Passagens sobre Leitura

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Frases sobre leitura, poemas sobre leitura e outras passagens sobre leitura para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Perturbação do Último Acontecimento

A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o √ļltimo poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, n√£o porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez inclu√≠dos na vida, os acontecimentos disp√Ķem-se segundo uma ordem que n√£o √© cronol√≥gica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, l√™ na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: “Como poderia viver sem o ter lido!” e ainda: “Que pena n√£o o ter lido quando era jovem!”. Pois bem, estas afirma√ß√Ķes n√£o fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque at√© a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.

O que um escritor nos dá não são livros. O que ele nos dá, por via da escrita, é um mundo. Esse universo nós o ignorávamos, mas existia em nós uma silenciosa lembrança de um fascínio perdido. A luz e sombra da página existiam já adormecidas dentro de nós. A leitura nos dá uma espécie de re-encantamento.

Pensar Com Cabeça Alheia

Ler significa pensar com cabeça alheia em vez de pensar com a própria. O furor que a maioria dos eruditos sente ao ler constitui uma espécie de fuga vacui do vazio de pensamentos da sua própria cabeça, que faz força para atrair para dentro de si o que lhe é estranho: para terem pensamentos, precisam de aprender nos livros da mesma forma que os corpos inanimados recebem movimento apenas do exterior, enquanto os dotados de pensamento próprio são como os corpos vivos, que se movem por si mesmos.
Em rela√ß√£o √† nossa leitura, a arte de n√£o ler √© extremamente importante. Ela consiste em n√£o aceitar o que o p√ļblico mais amplo sempre l√™, como planfletos pol√≠ticos ou liter√°rios, romances, poesias e similares, que s√≥ fazem rumor naquele momento e at√© atingem muitas edi√ß√Ķes no seu primeiro e √ļltimo ano de vida.
Exigir que um indivíduo conserve na sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

Uma Nova Etapa na Vida a partir da Leitura de um Livro

Somos subeducados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que n√£o fa√ßo grande distin√ß√£o entre a ignor√Ęncia do meu concidad√£o que n√£o sabe absolutamente ler nada, e a ignor√Ęncia do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crian√ßas e intelig√™ncias med√≠ocres. Dever√≠amos estar √† altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primacialmente qu√£o grandes eles foram. Somos uma ra√ßa de homens-passarinhos; nos nossos voos intelectuais mal nos al√ßamos um pouco acima das colunas do jornal.
Nem todos os livros s√£o t√£o ins√≠pidos como os seus leitores. √Č prov√°vel que haja palavras endere√ßadas exactamente √† nossa condi√ß√£o, as quais, se de facto pud√©ssemos ouvi-las e entend√™-las, seriam mais salutares √†s nossas vidas que a pr√≥pria manh√£ ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face in√©dita das coisas.
Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.
As mesmas quest√Ķes que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens s√°bios; nenhuma foi omitida,

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Essas tabuinhas nos mostram ainda que, desde aquela época, ler sempre foi interpretar, porque era necessário decidir, segundo o contexto como uma imagem deve estar relacionada no seu significado e em que direção prosseguir a leitura.

A Inspiração da Leitura

Fala-se √†s vezes de ‘inspira√ß√£o’ a prop√≥sito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a l√™. Mas l√™-la √© escrev√™-la outra vez. E √© preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspira√ß√£o poss√≠vel de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja l√™, √© sempre vari√°vel. Ela varia n√£o s√≥ com o desgaste da repeti√ß√£o da leitura, mas ainda com a varia√ß√£o dessa varia√ß√£o e o motivo dela. Porque por arranjos incognosc√≠veis pode alternar a ades√£o com a repulsa e recuperar depois em ades√£o o que repelira e o contr√°rio. Como pode tudo ter que ver com raz√Ķes mais cognosc√≠veis ou razo√°veis e tudo depender assim de um insulto que nos doeu ou de um vinho que nos caiu mal. Um livro que se escreveu √© imut√°vel. O mesmo livro que se l√™ n√£o o √©. A inspira√ß√£o de quem escreveu deu o que tinha a dar. A de quem o recebe varia e n√£o se esgota. Porque se se esgotar, o livro n√£o tinha nenhuma.

A Import√Ęncia de uma Segunda Leitura

As obras mais pr√≥ximas da perfei√ß√£o t√™m normalmente a faculdade de √† segunda leitura agradarem mais do que √† primeira. O contr√°rio acontece com muitos livros compostos com um talento e um esfor√ßo apenas med√≠ocres, mas apesar disso n√£o privados de algum valor intr√≠nseco e aparente; os quais, lidos uma segunda vez, descem na opini√£o que o homem deles fizera quando da primeira leitura. Mas se forem lidos, tanto uns como os outros, um √ļnica vez, enganam por vezes de tal maneira at√© mesmo os doutos e experientes, que os √≥ptimos s√£o preteridos a favor dos med√≠ocres.

