥prias fraquezas revelam-se mais fortes. Os amantes, esses, s√£o igualmente namorados da monotonia e amigos √≠ntimos da disciplina. O que est√° fora de controlo causa-lhes confus√£o, e afecta-lhes uma certa zona do c√©rebro, mas quase nunca lhes toca o cora√ß√£o. O amor devia ser sonhado e devia faz√™-los voar; em vez disso √© planeado, e quanto muito, f√°-los pensar.
Sobre o amor n√£o se tem controlo. √Č um sentimento que nos domina, que nos sufoca e que nos mata. Depois d√°-nos um pouco vida. No amor queremos viver, mas pouco nos importa morrer e estamos sempre dispostos a ir mais al√©m. Deixamo-nos cair em tenta√ß√£o, e n√£o nos livramos do mal, embora procuremos o bem. No amor tamb√©m se tem f√©, mas n√£o se conhecem ora√ß√Ķes: amamos porque cremos, porque desejamos e porque sabemos que o amor existe. Amamos sem saber se somos amados, e por isso podemos acabar desolados, isolados e deprimidos. Que se lixe! O amor n√£o √© justo,

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O Segredo da Boa Disposição

Deixaram-nos aqui. √Č mesmo assim. √Č a vida. Tem gra√ßa, n√£o tem? A vida tem gra√ßa. N√≥s temos gra√ßa. √Č engra√ßado estarmos todos aqui. A incerteza geral da exist√™ncia, aliada √† certeza particular do facto de termos nascido e de irmos um dia esticar o pernil, √© de morrer a rir. Entre outras coisas. J√° que nos puseram aqui, indispostos, mal distribu√≠dos, condenados √† confus√£o e √† companhia dos outros, o m√≠nimo que podemos fazer √© pormo-nos o mais bem dispostos que pudermos.
O segredo da minha boa disposi√ß√£o √© pensar o mais poss√≠vel nos outros ‚Äď nos outros que amo e que me t√™m de aturar, nos outros de quem s√≥ conhe√ßo o sofrimento e me fazem sentir a sorte que tenho em sofrer t√£o poucochinho ‚Äď e o menos poss√≠vel em mim. Quanto mais eu me desprezo e desconhe√ßo, quanto mais eu entriste√ßo de me entender, mais preciso que haja quem goste de mim. Ou pelo menos da minha companhia.

A Chave para qualquer Relacionamento

A chave para qualquer relacionamento √© a comunica√ß√£o. E eu sempre pensei que a comunica√ß√£o √© como uma dan√ßa. Uma pessoa d√° um passo em frente, o outro d√° um passo para tr√°s. O mais pequeno trope√ß√£o pode faz√™-los cair e deix√°-los emaranhados numa confus√£o. Descobri que, quando nos encontramos nesta posi√ß√£o ‚ÄĒ com o companheiro, um colega, um amigo, um filho ‚ÄĒ, a melhor op√ß√£o √© sempre perguntar √† outra pessoa: ¬ęO que √© que tu realmente queres?¬Ľ

Ao princ√≠pio pode ser que a pessoa revele um certo nervosismo, que tussa ou que talvez fa√ßa um pequeno sil√™ncio. Mas se voc√™ ficar calado o tempo suficiente para obter uma resposta, garanto-lhe que ser√° qualquer coisa do tipo: ¬ęQuero saber que me d√°s valor.¬Ľ Estenda uma m√£o de conex√£o e bom entendimento e ofere√ßa-lhe tr√™s das palavras mais importantes que qualquer um de n√≥s pode receber: ¬ęEstou a ouvir-te.¬Ľ Tenho a certeza de que isto ir√° melhorar o vosso relacionamento.

Tudo Se Me Evapora

Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recorda√ß√Ķes, a minha imagina√ß√£o e o que cont√©m, a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que pensei outro. Aquilo a que assisto √© um espect√°culo com outro cen√°rio. E aquilo a que assisto sou eu.
Encontro às vezes, na confusão vulgar das minhas gavetas literárias, papéis escritos por mim há dez anos, há quinze anos, há mais anos talvez. E muitos deles me parecem de um estranho; desconheço-me deles. Houve quem os escrevesse, e fui eu. Senti-os eu, mas foi como em outra vida, de que houvesse agora despertado como de um sono alheio.

