Passagens sobre Ficção

71 resultados
Frases sobre fic√ß√£o, poemas sobre fic√ß√£o e outras passagens sobre fic√ß√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Acção Mais Degradada

A ac√ß√£o mais degradada √© a daquele que n√£o age e passa procura√ß√£o a outrem para agir – a dos frequentadores dos espect√°culos de luta e a dos consumidores da literatura de viol√™ncia. Ser her√≥i e atrav√©s de outrem, ser corajoso em imagina√ß√£o, √© o limite extremo da ac√ß√£o gratuita, do orgulho ou da vaidade que n√£o ousa. Corre-se o risco sem se correr, experi¬≠menta-se como se se experimentasse, colhe-se o prazer do triunfo sem nada arriscar. E √© por isso que os fIlmes de guerra, do hero√≠smo policial, de espionagem, t√™m de acabar bem. Por¬≠que o que a√≠ se procura √© justamente o sabor do triunfo e n√Ęo apenas do risco. O gosto do risco procura-o o her√≥i real, o jogador que pode perder. Mas o espectador da sua luta, degra¬≠dado na sedu√ß√£o da ac√ß√£o, acentua a sua mediocridade no n√£o poder aceitar a derrota, no fingir que corre o risco mesmo em fic√ß√£o, mas com a certeza pr√©via de que o risco √© vencido. O que ele procura √© a pequena lisonja √† sua vaidade pequena, a figura√ß√£o da coragem para a sua cobardia, e s√≥ a vit√≥ria do her√≥i a quem passou procura√ß√£o o pode lisonjear.
E se o herói morre em grandeza,

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A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida,

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A Import√Ęncia da Arte

A arte √©, provavelmente, uma experi√™ncia in√ļtil; como a ¬ępaix√£o in√ļtil¬Ľ em que cristaliza o homem. Mas in√ļtil apenas como trag√©dia de que a humanidade beneficie; porque a arte √© a menos tr√°gica das ocupa√ß√Ķes, porque isso n√£o envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de m√ļsica, fazia-se um deserto extraordin√°rio. Acreditem que os teares paravam, tamb√©m, e as f√°bricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte √©, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e h√° decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam √† experi√™ncia in√ļtil que √© a arte, pessoas como Virg√≠lio, por exemplo, e que sabem que o seu sil√™ncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e s√≥ ficasse no ar o ru√≠do dos motores, porque at√© o vento se calava no fundo dos vales, penso que at√© as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vit√≥ria, com a mansid√£o das coisas est√©reis. O la√ßo da fic√ß√£o, que gera a expectativa, √© mais forte do que todas as realidades acumul√°veis. Se ele se quebra, o equil√≠brio entre os seres sofre grave preju√≠zo.

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Eu adoro o secretismo de escrever ficção. Quando escrevo um romance, não digo a ninguém o que estou a fazer, estou a viver no meu mundo privado. E é uma sensação incrível.

A Nossa Maior Crueldade é o Tempo

A nossa maior crueldade √© o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, tamb√©m n√≥s inventamos o tempo e nunca temos tempo. Os nossos rel√≥gios nunca dormem. Quantas vezes o tempo √© a nossa desculpa para desinvestir da vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela? Como n√£o temos diante de n√≥s os s√©culos, renunciamos √† aud√°cia de viver plenamente o breve instante. A imagem de crono, devorando aquilo que gera, obsidia-nos. O tempo consome-nos sem nos encaminhar verdadeiramente para a consuma√ß√£o da promessa. Nesse sentido, o consumo desenfreado n√£o √© outra coisa que uma bolsa de compensa√ß√Ķes. As coisas que se adquirem s√£o naquele momento, obviamente, mais do que coisas: s√£o promessas que nos acenam, s√£o protestos impotentes por uma exist√™ncia que n√£o nos satisfaz, s√£o fic√ß√Ķes do nosso teatro interno, s√£o uma corrida contra o tempo. A verdade √© que precisamos reconciliar-nos com o tempo. N√£o nos basta um conceito de tempo linear, ininterrupto, mecanizado, puramente hist√≥rico. O continuum homog√©neo do tempo que a teoria do progresso desenha n√£o conhece a rutura trazida pela novidade surpreendente. E a reden√ß√£o √© essa novidade. Precisamos identificar uma dupla significa√ß√£o no instante presente.

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Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve chama-se ficção.

