Textos sobre Ternura

49 resultados
Textos de ternura escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Neruda e García Lorca em Homenagem a Rubén Dario

Eis o texto do discurso:

Neruda: Senhoras…

Lorca: …e senhores. Existe na lide dos touros uma sorte chamada ¬ętoreio dei alim√≥n¬Ľ, em que dois toureiros furtam o corpo ao touro protegidos pela mesma capa.

Neruda: Federico e eu, ligados por um fio eléctrico, vamos emparelhar e responder a esta recepção tão significativa.

Lorca: √Č costume nestas reuni√Ķes que os poetas mostrem a sua palavra viva, prata ou madeira, e sa√ļdem com a sua voz pr√≥pria os companheiros e amigos.

Neruda: Mas n√≥s vamos colocar entre v√≥s um morto, um comensal vi√ļvo, escuro nas trevas de uma morte maior que as outras mortes, vi√ļvo da vida, da qual foi na sua hora um marido deslumbrante. Vamos esconder-nos sob a sua sombra ardente, vamos repetir-lhe o nome at√© que a sua grande for√ßa salte do esquecimento.

Lorca: N√≥s, depois de enviarmos o nosso abra√ßo com ternura de pinguim ao delicado poeta Amado Villar, vamos lan√ßar um grande nome sobre a toalha, na certeza de que v√£o estalar as ta√ßas, saltar os garfos, buscando o olhar que todos anseiam, e que um golpe de mar h√°-de manchar as toalhas. N√≥s vamos evocar o poeta da Am√©rica e da Espanha: Rub√©n…

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As Tuas L√°grimas

As tuas lágrimas respiram e florescem, o lugar onde te sentas é o rio que corre em sobressalto por dentro de uma árvore, seiva renovada que transporta palavras até às folhas felizes de~um amor demorado e ainda puro. E essa ávore fala através das tuas palavras, demora-se em conversas com as abelhas, com os gaios, com o vento.
As tuas l√°grimas iluminam as p√°ginas alucinadas dos livros de poesia, e as mesas claras t√£o cheias de frutos que se assemelham a fogueiras ruivas, alimento privilegiado de um imenso e intenso drag√£o que me aquece o sangue.
As tuas lágrimas transbordam os grandes lagos dos meus olhos e eu choro contigo os grandes peixes da ternura, esses mesmos peixes que são os arquitectos perturbados de uma relação sem tempo mas alimentada por primaveras que de tão altas são inquestionáveis.
As tuas l√°grimas fertilizam as searas celestes, arrefecem o movimento dos vulc√Ķes, absorvem toda a beleza do arco-√≠ris, embebedam-se com a do√ßura das estrelas. E s√£o oferendas √† m√£e terra, o reconhecimento final do princ√≠pio do nosso pequeno mundo. As tuas l√°grimas s√£o minhas amigas. S√£o as minhas l√°grimas. A forma de chorar-te cheio de alegria, ferido por esta felicidade de amar-te muito,

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O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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O Segredo de Salvar-me Pelo Amor

Quem há aí que possa o cálix
De meus l√°bios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poder√° mudar as cenas
Que ningu√©m p√īde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dar√° gota de √°gua
Nesta angustiosa fr√°gua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em v√£o.

Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz √† inf√Ęncia ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

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As Desvantagens do Ateísmo

Parece-nos que o homem feliz n√£o colhe vantagem alguma em ser ateu. √Č-lhe t√£o agrad√°vel cismar que os seus dias se prolongar√£o al√©m da vida! Com que desespero n√£o deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabe√ßa se acumulariam todos os bens do s√©culo, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode tamb√©m contar com que a religi√£o lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplic√°vel ternura; n√£o se lhe endurecer√° o cora√ß√£o, o gozo, escolho inevit√°vel das grandes prosperidades, n√£o o infastiar√°; que a religi√£o refrigera as sequid√Ķes da alma: √© o que representa esse √≥leo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a inf√Ęncia, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: ser√° ateu esse filho da gl√≥ria? O que busca uma vida infinita consentir√° em termin√°-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumer√°veis, antigas legi√Ķes da p√°tria! Famosas mil√≠cias de Fran√ßa, e agora mil√≠cias do c√©u, aparecei! Dizei aos her√≥is da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo n√£o cai inteiro no tumulo, e que, ap√≥s ele, permanece alguma coisa mais que um v√£o renome.

