Cita√ß√Ķes de Fernando Guimar√£es

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Fernando Guimar√£es para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Mater Dolorosa

Sozinha, olho para o teu corpo e sei como é dentro de mim que ele
existe;
desde que nasceste compreendi que podiam apenas os meus braços
acolher-te. Fico de novo presa
a este sofrimento. Sentia como chegava a sombra e com ela o que
seria apenas
o teu espírito, perdido como as primeiras imagens que se
desprendem agora
nesta manhã tranquila. Há-de a sua recordação ser talvez a mesma
que vinha com os sonhos ainda suspensos pelas m√£os que se
tomam
mais leves, iniciais. Poderia descer para mim este sangue; ele
pertencia-me
como se a luz viesse apenas recolhê-lo. O resto era o que se não
separava
da noite, dessas vestes que ficam caídas sobre o teu corpo
como se fossem a piedade; era t√£o pouco o que recebias. Ajudo-te
com o meu silêncio. Julgo que talvez nele chegue um pouco
de calor
a que sozinho te poderias acolher. Assim repousas junto de mim
e principio a olhar-te. Que idade era a tua quando se uniram
as m√£os? Espero h√° muito as palavras que traziam consigo
uma recordação que não podia existir na tua voz apagada;

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Post Coitum Animal Triste

Em ti o poema, o amplo tecido da √°gua ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extens√£o e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as m√£os das chuvas.

Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as √°rvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vest√≠gio dos √ļltimos peregrinos, aves nuas
que j√° desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.

Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.

Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.

√Ārvore

Conhe√ßo as suas ra√≠zes. √Č tudo o que vejo.
H√° um movimento que a percorre devagar. N√£o sei
se ela existe. Imagino apenas como s√£o os ramos,
este odor mais secreto, as primeiras folhas
aquecidas. Mas eu existo para ela. Sou
a sua própria sombra, o espaço que fica à volta
para que se torne maior. √Č assim que chega
o que n√£o passa de um pressentimento. Ela compreende
este segredo. Estremece. Comigo procuro trazer
s√≥ um pouco de terra. √Č a terra de que ela precisa.

Sussurro

Isto é um poço. Há sempre quem nele se debruce. A água
continua a correr sem qualquer destino, e sabemos
como se afasta devagar para ser igual às vestes
caídas, talvez abandonadas. Assim tu podes ver
o que se confunde ali com a luz e, depois, se torna
mais nosso. Sem pressa aproximas-te agora desse espelho
vazio e sentirás que só a brisa desce até ficarmos
perto de alguns sulcos. Eles tornaram-se maiores, humedecidos.
Inclinas-te um pouco mais como se finalmente escutasses
uma confidência. Sabemos que é em vão porque ninguém se encontra
ao teu lado e já não é suficiente o sussurro da água.