Textos sobre Gosto

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Textos de gosto escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Envelhecer

Uma pessoa envelhece lentamente: primeiro envelhece o seu gosto pela vida e pelas pessoas, sabes, pouco a pouco torna-se tudo t√£o real, conhece o sginificado das coisas, tudo se repete t√£o terr√≠vel e fastidiosamente. Isso tamb√©m √© velhice. Quando j√° sabe que um corpo n√£o √© mais que um corpo. E um homem, coitado, n√£o √© mais que um homem, um ser mortal, fa√ßa o que fizer… Depois envelhece o seu corpo; nem tudo ao mesmo tempo, n√£o, primeiro envelhecem os olhos, ou as pernas, o est√īmago, ou o cora√ß√£o. Uma pessoa envelhece assim, por partes. A seguir, de repente, come√ßa a envelhecer a alma: porque por mais enfraquecido e decr√©pito que seja o corpo, a alma ainda est√° repleta de desejos e de recorda√ß√Ķes, busca e deleita-se, deseja o prazer. E quando acaba esse desejo de prazer, nada mais resta que as recorda√ß√Ķes, ou a vaidade; e ent√£o √© que se envelhece de verdade, fatal e definitivamente. Um dia acordas e esfregas os olhos: j√° n√£o sabes porque acordaste. O que o dia te traz, conheces tu com exactid√£o: a Primavera ou o Inverno, os cen√°rios habituais, o tempo, a ordem da vida. N√£o pode acontecer nada de inesperado: n√£o te surpreeende nem o imprevisto,

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A Inconst√Ęncia no Amor e na Amizade

N√£o pretendo justificar aqui a inconst√Ęncia em geral, e menos ainda a que vem s√≥ da ligeireza; mas n√£o √© justo imputar-lhe todas as transforma√ß√Ķes do amor. H√° um encanto e uma vivacidade iniciais no amor que passa insensivelmente, como os frutos; n√£o √© culpa de ningu√©m, √© culpa exclusiva do tempo. No in√≠cio, a figura √© agrad√°vel, os sentimentos relacionam-se, procuramos a do√ßura e o prazer, queremos agradar porque nos agradam, e tentamos demonstrar que sabemos atribuir um valor infinito √†quilo que amamos; mas, com o passar do tempo, deixamos de sentir o que pens√°vamos sentir ainda, o fogo desaparece, o prazer da novidade apaga-se, a beleza, que desempenha um papel t√£o importante no amor, diminui ou deixa de provocar a mesma impress√£o; a designa√ß√£o de amor permanece, mas j√° n√£o se trata das mesmas pessoas nem dos mesmos sentimentos; mant√™m-se os compromissos por honra, por h√°bito e por n√£o termos a certeza da nossa pr√≥pria mudan√ßa.
Que pessoas teriam começado a amar-se, se se vissem como se vêem passados uns anos? E que pessoas se poderiam separar se voltassem a ver-se como se viram a primeira vez? O orgulho, que é quase sempre senhor dos nossos gostos,

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Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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O Mal só nos Afecta na Medida em que o Deixarmos

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto,

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Gosto Relevante

Toda a boa capacidade é difícil de contentar. Há cultura do gosto, assim como do engenho. Relevantes ambos, são irmãos de um mesmo ventre, filhos da capacidade, herdados por igual na excelência. Engenho sublime nunca criou gosto rasteiro.
H√° perfei√ß√Ķes como s√≥is e h√° perfei√ß√Ķes como luzes. Galanteia a √°guia o sol, perde-se nele a mariposa pela luz de uma candeia e toma-se a altura a uma torrente pela eleva√ß√£o do gosto. T√™-lo bom √© j√° algo, t√™-lo relevante muito √©. Ligam-se os gostos √† comunica√ß√£o, e s√≥ por sorte se avista quem o tenha superlativo.
Têm muitos por felicidade (de empréstimo será) gozar do que lhes apetece, condenando a infelizes todos os demais; mas desforram-se estes com as mesmas linhas, assim se podendo ver uma metade do mundo rindo-se da outra, com maior ou menor necessidade.
√Č qualidade um gosto cr√≠tico, um paladar dif√≠cil de satisfazer; os mais valentes objectos temem-no e as mais seguras perfei√ß√Ķes receiam-no. √Č a avalia√ß√£o precios√≠ssima, e regate√°-la √© pr√≥prio de discretos; toda a escassez em moeda de aplauso √© fidalga e, ao contr√°rio, os desperd√≠cios de estima merecem castigo de desprezo.
A admira√ß√£o √© vulgarmente um manifesto da ignor√Ęncia;

