Passagens sobre Linguagem

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Frases sobre linguagem, poemas sobre linguagem e outras passagens sobre linguagem para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

S√≥ amando nos renovamos. O √™xtase √© a √ļnica linguagem comum a todo o infinito. √Č o alimento do ef√©mero e do eterno.
Através do amor o humano se diviniza e o divino se humaniza.

Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

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A Ilusão da Consistência da Obra do Escritor

O homem n√£o √© permanentemente igual a si mesmo. A velha concep√ß√£o dos car√°cteres rectil√≠neos e das mentalidades cristalizadas em sistemas imut√°veis abriu fal√™ncia. Tudo muda, no espa√ßo e no tempo. Para um organismo vivo, existir – mesmo no ponto de vista som√°tico – √© transformar-se. Quando come√ßamos cedo e envelhecemos na actividade das letras, n√£o h√° um n√≥s apenas um escritor; h√°, ou houve, escritores sucessivos, m√ļltiplos e diversos, representando estados de evolu√ß√£o da mesma mentalidade incessantemente renovada. Ao chegar a altura da vida em que a estabiliza√ß√£o se opera, olhamos para tr√°s, e muitas das nossas pr√≥prias obras parecem-nos escritas por um estranho, t√£o longe se encontram j√°, n√£o apenas dos nossos processos liter√°rios, mas do nosso esp√≠rito, das nossas tend√™ncias, da nossa orienta√ß√£o, dos nossos pontos de vista √©ticos e est√©ticos.
Nesse exame retrospectivo, por vezes doloroso, se de algumas coisas temos de louvar-nos Рobras a que a nossa mocidade comunicou a chama viva do entusiasmo e da paixão -, de outras somos forçados a reconhecer a pobreza da concepção, os vícios da linguagem, as carências da técnica, e tantas vezes (poenitet me!) as audácias, as incoerências, as injustiças, as demasias, a licença de certas pinturas de costumes e o erro de certas atitudes morais.

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Os olhos são os intérpretes do coração, mas só os interessados entendem essa linguagem.

Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

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Fracassamos em traduzir por inteiro o que nossa alma sente: o pensamento n√£o tem medida comum com a linguagem.

Saber Transmitir a Verdade

√Č bem poss√≠vel dizer a verdade e n√£o ser verdadeiro ou n√£o ter uma rela√ß√£o verdadeira. E isto acontece mais do que se pensa. Quando n√£o atendo √† condi√ß√£o do outro, √† sua sensibilidade, linguagem, idade, etc., posso dizer tudo certo e o outro ficar mais longe e mais desconfiado, e a rela√ß√£o n√£o ser humana e verdadeira. A verdade humana √© ser construtivo na rela√ß√£o. Da verdade l√≥gica tamb√©m os computadores s√£o capazes…

(

O Poema √© uma √Ārvore de um S√≥ Fruto

Creio que nenhum de v√≥s h√°-de estranhar que eu diga que o poeta √© aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele √© o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o sil√™ncio, a aridez da n√£o inspira√ß√£o determinam inicialmente a cria√ß√£o po√©tica; o poema nunca √© real, nunca se efectiva numa conclus√£o, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; √© sempre a transposi√ß√£o de um referente real ou imagin√°rio para uma linguagem de equival√™ncia, mas necessariamente, livremente, distanciada da refer√™ncia. Esta linguagem √© a ¬ęcoer√™ncia da incoer√™ncia¬Ľ, ¬ęuma linguagem na linguagem¬Ľ, mantendo embora a voz mesma do existente ausente que √© o poeta, no ¬ęfingimento¬Ľ, na fic√ß√£o, na heteron√≠mia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa rela√ß√£o metam√≥rfica de palavras, de imagens, de sons e de rela√ß√Ķes que s√£o todos os elementos consonantes do poema; o poema √©, assim, um √©brio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibra√ß√Ķes, de sil√™ncios de uma respira√ß√£o errante em que a verdade nos escapa no mist√©rio da sua nostalgia,

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O homem é um ser que se criou a si próprio ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si próprio.