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O Amor na Lama

– Esteban, o homem n√£o poderia fazer grandes obras sem trabalhos pequenos; na maqueta do carpinteiro est√° todo o edif√≠cio do arquiteto, n√£o h√° profiss√Ķes grandes e pequenas: alegro-me que tenhas decidido ficar connosco na carpintaria, mas conv√©m que te lembres disso. N√£o te esque√ßas de que Deus tamb√©m se senta numa cadeira e come a uma mesa e dorme numa cama. Como qualquer um. Pode prescindir dos ret√°bulos, das est√°tuas e dos livros que lhe dedicam, incluindo a B√≠blia, mas n√£o da cadeira, da mesa e da cama. ‚ÄĒ O meu tio esfor√ßava-se muito. Queria que eu me sentisse bem na profiss√£o. Que come√ßasse a gostar dela. Acreditava que eu vivia como um fracasso a decis√£o de ter abandonado a Escola de Belas–Artes. Intu√≠a certamente que eu precisava de desenvolver a minha autoestima. Mas tudo isso me parecia mera ret√≥rica ‚ÄĒ e era-o ‚ÄĒ, a verdade √© que por essa altura j√° tinha come√ßado a sair com Leonor e era ela quem eu amava, aprendia a gostar de mim atrav√©s dela. Descobria o meu corpo em cada palmo do corpo dela, e o meu corpo ganhava valor porque lhe pertencia, era o seu complemento: acreditava que partilh√°vamos dois corpos que jamais poderiam separar-se e viver cada um por si.

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A Certeza na Vitória

Ningu√©m pode ir para a batalha a menos que esteja plenamente convencido da vit√≥ria em antem√£o. Se come√ßarmos sem confian√ßa, j√° perdemos metade da batalha e enterramos os nossos talentos. Enquanto dolorosamente conscientes das nossas pr√≥prias fraquezas, temos que marchar sem ceder, tendo em mente o que o Senhor disse a S√£o Paulo: ¬ęA minha gra√ßa te basta, porque o poder se aperfei√ßoa na fraqueza¬Ľ (2 Cor 12: 9). O triunfo crist√£o √© sempre uma cruz, mas uma cruz que √© ao mesmo tempo uma bandeira vitoriosa suportada com ternura agressiva contra os assaltos do mal. O esp√≠rito maligno de derrotismo √© irm√£o da tenta√ß√£o de se separar, antes do tempo, o trigo do joio; √© o fruto de uma ansiosa e auto-centrada falta de confian√ßa.

A Armadilha da Realidade

Uma das primeiras armadilhas interiores √© aquilo que chamamos de ¬ęrealidade¬Ľ. Falo, √© claro, da ideia de realidade que actua como a grande fiscalizadora do nosso pensamento. O maior desafio √© sermos capazes de n√£o ficar aprisionados nesse recinto que uns chamam de ¬ęraz√£o¬Ľ, outros de ¬ębom-senso¬Ľ. A realidade √© uma constru√ß√£o social e √©, frequentemente, demasiado real para ser verdadeira. N√≥s n√£o temos sempre que a levar t√£o a s√©rio.
Quando Ho Chi Minh saiu da pris√£o e lhe perguntaram como conseguiu escrever versos t√£o cheios de ternura numa pris√£o t√£o desumana ele respondeu: ¬ęEu desvalorizei as paredes.¬Ľ Essa li√ß√£o se converteu num lema da minha conduta.
Ho Chi Minh ensinou a si pr√≥prio a ler para al√©m dos muros da pris√£o. Ensinar a ler √© sempre ensinar a transpor o imediato. √Č ensinar a escolher entre sentidos vis√≠veis e invis√≠veis. E ensinar a pensar no sentido original da palavra ¬ępensar¬Ľ que significava ¬ęcurar¬Ľ ou ¬ętratar¬Ľ um ferimento. Temos de repensar o mundo no sentido terap√™utico de o salvar de doen√ßas de que padece. Uma das prescri√ß√Ķes m√©dicas √© mantermos a habilidade da transcend√™ncia, recusando ficar pelo que √© imediatamente percept√≠vel. Isso implica a aplica√ß√£o de um medicamento chamado inquieta√ß√£o cr√≠tica.

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Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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N√£o H√° Amor como o Primeiro

N√£o h√° amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, h√° o equivalente adulto ao primeiro amor ‚ÄĒ √© o primeiro casamento; mas n√£o √© igual. O primeiro amor √© uma chapada, um sacudir das ra√≠zes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as entranhas e n√£o nos explica. Electrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem-nos as √≥rbitas dos olhos, do impens√°vel calor de podermos ser amados. Atiramo-nos ao nosso primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde salt√°mos. Saltamos e ca√≠mos. Enchemos o peito de ar, seguramos as narinas com os dedos a fazer de mola de roupa, juramos fazer tr√™s ou quatro mortais de costas, e estatelamo-nos na √°gua ou no ch√£o, como patos disparados de um obus, com penas a esvoa√ßar por toda a parte.

