Passagens sobre Mistério

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Frases sobre mist√©rio, poemas sobre mist√©rio e outras passagens sobre mist√©rio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Sensibilidade Humanizada

Que lindos olhos de az√ļl inocente os do pequenito do agiota!
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada.
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, n√£o s√≥ pelo mist√©rio de ficar inexpressivo o org√Ęnico,
Mas de maneira directa, cá do coração.

Como o sól doura as casas dos réprobros!
Poderei odi√°-los sem desfazer no sol?

Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de crian√ßa de uma crian√ßa …

As na√ß√Ķes s√£o todas mist√©rios.
Cada uma é todo o mundo a sós.

Sentimento Esquisito

√ď c√©u est√©ril dos desesperados,
Forma impassível de cristas sidéreo,
Dos cemitérios velho cemitério
Onde dormem os astros delicados.

P√°tria d’estrelas dos abandonados,
Casulo azul do anseio vago, aéreo,
Formidável muralha de mistério
Que deixa os cora√ß√Ķes desconsolados.

Céu imóvel milênios e milênios,
Tu que iluminas a visão dos Gênios
E ergues das almas o sagrado acorde.

Céu estéril, absurdo, céu imoto,
Faz dormir no teu seio o Sonho ignoto,
Esta serpente que alucina e morde…

Um dia

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo t√£o cansados floriremos
Irm√£os vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E h√°-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Solilóquio De Um Visionário

Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impress√Ķes visuais que eu sinto,
Nas divinas vis√Ķes do √≠ncola et√©reo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais…

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
√Č necess√°rio que inda eu suba mais!

A escrita n√£o √© um ve√≠culo para se chegar a uma ess√™ncia. A escrita √© a viagem, a descoberta de outras dimens√Ķes e de mist√©rios que est√£o para al√©m das apar√™ncias.

Beijos No Ar

No silêncio da noite, alta e deserta,
inebriante, férvido sintoma,
uma fragr√Ęncia feminina assoma
e tentadoramente me desperta.

Entrou-me, em ondas, a janela aberta,
como se se quebrara uma redoma,
da qual fugira o delirante aroma,
que o mistério do amor assim me oferta.

De que dama-da-noite ou jasmineiro,
de que magnólia em flor, em fevereiro,
se exala esse c√°lido desejo?

Ela sonha comigo: esse perfume
vem da sua saudade, que presume,
embora em sonho, ter-me dado um beijo!

O mistério não é um muro onde a inteligência esbarra, mas um oceano onde ela mergulha.

A Miss√£o de Continuar a Vida

Ningu√©m se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mist√©rio. Para n√≥s mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada miss√£o que temos no mundo. Todos n√≥s somos uma miss√£o. Somos a miss√£o de continuar a vida, aperfei√ßoando-a, festejando-a e n√£o destruindo-a como se est√° a fazer hoje. Eu n√£o tenho certezas, mas tenho convic√ß√Ķes e uma das minhas convic√ß√Ķes mais firmes √© que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade est√° a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. N√≥s chegamos a esta coisa terr√≠vel, o chamado equil√≠brio nuclear, que √© o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. A humanidade est√° hoje pronta (parece que est√° sempre pronta!) para p√īr luto por si pr√≥pria. Isto n√£o √© uma forma humana de viver. Esta trag√©dia tem que ser a sua ¬ęh√ļbris¬Ľ, que √©, digamos, a arrog√Ęncia que desencadeia a cat√°strofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, √© que pa√≠ses que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem.

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Uma Nova Etapa na Vida a partir da Leitura de um Livro

Somos subeducados, atrasados e analfabetos; e neste particular confesso que n√£o fa√ßo grande distin√ß√£o entre a ignor√Ęncia do meu concidad√£o que n√£o sabe absolutamente ler nada, e a ignor√Ęncia do que apenas aprendeu a ler o que se destina a crian√ßas e intelig√™ncias med√≠ocres. Dever√≠amos estar √† altura dos grandes da Antiguidade, mas em parte por saber primacialmente qu√£o grandes eles foram. Somos uma ra√ßa de homens-passarinhos; nos nossos voos intelectuais mal nos al√ßamos um pouco acima das colunas do jornal.
Nem todos os livros s√£o t√£o ins√≠pidos como os seus leitores. √Č prov√°vel que haja palavras endere√ßadas exactamente √† nossa condi√ß√£o, as quais, se de facto pud√©ssemos ouvi-las e entend√™-las, seriam mais salutares √†s nossas vidas que a pr√≥pria manh√£ ou a Primavera, revelando-nos talvez uma face in√©dita das coisas.
Quantos homens não inauguraram uma nova etapa na vida a partir da leitura de um livro! Deve existir para nós o livro capaz de explicar os nossos mistérios e de revelar outros insuspeitados. As coisas que ora nos parecem inexprimíveis, podemos encontrá-las expressas algures.
As mesmas quest√Ķes que nos inquietam, intrigam e confundem, foram postas por sua vez a todos os homens s√°bios; nenhuma foi omitida,

