Textos sobre Condição

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Textos de condição escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Natureza Subjectiva do Tempo

O tempo, tal como o espa√ßo, √© uma forma pura da intui√ß√£o ou percep√ß√£o sens√≠vel. √Č a condi√ß√£o de toda a percep√ß√£o activa imediata, e tamb√©m de tudo o que √© percepcionado, isto √©, de toda a experi√™ncia e de tudo o que √© experimentado. A natureza √© feita de tempo e de espa√ßo, e √© um processo. Quando salientamos o seu aspecto espacial, estamos conscientes da sua natureza objectiva; quando salientamos o seu aspecto temporal, tornamo-nos conscientes da sua natureza subjectiva. Tal como a percepcionamos, a natureza √© um processo de devir infind√°vel e cont√≠nuo. As coisas chegam e partem no tempo, mas s√£o tamb√©m temporais – o tempo √© o seu modo de exist√™ncia.

Somos Traídos pela Nossa Própria Percepção e Experiência

Vemos muito bem que as coisas não se alojam em nós com a sua forma e essência, e não penetram em nós pela sua própria força e autoridade; porque, se assim fosse, recebê-las-íamos do mesmo modo: o vinho seria o mesmo na boca do doente e na boca do homem são. Quem tem os dedos gretados, ou que os tem entorpecidos, encontraria na lança ou na espada que maneja uma rigidez semelhante à que o outro encontra. Os objetos externos rendem-se então à nossa mercê; alojam-se em nós como nos apraz. Ora, se da nossa parte recebêssemos alguma coisa sem alteração, se as faculdades humanas fossem bastante capazes e firmes para apreender a verdade pelos nossos próprios meios, esses meios sendo comuns a todos os homens, essa verdade se transmitiria de mão em mão de um para outro. E pelo menos se encontraria uma coisa no mundo, entre tantas que há, que seria acreditada pelos homens por um consenso universal. Mas o facto de não se ver proposição alguma que não seja debatida e controversa entre nós, ou que não o possa ser, mostra bem que o nosso julgamento natural não apreende muito claramente aquilo que apreende; pois o meu julgamento não pode fazer com que isso seja aceite pelo julgamento do meu companheiro,

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A Verdade Simbólica

Quando a inteligência aborda o estudo da vida, necessariamente trata o ser vivo como o inerte, aplicando a esse novo objecto as mesmas formas, transportando para esse novo domínio os mesmos hábitos que deram tão certo no antigo. E tem razão em fazer isso, pois somente sob essa condição o ser vivo oferecerá à nossa acção o mesmo campo que a matéria inerte. Mas a verdade à qual se chega assim torna-se absolutamente relativa à nossa faculdade de agir. Nada mais é do que uma verdade simbólica.

Dominar ou Morrer

Uma esp√©cie nasce, um tipo fixa-se e torna-se forte sob a longa luta com condi√ß√Ķes desfavor√°veis essencialmente constantes. Inversamente, sabe-se pelas experi√™ncias dos criadores de gado que as esp√©cies que foram superalimentadas e, de um modo geral, tiveram demasiada protec√ß√£o e cuidados, logo tendem marcadamente para a varia√ß√£o de tipos e abundam em prod√≠gios e monstruosidades (tamb√©m em v√≠cios monstruosos). Considere-se agora uma comunidade aristocr√°tica, por exemplo uma antiga polis grega ou Veneza como institui√ß√£o volunt√°ria ou involunt√°ria, destinada √† selec√ß√£o: h√° ali homens convivendo dependentes uns dos outros e que querem impor a sua esp√©cie, em geral porque se t√™m que impor ou de contr√°rio correm o terr√≠vel risco de serem exterminados.

