Passagens sobre Horas

1043 resultados
Frases sobre horas, poemas sobre horas e outras passagens sobre horas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Noites em Claro

Passas em claro as noites a chorar;
Dia a dia, teu rosto empalidece…
Faze tu, pobre M√£e, por serenar,
Santa Resignação sobre ela desce!

Rochedo que a penumbra desvanece,
Tu, por acaso, n√£o lhe podes dar
Um pouco d’esse frio que entorpece
O cora√ß√£o e o deixa descan√ßar?…

Jamais! N√£o ha remedio! Nem as horas
Que passam! Toda a fria noite choras;
Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua d√īr,
Como se f√īra um beijo, ac√™so am√īr,
Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos v√©us da alma…
√Č um sossego, uma un√ß√£o, um transbordamento de car√≠cias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as m√£os c√°lidas da noite encontrem sem fatalidade o
[olhar ext√°tico da aurora.

Soneto II

A D. Manuel de Lencastre.

Na tenebrosa noite o caminhante,
Quando o ar se engrossa e o mundo todo atroa,
O tronco busca donde se coroa
Da fugitiva Dafne o brando amante.

Ali n√£o teme o raio fulminante,
Por mais que na vizinha √°rvore soa,
E seu louvor por onde vai pregoa
Tanto que a cerra√ß√£o c’o sol levante.

Trabalha o Céu em minha fim, trabalha
A terra em minha fim, com f√ļria imensa
Cada hora espero pela derradeira.

Onde me acolherei que alguém me valha?
A vós, a quem não quer fazer ofensa
O Céu, nem pode a terra, inda que queira.

Apolo E As Nove Musas, Discantando

Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:

-Ditoso seja o dia e hora, quando
t√£o delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar se em seu desejo traspassando!

Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corria
tão ligeira que quase era invisível.

Converteu se me em noite o claro dia;
e, se alg√ľa esperan√ßa me ficou,
será de maior mal, se for possível.

Para Ser Lido Mais Tarde

Um dia
quando j√° n√£o vieres dizer-me Vem
jantar

quando j√° n√£o tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

j√° n√£o vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haver√° talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolher√° talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim ser√° j√° t√£o frio e j√° t√£o tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficar√°
desta hora redonda
em que ninguém repara

Alguém disse uma vez que na hora em que se pára para pensar se gosta de alguém, já se deixou de gostar da pessoa para sempre.

Os bons vão ao passo certo; os outros ignorando-os inteiramente, dançam à volta deles a coreografia da hora que passa.

Cartas Trocadas para o Marido e para o Amante

Anais,

Uma terr√≠vel asneira foi feita. Enviaste a carta para o Hugo, no dia em que chegaste, e mandaste-lhe a minha. O Hugo est√° freneticamente a tentar entrar em contacto comigo. Mandou a Am√©lia aqui, que deixou debaixo da porta o bilhete que junto. Ela esteve aqui de manh√£ e outra vez esta noite. Pensei de manh√£ que era o pr√≥prio Hugo e que ele tinha vindo para me “apanhar”… Por isso, n√£o abri a porta.

J√° que eu tinha recebido a carta dele na noite anterior (a tua carta para ele), tive um pressentimento de que as cartas tinham sido postas nos envelopes errados e fiquei apreensivo. Esta noite enviei-lhe a sua carta para o n√ļmero 18 da Ave. de Versailles, sem dar a minha morada. N√£o posso dizer nesta carta se chegarei a receber a que me era devida. Espero que sim. Suponho que ele saiba tudo agora. Mas estou a evit√°-lo, porque n√£o quero admitir nem negar. Ele deve estar furioso, mas, ao mesmo tempo, num estado terr√≠vel. Eu pr√≥prio estou exausto de apreens√£o. Trouxe o Fred para ficar aqui comigo, porque at√© o Hugo partir vou estar em pulgas. Sei que, se ele me matasse,

Continue lendo…

Vinho

Do amor tu n√£o dir√°s: provo, mas n√£o me embriago,
que n√£o basta provar para sentir o amor.
√Č preciso sorv√™-lo at√© o √ļltimo trago
se a embriaguez é que dá seu profundo sabor.

