Textos sobre P√£o

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Textos de pão escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Um Homem Possui Tr√™s Est√īmagos

– H√° muitos tipos dc comida ‚ÄĒ disse o coronel M√Ķller enquanto abanava o filho.- Um homem possui tr√™s est√īmagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabe√ßa. O da barriga, toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respira√ß√£o, que √© a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem √°gua e p√£o. E por fim h√° o est√īmago da cabe√ßa, que se alimenta de palavras e de letras. Os primeiros dois est√īmagos do homem alimentam-se atrav√©s da boca c do nariz, ao passo que o terceiro est√īmago se alimenta principalmente atrav√©s dos olhos e dos ouvidos, apesar de usar tudo o resto dc um modo mais subtil.
‚ÄĒ Para mim ‚ÄĒ disse o mordomo ‚ÄĒ, as palavras s√£o uma grande palermice.

Os Artistas Verdadeiros não Têm Ideologia

Dia entre pescadores. Eles a pescarem sardinha para a fome org√Ęnica do corpo, e eu a pescar imagens para uma necessidade igual do esp√≠rito. Tisnados de sa√ļde, os homens olham-me; e eu, amarelo de doen√ßa, olho-os tamb√©m. Certamente que se julgam mais justificados do que eu, e que o mundo inteiro lhes d√° raz√£o. Mas da mesma maneira que eles, sem que ningu√©m lhes pe√ßa sardinha, se metem √†s ondas, tamb√©m eu, sem que ningu√©m me pe√ßa poesia, me lan√ßo a este mar da cria√ß√£o. H√° uma coisa que nenhuma ideologia pode tirar aos artistas verdadeiros: √© a sua consci√™ncia de que s√£o t√£o fundamentais √† vida como o p√£o. Podem acus√°-los de servirem esta ou aquela classe. Pura cal√ļnia. √Č o mesmo que dizer que uma flor serve a princesa que a cheira. O mundo n√£o pode viver sem flores, e por isso elas nascem e desabrocham. Se olhos menos avisados passam por elas e as n√£o podem ver, a trai√ß√£o n√£o √© delas, mas dos olhos, ou de quem os mant√©m cegos e incultos.

Venda da Alma e Venda do Corpo

N√£o s√≥ as mulheres que casam sem amor, mas apenas por conveni√™ncia; n√£o s√≥ as esposas que continuam a comer o p√£o daquele que j√° n√£o amam e enganam; n√£o s√≥ as mulheres se prostituem. √Č prostituto o escritor que coloca a pena ao servi√ßo das ideias em que n√£o cr√™; o advogado que defende causas que reconhece injustas; quem finge a ades√£o aos mitos e interesses dos poderosos para obter recompensas materiais e morais; o actor e o bobo que se exp√Ķem diante dos idiotas pagantes para arrecadar aplausos e dinheiro; o poeta que abre aos estranhos os segredos da sua alma, amores e melancolias, para obter em compensa√ß√£o um pouco de fama, de dinheiro ou de compaix√£o; e, acima de tudo, √© prostituto o pol√≠tico, o demagogo, o tribuno que todos devem acariciar, seduzir, a todos promete favores e felicidade e a todos se entrega por amor √† popularidade – justamente chamado homem p√ļblico, quase irm√£o de toda a mulher p√ļblica.
Mas quem de entre n√≥s, pelo menos um dia da sua vida, n√£o simulou um sentimento que n√£o tinha e um entusiasmo que n√£o sentia e repetiu uma opini√£o falsa para obter compensa√ß√Ķes, cumplicidades, sorrisos ou benef√≠cios?