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Nenhum Amor é Menos Ridículo que Outro

Temos, pois, que ao amor corresponde o am√°vel, e que este √© inexplic√°vel. Concebe-se a coisa, mas dela n√£o se pode dar raz√£o; assim tamb√©m √© que de maneira incompreens√≠vel o amor se apodera da sua presa. Se, de tempos a tempos, os homens ca√≠ssem por terra e morressem subitamente, ou entrassem em convuls√Ķes violentas mas inexplic√°veis, quem √© que n√£o sofreria a ang√ļstia? No entanto, √© assim que o amor interv√©m na vida, com a diferen√ßa de que ningu√©m receia por isso, visto que os amantes encaram tal acontecimento como se esperassem a suprema felicidade. Ningu√©m receia por isso, toda a gente ri afinal, porque o tr√°gico e o c√≥mico est√£o em perp√©tua correspond√™ncia. Conversais hoje com um homem; parece-vos que ele se encontra em estado normal; mas amanh√£ ouvi-lo-eis falar uma linguagem metaf√≥rica, v√™-lo-eis exprimir-se com gestos muito singulares: √© sabido, est√° apaixonado. Se o amor tivesse por express√£o equivalente ¬ęamar qualquer pessoa, a primeira que se encontra¬Ľ, compreender-se-ia a impossibilidade de apresentar melhor defini√ß√£o; mas j√° que a f√≥rmula √© muito diferente, ¬ęamar uma s√≥ pessoa, a √ļnica no mundo¬Ľ, parece que tal acto de diferencia√ß√£o deve provir de motivos profundos.
Sim, deve necessariamente implicar uma dial√©tica de raz√Ķes,

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O Poema √© uma √Ārvore de um S√≥ Fruto

Creio que nenhum de v√≥s h√°-de estranhar que eu diga que o poeta √© aquele que perdeu a palavra antes de a poder dizer; dito de outro modo. Ele √© o que fala ou escreve antes de conhecer o enunciado do que vai dizer. O grito, o sil√™ncio, a aridez da n√£o inspira√ß√£o determinam inicialmente a cria√ß√£o po√©tica; o poema nunca √© real, nunca se efectiva numa conclus√£o, ou num objectivo determinado. O poema nasce de um grito, de um assombro, de uma ruptura, da noite do nada e da disponibilidade da linguagem relacional; √© sempre a transposi√ß√£o de um referente real ou imagin√°rio para uma linguagem de equival√™ncia, mas necessariamente, livremente, distanciada da refer√™ncia. Esta linguagem √© a ¬ęcoer√™ncia da incoer√™ncia¬Ľ, ¬ęuma linguagem na linguagem¬Ľ, mantendo embora a voz mesma do existente ausente que √© o poeta, no ¬ęfingimento¬Ľ, na fic√ß√£o, na heteron√≠mia do poema. Longe de ser um astro fixo, o poema suspende o enunciado para fluir numa rela√ß√£o metam√≥rfica de palavras, de imagens, de sons e de rela√ß√Ķes que s√£o todos os elementos consonantes do poema; o poema √©, assim, um √©brio fluir de chamas, de estrelas, de possibilidades, de vibra√ß√Ķes, de sil√™ncios de uma respira√ß√£o errante em que a verdade nos escapa no mist√©rio da sua nostalgia,

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Porque Escrevo?

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espa√ßo habit√°vel da minha necessidade, do que me oprime, do que √© dif√≠cil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha s√£o verdade e a sua sedu√ß√£o √© mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degrada√ß√£o e a injusti√ßa n√£o devem ter raz√£o. Escrevo para tornar poss√≠vel a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que s√≥ na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que √© a primeira e a √ļltima que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar vis√≠vel o mist√©rio das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem raz√£o.

O homem está pronto para tudo desde que lhe seja dito com mistério; quem quer ser acreditado deve falar baixo.