√Č principalmente nas inflex√Ķes e nos matizes da voz que reside a for√ßa expressiva da linguagem humana.

Livros Antigos Portugueses

Quisemos mostrar, ou antes tornar conhecidos, os nossos livros. 0 nosso intuito √© simples; tentando dar vida a esses livros, procuramos deixar ver a obra Portuguesa, especialmente nos s√©culos xv e xvi, atrav√©s dos ¬ęliuros de forma¬Ľ que foram impressos em Portugal, acompanhando-os de alguns ¬ęde penna¬Ľ, e de outros escritos em linguagem, mas publicados fora do pa√≠s. Os livros s√£o amigos silenciosos e fi√©is junto dos quais se aprende a li√ß√£o da vida. S√£o o ensinamento, e em muitos casos a prova, da √©poca que se deseja descrever; aqueles que s√£o coevos desses tempos, podemos, certamente, consider√°-los como a melhor documenta√ß√£o ‚ÄĒ exceptuando os manuscritos originais ‚ÄĒ para essas pesquisas. A meta do nosso esfor√ßo √© erguer bem alto o nome do nosso pa√≠s, demonstrar os feitos dos Portugueses e, servindo a nossa P√°tria, ¬ęlevantar a bandeira dos triunfos dela¬Ľ. √Č um trabalho sem pretens√Ķes, que nada vem dizer de novo, e que nada julga ensinar, mas que, esperamos, provar√° o nosso amor pela P√°tria querida. E se alcan√ßarmos esse fim ambicionado, teremos a consola√ß√£o suprema de um dever cumprido.

. Manuel II, ¬ęLivros Antigos Portugueses 1489-1600¬Ľ’

O Consumo não é Invenção do Capitalismo

Ninguém se encosta a si próprio tão
intensamente como quando sofre ou como
quando entra num mercado de uma
das nossas grandes cidades. 0 comércio
é feito de uma linguagem inesgotável:
sobra de um lado, falta de outro. 0 consumo,
por mais que o repitam, não é invenção do capitalismo:
os deuses formaram homens incompletos,
com est√īmago, frio e vaidade, como queriam outro resultado?

Gonçalo M.

Os Pensamentos Intraduzíveis

√Č sabido que comboios completos de pensamento atravessam instantaneamente as nossas cabe√ßas, na forma de certos sentimentos, sem tradu√ß√£o para a linguagem humana, menos ainda para uma linguagem liter√°ria… porque muitos dos nossos sentimentos, quando traduzidos numa linguagem simples, parecem completamente sem sentido. Essa √© a raz√£o pela qual eles nunca chegam a entrar no mundo, no entanto toda a gente os tem.

Segunda Nota Explicativa

Se uma palavra toca noutra ou mesmo sem tocar
lhe queda pr√≥xima, p√Ķem-se as duas
a dedilhar lembranças na ária
da carne azada.

Passa-se isto
na poesia dos poetas e na linguagem
da rua. Os ganhos
s√£o m√ļtuos e ficam mal lembrados

ou julgados inconvenientes se
pouco prosados ultrapassam
a discreta função de fundo
musical na paisagem ambiente.

Ganham em sentidos o que perdem
em concis√£o. Para que servem os muros
que nos cercam sen√£o para dar ganas
de os saldar?

O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu. in A Paixão Segundo GH. 176

Acho que damos pouca atenção àquilo que efectivamente decide tudo na nossa vida, ao órgão que levamos dentro da cabeça: o cérebro. Tudo quanto estamos por aqui a dizer é um produto dos poderes ou das capacidades do cérebro: a linguagem, o vocabulário mais ou menos extenso, mais ou menos rico, mais ou menos expressivo, as crenças, os amores, os ódios, Deus e o diabo, tudo está dentro da nossa cabeça. Fora da nossa cabeça não há nada.