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Opinar sem Conhecer

Porque √© que os corpos dentro dos seus caix√Ķes s√£o t√£o pesados ? Ele dizem que √© devido a algum tipo de in√©rcia, que o corpo j√° n√£o √© mais dirigido pelo seu dono… ou alguma tolice desse tipo, em oposi√ß√£o √†s leis da mec√Ęnica e do senso comum. Eu n√£o gosto de ouvir pessoas que n√£o t√™m mais que uma educa√ß√£o geral aventurarem-se a resolver problemas que requerem um conhecimento especial; e connosco isso acontece continuamente. Os cidad√£os gostam muito de dar opini√Ķes sobre assuntos que s√£o do foro do soldado ou at√© mesmo do marechal de campo; enquanto homens que foram educados como engenheiros preferem discutir filosofia e economia pol√≠tica.

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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N√£o h√° Nada T√£o Enjoativo Quanto a Abund√Ęncia

O amor bem nutrido e excessivamente submisso logo nos enjoa e cansa, como o excesso de uma iguaria agrad√°vel cansa o est√īmago (Ov√≠dio). Julgam que os meninos de coro t√™m grande prazer com a m√ļsica? A saciedade toma-a antes tediosa. Os festins, as dan√ßas, as mascaradas, os torneios alegram os que n√£o os v√™em ami√ļde e que desejaram v√™-los; mas para quem o faz habitualmente o seu gosto torna-se ins√≠pido e desagra¬≠d√°vel; tamb√©m as mulheres n√£o excitam aquele que delas desfruta √† saciedade. Quem n√£o se d√° tempo para sentir sede n√£o poderia ter prazer em beber. As farsas dos saltimbancos divertem-nos, mas para os actores servem de obriga√ß√£o. E a prova disso √© que para os pr√≠ncipes s√£o de¬≠l√≠cias, √© festa poderem √†s vezes travestir-se e descer √† for¬≠ma de vida baixa e popular, frequentemente aos grandes apraz mudar; e refei√ß√Ķes frugais e asseadas sob o tecto de um pobre, sem tapete nem p√ļrpura, desenrugaram-¬≠lhes a fronte inquieta (Hor√°cio).
N√£o h√° nada t√£o inc√≥modo, t√£o enjoativo quanto a abund√Ęncia. Que apetite n√£o se repugnaria ao ver tre¬≠zentas mulheres √† sua merc√™, como as que tem o grande se¬≠nhor no seu serralho? E que prazer e que esp√©cie de ca¬≠√ßada buscara aquele ancestral seu que nunca ia para os campos com menos de sete mil falcoeiros?

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O Outro como Motivo da nossa Infelicidade

Pergunta-se por que todos os homens juntos n√£o comp√Ķem uma √ļnica na√ß√£o e n√£o quiseram falar uma √ļnica l√≠ngua, viver sob as mesmas leis, combinar entre eles os mesmos costumes e um mesmo culto; e eu, pensando na contrariedade dos esp√≠ritos, dos gostos e dos sentimentos, surpreendo-me ao ver at√© sete ou oito pessoas reunirem-se sob um mesmo tecto, num mesmo recinto e compor uma √ļnica fam√≠lia.
(…) Buscamos a nossa felicidade fora de n√≥s mesmos e na opini√£o de homens que sabemos aduladores, pouco sinceros, sem equidade, cheios de inveja, de caprichos e preconceitos.