A Glória como Mira

Nem todos os homens nasceram para os grandes talentos; e n√£o creio que se possa olhar isso como uma desgra√ßa, pois que √© necess√°rio conservar todas as condi√ß√Ķes, e as artes mais necess√°rias n√£o s√£o as mais engenhosas, nem as mais prestigiadas. Mas o que importa, creio, √© que reina em todos esses estados uma gl√≥ria adequada ao m√©rito que eles solicitam. √Č o amor dessa gl√≥ria que os aperfei√ßoa, que torna os homens de todas as condi√ß√Ķes mais virtuosos, e que faz florescer os imp√©rios, como a experi√™ncia de todos os seculos o demonstra.
Essa glória, inferior à dos talentos mais elevados, não é menos justamente fundamentada; porque aquilo que é bom em si mesmo não pode ser anulado por aquilo que é melhor; o que é estimável pode perder a nossa estima, mas não pode sofrer decesso no seu ser; isso é visível.
Se existe então algum erro a esse respeito entre os homens, é quando procuram uma glória superior aos seus talentos, uma glória, por conseguinte, que engana os seus desejos e os faz negligenciar aquilo que realmente lhes cabe por natureza; que mantém, no entanto, o seu espírito acima da sua condição e os salva talvez de numerosas fraquezas.

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A Pluralidade Humana

A pluridade humana, condi√ß√£o b√°sica da ac√ß√£o e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferen√ßa. Se n√£o fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gera√ß√Ķes vindouras. Se n√£o fossem diferentes, se cada ser humano n√£o diferisse de todos os que existiram, existem ou vir√£o a existir, os homens n√£o precisariam do discurso ou da ac√ß√£o para se fazerem entender. Com simples sinais e sons poderiam comunicar as suas necessidades imediatas e id√™nticas.
Ser diferente n√£o equivale a ser outro – ou seja, n√£o equivale a possuir essa curiosa qualidade de ¬ęalteridade¬Ľ, comum a tudo o que existe e que, para a filosofia medieval, √© uma das quatro caracter√≠sticas b√°sicas e universais que transcendem todas as qualidades particulares. A alteridade √©, sem d√ļvida, um aspecto importante da pluralidade; √© a raz√£o pela qual todas as nossas defini√ß√Ķes s√£o distin√ß√Ķes e o motivo pelo qual n√£o podemos dizer o que uma coisa √© sem a distinguir de outra.
Na sua forma mais abstracta, a alteridade est√° apenas presente na mera multiplica√ß√£o de objectos inorg√Ęnicos, ao passo que toda a vida org√Ęnica j√° exibe varia√ß√Ķes e diferen√ßas,

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Esta Prosa Travada

P√Ķe-se a gente a ler estes Gides, estes Munthes, estes Malraux. E √© sempre a mesma sensa√ß√£o de plenitude. Sempre a mesma sensa√ß√£o de que, depois daquilo, n√£o vale a pena escrever uma palavra, de mais a mais nesta l√≠ngua de que o diabo ainda se serve para falar √† av√≥… Mas depois vem a revolta. Esta impotente revolta de todo o verdadeiro escritor portugu√™s que come√ßou por nascer atr√°s duma fraga e acaba por gastar a vida em Paio Pires, amanuense de secretaria. Metessem no bra√ßo dum Gide uma manga de alpaca, e eu queria ver… Ent√£o um homem nasce em Paris ou numa terra lavada da Su√©cia, tanto faz, mestres logo √† beira do ber√ßo, todas as civiliza√ß√Ķes na biblioteca do pai, uma vida inteira pelo mundo al√©m, e aqueles neur√≥nios, e aqueles sentidos n√£o h√£o-de reagir?! O mais bronco ser humano, quando fala com um Wilde, ouviu pelo menos falar o autor do De Profundis. Evidentemente √© preciso mais alguma coisa do que ir √† China e ter certa experi√™ncia para escrever A Condi√ß√£o Humana. Mas, sem um homem andar de avi√£o, como h√°-de um homem ganhar perspectivas de p√°ssaro e falar de po√ßos de ar?!
…E a gente n√£o tem outro rem√©dio sen√£o gastar as horas a fabricar esta prosa travada,

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Posses e Capacidade atrapalham a Felicidade