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O Ciclo do Progresso

Da sociedade e do luxo que ela engendra, nascem as artes liberais e mec√Ęnicas, o com√©rcio, as letras, e todas essas inutilidades que fazem florescer a ind√ļstria, enriquecem e perdem os Estados. A raz√£o desse deperecimento √© muito simples. √Č f√°cil ver que, pela sua natureza, a agricultura deve ser a menos lucrativa de todas as artes, porque, sendo o seu produto de uso mais indispens√°vel para todos os homens, o pre√ßo deve estar proporcionado √†s faculdades dos mais pobres. Do mesmo princ√≠pio pode-se tirar a regra de que, em geral, as artes s√£o lucrativas na raz√£o inversa da sua utilidade, e de que as mais necess√°rias, finalmente, devem tornar-se as mais negligenciadas. Por ai se v√™ o que se deve pensar das verdadeiras vantagens da ind√ļstria e do efeito real que resulta dos seus progressos. Tais s√£o as causas sens√≠veis de todas as mis√©rias em que a opul√™ncia precipita, finalmente, as na√ß√Ķes mais admiradas.
√Ä medida que a ind√ļstria e as artes se estendem e florescem, o cultivador desprezado, carregado de impostos necess√°rios √† manuten√ß√£o do luxo, e condenado a passar a vida entre o trabalho e a fome, abandona o campo para ir procurar na cidade o p√£o que devia levar para l√°.

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Se Penso, Existo

Se penso, existo; se falo, existo para os outros, com os outros.

A necessidade é o lugar do encontro. Procuro os outros para me lembrar que existo. E existo, porque os outros me reconhecem como seu igual. Por isso, a minha vida é parte de outras vidas, como um sorriso é parte de uma alegria breve.

Breve é a vida e o seu rasto. A posteridade é apenas a memória acesa de uma vela efémera. Para que a memória não se apague, temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma catedral.

A necessidade de sobrevivência é o pão da fraternidade.
O futuro é uma construção colectiva.

Boa e M√° Literatura

O que acontece na literatura n√£o √© diferente do que acontece na vida: para onde quer que se volte, depara-se imediatamente com a incorrig√≠vel plebe da humanidade, que se encontra por toda a parte em legi√Ķes, preenchendo todos os espa√ßos e sujando tudo, como as moscas no ver√£o.
Eis a raz√£o do n√ļmero incalcul√°vel de livros maus, essa erva daninha da literatura que tudo invade, que tira o alimento do trigo e o sufoca. De facto, eles arrancam tempo, dinheiro e aten√ß√£o do p√ļblico – coisas que, por direito, pertencem aos bons livros e aos seus nobres fins – e s√£o escritos com a √ļnica inten√ß√£o de proporcionar algum lucro ou emprego. Portanto, n√£o s√£o apenas in√ļteis, mas tamb√©m positivamente prejudiciais. Nove d√©cimos de toda a nossa literatura actual n√£o possui outro objectivo sen√£o o de extrair alguns t√°leres do bolso do p√ļblico: para isso, autores, editores e recenseadores conjuraram firmemente.
Um golpe astuto e maldoso, porém notável, é o que teve êxito junto aos literatos, aos escrevinhadores que buscam o pão de cada dia e aos polígrafos de pouca conta, contra o bom gosto e a verdadeira educação da época, uma vez que eles conseguiram dominar todo o mundo elegante,

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A Essência do Fanatismo

A ess√™ncia do fanatismo consiste em considerar determinado problema como t√£o importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do p√£o √°zimo na comunh√£o do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da pen√≠nsula indiana est√£o dispostos a precipitar o seu pa√≠s na ru√≠na por divergirem numa quest√£o importante: saber se o pecado mais detest√°vel consiste em comer carne de porco ou de vaca. Os reaccion√°rios amercianos prefiririam perder a pr√≥xima guerra do que empregar nas investiga√ß√Ķes at√≥micas qualquer indiv√≠duo cujo primo em segundo grau tivesse encontrado um comunista nalguma regi√£o. Durante a Primeira Guerra Mundial, os escoceses sabat√°rios, a despeito da escassez de v√≠veres provocada pela actividade dos submarinos alem√£es, protestavam contra a planta√ß√£o de batatas ao domingo e diziam que a c√≥lera divina, devido a esse pecado, explicava os nossos malogros militares. Os que op√Ķem objec√ß√Ķes teol√≥gicas √† limita√ß√£o dos nascimentos, consentem que a fome, a mis√©ria e a guerra persistam at√© ao fim dos tempos porque n√£o podem esquecer um texto, mal interpretado, do G√©nese. Os partid√°rios entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a ra√ßa humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal –

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O Necessário não é Propriamente um Bem

