Passagens sobre Nus

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Frases sobre nus, poemas sobre nus e outras passagens sobre nus para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Tit√£s Negros

Hirtas de Dor, nos √°ridos desertos
Formid√°veis fantasmas das Legendas,
Marcham além, sinistras e tremendas,
As caravanas, dentre os c√©us abertos…

Negros e nus, negros Tit√£s, cobertos
Das bocas vis das chagas vis e horrendas,
Marcham, caminham por estranhas sendas,
Passos vagos, son√Ęmbulos, incertos…

Passos incertos e os olhares tredos,
Na convuls√£o de tr√°gicos segredos,
De agonias mortais, febres vorazes…

Têm o aspecto fatal das feras bravas
E o rir pungente das legi√Ķes escravas,
De dantescos e torvos Satanases!…

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus l√°bios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser m√ļsica
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e naveg√°vel
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas √°guas nuas.

Nasce Mais uma Vez

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
N√£o faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

Soneto XXII

Ao mesmo

Rico Almazém, que Deus estima e preza,
Mais forte que o poder do inferno forte,
Bem te armas de ua morte e de outra morte,
Para qualquer encontro e brava empresa.

Arma-se o fraco c√° de fortaleza
Para que assi resista ao duro corte;
Mas Deus sempre peleja d’outra sorte,
Cobrindo o forte de mortal fraqueza.

Usou c’o inferno deste pr√≥prio modo,
Iscando o anzol da natureza sua
Co’ a nossa; e foi-se o pece tr√°s o engano.

E co’ as armas da carne rota e nua
Dos M√°rtires venceu o mundo todo,
Hoje em ti as p√Ķem para socorro humano.

Natureza de Escravo

Desde quando √© que se tornou digno de louvor o facto de algu√©m possuir uma natureza de escravo? Depois de todos os s√≠mbolos do poder terem desaparecido, j√° n√£o tinhas qualquer raz√£o para obedecer, mas continuaste a faz√™-lo. Que for√ßa misteriosa te impelia a obedecer √†s ordens de pessoas t√£o desgra√ßadas como tu, t√£o nuas e miser√°veis como tu? Eras demasiado cobarde para tentares fazer como os outros, para experimentares dizer uma vez que fosse ao capit√£o: vai buscar lenha, preciso de me aquecer √† fogueira. N√£o, tinhas descoberto uma outra solu√ß√£o; enquanto estavas ainda saciado, calculavas friamente que chegaria a hora em que a tua fome seria maior do que a dos outros todos. E ent√£o pensavas: em breve ficarei faminto, tornar-me-ei selvagem e sem escr√ļpulos, revoltar-me-ei, n√£o abertamente, mas de modo dissimulado, contra estes terroristas. Com a cabe√ßa fria, fazias projectos sobre a maneira como utilizarias a tua embriaguez, e √© isso que √© desprez√≠vel.

Amor é um Espírito Invisível

Dizem que fere amor com passadores
e que traz em matar o pensamento,
mas eu julgo que tem amor de vento
quem cuida haver no mundo tais amores.

Também dizem que o pintam os Pintores
menino, nu e cego: e t√£o sem tento,
que √© mais cego e mais nu d’entendimento,
quem cuida que em amores cabem tais cores.

Amor é um espírito invisível,
que entra por onde quer, e abranda o peito
sem cor, sem arco, aljava, ou seta dura:

Pode num peito humano o impossível,
recebe-se somente no conceito,
e tem no coração posse segura.

O Teu Olhar

Passam no teu olhar nobres cortejos,
Frotas, pend√Ķes ao vento sobranceiros,
Lindos versos de antigos romanceiros,
Céus do Oriente, em brasa, como beijos,

Mares onde n√£o cabem teus desejos;
Passam no teu olhar mundos inteiros,
Todo um povo de heróis e marinheiros,
Lan√ßas nuas em r√ļtilos lampejos;

Passam lendas e sonhos e milagres!
Passa a √ćndia, a vis√£o do Infante em Sagres,
Em centelhas de crença e de certeza!

E ao sentir-te t√£o grande, ao ver-te assim,
Amor, julgo trazer dentro de mim
Um pedaço da terra portuguesa!

Soneto Da Mulher Ao Sol

Uma mulher ao sol – eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos l√°bios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.

Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol – eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pelo √ļmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.

Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce

E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente – e se deixes a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir…

N√£o Voltar√°s

n√£o voltar√°s
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre

moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e s√£o de
√°gua

sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina lim√£o
p√°ssaras orvalho
a nervura das manh√£s
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras

como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas m√£os
no maio das rotas
de abril
tecidas

Aqui

Aqui, deposta enfim a minha imagem,
Tudo o que é jogo e tudo o que é passagem,
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu ‚ÄĒ eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o tumulto dos gestos pressentidos,
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não por aquilo que só atravessei,
Não pelo meu rumor que só perdi,
N√£o pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Na vida, precisamos sempre de usar máscaras, pois ninguém nos reconheceria se nos apresentássemos de rosto nu.

Tanto em pintura como em m√ļsica e literatura, tantas vezes o que chamam de abstrato me parece apenas o figurativo de uma realidade mais delicada e mais dif√≠cil, menos vis√≠vel a olho nu.

Debaixo das Oliveiras

Este foi o mês em que cantei
dentro de minha casa
debaixo
das oliveiras.

O m√™s em que a brisa me p√īs nas m√£os
uma harpa de folhas
e a terra me emprestou
sua flauta e sua lua.
Maré viva. Meu sangue atravessado
por um cometa visível a olho nu
tangido por satélites e aves de arribação
navegado por peixes desconhecidos.

Este foi o mês em que cantei
como quem morre e ressuscita
no terceiro dia
de cada sílaba.