L√°grimas Da Aurora, Poemas Cristalinos

L√°grimas da aurora, poemas cristalinos
Que rebentais das cobras do mistério!
Aves azuis do manto auri-sid√©rio…
Raios de luz, fant√°sticos, divinos!…

Astros di√°fanos, brandos, opalmos,
Brancas cecens do Paraíso etéreo,
Canto da tarde, límpido, aéreo,
Harpa ideal, dos encantados hinos!…

Brisas suaves, vira√ß√Ķes amenas,
Lírios do vale, roseirais do lago,
Bandos errantes de sutis falenas!…

Vinde do arcano n’um potente afago
Louvar o G√™nio das mans√Ķes serenas,
Esse Prod√≠gio singular e mago!!…

Desde que o meu bem partiu
Parecem outras as cousas;
Até as pedras da rua
Têm aspecto de lousas!

Quando por acaso as piso,
Perturba-me um tal mist√©rio!…
Como se pisasse à noite
As pedras dum cemit√©rio…

Religi√£o Emocional

Os dirigentes das religi√Ķes bem sucedidas nunca, pode‚ąíse realmente dizer, dispensaram de todo as armas fisiol√≥gicas nas suas tentativas de conferir gra√ßa espiritual aos seus semelhantes. Jejum, castigo da carne por flagela√ß√£o ou desconforto f√≠sico, regula√ß√£o da respira√ß√£o, revela√ß√£o de mist√©rios terr√≠veis, toque de tambor, dan√ßas, cantos, provoca√ß√£o de medo, p√Ęnico, ilumina√ß√£o fant√°stica ou gloriosa, incenso, drogas inebriantes ‚Äď esses s√£o apenas alguns dos in√ļmeros m√©todos empregados para modificar a fun√ß√£o cerebral normal em prop√≥sitos religiosos. Algumas seitas prestam mais aten√ß√£o que outras √† estimula√ß√£o de emo√ß√Ķes como meio de afectar o sistema nervoso superior; mas poucas a desprezam inteiramente.

A Obra Nunca Está Concluída

Considera-se, muitas vezes, a obra de um criador como uma sequ√™ncia de testemunhos isolados. Confunde-se ent√£o artista e literato. Um pensamento profundo est√° em perp√©tua forma√ß√£o, esgota a experi√™ncia de uma vida e nela se modela. Do mesmo modo, a cria√ß√£o √ļnica de um homem fortifica-se nos seus rostos sucessivos e m√ļltiplos, que s√£o as obras. Umas completam as outras, corrigem-as ou alcan√ßam-as, contradizem-as tamb√©m. Se alguma coisa termina a cria√ß√£o, n√£o √© o grito vitorioso e ilus√≥rio do artista, ofuscado: ¬ęDisse tudo¬Ľ, mas a morte do criador que fecha a sua experi√™ncia e o livro do seu g√©nio.
Esse esfor√ßo, esta consci√™ncia sobre-humana, n√£o aparece for√ßosamente ao leitor. N√£o h√° mist√©rio na cria√ß√£o humana. √Č a vontade que faz esse milagre. Em todo o caso, n√£o h√° verdadeira cria√ß√£o sem segredo. Sem d√ļvida, uma sequ√™ncia de obras pode n√£o passar de uma s√©rie de aproxima√ß√Ķes do mesmo pensamento. Mas podemos conceber outra esp√©cie de criadores que procederiam por justaposi√ß√£o. As suas obras podem parecer sem rela√ß√£o entre si. Em certa medida, s√£o contradit√≥rias. Mas, colocadas de novo no seu conjunto, denunciam uma ordem. √Č, pois, da morte que recebem o seu sentido definitivo. Aceitam a sua luz mais clara da pr√≥pria vida do seu autor.

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As L√°grimas

Exaltemos as l√°grimas. Na pele das veias,
bom dia, águas. Gratidão ao rosto, às cores,
ao sulco nos olhos. Porquê este ardor, este
temor da erva pisada? Adormecem comigo,

meigas f√°bricas de quietude e solid√£o
no calmo azul branco da sua breve cor.
Que longe se vão no ar amargo, sob o ímpeto
delirante de as transformar em leis extintas,

ironias ou j√ļbilos. Rolem ou finjam
incans√°veis trabalhos ou dores, assim
conspiram em outras portas, outros mistérios.

Perco-as entre conversas, o sono, o amor.
Aos olhos desertos sua ausência os desgasta.
Louvemos nas l√°grimas o seu fulgor v√£o.