Glória Efémera ou Eterna

Via de regra, a glória será tanto mais tardia quanto mais for durável, pois tudo aquilo que é excelente amadurece de maneira lenta. A glória que se tornará póstera assemelha-se a um carvalho que cresce bem lentamente a partir da sua semente; a glória fácil, efémera, assemelha-se às plantas anuais, que crescem rapidamente, e a glória falsa parece-se com erva daninha, que nasce num piscar de olhos e que nos apressamos em arrancar. Esse desenrolar das coisas relaciona-se com o facto de que, quanto mais alguém pertence à posteridade, ou seja, à humanidade geral e inteira, tanto mais estranho será à sua época, pois o que ele produz não é especialmente dedicado a ela como tal, mas só na medida em que a mesma é uma parte da humanidade; logo, as suas obras não são tingidas com a cor local do seu tempo; todavia, em consequência disso, pode acontecer que tal indivíduo passe facilmente como um estranho pela sua época.
Esta prefere apreciar aqueles que tratam os assuntos do seu dia-a-dia ou que servem ao humor do momento, portanto, os factos que pertencem integralmente a ela, que com ela vivem e com ela morrem. Por isso, a hist√≥ria da arte e da literatura ensina geralmente que as mais elevadas realiza√ß√Ķes do esp√≠rito humano,

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Regras Gerais da Arte da Guerra

Estou consciente de vos ter falado de muitas coisas que por vós mesmos haveis podido aprender e ponderar. Não obstante, fi-lo, como ainda hoje vos disse, para melhor vos poder mostrar, através delas, os aspectos formais desta matéria,e, ainda, para satisfazer aqueles Рse fosse esse o caso Рque não tivessem tido, como vós, a oportunidade de sobre elas tomar conhecimento. Parece-me que, agora, já só me resta falar-vos de algumas regras gerais, com as quais deveis estar perfeitamente identificados. São as seguintes:
– Tudo o que √© √ļtil ao inimigo √© prejudicial para ti, e, tudo o que te √© √ļtil prejudica o inimigo.
– Aquele que, na guerra, for mais vigilante a observar as inten√ß√Ķes do inimigo e mais empenho puser na prepara√ß√£o do seu ex√©rcito, menos perigos correr√° e mais poder√° aspirar √† vit√≥ria.
– Nunca leves os teus soldados para o campo de batalha sem, previamente, estares seguro do seu √Ęnimo e sem teres a certeza de que n√£o t√™m medo e est√£o disciplinados e convictos de que v√£o vencer.
– √Č prefer√≠vel vencer o inimigo pela fome do que pelas armas. A vit√≥ria pelas armas depende muito mais da fortuna do que da virtude.

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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O Amor Português não é um Fenómeno Ternurento

Do carinho e do mimo, toda a gente sabe tudo o que h√° a saber ‚ÄĒ e mais um bocado. Do amor, ningu√©m sabe nada. Ou pensa-se que se sabe, o que √© um bocado menos do que nada. O mais que se pode fazer √© procurar saber quem se ama, sem querer saber que coisa √© o amor que se tem, ou de que s√≠tio vem o amor que se faz.

Do amor √© bom falar, pelo menos naqueles intervalos em que n√£o √© t√£o bom amar. Todos os pa√≠ses h√£o-de ter a sua pr√≥pria cultura amorosa. A portuguesa √© excepcional. Nas culturas mais parecidas com a nossa, √© muito maior a diferen√ßa que se faz entre o amor e a paix√£o. Faz-se de conta que o amor √© uma coisa ‚ÄĒ mais tranquila e pura e duradoura ‚ÄĒ e a paix√£o √© outra ‚ÄĒ mais do√≠da e complicada e ef√©mera. Em Portugal, por√©m, n√£o gostamos de dizer que nos ¬ęenamoramos¬Ľ, e o ¬ęenamoramento¬Ľ e outras palavras que contenham a palavra ¬ęamor¬Ľ s√£o-nos sempre um pouco estranhas. Quando n√≥s nos perdemos de amores por algu√©m, dizemos (e nitidamente sentimos) que nos apaixonamos. Aqui, sabe-se l√° por que atavismos atl√Ęnticos,

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As Culturas de Indivíduo, Grupo, e Sociedade