Toda a vida, em meu entender, √© uma mentira: j√° que √©s t√£o engenhoso, critica-a e recondu-la ao caminho da verdade. Ela considera como necess√°rias coisas que em grande parte n√£o passam de sup√©rfluas; e mesmo as que n√£o s√£o sup√©rfluas n√£o contribuem em nada para nos dar bem estar e felicidade. Pelo facto de ser necess√°ria, uma coisa n√£o √©, desde logo, um bem; ou ent√£o degradamos o conceito de ¬ębem¬Ľ, dando este nome ao p√£o, √† polenta e a tudo o mais imprescind√≠vel √† vida. Tudo o que √© bem, √©, por isso mesmo, necess√°rio, mas o que √© necess√°rio n√£o √© for√ßosamente um bem: h√° muita coisa necess√°ria e, simultaneamente, de baixo n√≠vel.
Ninguém é tão ignorante da dignidade do bem que degrade o conceito ao nível dos objectos de uso diário. Pois bem, não seria melhor que te aplicasses antes a mostrar todo o tempo que se perde na busca de superfluidades, a apontar como tanta gente desperdiça a vida na busca do que não passa de meios auxiliares? Observa os indivíduos, considera a sociedade: todos vivem em função do amanhã! Não sabes que mal há nisto? O maior possível. Essa gente não vive, espera viver,

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A Forma como me Amas, M√£e

H√° qualquer coisa de Deus na forma como me amas, m√£e.
As pessoas n√£o s√£o t√£o grandes como tu, as pessoas n√£o aguentam tanto a vida como tu. As pessoas choram, as pessoas sofrem, as pessoas passam pela vida √† procura da melhor maneira de viver. Mas tu amas-me, m√£e. Tu amas-me assim, sem condi√ß√Ķes, e parece que quando me amas nem sequer existes. Apenas ficas ali, a ver-me existir, e √© assim que descobres e me ensinas que a vida se resume a ver quem amas viver.

Há qualquer coisa de impossível na forma como me amas, mãe.
O poss√≠vel teria de exigir que parasses quando te d√≥i, que parasses quando o mundo, filho da puta do mundo, te obriga a inventares novas maneiras de me dares tudo o que eu preciso. O poss√≠vel iria dizer-te que n√£o, que uma s√≥ pessoa, t√£o pequena e t√£o grande como tu, n√£o pode suportar todo o peso de duas vidas. E tu ainda a√≠ est√°s, t√£o forte como s√≥ tu, t√£o imposs√≠vel como s√≥ tu, a sorrir quando me v√™s de caderno na m√£o a dizer que sou o melhor aluno da turma. √Č claro que √© bom ser bom aluno,

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O Amor é Inevitável

(O Amor) √Č inevit√°vel, faz parte da combust√£o da natureza, √© for√ßa, mar, elemento, √°gua, fogo, destrui√ß√£o, √© atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, √© um elemento, come-se, bebe-se, sustenta p√£o, p√£o di√°rio para rico e pobre, p√£o que ilumina o forno do amassador, aparece nas condi√ß√Ķes mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatoz√≥ide e √≥vulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor √© assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou t√£o alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a √°gua est√°, √© indispens√°vel, ningu√©m pode viver alheio aos elementos, ao amor.

Regras Gerais da Arte da Guerra

Estou consciente de vos ter falado de muitas coisas que por vós mesmos haveis podido aprender e ponderar. Não obstante, fi-lo, como ainda hoje vos disse, para melhor vos poder mostrar, através delas, os aspectos formais desta matéria,e, ainda, para satisfazer aqueles Рse fosse esse o caso Рque não tivessem tido, como vós, a oportunidade de sobre elas tomar conhecimento. Parece-me que, agora, já só me resta falar-vos de algumas regras gerais, com as quais deveis estar perfeitamente identificados. São as seguintes:
– Tudo o que √© √ļtil ao inimigo √© prejudicial para ti, e, tudo o que te √© √ļtil prejudica o inimigo.
– Aquele que, na guerra, for mais vigilante a observar as inten√ß√Ķes do inimigo e mais empenho puser na prepara√ß√£o do seu ex√©rcito, menos perigos correr√° e mais poder√° aspirar √† vit√≥ria.
– Nunca leves os teus soldados para o campo de batalha sem, previamente, estares seguro do seu √Ęnimo e sem teres a certeza de que n√£o t√™m medo e est√£o disciplinados e convictos de que v√£o vencer.
– √Č prefer√≠vel vencer o inimigo pela fome do que pelas armas. A vit√≥ria pelas armas depende muito mais da fortuna do que da virtude.