Alimentar o Ego

Para quem faz do sonho a vida, e da cultura em estufa das suas sensa√ß√Ķes uma religi√£o e uma pol√≠tica, para esse primeiro passo, o que acusa na alma que ele deu o primeiro passo, √© o sentir as coisas m√≠nimas extraordin√°ria ‚ÄĒ e desmedidamente. Este √© o primeiro passo, e o passo simplesmente primeiro n√£o √© mais do que isto. Saber p√īr no saborear duma ch√°vena de ch√° a vol√ļpia extrema que o homem normal s√≥ pode encontrar nas grandes alegrias que v√™m da ambi√ß√£o subitamente satisfeita toda ou das saudades de repente desaparecidas, ou ent√£o nos actos finais e carnais do amor; poder encontrar na vis√£o dum poente ou na contempla√ß√£o dum detalhe decorativo aquela exaspera√ß√£o de senti-los que geralmente s√≥ pode dar, n√£o o que se v√™ ou o que se ouve, mas o que se cheira ou se gosta ‚ÄĒ essa proximidade do objecto da sensa√ß√£o que s√≥ as sensa√ß√Ķes carnais ‚ÄĒ o tacto, o gosto, o olfacto – esculpem de encontro √† consci√™ncia; poder tornar a vis√£o interior, o ouvido do sonho ‚ÄĒ todos os sentidos supostos e do suposto ‚ÄĒ recebedores e tang√≠veis como sentidos virados para o externo: escolho estas, e as an√°logas suponham-se,

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A Actualidade em Poesia

Uma coisa é poesia actual, outra coisa é actualidade em poesia. A actualidade em poesia compreende um tempo específico, que não só não é o tempo subordinado ao espaço no qual o poeta se move, como até entra em conflito com este.
Fazer poesia actual n√£o √© escrever versos destinados a terem √™xito na actualidade representada pelo p√ļblico e pela critica, porque esta √© o atraso de um tempo de que o poeta √© o avan√ßo. Suspeito √© o poeta sempre que agradavelmente afei√ßoa os seus versos a uma comum sensibilidade liter√°ria. N√£o estou fazendo o elogio da poesia obscura ou ambiciosamente original. O gosto liter√°rio de uma √©poca pode ser precisamente a obscuridade e a originalidade. √Č o que acontece com a nossa. E neste caso originalidade como recurso √© poeticamente est√©ril, porque n√£o fascina mas apenas satisfaz. Nada menos original do que a acomodat√≠cia originalidade da poesia dos nossos dias e tamb√©m nada menos actual por isso mesmo. Quer um exemplo? A √ļltima poesia feita com excresc√™ncias do Surrealismo execrado pelos seus parasitas. Nalguns casos √© uma sufocada montagem de imagens achadas no cesto dos pap√©is do Surrealismo. Proclama-se uma renova√ß√£o morfol√≥gica investindo de maior poder a palavra,

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O Triunfo dos Imbecis

N√£o nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes t√™m por vezes de lutar contra si pr√≥prios e, como se isso n√£o bastasse, contra todos os med√≠ocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que v√°, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irm√£os e √©, por esp√≠rito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O est√ļpido s√≥ profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que √© imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o g√©nio tem o v√≠cio ter√≠vel de se contrapor √†s opini√Ķes dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis s√£o t√£o abundante e solicitamente louvadas – os ju√≠zes s√£o, quase na totalidade, do mesmo n√≠vel e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paix√Ķes med√≠ocres, expressas por algu√©m um pouco menos med√≠ocre do que eles.
Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares,

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Tantos S√£o os Gostos Quantos os Rostos

Ou tudo √© bom, ou tudo √© mau, segundo os votos. O que este segue aquele persegue. Insofr√≠vel n√©scio √© quem quer regular todo o feito pelo seu conceito. As perfei√ß√Ķes n√£o dependem do agrado de um s√≥. Tantos s√£o os gostos quantos os rostos, e t√£o variados. N√£o h√° sen√£o sem paix√£o, nem se h√°-de perder a confian√ßa porque as coisas n√£o agradam a uns, pois n√£o faltar√£o outros que as apreciem. E que tampouco o aplauso destes lhe seja motivo de convencimento, pois outros o condenar√£o. A norma do verdadeiro contentamento consigo mesmo √© a aprova√ß√£o dos var√Ķes de reputa√ß√£o, e que t√™m direito de voto naquela ordem de coisas. N√£o se vive de uma s√≥ opini√£o, de um s√≥ uso, de um s√≥ seculo.

