Poemas sobre Abandono

18 resultados
Poemas de abandono escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

A Ultima Serenada do Diabo

No tempo em que elle, nas lendas,
Era amante e cortez√£o,
Jogava, e tinha contendas,
Cantava assim em Mil√£o:

……………………………………
……………………………………
……………………………………

√ď flores meigas, √≥ Bellas!
Para prender os toucados,
Eu dar-vos-hia as estrellas:
– Os alfinetes dourados!

S√≥ pelo amor quebro lan√ßas! –
A Rainha de Navarra
Enleou um dia as tranças
No bra√ßo d’esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!…
Mas inda ha luz nos meus rastros;
A lança que me ha ferido
Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!
Eu tornaria √°s alturas…
Subindo pelas escadas
Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe
Não conta diques, ó bellas!
Só minha guitarra o sabe,
E aquellas velhas estrellas!

√ď batalhas amorosas!
– Era d’aventuras cheia!
√ď brancas noutes saudosas
Que eu andei pela Judea!

√ď flores apetecidas!
Livros escriptos com beijos!
√ď brancas aves fugidas
Dos jardins dos meus desejos!

N√£o me deixeis no abandono
√ď tristes olhos leaes!

Continue lendo…

Acendimento

Seria bom sentir no quarto qualquer m√ļsica
enquanto nos banham os perfis ateados
pelo aroma da tília, sem voz, em abandono.
A entrada por detr√°s das ruas principais
onde a morrinha parece que nem molha
e se chega perdido onde se vai.
Não, não é só um beijo que te quero dar.

Quantas vezes nesta hora de desvalimento
vejo orion e as plêiades devagar no céu de inverno.
Mas hoje
com a calma inesperada de chuvas que n√£o cessam
acordo já depois. Caí numa hibernação que não norteia
o desequilíbrio do sentimento.

Espelhos sem paz tocam-nos no rosto.
Na cega mancha de roupagem aconchego
cada intempérie com sua mentira
e depois sigo pela torrente, pelo enredo
dos outeiros, cada espelho continua
a caução pacificadora do engano.
√Č isso que te levo, isso que me d√°s
quando dizes, j√° sem o dizeres, eu amo-te.

Pela berma da humidade cerrada
um risco de merc√ļrio trespassa.
Na gravilha passos que n√£o h√°
esmagam a m√ļsica que ningu√©m escuta.
Sabiam de cor tudo o que falhava,

Continue lendo…

Elegia

Vae em seis mezes que deixei a minha terra
E tu ficaste l√°, mettida n’uma serra,
Boa velhinha! que eras mais uma crian√ßa…
Mas, t√£o longe de ti, n’este Payz de Fran√ßa,
Onde mal viste, ent√£o, que eu viesse parar,
Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
Vir√°s tratar de mim, ainda depois de morta?
Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
Ajuda-te o bord√£o que te empresta uma fada.
Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
Escapas-te√£da cova e vens, Bondade enorme!
Atravez do Mar√£o que a lua-cheia banha,
Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
(E as fontes cantam e o c√©u √© todo estrellado…)
Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
Diz: ¬ęV√° seguindo sempre a minha estrella, no Ar!¬Ľ
E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
Que √©s tu a Virgem disfar√ßada em probrezinha…
Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
Sob os quaes rola a humanidade,

Continue lendo…

Duplo

Olho-me adentro sem cessar e no silêncio
e na penumbra de mim mesmo n√£o me exprimo
nesse mim que se esconde e se retrai no vago
espaço de urna célula e vai construindo
outro mim de mim, disposto em gêmeos compassos,
e não aparece ao olho, ao espelho, à imagem
casualmente em máscara, fechado à curio-
sidade de meus olhos lacerados, cegos
de tanta luz enganosa, nem se derrama
sobre a superfície polida e indiferente,
enquanto cresce em mim a presença de estranho
ser não eu, de irrevelada e própria pessoa,
que domina esse meu corpo, casca de ang√ļstia
e contradi√ß√Ķes sim√©tricas envolventes,
e me explora e me assimila; mas sou eu só
a me percorrer e nele me vejo e sinto,
como de dois corpos iguais matéria viva,
e me faço e refaço e me desfaço sempre
e recomeço e junto a mim eu mesmo, gêmeo,
nada acabo e tudo abandono, dividido
entre mim e mim na batalha intermin√°vel…

Passamos e Agitamo-nos Debalde

Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas n√£o falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das √°rvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E n√£o querer mais vida
Que a das √°rvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos sa√ļda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que far√° na alta praia
Em que o mar é o Tempo?

Meridional

Cabelos

√ď vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escurid√£o dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No b√°ratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintila√ß√Ķes e meigos c√©us de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tuf√Ķes,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solid√Ķes.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo eb√Ęnico e t√£o bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E, ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturb√°vel,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milion√°rio avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Continue lendo…

O Meu Cachimbo

√ď meu cachimbo! Amo-te immenso!
Tu, meu thuribudo sagrado!
Com que, bom Abbade, incenso
A Abbadia do meu passado.

Fumo? E occorre-me á lembrança
Todo esse tempo que l√° vae,
Quando fumava, ainda criança,
√Ās escondidas do meu Pae.

Vejo passar a minha vida,
Como n’um grande cosmorama:
Homem feito, pallida Ermida,
Infante, pela m√£o da ama…

Por alta noite, √°s horas mortas,
Quando n√£o se ouve pio, ou voz,
Fecho os meus livros, fecho as portas
Para fallar comtigo a sós.

E a noite perde-se em cavaco,
Na Torre d’Anto, aonde eu moro!
Alli, mettido no buraco,
Fumo e, a fumar, √°s vezes… choro.

Chorando (penso e n√£o o digo)
Os olhos fitos neste ch√£o,
Que tu √©s leal, √©s meu amigo…
Os meus amigos onde est√£o?

N√£o sei. Tral-os-√° o ¬ęnevoeiro¬Ľ…
Os trez, os intimos, Aquelles,
Est√£o na Morte, no extrangeiro…
Dos mais n√£o sei, perdi-me d’elles.

Morreram-me uns. Por elles peço
A Deus, quando está de maré:
E, √°s noites,

Continue lendo…

Como Queiras, Amor…

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, n√£o, ainda h√° por que eu n√£o espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
t√£o tenebrosa divis√£o do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso
em l√°bios que se fecham como olhares de raiva.
N√£o poder√°s salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Ser√° mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Continue lendo…

Escrevias pela Noite Fora

Escrevias pela noite fora. Olhava-te, olhava
o que ia ficando nas pausas entre cada
sorriso. Por ti mudei a raz√£o das coisas,
faz de conta que n√£o sei as coisas que n√£o queres
que saiba, acabei por te pensar com crianças
à volta. Agora há prédios onde havia
laranjeiras e rom√£s no ch√£o e as palavras
nem o sabem dizer, apenas apontam a rua
que foi comum, o quarto estreito. Um livro
é suficiente neste passeio. Quando não escreves
estás a ler e ao lado das árvores o silêncio
é maior. Decerto te digo o que penso
baixando a cabeça e tu respondes sempre
com a cabeça inclinada e o fumo suspenso
no ar. As verdades nunca se disseram. Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana. Mantêm-se as causas iguais
das pequenas alegrias, longe da alegria, a rotina
dos sorrisos vem de nenhum vício. Este abandono
custa. Porque estou contigo e me deixas
a tua imagem passa pelas noites sem sono,
est√° aqui a cadeira em que te sentaste
a escrever lendo.

Continue lendo…

Definição por Soma

Um consumir-se a cada instante
um escoar-se e um desperdício
um e contudo outro e diverso
um processar-se e um processo

Para tocar o que do vento
para prender o que da fuga
para morder o que do sono
para tão só há que esquecer

Combatido por trevas √ļltimas
combatido por rostos p√°lidos
combatido por chuva e névoa
combatido e a dar combate

Chego ao inóspito do clima
chego ao vazio onde só o sexo
chego ao anónimo e mortal
chego ao agudo e seus rec√īnditos

Essa unidade com o m√ļltiplo
essa inclus√£o pelo abandono
essa causalidade absurda
essa e n√£o outra que a disputa

Discórdia que se aceita íntegra
discórdia que mascara os pactos
discórdia dos estados físicos
disc√≥rdia e disc√≥rdia e insol√ļvel

Quando de cada nascimento
quando visível o invisível
quando o que há é só o agora
quando dissolução do tempo

Passo por fios de cabelo
passo por r√°pidos que fogem
passo por bons e maus momentos
passo e no entanto permaneço

Homem que sou e com memória
homem e póstumo e morrendo
homem que alto e sobrevive
homem e seco e secas l√°grimas

Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura

Ler na cama
√Č uma dif√≠cil opera√ß√£o
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.

Pesada Noite

A noite cai de bruços,
cai com o peso fundo do cansaço,
cai como pedra, como braço,
cai como um século de cera,
aos tombos, aos soluços,
entre a maçã maciça e a perene pêra,
entre a tarde e o crep√ļsculo,
dilatação da madrugada, elástica,
cai, de borracha,
imita√ß√£o de m√ļsculo,
cai, parecendo que se agacha
na sombra, e feminina, e √°gil
salta, com molas de gin√°stica
nos pés, o abismo
do press√°gio,
a noite, essa mandíbula do trismo,
tétano e espasmo,
ao mesmo tempo, a noite
amorosa, à espreita do orgasmo,
ferina, mas também açoite,
contraditória
como existir esquecimento
no íntimo do homem,
na intimidade viva da memória,
reminiscências que o consomem
fugindo com o vento,
a noite, a noite acata
tudo que ocorre,
tanto aquele que mata
quanto aquele que morre,
a noite, a sensação e aguda
de um sono
fechando os olhos, invencível
como fera que estuda
a vítima, abandono
completo, fuga, salto
nas garras do impossível,
a noite pétrea do basalto,

Continue lendo…

Sil√™ncio, Nostalgia…

Sil√™ncio, nostalgia…
Hora morta, desfolhada,
sem dor, sem alegria,
pelo tempo abandonada.

Luz de Outono, fria, fria…
Hora in√ļtil e sombria
de abandono.
Não sei se é tédio, sono,
silêncio ou nostalgia.

Intermin√°vel dia
de indizíveis cansaços,
de funda melancolia.
Sem rumo para os meus passos,
para que servem meus braços,
nesta hora fria, fria?

Os Vencidos

Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas m√£os as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com m√£o potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um solu√ßo: ¬ęAmei e fui amado!
Levou-me uma vis√£o, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo v√īo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paix√£o
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

Continue lendo…

Os Amantes de Novembro

Ruas e ruas dos amantes
Sem um quarto para o amor
Amantes s√£o sempre extravagantes
E ao frio também faz calor

Pobres amantes escorraçados
Dum tempo sem amor nenhum
Coitados t√£o engalfinhados
Que sendo dois parecem um

De pé imóveis transportados
Como uma est√°tua erguida num
Jardim votado ao abandono
De amor juncado e de outono.

Romance

Fruto de solid√£o
preso à fronde do vento,
lua, tu nos d√°s
a medida do eterno,
essa altura que jogas
contra o espaço celeste
em nós refere a terra,
que em nossa √Ęnsia integras.
E ao nosso amor integras
tudo o que n√£o sofremos,
tudo o que n√£o tivemos
e apenas pressentimos,
em tua marcha sentimos
tudo o que n√£o teremos
e tudo o que j√° viveram
cora√ß√Ķes noutros tempos.
Flanco de solid√£o,
maçã casta e sensual
presa ao ramo oscilante
entre a alma e o carnal,
em ti, suprema altura,
os olhos v√£o reunindo
as trilhas do abandono
e alguns ecos da inf√Ęncia.

Pata branca de touro
extraviada no azul.

Rumor dos Fogos

hoje à noite avistei sobre a folha de papel
o drag√£o em celul√≥ide da inf√Ęncia
escuro como o interior polposo das cerejas
antigo como a ins√≥nia dos meus trinta e cinco anos…

dantes eu conseguia esconder-me nas paisagens
podia beber a humidade aérea do musgo
derramar sangue nos dedos magoados
foi h√° muito tempo
quando corria pelas ruas sem saber ler nem escrever
o mundo reduzia-se a um berlinde
e as m√£os eram pequenas
desvendavam os nocturnos segredos dos pinhais

n√£o quero mais perceber as palavras nem os corpos
deixou de me pertencer o choro longínquo das pedras
prossigo caminho com estes ossos cor de malva
som a som o vegetal silêncio sílaba a sílaba o abandono
desta obra que fica por construir… o receio
de abrir os olhos e as rosas n√£o estarem onde as sonhei
e teu rosto ter desaparecido no fundo do mar

ficou-me esta m√£o com sua sombra de terra
sobre o papel branco… como √© louca esta m√£o
tentando aparar a tristeza antiga das l√°grimas

Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carv√£o aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.