H√° amores melhores, mas s√£o amores cansados, amores que j√° levaram na cabe√ßa, amores que sabem dizer ‚ÄúAlto-e-p√°ra-o-baile‚ÄĚ, amores que j√° d√£o o desconto, amores que j√° t√™m medo de se magoarem, amores democr√°ticos, que se discutem e debatem. E todos os amores d√£o maior prazer que o primeiro. O primeiro amor est√° para al√©m das categorias normais da dor e do prazer. N√£o faz sentido sequer.

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Todo o Presente Espera pelo Passado para nos Comover

H√° v√°ria gente que n√£o gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina pr√°tica e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado √© reaccion√°rio. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele √© preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado √© a ternura e a legenda, o absoluto e a m√ļsica, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evoca√ß√£o. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. H√° a filtragem do tempo para purificar esse presente at√© √† fluidez imposs√≠vel, √† sublima√ß√£o do encantamento, √† incorrupt√≠vel verdade que nele se oculta e √© a sua √ļnica raz√£o de ser. O presente √© cheio de urg√™ncias mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro j√° se lhe toca com a m√£o. H√° tanto que ter vida ainda, quando j√° se a n√£o tem…

Luto pela Bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. N√£o excomungarei ningu√©m. N√£o diria, amanh√£, a esse sacerdote: ¬ęVoc√™ n√£o pode baptizar ningu√©m porque √© anticomunista.¬Ľ N√£o diria ao outro: ¬ęN√£o publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque voc√™ √© anticomunista.¬Ľ Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais t√≠tulos al√©m desse, sem trazerem na cabe√ßa uma regra-, uma palavra r√≠gida, um r√≥tulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que n√£o esperem ningu√©m, nunca mais, √† porta do munic√≠pio para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da C√Ęmara Municipal. N√£o quero que ningu√©m fuja em g√īndola, que ningu√©m seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a √ļnica maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta sen√£o como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor sen√£o como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ub√≠qua, extensa, inexaur√≠vel. De tantos encontros entre a minha poesia e a pol√≠cia, de todos esses epis√≥dios e de outros que n√£o contarei porque repetidos,

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Casamento e Fus√£o Moral

Na vida conjugal, o casal s√≥ deve formar de certo modo uma √ļnica pessoa moral, animada e governada pelo gosto da mulher e pela intelig√™ncia do homem. Se as mulheres mostram mais liberdade e fineza no sentimento, em compensa√ß√£o os homens parecem mais ricos no discernimento que a experi√™ncia d√°. Acrescentemos que quanto mais um car√°cter √© sublime, mais ele tende a fazer todos os seus esfor√ßos para o contentamento do ser amado, e √© caracter√≠stico de uma bela alma responder a isso com complac√™ncia. Sob essa rela√ß√£o, toda a pretens√£o √† superioridade seria, portanto, inepta e reveladora de um gosto grosseiro ou de uma uni√£o mal sucedida. Tudo se perde quando se disputa o comando. Pois uma vez que a uni√£o repousa na inclina√ß√£o, ela √© meio rompida assim que o dever come√ßa a se fazer entender.
Um tom duro e impiedoso é um dos mais detestáveis nas mulheres, um dos mais vis e desprezíveis nos homens. O sábio comando da natureza quer, além disso, que toda essa delicadeza, toda essa ternura de sentimento só tenha plena força no começo, em seguida a vida em comum e os afazeres domésticos vêm enfraquecê-la, pouco a pouco, e transformá-la em amizade familiar.

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A Amizade como Auxiliar da Virtude

A maioria dos homens, na sua injusti√ßa, para n√£o dizer na sua imprud√™ncia, quer possuir amigos tais como eles pr√≥prios n√£o seriam. Exigem o que n√£o t√™m. O que √© justo √© que, primeiro, sejamos homens de bem e em seguida procuremos o que nos pare√ßa s√™-lo. S√≥ entre homens virtuosos se pode estabelecer esta conveni√™ncia em amizade, sobre a qual insisto h√° muito tempo. Unidos pela benevol√™ncia, guiar-se-√£o nas paix√Ķes a que se escravizam os outros homens. Amar√£o a justi√ßa e a equidade. Estar√£o sempre prontos a tudo empreender uns pelos outros, e n√£o se exigir√£o reciprocamente nada que n√£o seja honesto e leg√≠timo. Enfim, ter√£o uns para os outros, n√£o somente defer√™ncias e ternuras, mas, tamb√©m, respeito. Eliminar o respeito da amizade √© podar-lhe o seu mais belo ornamento.
√Č pois erro funesto crer que a amizade abre via livre √†s paix√Ķes e a todos os g√©neros de desordens. A natureza deu-nos a amizade, n√£o como cumplice do v√≠cio, mas como auxiliar da virtude.
A fim de que a virtude, que, sozinha, não poderia chegar ao ápice, pudesse atingi-lo com o auxílio e o apoio de tal companhia. Aqueles para quem esta aliança existe, existiu ou existirá,