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√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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Uma Vida Simples e Modesta

N√£o depender sen√£o de si mesmo √©, em nossa opini√£o, um grande bem, mas da√≠ n√£o se segue que devamos sempre contentar-nos com pouco. Simplesmente, quando nos falte a abund√Ęncia, devemos poder contentar-nos com pouco, persuadidos de que gozam melhor a riqueza os que t√™m menor n√ļmero de cuidados, e de que tudo quanto seja natural se obt√©m facilmente, enquanto o que n√£o o √© s√≥ se consegue a custo. As iguarias mais simples proporcionam tanto prazer quanto a mesa mais ricamente servida, sempre que esteja ausente o sofrimento causado pela necessidade, e o p√£o e a √°gua ocasionam o mais vivo prazer quando s√£o saboreados ap√≥s longa priva√ß√£o.
O h√°bito de uma vida simples e modesta √©, pois, uma boa maneira de cuidar da sa√ļde e, ademais, torna o homem corajoso para suportar as tarefas que deve necessariamente cumprir na vida. Permite-lhe ainda apreciar melhor uma vida opulenta, quando se lhe enseje, e fortalece-o contra os reveses da fortuna. Por conseguinte, quando dizemos que o prazer √© o soberano bem, n√£o falamos dos prazeres dos devassos, nem dos gozos sensuais, como o pretendem alguns ignorantes que nos combatem e nos desfiguram o pensamento. Falamos da aus√™ncia de sofrimento f√≠sico e da aus√™ncia de perturba√ß√£o moral.

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Dizer N√£o

Diz NÃO à liberdade que te oferecem, se ela é só a liberdade dos que ta querem oferecer. Porque a liberdade que é tua não passa pelo decreto arbitrário dos outros.

Diz NÃO à ordem das ruas, se ela é só a ordem do terror. Porque ela tem de nascer de ti, da paz da tua consciência, e não há ordem mais perfeita do que a ordem dos cemitérios.

Diz N√ÉO √† cultura com que queiram promover-te, se a cultura for apenas um prolongamento da pol√≠cia. Porque a cultura n√£o tem que ver com a ordem policial mas com a inteira liberdade de ti, n√£o √© um modo de se descer mas de se subir, n√£o √© um luxo de ¬ęelitismo¬Ľ, mas um modo de seres humano em toda a tua plenitude.

Diz N√ÉO at√© ao p√£o com que pretendem alimentar-te, se tiveres de pag√°-lo com a ren√ļncia de ti mesmo. Porque n√£o h√° uma s√≥ forma de to negarem negando-to, mas infligindo-te como pre√ßo a tua humilha√ß√£o.

Diz NÃO à justiça com que queiram redimir-te, se ela é apenas um modo de se redimir o redentor. Porque ela não passa nunca por um código,

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A Procura nos Outros

S√≥ n√£o se basta a si pr√≥prio o que n√£o tem com que se bastar. Assim se explica que ele busque nos outros o que lhe falta em si mesmo. Isto deve estar certo. E todavia pode n√£o estar. O que falta no que encontramos pode n√£o ter que ver com o que l√° est√°, mas com o que l√° se procura. O erro est√° pois no que se n√£o deve procurar. Posso procurar um sistema de ideias onde s√≥ encontro uma dose de senso comum. Posso encontrar uma c√īdea de p√£o onde procurei um bife com ovo a cavalo. Assim h√° que ir procurar no fornecimento alheio o que nos falta no pr√≥prio – em contentamento, em pacifica√ß√£o, em reconhecimento da gl√≥ria de que duvido ou n√£o tenho. E no entanto, a ambi√ß√£o puramente individual √© √† nossa medida que deveria talhar-se. Excepto talvez para o que sustenta essa ambi√ß√£o, ou seja para o que nos sustenta. Mas nesse caso a ambi√ß√£o chama-se justi√ßa e j√° n√£o √© individual. E nesse caso fazem-se revolu√ß√Ķes.