Teu amor deve ter profundidade e cor
n√£o deve ser um sonho doentio e vago,
se assim for, ent√£o sim, podes te dar por pago
que este é o preço da vida e todo o seu valor.

Transborda a tua taça, ergue-a nas mãos, e brinda
o momento feliz que viveste e n√£o finda,
que só o amor que embriaga e que nos leva a extremos

pode glorificar os sentidos e a vida,
e vencendo a raz√£o que nos tolhe e intimida,
nos faz reaver, de pronto, as horas que perdemos!

Este anoitecer vai ser divino, como deves calcular. Foi sempre a minha hora de trag√©dia, a hora dos meus nervos dolorosos, dos meus pensamentos doidos; foi sempre, a noitinha, o meu grande calv√°rio onde sobem devagarinho, em passos lentos, todas as minhas dores de muitos anos, todas as m√°goas que me t√™m dado, e √© nesta hora que eu rezo o meu verso, n√£o sei de que soneto: “Ergue-se a minha cruz dos desalentos”.

Felina Mulher

Eu quisera depois das lutas acabadas,
na paz dos vegetais adormecer um dia
e nunca mais volver da santa letargia,
meu corpo dando pasto às plantas delicadas.

Seria belo ouvir nas moitas perfumadas,
enquanto a mesma seiva em mim também corria,
as s√£s vegeta√ß√Ķes, em √≠ntima harmonia,
aos troncos enlaçando as lívidas ossadas!

√ď beleza fatal que h√° tanto tempo gabo:
se eu volvesse depois feito em jasmins-do-cabo
‚Äď gentil metamorfose em que nesta hora penso ‚Äď

tu, felina mulher, com garras de veludo,
havias de trazer meu espírito, contudo,
envolto muita vez nas dobras do teu lenço!

Discreta E Formosíssima Maria

Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:

Enquanto com gentil descortesia,
O Ar, que fresco Ad√īnis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.

Oh n√£o aguardes que a madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Os Arlequins – S√°tira

Musa, dep√Ķe a lira!
Cantos de amor, cantos de glória esquece!
Novo assunto aparece
Que o gênio move e a indignação inspira.
Esta esfera é mais vasta,
E vence a letra nova a letra antiga!
Musa, toma a vergasta,
E os arlequins fustiga!

Como aos olhos de Roma,
‚ÄĒ Cad√°ver do que foi, p√°vido imp√©rio
De Caio e de Tib√©rio, ‚ÄĒ
O filho de Agripina ousado assoma;
E a lira sobraçando,
Ante o povo idiota e amedrontado,
Pedia, ameaçando,
O aplauso acostumado;

E o povo que beijava
Outrora ao deus Calígula o vestido,
De novo submetido
Ao régio saltimbanco o aplauso dava.
E tu, tu n√£o te abrias,
√ď c√©u de Roma, √† cena degradante!
E tu, tu não caías,
√ď raio chamejante!

Tal na história que passa
Neste de luzes século famoso,
O engenho portentoso
Sabe iludir a néscia populaça;
N√£o busca o mal tecido
Canto de outrora; a moderna insolência
N√£o encanta o ouvido,
Fascina a consciência!

Vede; o aspecto vistoso,
O olhar seguro,

Continue lendo…

Ah! Os Relógios

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus f√ļteis problemas t√£o perdidas
que at√© parecem mais uns necrol√≥gios…

Porque o tempo é uma invenção da morte:
n√£o o conhece a vida – a verdadeira –
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando algu√©m – ao voltar a si da vida –
acaso lhes indaga que horas s√£o…

Sonho Vago

Um sonho alado que nasceu um instante,
Erguido ao alto em horas de dem√™ncia…
Gotas de água que tombam em cadência
Na minh’alma trist√≠ssima, distante…

Onde est√° ele, o Desejado? O Infante?
O que há-de vir e amar-me em doida ardência?
O das horas de mágoa e penitência?
O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?

E neste sonho eu j√° nem sei quem sou…
O brando marulhar dum longo beijo
Que n√£o chegou a dar-se e que passou…

Um fogo-f√°tuo r√ļtilo, talvez…
E eu ando a procurar-te e j√° te vejo!
E tu j√° me encontraste e n√£o me v√™s!…