O termo cultura tem associa√ß√Ķes diferentes conforme temos em mente o desenvolvimento de um indiv√≠duo, de um grupo ou classe ou de toda uma sociedade. √Č parte da minha tesse que a cultura do indiv√≠duo est√° dependente da cultura de um grupo ou classe, e que a cultura do grupo ou classe est√° dependente da cultura de toda a sociedade a que esse grupo ou classe pertence. Por isso, √© a cultura da sociedade que √© fundamental, e √© o significado do termo ¬ęcultura¬Ľ em rela√ß√£o a toda a sociedade que se devia examinar primeiro. Quando o termo ¬ęcultura¬Ľ se aplica √† manipula√ß√£o de organismos inferiores – ao trabalho do bacteriologista ou do agricultor – o significado √© bastante claro porque podemos obter unanimidade a respeito dos fins a serem atingidos, e podemos concordar quanto a t√™-los atingidos ou n√£o. Quando se aplica ao aperfei√ßoamento do intelecto e esp√≠ritos humanos, √© menos prov√°vel que concordemos em rela√ß√£o ao que a cultura √©. O termo em si, significando alguma coisa a que se deve conscientemente aspirar em assuntos humanos, n√£o tem uma uma hist√≥ria longa.

Como alguma coisa a ser alcan√ßada com esfor√ßo deliberado, a ¬ęcultura¬Ľ √© relativamente intelig√≠vel quando nos preocupamos com o acto do indiv√≠duo se autocultivar,

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Da Natureza do Mistério

As coisas misteriosas s√£o o que h√° de mais belo, grandioso, e doce na exist√™ncia. Os mais maravilhosos sentimentos s√£o os que nos agitam com certa confus√£o: pudor, amor casto, amizade virtuosa, rescendem misterioso perfume. Dirieis que os cora√ß√Ķes amantes com meias palavras se compreendem e se franqueiam. A inoc√™ncia, santa ignor√Ęncia, n√£o √© per si o mais inef√°vel dos mist√©rios? Exulta a inf√Ęncia porque tudo ignora; amisera-se a velhice porque tudo sabe: felizmente para ela, principiam os mist√©rios da morte onde fenecem os da vida. D√°-se nos afectos o que se d√° nas virtudes: as mais ang√©licas s√£o as que, derivadas imediatamente de Deus, √† maneira da caridade, folgam de esconder-se √† vista, como a origem delas.

Ser Amado

Às vezes, é preciso conseguirmos o que não se consegue: parar de amar por um momento, para se ser amado por quem se ama.
Seria bom podermos parar para nos sentirmos amados sem ser de volta, na confusão de duas pessoas a amarem-se. Se não amássemos quem amássemos, talvez pudéssemos receber o amor dela e saber como era.
Mas n√£o √© prov√°vel. Se n√£o a am√°ssemos, n√£o querer√≠amos saber. Ser amado seria um pedido, uma intromiss√£o, um desconforto √† espera de uma resposta nossa, de uma desilus√£o, de uma insensibilidade √†quele amor que n√£o queremos para nada, que nos apanhou e embara√ßa. Se calhar, na vida e na morte de quem ama e quem se ama, s√≥ se sente o n√£o ser amado e o j√° n√£o ser amado e, quando muito, o j√° ter sido amado. A aus√™ncia e a tristeza, por muito grandes que sejam, n√£o s√£o t√£o grandes como a presen√ßa, a alegria e a ang√ļstia do amor vivo, que ocupa os corpos todos e as almas todas.
√Č pena que enquanto se √© amado por algu√©m nunca pare√ßa que se √©. Amado, de certeza, incondicionalmente, como √© amado – tamb√©m sem saber –

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O Amor em Portugal

Mesmo que Dom Pedro n√£o tenha arrancado e comido o cora√ß√£o do carrasco de Dona In√™s, J√ļlio Dantas continua a ter raz√£o: √© realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no inc√≥modo fon√©tico de dizer ¬ęEu amo-o¬Ľ ou ¬ęEu amo-a¬Ľ. Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que est√£o apaixonados, o que n√£o √© a mesma coisa, ou ent√£o embara√ßam seriamente os eleitos com as vers√Ķes estrangeiras: ¬ęI love you¬Ľ ou ¬ęJe t’aime¬Ľ. As perguntas ¬ęAmas-me?¬Ľ ou ¬ęSer√° que me amas?¬Ľ est√£o vedadas pelo bom gosto, sen√£o pelo bom senso. Por isso diz-se antes ¬ęGostas mesmo de mim?¬Ľ, o que tamb√©m n√£o √© a mesma coisa.