Foi observado em todas as √©pocas que as vantagens da natureza, ou da fortuna, contribu√≠ram muito pouco para a promo√ß√£o da felicidade; e que aqueles a quem o esplendor da sua classe social, ou a extens√£o das suas capacidades, colocou no topo da vida humana n√£o deram muitas vezes ocasi√£o justa de inveja por parte dos que olham para eles de uma condi√ß√£o mais baixa; quer seja que a aparente superioridade incite a grandes des√≠gnios e os grandes des√≠gnios corram naturalmente o risco de insucessos fatais; ou que o destino da humanidade seja a mis√©ria, os infort√ļnios daqueles cuja emin√™ncia atraiu sobre eles a aten√ß√£o universal foram mais cuidadosamente registados, porque, em geral, eram mais bem observados e foram, na realidade, mais consp√≠cuos do que outros, mas n√£o com maior frequ√™ncia nem severidade.

A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida,

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A Democracia como Círculo Vicioso Desonesto

N√£o estamos em condi√ß√Ķes de nos salvar a n√≥s pr√≥prios, sobre isso n√£o restam d√ļvidas. Falamos em democracia, mas ela √© apenas a express√£o pol√≠tica para um estado de esp√≠rito caracterizado pelo ¬ęPode ser assim, mas tamb√©m de outro modo¬Ľ. Vivemos na √©poca do boletim de voto. At√© votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o facto de termos transformado a ci√™ncia no nosso ideal intelectual n√£o significa mais do que p√īr na m√£o dos chamados factos um boletim de voto, para que eles escolham por n√≥s. Este tempo √© antifilos√≥fico e cobarde: n√£o tem coragem para decidir o que tem ou n√£o tem valor, e a democracia, reduzida √† sua express√£o mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que √© um dos mais desonestos c√≠rculos viciosos que alguma vez existiu na hist√≥ria da nossa ra√ßa.

A Felicidade Abafa as Contradi√ß√Ķes

Na maior parte dos casos, a condi√ß√£o primordial para a felicidade n√£o consiste em resolver contradi√ß√Ķes, mas em faz√™-las desaparecer, do mesmo modo que numa alameda comprida se fecham as lacunas. E tal como por toda a parte as rela√ß√Ķes vis√≠veis se deslocam diante dos nossos olhos para que surja uma imagem que eles possam abarcar, onde o que √© premente e pr√≥ximo parece grande e ao longe at√© as coisas enormes parecem pequenas, onde as lacunas se fecham e o todo se mostra como algo de acabado e ordenado, assim tamb√©m acontece com as rela√ß√Ķes invis√≠veis, que a raz√£o e o sentimento afastam tanto que da√≠ resulta inconscientemente uma situa√ß√£o em que sentimos que a dominamos completamente.

O Homem Certo

Hoje, numa √©poca em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlat√£es usam as mesmas f√≥rmulas com m√≠nimas diferen√ßas, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redac√ß√Ķes dos jornais s√£o constantemente incomodadas por gente que acha que √© um g√©nio, √© muito dif√≠cil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de p√©s diante da porta da redac√ß√£o s√£o suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, por√©m, o g√©nio passa a outra condi√ß√£o. Deixa de ser mat√©ria f√ļtil da cr√≠tica liter√°ria ou teatral, cujas contradi√ß√Ķes os leitores que qualquer jornal deseja ter levam t√£o pouco a s√©rio como a tagarelice de uma crian√ßa, para aceder ao estatuto de factos concretos, com todas as consequ√™ncias que isso tem.
Certos fan√°ticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detr√°s de tal situa√ß√£o. O mundo dos que escrevem porque t√™m de escrever est√° cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a subst√Ęncia. Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem,