Depravação e Génio

Uma vez que a maior parte das pessoas encara a santidade como qualquer coisa insulsa e conforme a uma pureza legal, é provável que a depravação represente uma maneira do génio dos sentidos, quer dizer, de desvio até ao extremo de uma vertente descida em liberdade e exterior às regras. Disto resulta que o génio, tal como é aceite, ou antes, tal como é tolerado, constitua uma depravação espiritual análoga a uma depravação dos sentidos. Muitas vezes uma arrasta a outra, e é raro um génio das letras, da escultura ou da pintura não se denunciar e, mesmo que lá não meta a sua carne, fazer prova de uma liberdade de ver, sentir e admirar que ultrapassa os limites consentidos.
(…) Acontece que nos interrogamos com estupefac√ß√£o sobre as in√ļmeras deprava√ß√Ķes de bairro lim√≠trofe que a pol√≠cia e os hospitais testemunham. S√≥ poderemos ver nelas o meandro onde os med√≠ocres se perdem quando decidem deixar-se arrastar e sair das regras que lhes foram destinadas.
Traduzam-se estas deprava√ß√Ķes noutra l√≠ngua, d√™-se-lhes eleva√ß√£o, transcend√™ncia, sejam elas revestidas de intelig√™ncia, e obter-se-√† uma imagem em ponto pequeno das altas deprava√ß√Ķes que as obras-primas da arte nos valem.
Tal como Picasso apanha o que encontra no lixo e o eleva à dignidade de servir,

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A Incomodidade da Grandeza

J√° que n√£o a podemos alcan√ßar, vinguemo-nos falando mal dela. No entanto, n√£o √© inteiramente falar mal de alguma coisa encontrar-lhe defeitos; estes encontram-se em todas as coisas, por belas e desej√°veis que sejam. Em geral, ela possui esta vantagem evidente de se rebaixar quando lhe apraz, e de mais ou menos ter a op√ß√£o entre uma situa√ß√£o e a outra; pois n√£o se cai de todas as alturas; s√£o mais numerosas aquelas das quais se pode descer sem cair. Bem me parece que a valorizamos demais, e valorizamos demais tamb√©m a decis√£o dos que vimos ou ouvimos dizer que a menosprezaram ou que renunciaram a ela por sua pr√≥pria inten√ß√£o. A sua ess√™ncia n√£o √© t√£o evidentemente c√≥moda que n√£o a possamos rejeitar sem milagre. Acho muito dif√≠cil o esfor√ßo de suportar os males; mas em contentar-se com uma medida mediana de fortuna e em fugir da grandeza acho pouca dificuldade. √Č uma virtude, parece-me, a que eu, que n√£o passo de um patinho, chegaria sem muito esfor√ßo. Que devem fazer aqueles que ainda levassem em considera√ß√£o a gl√≥ria que acompanha tal rejei√ß√£o, na qual pode caber mais ambi√ß√£o do que no pr√≥prio desejo e gozo da grandeza, porquanto a ambi√ß√£o nunca se conduz mais √† vontade do que por um caminho desgarrado e inusitado?

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√Čs Feliz?

Só há uma forma de seres feliz: tens de fazer por isso.

√Čs feliz? Queres ser? Fazes alguma coisa por isso?

Se fores, maravilha, transportas a bel√≠ssima responsabilidade de inspirar os outros a s√™-lo tamb√©m. Se ainda n√£o √©s, mas queres s√™-lo, o que tens feito por isso? Andas a respeitar-te mais vezes? A lutar pela viv√™ncia das tuas vontades? Andas mais perto da natureza? J√° consegues dizer mais vezes aquilo que sentes e aquilo que pensas? J√° n√£o p√Ķes sempre os outros √† tua frente? Come√ßaste a cuidar do teu corpo e da tua alimenta√ß√£o? Reduziste os v√≠cios? Se sim, fant√°stico. Parab√©ns! Gosto muito de pessoas felizes, mas a minha admira√ß√£o vai toda para aqueles que, n√£o o sendo ainda, lutam todos os dias para o ser, pela autodescoberta que os far√° refer√™ncia na vida de todos aqueles que os rodeiam. Agora, e por outro lado, se n√£o tens andado a fazer nada disto nem nada semelhante, mais vale assumires que, afinal, ser feliz n√£o √© uma vontade tua. E est√° tudo bem na mesma. Apenas te pe√ßo, em nome da comunidade dos seres humanos que querem viver e desfrutar desta am√°vel oportunidade que nos foi dada de aqui estar,