O Grau da Nossa Emancipação

A esfera da consciência reduz-se na acção; por isso ninguém que aja pode aspirar ao universal, porque agir é agarrar-se às propriedades do ser em detrimento do ser, a uma forma de realidade em prejuízo da realidade. O grau da nossa emancipação mede-se pela quantidade das iniciativas de que nos libertámos, bem como pela nossa capacidade de converter em não-objecto todo o objecto. Mas nada significa falar de emancipação a propósito de uma humanidade apressada que se esqueceu de que não é possível reconquistar a vida nem gozá-la sem primeiro a ter abolido.
Respiramos demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si pr√≥prias ou de denunciar a sua fragilidade. O nosso ofegar postula-as e deforma-as, cria-as e desfigura-as, e amarra-nos a elas. Agito-me e portanto emito um mundo t√£o suspeito como a minha especula√ß√£o, que o justifica, adopto o movimento que me transforma em gerador de ser, em artes√£o de fic√ß√Ķes, ao mesmo tempo que a minha veia cosmog√≥nica me faz esquecer que, arrastado pelo turbilh√£o dos actos, n√£o passo de um ac√≥lito do tempo, de um agente de universos caducos.
Empanturrados de sensa√ß√Ķes e do seu corol√°rio, o devir, somos seres n√£o libertos, por inclina√ß√£o e por princ√≠pio,

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O Coração РII

A solidão é perfeita como um rasgo entre
as nuvens, ao √ļltimo sonho. A solid√£o
que se cala em teu fundo e vai envelhecendo
na terra perdida do som descompassado.

Te guardas na intimidade dos arm√°rios,
onde a paz é negra e se desagrega a luz.
Nunca foste mais do que uma ficção, matriz
de riso e sombra, um poço verde, teorema

de ilus√Ķes, engrenagem de poentes roxos.
E, agora, frouxo, j√° nada designas ou
desenhas. √Čs, apenas, testemunha ef√©mera

e longínqua, trovão engolido de Deus,
fingidor ferido de doces cantos, mentira
prec√°ria nas cordas de uma harpa febril.

Praticamente tudo o que parece √©, quer dizer, as mentiras, as fic√ß√Ķes, os receios, mesmo injustificados, criam estados de esp√≠rito que s√£o realidades pol√≠ticas: sobre elas, com elas e contra elas se tem de governar.

A Luz do Teu Amor

Oh! Sim que és linda! a inocência
Em tua fronte serena
Com tal do√ßura reluz!…
Tanta e tanta… que a a√ßucena
Tão esplêndida a existência
Não lha doura assim à luz!
Oh! que √©s linda, e mais… e mais
Quando um traço melancólico
Te diviso no semblante
Nos teus olhos virginais!
Que doçura não existe
Ai! ó virgem, nesse instante
Na poética beleza
Desse traço de tristeza
Que te vem tornar mais bela
Mal em teu rosto pousou!
E eu te quero assim, ó estrela,
Que se inspira em mim a crença
Triste… triste, que √©s mais linda,
Mas dessa beleza infinda
Das fic√ß√Ķes da renascen√ßa
Que a poesia perfumou!

Fita agora os olhos l√Ęnguidos
Na estrela que te ilumina,
Eu n√£o sei que luz divina
De amor nos fala em teu rosto!
Eu n√£o sei, nem tu… ningu√©m!…
Que a vaga luz do sol posto,
Que a palidez da cecém,
Que a meiguice dos amores,
E que o perfume das flores
N√£o respiram a harmonia
Desse toque leve…

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O escritor tem uma incapacidade congénita para contar a verdade e é por isso que escreve ficção.

O autor de um livro √© uma personagem fict√≠cia que o autor real inventa para que seja autor das suas fic√ß√Ķes.

A Igreja sempre viveu a passagem dram√°tica da morte √† luz da ressurrei√ß√£o de Jesus Cristo, que abriu o caminho para a certeza da vida futura. Temos um grande desafio em aceit√°-la, sobretudo na cultura contempor√Ęnea, que muitas vezes tende a banalizar a morte at√© a fazer tornar-se uma simples fic√ß√£o ou a escond√™-la.

O Deserto num Mundo Abastado

Tender√≠amos ilusoriamente a crer que uma vida nascida num mundo abastado seria melhor, mais vida e de superior qualidade √† que consiste, precisamente, em lutar com a escassez. Mas n√£o √© verdade. Por raz√Ķes muito rigorosas e arquifundamentais que agora n√£o √© oportuno enunciar. Agora, em vez dessas raz√Ķes, basta recordar o facto sempre repetido que constitui a trag√©dia de toda a aristocracia heredit√°ria. O aristocrata herda, quer dizer, encontra atribu√≠das √† sua pessoa umas condi√ß√Ķes de vida que ele n√£o criou, portanto, que n√£o se produzem organicamente unidas √† sua vida pessoal e pr√≥pria. Acha-se ao nascer instalado, de repente e sem saber como, no meio da sua riqueza e das suas prerrogativas. Ele n√£o tem, intimamente, nada que ver com elas, porque n√£o v√™m dele. S√£o a carapa√ßa gigantesca de outra pessoa, de outro ser vivente, seu antepassado. E tem de viver como herdeiro, isto √©, tem de usar a carapa√ßa de outra vida. Em que ficamos? Que vida vai viver o ¬ęaristocrata¬Ľ de heran√ßa, a sua ou a do pr√≥cer inicial? Nem uma nem outra. Est√° condenado a representar o outro, portanto, a n√£o ser nem o outro nem ele mesmo.
A sua vida perde inexoravelmente autenticidade,

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Um grande l√≠der √© um solit√°rio, um misantropo. Para ele, liderar √© uma fuga, √© uma fic√ß√£o: um caminho para viver fora de si ‚Äď para dentro da mente de quem est√° sob a sua al√ßada.