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contr√°rio do que acontece nas demais l√≠nguas indo-europeias, n√£o tem em Portugal o sentido simples e bonito de ¬ęaquele que ama, ou √© amado¬Ľ. Diz-se que n√£o sei-quem √© amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opr√≥bio galin√°ceo das reuni√Ķes de ¬ętupperwares¬Ľ e de costura.
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo.

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Detalhes Importantes da Governação

Um sábio evita dizer ou fazer o que não sabe. Se os nomes não condizem com as coisas, há confusão de linguagem e as tarefas não se executam. Se as tarefas não se executam, o bem-estar e a harmonia são negligenciados. Sendo estes negligenciados, os suplícios e demais castigos não são proporcionais às faltas, o povo não sabe mais o que fazer. Um princípe sábio dá às coisas os nomes adequados e cada coisa deve ser tratada segundo o significado do seu nome. Na escolha dos nomes deve-se estar muito atento.
(…) Suponhamos que um homem aprenda as trezentas odes de Chen King e que, em seguida, se fosse encarregado de uma parte da administra√ß√£o, mostrasse pouca habilidade; se fosse enviado em miss√£o a pa√≠ses estrangeiros, mostrasse incapacidade para resolver por si mesmo; de que lhe teria servido toda a sua literatura?
(…) Se o pr√≥prio pr√≠ncipe √© virtuoso, o povo cumprir√° os seus deveres sem que lhe ordene; se o pr√≥prio pr√≠ncipe n√£o √© virtuoso, pouco importa que d√™ ordens; o povo n√£o as seguir√°.

SMS

Ela caminha já a tarde vai alta pelo passeio que segue paralelo ao mar, por cima das praias. Em baixo, a areia estende-se vazia até à água, acabando numa espuma branca, das ondas que rebentam com o fragor dos dias de Inverno. Vai sozinha. Cruza-se com jovens a passo de corrida, outros que deslizam em patins, um casal com o filho pequeno feliz na sua bicicleta de rodinhas, acompanhado por um cãozinho saltitante que corre para a frente e para trás em redor dele.
Leva na m√£o o telem√≥vel e nos olhos castanhos brilhantes uma esperan√ßa. Vai pensativa e sem horas, caminhando sem pressa, reparando nas pessoas, no mar desabrido que se atira √† praia, no ar fresco que respira, no vento que se levanta com uma promessa de tempestade. Cruza o casaco grosso, azul-escuro, √† frente do peito, sem apertar os bot√Ķes. Cruza os bra√ßos. Uma folha de jornal passa por ela a esvoa√ßar, not√≠cias antigas, pensa divertida, logo se concentrando no navio de carga iluminado que vem de Lisboa e ruma ao mar aberto com o vagar de quem tem um destino certo num dia certo.

Acaba por apertar os bot√Ķes do casaco e levantar a gola para se sentir mais protegida do vento,

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A Roda da Fortuna

N√£o se move a roda, sem que a parte que virou para o c√©u seja maior repuxo para tocar na terra, e a parte que se viu no ar erguida se veja logo da mesma terra pisada, sem outro impulso para descer, mais que com o mesmo movimento com que subiu; por isso a fortuna fez trono da sua mesma roda, porque, como na figura esf√©rica se n√£o conhece nela primeiro nem √ļltimo lugar, nas felicidades andam sempre em confus√£o as venturas. Na dita com que se sobe, vai sempre entalhado o risco com que se desce. N√£o h√° estrela no c√©u que mais prognostique a ru√≠na de um grande, que o levantar de sua estrela. Mais depressa se move aos afagos da grandeza que nos lisonjeia, do que aos desfavores com que a fortuna nos abate.
Quanto trabalharam os homens para subir, tantas foram as diligências que fizeram para se arruinarem; porque, como a fortuna (falo com os que não são beneméritos) não costuma subir a ninguém por seus degraus, em faltando degraus para a descida, tudo hão-de ser precipícios; e diferem muito entre si o descer e o cair. Se perguntarmos o por que caiu Roma, o maior império do Mundo,

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O Ofuscante Poder da Escrita

O sentido da literatura, no meio dos muitos que tenha ou n√£o tenha, √© que ela mant√©m, purificadas das amea√ßas da confus√£o, as linhas de for√ßa que configuram a equa√ß√£o da consci√™ncia e do acto, com suas tens√Ķes e fracturas, suas ambival√™ncias e ambiguidades, suas rudes traject√≥rias de choque e fuga. O autor √© o criador de um s√≠mbolo her√≥ico: a sua pr√≥pria vida.