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Um √önico Poema

Quando olho para esse livro (¬ęPoesia Toda¬Ľ), vejo que n√£o fabriquei ou instru√≠ ou afei√ßoei objectos ‚ÄĒ estas palavras n√£o sup√Ķem o mesmo modo de fazer‚ÄĒ, vejo que escrevi apenas um poema, um poema em poemas; durante a vida inteira brandi em todas as direc√ß√Ķes o mesmo aparelho, a mesma arma furiosa. Fui um inocente, porque s√≥ se consegue isso com inoc√™ncia. E se a inoc√™ncia √© uma condi√ß√£o insubstitu√≠vel de esc√Ęndalo, uma transparente e mobilizadora familiaridade com a terra, constitui tamb√©m um rev√©s: pois h√° uma altura em que se sabe: as coisas ludibriaram-nos, ludibri√°mo-nos nas coisas; a inoc√™ncia deveria ter-nos oferecido uma vida estupenda, um tumulto: o ar em torno proporcionado como pura levita√ß√£o; ver, tocar; os mais simples actos e factos pr√≥ximos como instant√Ęneo e completo conhecimento. Era assim, foi assim, mas a dor, as vozes demon√≠acas, o abismo junto √† dan√ßa, a noite que se vai insinuando a toda a altura e largura da luz, tudo Isso invade a inoc√™ncia ‚ÄĒ e ent√£o j√° n√£o sabemos nada, por exemplo: ser√° inocente a nossa inoc√™ncia? A inoc√™ncia √© um estado clandestino na ditadura do mundo; tem se der astuta, tem de recorrer a todas as torpezas para lutar e escapar,

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O Paradoxo do Outro

H√° uma grande diferen√ßa entre viver com algu√©m e viver em algu√©m. Pessoas h√° em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E h√° os casos inversos. S√≥ uma extrema pureza do amor e da amizade est√° em condi√ß√Ķes de juntar as duas coisas.

O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.

Quando duas pessoas est√£o inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que est√£o ambas enganadas.

A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

A Solidão é Necessária ao Convívio

As pessoas est√£o prontas a viver em bom entendimento, mas n√£o querem ser viciadas em agradar. A condi√ß√£o humana assenta num pressuposto equilibrado: a vida agrada a uns e desagrada a outros. H√° uma parte da solid√£o que n√£o podemos compor, e √© melhor que assim seja, porque √© na solid√£o que assenta a diferen√ßa t√£o falada. √Č isso que se receia: que nos pro√≠bam a solid√£o, esse pequeno espinho que afinal nos faz solid√°rios na multid√£o. Observem um grupo de pessoas que ri da mesma anedota: est√£o abertas a esse prazer do momento, mas n√£o se distraem da faculdade de serem s√≥s na sua fundamental forma de orgulho que √© serem √ļnicas. A moral consta duma certa dose de cortesia para parecermos bons. ¬ęS√≥ Deus √© bom.¬Ľ Se percebermos esta conclus√£o, percebemos que imitar o bem √© tudo o que humanamente nos √© permitido.

Títulos e Diplomas

Parece que a humanidade s√≥ se esfor√ßa enquanto tem a esperar diplomas idiotas, que pode exibir em p√ļblico para obter proveitos, mas, quando j√° tem na m√£o tais diplomas idiotas em n√ļmero suficiente, deixa-se levar. Ela vive em grande parte s√≥ para obter diplomas e t√≠tulos, n√£o por qualquer outra raz√£o, e, depois de ter obtido o n√ļmero de diplomas e t√≠tulos que, na sua opini√£o, √© suficiente, deixa-se cair na cama macia desses diplomas e t√≠tulos. Ela n√£o parece ter qualquer outro objectivo para a vida. N√£o tem, segundo parece, qualquer interesse numa vida pr√≥pria, independente, numa exist√™ncia pr√≥pria, independente, mas apenas nesses diplomas e t√≠tulos, sob os quais a humanidade h√° j√° s√©culos amea√ßa sufocar.
As pessoas não procuram independência e autonomia, não procuram a sua própria evolução natural, mas apenas esses diplomas e títulos e estariam, a todo o momento, prontas a morrer por esses diplomas e títulos, se lhos entregassem e dessem sem qualquer condição, esta é que é a verdade desmascaradora e deprimente. Tão pouco estimam elas a vida em si que só vêem os diplomas e títulos e nada mais. Elas penduram nas paredes das suas casas os diplomas e títulos, nas casas dos mestres talhantes e dos filósofos,