O mês em que subi a uma colina
dentro de minha casa
olhei a terra e o mar
depois cantei
como quem faz com duas pedras
o primeiro lume. Palavras
e pedras. Palavras e lume
de uma vida.

Este foi o mês em que fui a um lugar santo
dentro de minha casa.
O mês em que saí dos campos
e me banhei no rio como quem se baptiza
e cantei debaixo das oliveiras
as m√£os cheias de terra. Palavras
e terra
de uma vida.

Este foi o mês em que cantei
como quem espelha ao vento suas cinzas
e cresce de seu próprio adubo
carregado de folhas.

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Soneto Sentimental À Cidade De São Paulo

√ď cidade t√£o l√≠rica e t√£o fria!
Mercen√°ria, que importa – basta! – importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia

Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e frígida.

Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal h√° se o lar onde se espera

Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
H√° um pecador morrendo de beleza?

Juízo

Quando, nos quatro √Ęngulos da Terra,
Troarem as trombetas ressurgentes,
Despertadoras dos mortais dormentes,
Por onde um Deus irado aos homens berra:

Prontos, num campo, em apinhada serra,
Todos nus assistir devem viventes
Ao Juízo Final e ver, patentes,
Seus delitos, que um livro eterno encerra.

Então, aberto o Céu, e o Inferno aberto,
Todos ali ver√£o: e a sorte imensa
Duma m√°goa sem fim, dum gozo certo.

Ver√£o recto juiz pesar a ofensa
Na balança integral, e o justo acerto,
Dando da vida e morte igual sentença.

√ćcaro

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de m√£os postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multid√Ķes desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia…

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um sil√™ncio gelou em derredor…
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

Cantata de Dido

J√° no roxo oriente branqueando,
As prenhes velas da troiana frota
Entre as vagas azuis do mar dourado
Sobre as asas dos ventos se escondiam.
A misérrima Dido,
Pelos paços reais vaga ululando,
C’os turvos olhos inda em v√£o procura
O fugitivo Eneias.
Só ermas ruas, só desertas praças
A recente Cartago lhe apresenta;
Com medonho fragor, na praia nua
Fremem de noite as solit√°rias ondas;
E nas douradas grimpas
Das c√ļpulas soberbas
Piam nocturnas, agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro
Atónita imagina
Que mil vezes ouviu as frias cinzas
De defunto Siqueu, com débeis vozes,
Suspirando, chamar: ‚Äď Elisa! Elisa!
D’Orco aos tremendos numens
Sacrifícios prepara;
Mas viu esmorecida
Em torno dos turícremos altares,
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética, delira,
P√°lido o rosto lindo
A madeixa subtil desentrançada;
Já com trémulo pé entra sem tino
No ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouviu, enternecida,
Magoados suspiros, brandas queixas.
Ali as cruéis Parcas lhe mostraram
As ilíacas roupas que,

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O Amor entre o Trigo

Cheguei ao acampamento dos Hern√°ndez antes do meio-dia, fresco e alegre. A minha cavalgada solit√°ria pelos caminhos desertos, o repouso do sono, tudo isso refulgia na minha taciturna juventude.
A debulha do trigo, da aveia, da cevada, fazia-se ainda com éguas. Nada no mundo é mais alegre que ver rodopiar as éguas, trotando à volta do calcadouro do cereal, sob o grito espicaçante dos cavaleiros. Brilhava um sol esplêndido e o ar era um diamante silvestre que fazia brilhar as montanhas. A debulha é uma festa de ouro. A palha amarela acumula-se em montanhas douradas. Tudo é actividade e bulício, sacos que correm e se enchem, mulheres que cozinham, cavalos que tomam o freio nos dentes, cães que ladram, crianças que a cada momento é preciso livrar, como se fossem frutos da palha, das patas dos cavalos.

Oe Hernández eram uma tribo singular. Os homens, despenteados e por barbear, em mangas de camisa e com revólver à cinta, andavam quase sempre besuntados de óleo, de poeiras, de lama, ou molhados até aos ossos pela chuva. Pais, filhos, sobrinhos, primos, eram todos da mesma catadura. Estavam horas inteiras ocupados debaixo de um motor, em cima de um tecto,

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¬ęEra estrangeiro e haveis-me acolhido, estava nu e vestiste-me¬Ľ (Mateus 25:35:36). A crise econ√≥mica, os conflitos armados e as altera√ß√Ķes clim√°ticas impelem muitas pessoas a emigrar. As migra√ß√Ķes n√£o s√£o um fen√≥meno novo, pertencem √† hist√≥ria da humanidade. √Č a falta de mem√≥ria hist√≥rica pensar que s√£o apenas pr√≥prias dos nossos tempos.

A Subjectividade do Amor-Próprio

Um mendigo dos arredores de Madrid esmolava nobremente. Disse-lhe um transeunte:
– O senhor n√£o tem vergonha de se dedicar a mister t√£o infame, quando podia trabalhar?
– Senhor, – respondeu o pedinte – estou-lhe a pedir dinheiro e n√£o conselhos. – E com toda a dignidade castelhana virou-lhe as costas.
Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n√£o suportava reprimendas.
Viajando pela √ćndia, topou um mission√°rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando-se chicotear em resgate dos pecados de seus patr√≠cios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa√≠s.
– Que ren√ļncia de si pr√≥prio! – dizia um dos espectadores.
– Ren√ļncia de mim pr√≥prio? – retorquiu o faquir. – Ficai sabendo que n√£o me deixo a√ßoitar neste mundo sen√£o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro.
Tiveram pois plena raz√£o os que disseram ser o amor de n√≥s mesmos a base de todos as nossas ac√ß√Ķes – na √ćndia, na Espanha como em toda a terra habit√°vel. Sup√©rfluo √© provar aos homens que t√™m rosto.

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