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O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida n√£o tem ainda o afecto exclusivo e √ļnico que h√°-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que h√°-de ver voar, voar para t√£o longe ainda!… E no entanto, elas s√£o t√£o verdadeiras! Ainda assim, minha querida J√ļlia, uma das coisas melhores da nossa vida de t√£o prosaico s√©culo, √© o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mist√©rio; as nossas p√©talas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor √ļnico, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala J√ļlio Dantas, ¬ęuma ternura casta, uma ternura s√£¬Ľ de que ¬ęo peito que o sente √© um sacr√°rio estrela¬≠do¬Ľ, como diz Junqueiro; o amor que √© a raz√£o √ļnica da vida que se vive e da alma que se tem; a paix√£o delicada que d√° beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, ‚ÄĒ √© ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande cora√ß√£o, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que ¬ęem sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora¬Ľ, esse amor h√°-de senti-lo um dia,

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√Č Prov√°vel que Ainda a Ame

√Č prov√°vel, sim, √© prov√°vel que ainda a ame, que ame nela o que antes soube amar, a cabeleira escura, o ventre inquietante, o peito guardando a alegria de um cora√ß√£o solar. Os meus olhos profundos sempre a contemplaram visivelmente perturbados, at√© mesmo perdidos, quando ela caminhava abrindo rasg√Ķes no ar que se fechavam depois √† sua passagem para cingir-lhe os bra√ßos, os seios e as ancas. A sua boca tremeu na minha com a sede da m√ļsica e o seu contacto era o do musgo e o da cinza, e dessas cerejas maduras pelo lume de maio. N√£o sei se estou a endeus√°-la ou se ela √© uma deusa. N√£o sei mesmo se conseguirei dizer dela quanto gostaria. Ela est√° t√£o perto do meu corpo que a minha pele se acende, e t√£o longe dos meus olhos que s√≥ poderei lembr√°-la. Fiz√©mos muito amor e sempre muitas vezes, sem que entre n√≥s esvoa√ßasse uma minima sombra. Quando fic√°vamos tristes, √© que o espanto crescia at√© ao minuto primeiro da tristeza. √Č uma mulher maravilhosa, o seu nome que importa?, t√£o fr√°gil como um menino inocente, assim desamparada, correndo para a loucura como antes correu para os meus bra√ßos. Nenhuma paix√£o poderia doer-me mais.

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Confiss√£o Social

Ninguém tem qualquer interesse em saber isto; mas se eu tivesse de me confessar socialmente, a síntese do meu desespero era esta: que cheguei, em matéria de descrença no homem, à saturação.
E, contudo, este perdido, este condenado, merece-me uma ternura tal, que não há tolice que faça, asneira que invente, mentira que diga que me deixem indiferente. Tenho por força de olhar, reparar, ouvir, e comentar com toda a paixão de que sou capaz.

Ser Diferente

A √ļnica salva√ß√£o do que √© diferente √© ser diferente at√© o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ningu√©m toma e usar os meios de que ningu√©m usa; n√£o ceder a press√Ķes, nem aos afagos, nem √†s ternuras, nem aos rancores; ser ele; n√£o quebrar as leis eternas, as n√£o-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas ‚ÄĒ batalhas para os outros, n√£o para ele, que as percebe ‚ÄĒ h√°-de provocar o respeito e dominar as lembran√ßas; teve a coragem de ser c√£o entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia h√£o-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

A Verdadeira Filosofia de Vida

Trabalhar com nobreza, esperar com sinceridade, sentir as pessoas com ternura, esta é a verdadeira filosofia.
1 – N√£o tenhas opini√Ķes firmes, nem creias demasiadamente no valor das tuas opini√Ķes.
2 РSê tolerante, porque não tens certeza de nada.
3 РNão julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas sim os actos.
4 – Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5 РNão mates nem estragues, porque não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério.
6 – N√£o queiras reformar nada, porque n√£o sabes a que leis as coisas obedecem.
7 – Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles.