Passagens sobre Nostalgia

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Frases sobre nostalgia, poemas sobre nostalgia e outras passagens sobre nostalgia para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

A Vida

“A Vida”
IV
“…A vida √© assim, uma √Ęnsia… feito a vaga
que se ergue e rola a espumejar na areia,
– apor esse bem que a tua m√£o semeia
espera o mal que ainda ter√°s por paga!

A essa hora boa que te agrada e enleia
sucede uma outra torturante e aziaga,
– a vida √© assim… um canto de sereia
que √† morte nos convida, e nos afaga…

O teu sonho melhor bem pouco dura,
e h√° sempre”um amanh√£”cheio de dor
para”um hoje”nem sempre de ventura…

Toma entre as m√£os o b√ļzio da alegria
e surpreso ver√°s que no interior
canta profunda e imensa nostalgia!…”

Flores Da Lua

Brancuras imortais da Lua Nova
Frios de nostalgia e sonol√™ncia…
Sonhos brancos da Lua e viva essência
Dos fantasmas noctívagos da Cova.

Da noite a tarda e taciturna trova
Solu√ßa, numa tremula dorm√™ncia…
Na mais branda, mais leve florescência
Tudo em Vis√Ķes e Imagens se renova.

Mistérios virginais dormem no Espaço,
Dormem o sono das profundas seivas,
Mon√≥tono, infinito, estranho e lasso…

E das Origens na lux√ļria forte
Abrem nos astros, nas sidéreas leivas
Flores amargas do palor da Morte.

Cabelos

I

Cabelos! Quantas sensa√ß√Ķes ao v√™-los!
Cabelos negros, do esplendor sombrio,
Por onde corre o fluido vago e frio
Dos brumosos e longos pesadelos…

Sonhos, mistérios, ansiedades, zelos,
Tudo que lembra as convuls√Ķes de um rio
Passa na noite c√°lida, no estio
Da noite tropical dos teus cabelos.

Passa através dos teus cabelos quentes,
Pela chama dos beijos inclementes,
Das dol√™ncias fatais, da nostalgia…

Auréola negra, majestosa, ondeada,
Alma da treva, densa e perfumada,
L√Ęnguida Noite da melancolia!

Eu Queria uma Liberdade Olímpica

Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade mas estou presa dentro de mim. Eu queria uma liberdade olímpica. Mas essa liberdade só é concedida aos seres imateriais. Enquanto eu tiver corpo ele me submeterá às suas exigências. Vejo a liberdade como uma forma de beleza e essa beleza me falta.

O Mundo Avança

O mundo avan√ßa. √Č verdade, disse eu, avan√ßa, mas dando voltas em torno do sol. (…) Os adolescentes da minha gera√ß√£o, alvora√ßados pela vida, esqueceram em corpo e alma as ilus√Ķes do futuro, at√© que a realidade lhes ensinou que o futuro n√£o era como o sonhavam, e descobriram a nostalgia. Ali estavam as minhas cr√≥nicas dominicais, como uma rel√≠quia arqueol√≥gica entre os escombros do passado, e aperceberam-se que n√£o eram s√≥ para velhos mas tamb√©m para jovens que n√£o tivessem medo de envelhecer.

A Guerra

E tropeçavam todos nalgum vulto,
quantos iam, febris, para morrer:
era o passado, o seu passado ‚ÄĒ um vulto
de esfinge ou de mulher.

Caíam como heróis os que não o eram,
pesados de infort√ļnio e solid√£o.
(Arma secreta em cada coração:
a tortura de tudo o que perderam.)

Inimigos n√£o tinham a n√£o ser
aquela nostalgia que era deles.
Mas lutavam!, son√Ęmbulos, imbeles,
s√≥ na esp’ran√ßa de ver, de ver e ter
de novo aquele vulto
‚ÄĒ imponder√°vel e oculto ‚ÄĒ
de esfinge, ou de mulher.

A Nostalgia da Europa

Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar.
Mas, a qu√™ e a quem? Qual √© o dom√≠nio onde se realizaram valores supremos suscept√≠veis de unir a Europa? As conquistas t√©cnicas? O mercado? A pol√≠tica com o ideal de democracia, com o princ√≠pio da toler√Ęncia? Mas, essa toler√Ęncia, que j√° n√£o protege nenhuma cria√ß√£o rica nem nenhum pensamento forte, n√£o se tornar√° oca e in√ļtil? Ou ent√£o, ser√° que podemos entender a demiss√£o da cultura como uma esp√©cie de liberta√ß√£o √† qual nos devemos abandonar com euforia? N√£o sei. A √ļnica coisa que julgo saber √© que a cultura j√° cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.

A Inegual√°vel

Ai, como eu te queria toda de violetas
E fl√©bil de setim…
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas…

E t√£o febril e delicada
Que n√£o podesses dar um passo –
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de c√īr no rega√ßo…

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas –
Sonolenta,
Ruiva de √©teres e morfinas…

Ah! que as tuas nostalgias f√īssem guisos de prata –
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata…

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim –
Os teus espasmos, de s√™da…

– √Āgua fria e clara numa noite azul,
√Āgua, devia ser o teu amor por mim…

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desej√°-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto n√£o √© mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
h√° logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de s√ļbito surgido √† flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

Na verdade, a filosofia é nostalgia, o desejo de se sentir em casa em qualquer lugar.

N√£o ter nascido bicho √© uma minha secreta nostalgia. Eles √†s vezes clamam do longe muitas gera√ß√Ķes e eu n√£o posso responder sen√£o ficando inquieta. √Č o chamado.

O Acto Poético

O acto po√©tico √© o empenho total do ser para a sua revela√ß√£o. Este fogo do conhecimento, que √© tamb√©m fogo de amor, em que o poeta se exalta e consome, √© a sua moral. E n√£o h√° outra. Nesse mergulho do homem nas suas √°guas mais silenciadas, o que vem √† tona √© tanto uma singularidade como uma pluralidade. Mas, curiosamente, o esp√≠rito humano atenta mais facilmente nas diferen√ßas do que nas semelhan√ßas, esquecendo-se, e √© Goethe quem o lembra, que o particular e o universal coincidem, e assim a palavra do poeta, t√£o fiel ao homem, acaba por ser palavra de esc√Ęndalo no seio do pr√≥prio homem. Na verdade, ele nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem, ousa amar o que outros nem sequer s√£o capazes de imaginar. Palavra de afli√ß√£o mesmo quando luminosa, de desejo apesar de serena, rumorosa at√© quando nos diz o sil√™ncio, pois esse ser sedento de ser, que √© o poeta, tem a nostalgia da unidade, e o que procura √© uma reconcilia√ß√£o, uma suprema harmonia entre luz e sombra, presen√ßa e aus√™ncia, plenitude e car√™ncia.

O Mar

Que nostalgia vem das tuas vagas,
√ď velho mar, √≥ lutador Oceano!
Tu de saudades íntimas alagas
O mais profundo coração humano.

Sim! Do teu choro enorme e soberano,
Do teu gemer nas desoladas plagas
Sai o quer que é, rude sultão ufano,
Que abre nos peitos verdadeiras chagas.

√ď mar! √≥ mar! embora esse eletrismo,
Tu tens em ti o gérmen do lirismo,
√Čs um poeta l√≠rico demais.

E eu para rir com humor das tuas
Nevroses colossais, bastam-me as luas
Quando fazem luzir os seus metais…

Feliz!

Ser de beleza, de melamcolia,
Espírito de graça e de quebranto,
Deus te bendiga o doloroso pranto,
Enxugue as tuas l√°grimas um dia.

Se a tu’alma √© d’estrela e d’harmonia,
Se o que vem dela tem divino encanto,
Deus a proteja no sagrado manto,
No céu, que é o vale azul da Nostalgia.

Deus a proteja na felicidade
Do sonho, do mistério, da saudade,
De c√Ęnticos, de aroma e luz ardente.

E sê feliz e sê feliz subindo,
Subindo, a Perfeição na alma sentindo
Florir e alvorecer libertamente!

O Amor por Matilde e os Versos do Capit√£o

E vou contar-lhes agora a hist√≥ria deste livro, um dos mais controvertidos daqueles que escrevi. Foi durante muito tempo um segredo, durante muito tempo n√£o ostentou o meu nome na capa, como se o renegasse ou o pr√≥prio livro n√£o soubesse quem era o pai. Tal como os filhos naturais, filhos do amor natural, ¬ęLos versos del capit√°n¬Ľ eram, tamb√©m, um ¬ęlibro natural¬Ľ.

Os poemas que cont√©m foram escritos aqui e ali, ao longo do meu desterro na Europa. Foram publicados anonimamente em N√°poles, em 1952. O amor por Matilde, a nostalgia do Chile, as paix√Ķes c√≠vicas, recheiam as p√°ginas desse livro, que teve muitas edi√ß√Ķes sem trazer o nome do autor.

Para a 1¬™ edi√ß√£o, o pintor Paolo Ricci conseguiu um papel admir√°vel e antigos tipos de imprensa ¬ębodonianos¬Ľ, bem como gravuras extra√≠das dos vasos de Pompeia. Com fraternal fervor, Paolo elaborou tamb√©m a lista dos assinantes. Em breve apareceu o belo volume, com tiragem limitada a cinquenta exemplares. Festej√°mos largamente o acontecimento, com mesa florida, ¬ęfrutti di mare¬Ľ, vinho transparente como √°gua, filho √ļnico das vinhas de Capri. E com a alegria dos amigos que amaram o nosso amor.
Alguns críticos suspicazes atribuíram a motivos políticos a publicação anónima do livro.

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Soneto Da Hora Final

Ser√° assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olhar√°s silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de trevas, aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do segredo
Eu, calmo, te direi: – N√£o tenhas medo
E tu, tranq√ľila, me dir√°s: – S√™ forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

Um Segredo

Meu pai tinha sand√°lias de vento
só agora o sei.
Tinha sand√°lias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a express√£o em
[nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem
[estar em todos os sítios.

Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso
[tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.

Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.

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