N√≥s n√£o falamos em prosa. Falamos em verso. Falamos em verso sem rima nem ritmo. Fazemos pausas na conversa que na leitura da prosa se n√£o podem fazer. Falamos, sim, em verso, em verso natural – isto √©, em verso sem rima nem ritmo, com as pausas do nosso f√īlego e sentimento. Os meus versos s√£o naturais porque s√£o feitos assim.

Vida de Escritor

√Č f√°cil reconhecer em mim a concentra√ß√£o de todas as minhas for√ßas sobre a escrita. Quando se tornou claro no meu organismo que escrever era a direc√ß√£o mais produtiva que podia tomar o meu ser, tudo correu para esse lado e deixou-me vazio de todas as capacidades que se dirigiam para as alegrias do sexo, da comida, da bebida, da reflex√£o filos√≥fica e, acima de tudo, da m√ļsica. Eu atrofiava em todas estas direc√ß√Ķes. Isto era necess√°rio porque a totalidade das minhas for√ßas √© t√£o leve que s√≥ colectivamente √© que elas podiam semi-servir a finalidade da minha escrita. √Č claro que n√£o encontrei esta finalidade independentemente ou conscientemente, ela encontrou-se a si pr√≥pria e s√≥ o escrit√≥rio interfere com ela, e interfere completamente. De qualquer modo, eu n√£o me devia queixar pelo facto de n√£o conseguir ter uma namorada, de perceber exactamente tanto de amor como de m√ļsica e de ter de me resignar nos esfor√ßos mais superficiais de que posso lan√ßar m√£o, de na noite de fim de ano ter jantado escorcioneira e espinafres com um quarto de Ceres e de no domingo n√£o ter podido participar na leitura que Max fez dos seus trabalhos filos√≥ficos; a compensa√ß√£o de tudo isto √© clara como o dia.

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A √ļnica exig√™ncia que fa√ßo aos meus leitores √© que devem dedicar as suas vidas √† leitura das minhas obras.

Eu Ela e a Escrita

Eu ela e a escrita existimos desde o princ√≠pio. A escrita forma-se em mim, passa por ela e volta √† minha pele num jogo sensual e √≠ntimo. √Č um ser male√°vel aos gestos que executamos, vive e morre com os nossos impulsos. Quando se ausenta deixa sinais. Faz-nos confid√™ncias da sua vida errante, elabora sentimentos que n√£o esper√°vamos que tivesse quando junta ao nosso, o seu instinto criativo. Assim, utilizo agora palavras que nunca pensei vir a escrever. Aceito-as porque as sei da esp√©cie da personagem que habita connosco, conivente com os erros que cometemos.

Quando adolescente, passava o tempo a ler o dicion√°rio, apercebendo-me da corros√£o de algumas palavras, do seu poder destrutivo. Noutras havia sombra e um peso monstruoso. E as que ao tempo foram luminosas, irradiavam um brilho que se colou aos meus dedos. Eu gastava os dias a limpar-me dessa luz at√© n√£o haver em mim res√≠duos de leitura. Descobria o esquecimento, onde o poema veio a ser abismo, outra vida onde o sorriso da morte teve muita import√Ęncia. Amei a imperfei√ß√£o do ser humano. Revisitei a inf√Ęncia e aquilo que em n√≥s √© real. N√£o soube prescindir da beleza.

O que é um Romance?

Um romance √© aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem raz√£o quando diz que est√° tudo misturado: n√£o se sabe quando √© que a poesia n√£o d√° origem a um romance, quando √© que um ensaio n√£o √© um romance, quando √© que no interior de um ensaio n√£o aparece um poema‚Ķ N√£o vejo por que √© que essas coisas h√£o-de ser catalogadas. H√° p√°ginas de grandes romances que s√£o grandes p√°ginas de poesia. Bom, mas isto √© mais um pressentimento que uma certeza, que o in√≠cio de uma teoria‚Ķ √Č uma interroga√ß√£o. O meu problema √© que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. N√£o √© bem isso‚Ķ √© no sentido de que ocupa um espa√ßo muito menor nas minhas leituras.

Cada Leitura é Única

Muitos autores s√£o ao mesmo tempo os seus pr√≥prios leitores – √† medida que escrevem -, e √© por isso que tantos vest√≠gios do leitor aparecem nos seus escritos – tantas observa√ß√Ķes cr√≠ticas – tanto que pertence √† prov√≠ncia do leitor e n√£o √† do autor. Travess√Ķes – palavras em mai√ļsculas – passagens grifadas – tudo isso pertence √† esfera do leitor. O leitor p√Ķe a √™nfase como tem vontade – ele de facto faz de um livro o que deseja. N√£o √© todo o leitor um fil√≥logo? N√£o existe uma √ļnica leitura v√°lida somente, no sentido usual. A leitura √© uma opera√ß√£o livre. Ningu√©m me pode prescrever como e o que lerei.

Eu n√£o sinto prazer em escrever ‚Äď sinto prazer, sim, na leitura. Mas se n√£o escrever sinto-me pior, n√£o sei, come√ßo a fica impaciente.

A Verdadeira Leitura

As leituras que a gente faz em busca do saber n√£o s√£o, na verdade, leituras. As boas, as fecundas, as prazenteiras, s√£o as que a gente faz sem pensar em instruir-se.