Mas, quando cria esse s√≠mbolo, est√° a elaborar um sistema sens√≠vel e sensibilizador, convicto e convincente, de sinais e apelos destinados a colocar o s√≠mbolo √† altura de uma presen√ßa ainda mais viva que aquela mat√©ria desordenada onde teve origem. O valor da escrita reside no facto de, em si mesma, tecer-se ela como s√≠mbolo, urdir ela pr√≥pria a sua dignidade de s√≠mbolo. A escrita representa-se a si, e a sua raz√£o est√° em que d√° raz√£o √†s inspira√ß√Ķes reais que evoca.

E produz uma tens√£o muito mais fundamental do que a realidade. √Č nessa tens√£o real criada em escrita que a realidade se faz. O ofuscante poder da escrita √© que ela possui uma capacidade de persuas√£o e violenta√ß√£o de que a coisa real se encontra subtra√≠da.
O talento de saber tornar verdadeira a verdade.

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Orientar Filosoficamente a Vida

A √Ęnsia de uma orienta√ß√£o filos√≥fica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em car√™ncia de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, s√ļbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronómetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituivel de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distracção das horas de ócio.
Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irreflectidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia.

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O Êxito Corrompe

Os √™xitos t√™m apenas por companhia insepar√°vel a confus√£o e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que t√™m √™xito e gozam a considera√ß√£o alheia, ficam gordos de uma auto-complac√™ncia contente, e a for√ßa da vaidade infla-os como bal√Ķes e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da considera√ß√£o de terceiros. Se n√£o se tornar mau, ficar√° pelo menos confuso e perder√° a for√ßa.

O Construtor

O construtor, antes de levantar a primeira pedra do dia, contempla e considera as suas feridas que enfraquecem a vontade de construir, com a sua pr√≥pria subst√Ęncia de cinzas e sangue petrificado, a habita√ß√£o em que a f√©nix poder√° renascer com todo o esplendor original de um astro. Nada mais lhe resta do que lan√ßar-se a um trabalho para o qual a disposi√ß√£o ainda n√£o surgiu, mas que poder√° despertar os impulsos da constru√ß√£o solar e abrir o horizonte luminoso e tranquilo de um rio em torno da morada. A constru√ß√£o est√° envolta numa espessa bruma e n√£o h√° nela sinais de figuras ou formas, porque essa n√©voa √© o pr√≥prio nada da confus√£o inicial e do fim de toda a constru√ß√£o como possibilidade de vida e de renovo. √Č do obscuro fundo da retina que surge um t√©nue raio cintilante que penetra na massa nebulosa da constru√ß√£o e a faz palpitar e estremecer. O construtor poder√° ent√£o discernir algumas linhas de for√ßa, algumas estruturas e bases numa crescente e sincopada clarifica√ß√£o. Haver√° um momento em que ele sentir√° que o edif√≠cio dan√ßa porque tudo se duplica e se reflecte e se anima. De algum modo, √© j√° a f√©nix que resplandece no fulgor da edifica√ß√£o e na plenitude do ser e do olhar na sua m√ļtua cria√ß√£o.

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Os Pseudo-S√°bios

Os verdadeiros s√°bios perguntam como se comporta dada coisa em si mesma e na sua rela√ß√£o com outras coisas, sem se preocuparem com a utilidade, ou seja, com a aplica√ß√£o no dom√≠nio do j√° conhecido ou no dom√≠nio daquilo que √© necess√°rio √† vida. H√° outros esp√≠ritos, gente bastante diferente, que, sendo mais agudos, mais virados para a vida, mais experimentados e familiarizados com a t√©cnica, tratam imediatamente de encontrar as aplica√ß√Ķes.
Os pseudo-s√°bios procuram apenas retirar t√£o depressa quanto poss√≠vel algum proveito pessoal das novas descobertas, tratando de obter uma gl√≥ria v√£, seja pela tentativa de dar continuidade ou alargamento √† descoberta em causa, seja pela introdu√ß√£o de correc√ß√Ķes, ou at√© por uma simples anexa√ß√£o pessoal, por exemplo, afectando grandes preocupa√ß√Ķes em rela√ß√£o ao assunto. O car√°cter sempre prematuro desses comportamentos prejudica a verdadeira ci√™ncia, traz-lhe maior incerteza e confus√£o, e atrofia-lhe manifestamente aquilo que ela pode produzir de mais belo, isto √©, o seu florescimento pr√°tico.