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A Dualidade do Simbolismo

Um s√≠mbolo cont√©m uma verdade e uma inverdade, indestrin√ß√°veis para o sentimento. Se o tomarmos tal como √© e o configurarmos atrav√©s dos sentidos e √† imagem da realidade, nascem da√≠ o sonho e a arte; mas entre estes e a vida real e plena ergue-se uma parede de vidro. Se o apreendermos com a raz√£o e separarmos o que n√£o coincide do que coincide perfeitamente, nascem da√≠ a verdade e o conhecimento, mas arruinamos o sentimento. √Ä semelhan√ßa daquelas estirpes de bact√©rias que dividem em duas partes a mat√©ria org√Ęnica, a esp√©cie humana fragmenta em duas a condi√ß√£o vital primordial do s√≠mbolo: a mat√©ria s√≥lida da realidade e da verdade, e a atmosfera v√≠trea da intui√ß√£o, da f√© e do artefacto. Parece n√£o haver uma terceira possibilidade; mas quantas vezes algo de incerto acaba por ser desejado, se n√£o metermos muito a reflex√£o no caso!

A Arte de Representar

A base da representa√ß√£o √© a falsidade. A arte do ator consiste em servir-se do drama do autor para mostrar por meio dele a sua capacidade de interpreta√ß√£o. A pe√ßa √© como uma barra onde o actor mostra as suas habilidades gin√°sticas. √Č apenas limitado pelas condi√ß√Ķes necess√°rias de uma barra: pode fazer com ela apenas um n√ļmero limitado de coisas, mas pode fazer de mil formas individuais.
A representa√ß√£o, repito, tem todo o atractivo de uma falsifica√ß√£o. Todos adoramos um falsificador. √Č um sentimento muito humano e completamente instintivo. Todos adoramos a trapa√ßa e a imita√ß√£o. A representa√ß√£o une e intensifica, por meio do car√°cter material e vital das suas manifesta√ß√Ķes, todos os baixos instintos do instinto art√≠stico ‚ÄĒ o instinto do enigma, o instinto do trap√©zio (…). √Č popular e apreciado por estas raz√Ķes, ou antes, por esta raz√£o.
A sede de gl√≥ria do artista √© feita carne na sede de aplauso do actor. Todo o aparecimento em p√ļblico √© baixo. Todas as assembleias s√£o multid√Ķes, e se n√£o suadas de corpo, pelo menos suadas de emo√ß√Ķes.
Todos os esp√≠ritos grosseiros adoram falar. Ser falador √© j√° por si vulgar. A √ļnica coisa que torna a verbosidade interessante √© a profanidade e a obscenidade,

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Nada é Verdadeiramente Satisfatório

Nada √© verdadeiramente satisfat√≥rio. Mesmo a arte a que um artista √© vocacionado, e sobre a qual e para a qual vive, est√° sempre aqu√©m do seu desejo. Nunca atinge aquele n√≠vel, aquele andar que desejaria. Est√° sempre a tentar, a aproximar-se do limite das possibilidades. No fundo, do absoluto. Um absoluto que se n√£o atinge, [que se] ignora mesmo. A √ļnica coisa que sabemos ao certo √©: ningu√©m nasce sen√£o para morrer. Morrer mais cedo ou morrer mais tarde. Tem esse privil√©gio: acabar com a vida antes do fim natural dela. Se estiver desesperado, acontece. Justamente quando perde a esperan√ßa. Quando perde a esperan√ßa, perdeu tudo, e ent√£o liquida-se.

[Pensou alguma vez? Houve algum momento na sua vida t√£o desesperan√ßado? Teve tantos reveses…]

Não. Suponho que ninguém deixa de pensar na morte. E quando se chega à minha idade, está-se mais consciente de que se aproxima o fim. Portanto, ele tem que se preparar para esse final. Há muita gente que conheci que se suicidou por isto ou por aquilo. E há o problema da eutanásia, quando o sofrimento é muito grande, a experiência é nula e as pessoas não podem sequer matar-se, têm que pedir que alguém as mate.

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