Passagens sobre Linguagem

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Frases sobre linguagem, poemas sobre linguagem e outras passagens sobre linguagem para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Elogio da Morte

I

Altas horas da noite, o Inconsciente
Sacode-me com força, e acordo em susto.
Como se o esmagassem de repente,
Assim me pára o coração robusto.

N√£o que de larvas me pov√īe a mente
Esse v√°cuo nocturno, mudo e augusto,
Ou forceje a raz√£o por que afugente
Algum remorso, com que encara a custo…

Nem fantasmas nocturnos vision√°rios,
Nem desfilar de espectros mortu√°rios,
Nem dentro de mim terror de Deus ou Sorte…

Nada! o fundo dum po√ßo, h√ļmido e morno,
Um muro de silêncio e treva em torno,
E ao longe os passos sepulcrais da Morte.

II

Na floresta dos sonhos, dia a dia,
Se interna meu dorido pensamento.
Nas regi√Ķes do vago esquecimento
Me conduz, passo a passo, a fantasia.

Atravesso, no escuro, a névoa fria
D’um mundo estranho, que pov√īa o vento,
E meu queixoso e incerto sentimento
S√≥ das vis√Ķes da noite se confia.

Que místicos desejos me enlouquecem?
Do Nirvana os abismos aparecem,
A meus olhos, na muda imensidade!

N’esta viagem pelo ermo espa√ßo,

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Canção porque (não) Morres

Este √© o √ļltimo livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido – aquele
era o √ļltimo e depois que algu√©m viesse
fechar a porta contra o som do mar.
– Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis j√° gastos
com que pensava e n√£o pensava
enganar a morte branca e vermelha.
РAh e não esqueças: Рdeitar fora a chave

Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das √°rvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?

Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
– j√° sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? – Que importa quem falou?
– Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.

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A linguagem do corpo requer uma aprendizagem paciente que permita interpretar e educar os próprios desejos em ordem a uma entrega verdadeira.

Os Actos Valem mais que as Palavras

Nenhuma explica√ß√£o verbal poder√° alguma vez substituir a contempla√ß√£o. A unidade do Ser n√£o √© transmiss√≠vel pelas palavras. Se eu quisesse ensinar a homens, cuja civiliza√ß√£o o desconhecesse, o que √© o amor a uma p√°tria ou a uma quinta, n√£o disporia de argumento algum para os convencer. S√£o os campos, as pastagens e o gado que constituem uma quinta. Todos e cada um deles t√™m como miss√£o produzir riqueza. No entanto, h√° alguma coisa na quinta que escapa √† an√°lise dos seus componentes, pois existem propriet√°rios que, por amor √† sua quinta, se arruinariam para a salvar. Pelo contr√°rio, √© essa ¬ęalguma coisa¬Ľ que enriquece com uma qualidade particular os componentes. Estes tornam-se gado de uma quinta, prados de uma quinta, campos de uma quinta…
Assim se passa a ser homem de uma pátria, de um ofício, de uma civilização, de uma religião. Mas, para que alguém se reclame de tais Seres, convém, antes de mais, fundá-los em si próprio. E, se não existir o sentimento da pátria, nenhuma linguagem o transmitirá. O Ser de que nos reinvindicamos não o fundamos em nós senão por actos. Um Ser não pertence ao domínio da linguagem, mas dos actos. O nosso Humanismo desprezou os actos.

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Na linguagem comum, quando falamos de ¬ęcarisma¬Ľ queremos muitas vezes dizer um talento, uma habilidade natural. Na perspetiva crist√£, por√©m, o carisma √© bem mais do que uma qualidade pessoal: √© uma gra√ßa, um dom dispensado por Deus Pai que √© dado a algu√©m n√£o porque seja melhor do que os outros, mas para que o ponha ao servi√ßo de toda a comunidade, para bem de todos.

Definição do místico: aquele que possui muita, excessiva, felicidade e que procura uma linguagem para essa felicidade, de modo a poder reparti-la com os outros.

A inteireza do esp√≠rito come√ßa por se caracterizar no escr√ļpulo da linguagem.

A Hipocrisia do Amor ao Povo

Estes amam o povo, mas n√£o desejariam, por interesse do pr√≥prio amor, que sa√≠sse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as supersti√ß√Ķes e as lendas; v√™em-se generosos e sens√≠veis quando se debru√ßam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; √© muito interessante o animal que examinam, mas que n√£o tente o animal libertar-se da sua condi√ß√£o; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posi√ß√£o; em nome da est√©tica e de tudo o resto conv√©m que se mantenha.
H√° tamb√©m os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir √© o dom√≠nio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um cora√ß√£o de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o v√£o desejo de mandar; nestes n√£o encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque liter√°rio; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, √© o som do oco tambor ret√≥rico o √ļltimo que se ouve.

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Uma monstruosa aberra√ß√£o faz com que os homens acreditem que a linguagem nasceu para facilitar as suas rela√ß√Ķes m√ļtuas.

Os filhos não precisam de pais gigantes, mas de seres humanos que falem a sua linguagem e sejam capazes de penetrar-se o coração.

Naquele singelo sorrir estava uma dessas grandes paix√Ķes, que d√£o assunto para trinta p√°ginas. N√£o √© de hoje esta esp√©cie de taquigrafia amorosa aplicada, nos olhos e no sorriso, √† revela√ß√£o de imensas sensa√ß√Ķes. Quanto mais longe de n√≥s, mais afinado o sentimento, menos astuciosa a linguagem, e mais necess√°ria a express√£o muda nos olhos baixos, ou nos castos sorrisos de uma donzela do s√©culo passado.

Não é poeta aquele que não tenha sentido a tentação de destruir ou criar outra linguagem.