Cada Cabeça, Cada Sentença

A ideia de ningu√©m ter raz√£o (haja ou n√£o haja p√£o) √© portugues√≠ssima. Sobre qualquer assunto, Portugal garante-nos sempre pelo menos dez milh√Ķes de raz√Ķes, cada uma com a sua diferen√ßazinha, cada uma com a sua insolenciazeca do “eu c√° √© que sei”. N√£o h√° neste aben√ßoado territ√≥rio um √ļnico sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que n√£o reclame a sua inobjectiv√°vel subjectividade. L√° diz o raio do povo, por tratar-se da √ļnica coisa em que o povo todo est√° de acordo, ¬ęCada cabe√ßa, cada senten√ßa¬Ľ. Basta fazer-se uma reuni√£o ou um j√ļri, um governo ou uma comiss√£o, para assistir-se ao milagre da multiplica√ß√£o das opini√Ķes.

Quando se Deve Violar a Lei Moral

√Č leg√≠tima toda a viola√ß√£o da lei moral que √© feita em obedi√™ncia a uma lei moral superior. N√£o √© desculp√°vel roubar um p√£o por ter fome. √Č desculp√°vel a um artista roubar dez contos para garantir por dois anos a sua vida e tranquilidade, desde que a sua obra tenda a um fim civilizacional; se √© uma mera obra est√©tica, n√£o vale o argumento.

As Obras e os Mistérios do Amor

Quem ama não sente o amor no seu coração. Vive no coração do amor. O amor que nos oferece os sonhos mais belos e nos faz voar, é o mesmo que nos crava os espinhos mais duros na carne e se faz mar nas nossas lágrimas.

O amor faz o que quer, onde e quando alguém o aceita. Não tem outras mãos ou olhos senão os nossos. A força do amor é aquela de que nós formos capazes. Por isso, amar é, antes de tudo, aceitar.

Há quem entregue a sua vida por amor. Quem se abandone a si mesmo, deixando para trás aquilo que outros julgam ser o seu maior tesouro… A vida é para amar, quem não ama, apenas sobrevive.
H√° quem morra por amor. Mas esta vida √© apenas um peda√ßo de outra, maior, que s√≥ √© vivida pelos que tiverem a coragem imprudente de ser luz e calor na vida de algu√©m, aceitando-o como √©… e como quer ser. Sem o julgar. Respeitando sempre os seus espa√ßos e os seus tempos, o seu passado e o seu futuro. Amar √© corrigir e ajudar quem se ama a ser melhor, mas n√£o o obrigando aos nossos pensamentos e sentimentos,

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A água roubada é mais doce, o pão escondido é mais saboroso

A água roubada é mais doce, o pão escondido é mais saboroso.

Em Portugal cada um Quer Tudo

E quando os homens são de tal condição, que cada um quer tudo para si, com aquilo com que se pudera contentar a quatro, é força que fiquem descontentes três. O mesmo nos sucede. Nunca tantas mercês se fizeram em Portugal, como neste tempo; e são mais os queixosos, que os contentes. Porquê? Porque cada um quer tudo. Nos outros reinos com uma mercê ganha-se um homem; em Portugal com uma mercê, perdem-se muitos. Se Cleofas fora português, mais se havia de ofender da a metade do pão que Cristo deu ao companheiro, do que se havia de obrigar da outra metade, que lhe deu a ele. Porque como cada um presume que se lhe deve tudo, qualquer cousa que se dá aos outros, cuida que se lhe rouba. Verdadeiramente, que não há mais dificultosa coroa que a dos reis de Portugal: por isto mais, do que por nenhum outro empenho.
(…) Em nenhuns reis do mundo se v√™ isto mais claramente que nos de Portugal. Conquistar a terra das tr√™s partes do mundo a na√ß√Ķes estranhas, foi empresa que os reis de Portugal conseguiram muito f√°cil e muito felizmente; mas repartir tr√™s palmos de terra em Portugal aos vassalos com satisfa√ß√£o deles,

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