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Sobre a Diferença dos Espíritos

Apesar de todas as qualidades do espírito se poderem encontrar num grande espírito, algumas há, no entanto, que lhe são próprias e específicas: as suas luzes não têm limites, actua sempre de igual modo e com a mesma actividade, distingue os objectos afastados como se estivessem presentes, compreende e imagina as coisas mais grandiosas, vê e conhece as mais pequenas; os seus pensamentos são elevados, extensos, justos e intelegíveis; nada escapa à sua perspicácia, que o leva sempre a descobrir a verdade, através das obscuridades que a escondem dos outros. Mas, todas estas grandes qualidades não impedem por vezes que o espírito pareça pequeno e fraco, quando o humor o domina.
Um belo esp√≠rito pensa sempre nobremente; produz com facilidade coisas claras, agrad√°veis e naturais; torna vis√≠veis os seus aspectos mais favor√°veis, e enfeita-os com os ornamentos que melhor lhes conv√™m; compreende o gosto dos outros e suprime dos seus pensamentos tudo o que √© in√ļtil ou lhe possa desagradar. Um esp√≠rito recto, f√°cil e insinuante sabe evitar e ultrapassar as dificuldades; adapta-se facilmente a tudo o que quer; sabe conhecer e acompanhar o espirito e o humor daqueles com quem priva e ao preocupar-se com os interesses dos amigos,

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Nada Pior que a Frivolidade

A frivolidade, meu amigo, aniquila os homens que a ela se apegam; talvez n√£o haja v√≠cio que n√£o se deva preferir a ela, pois ainda √© melhor ser vicioso do que n√£o ser nada. O nada est√° abaixo do tudo, o nada √© o maior dos v√≠cios; e que n√£o me diga que √© ser alguma coisa o ser fr√≠volo: √© n√£o ser nem para a virtude, nem para a gl√≥ria, nem para a raz√£o, nem para os prazeres apaixonados. Direis talvez: gosto mais de um homem nulo para qualquer vitude do que daquele que s√≥ existe para o v√≠cio. Eu vos responderei: aquele que √© nulo para a virtude n√£o est√° por isso livre dos v√≠cios; ele pratica o mal por leviandade e por fraqueza; ele √© o instrumento dos maus que t√™m mais g√©nio. Ele √© menos perigoso do que um homem seriamente empenhado no mal, isso √© poss√≠vel; mas ser√° necess√°rio ser grato ao gavi√£o por ele s√≥ destruir os insectos e por ele n√£o destruir os rebanhos e os campos como os le√Ķes e as √°guias? Um homem corajoso e dotado de sabedoria n√£o teme um homem mau; mas n√£o pode impedir-se de desprezar um homem fr√≠volo.

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Aprender a Morrer para Saber Viver

Diz C√≠cero que filosofar n√£o √© outra coisa sen√£o preparar-se para a morte. Isso porque de certa forma o estudo e a contempla√ß√£o retiram a nossa alma para fora de n√≥s e ocupam-na longe do corpo, o que √© um certo aprendizado e representa√ß√£o da morte; ou ent√£o porque toda a sabedoria e discernimento do mundo se resolvem por fim no ponto de nos ensinarem a n√£o termos medo de morrer. Na verdade, ou a raz√£o se abst√©m ou ela deve visar apenas o nosso contentamento, e todo o seu trabalho deve ter como objectivo, em suma, fazer-nos viver bem e ao nosso gosto, como dizem as Santas Escrituras. Todas as opini√Ķes do mundo coincidem em que o prazer √© a nossa meta, embora adoptem meios diferentes para isso; de outra forma as rejeitar√≠amos logo de in√≠cio, pois quem escutaria algu√©m que estabelecesse como fim o nosso penar e descontentamento?