Passagens sobre Folhas

305 resultados
Frases sobre folhas, poemas sobre folhas e outras passagens sobre folhas para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Nem Sequer Sou Poeira

N√£o quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezassete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manh√£
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solid√£o que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
J√° sou entrado em anos. Uma p√°gina
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as opera√ß√Ķes e truques de magia.
Cavaleiros crist√£os l√° percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solit√°ria.
Seu nome ainda n√£o sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino.

Continue lendo…

Pobre Tysica!

Quando ella passa √° minha porta,
Magra, livida, quazi morta,
E vae até á beira-mar,
Labios brancos, olhos pizados:
Meu coração dobra a finados,
Meu cora√ß√£o poe-se a chorar…

Perpassa leve como a folha,
E suspirando, √°s vezes, olha
Para as gaivotas, para o Ar:
E, assim, as suas pupillas negras
Parecem duas toutinegras,
Tentando as azas para voar!

Veste um habito cor de leite,
Saiinha liza, sem enfeite,
Boina maruja, toda luar:
Por isso, mal na praia alveja,
As mais suspiram com inveja:
¬ęNoiva feliz, que vaes cazar…¬Ľ

Triste, acompanha-a um Terra-Nova
Que, dentro em pouco, √° fria cova
A ir√° de vez acompanhar…
O ch√£o desnuda com cautella,
Que Boy conhece o estado d’ella:
Quando ella tosse, poe-se a uivar!

E, assim, sósinha com a aia,
Ao sol, se assenta sobre a praia,
Entre os b√©b√©s, que √© o seu logar…
E o Oceano, tremulo av√īzinho,
Cofiando as barbas cor de linho,
Vem ter com ella a conversar…

Fallam de sonhos, de anjos,

Continue lendo…

Esta Noite Morrer√°s

Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
Esta noite morrer√°s.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
ter√°s partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca
o fim de um eclipse hor√°rio de uma partida iminente e o tempo
apaga a marca dos teus passos sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo
por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu par-
tiste e no meu leito crescem folhas sangue.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua
e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um
prisma,

Continue lendo…

A Esperança da Humanidade

A vida política, porém, veio como um trovão desviar-me dos meus trabalhos. Regressei uma vez mais à multidão.
A multidão humana foi a maior lição da minha vida. Posso chegar a ela com a inerente timidez do poeta, com o receio do tímido; mas, uma vez no seu seio, sinto-me transfigurado. Sou parte da essencial maioria, sou mais uma folha da grande árvore humana.

Solid√£o e multid√£o continuar√£o a ser deveres elementares do poeta do nosso tempo. Na solid√£o, a minha vida enriqueceu-se com a batalha da ondula√ß√£o no litoral chileno. Intrigaram-me e apaixonaram-me as √°guas combatentes e os penhascos combatidos, a multiplica√ß√£o da vida oce√Ęnica, a impec√°vel forma√ß√£o dos ¬ęp√°ssaros errantes¬Ľ, o esplendor da espuma mar√≠tima.

Mas aprendi muito mais com a grande maré das vidas, com a ternura vista em milhares de olhos que me viam ao mesmo tempo. Pode esta mensagem não ser possível a todos os poetas, mas quem a tenha sentido guardá-la-á no coração, desenvolvendo-a na sua obra.
√Č memor√°vel e desvanecedor para o poeta ter encarnado para muitos homens, durante um minuto, a esperan√ßa.

Tédio

Sobre minh’alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, √ļltimo outono,
Lan√ßar-me as folhas √ļltimas ao vento!

Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!

Oh! deixar de sonhar o que n√£o vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,

Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, f√ļnebre, l√ļgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!…

A Gloriola do Jornal

O jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas asas com que os iconografistas do s√©culo XV representavam a Lux√ļria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas asas que o levem √† gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E √© por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Pol√≠ticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravag√Ęncia est√©tica, e os S√°bios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os g√©neros, surge a horda ululante dos charlat√£es… (Como me vim tornando altiloquente e roncante!…) Mas e a verdade, meu Bento! V√™ quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O pr√≥prio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, h√° assassinos que assassinam. At√© o velho instinto da conserva√ß√£o cede ao novo instinto da notoriedade – e existe tal magan√£o, que ante um funeral convertido em apoteose pela abund√Ęncia das coroas, dos coches e dos prantos orat√≥rios, lambe os bei√ßos, pensativo, e deseja ser o morto.

Solid√£o

Um frio enorme esta minha alma corta,
e eu me encolho em mim mesmo: – a solid√£o
anda lá fora, e o vento à minha porta
passa arrastando as folhas pelo ch√£o…

Nesta noite de inverno fria e morta,
em meio ao neblinar da cerração,
o silêncio, que o espírito conforta,
exaspera a minha alma de afli√ß√£o…

As horas v√£o passando em abandono,
e entre os frios lençóis onde me deito
em v√£o tento conciliar o sono

A cama √© fria… O quarto √ļmido e triste…
– H√° uma noite de inverno no meu peito,
desde o instante cruel em que partiste…

Noite. Oh! Saudade!… A dolorosa rama
Da √°rvore aflita pelo ch√£o derrama
As folhas, como l√°grimas… Lembrar!

Longus

√Č de manh√£, no outono. √Ä luz, o orvalho
doira os mirtais de trêmulas capelas.
e, sobre o solo, recobrindo o atalho,
h√° milhares de folhas amarelas…

A Filetas, ao pé de amplo carvalho,
ouvem as narra√ß√Ķes e pastorelas,
um rapaz, aindaingênuo e sem trabalho,
e a mais linda de todas as donzelas…

√Č a narrativa do florir dos prados,
que o mais doce dos velhos barbilongos
conta ao casal de jovens namorados…

Sil√™ncio… Ouvi-lhe o beijo dos ditongos,
os sil√°bicos sons, que musicados,
cantam na am√°vel pastoral de Longus…

O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

Continue lendo…

O Mundo Do Sert√£o

(com tema do nosso armorial)

Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

o Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.

A Minha Ausência de Ti

Foi tal e qual o inverno a minha ausência
de ti, prazer dum ano fugitivo:
dias nocturnos, gelos, inclemência;
que nudez de dezembro o frio vivo.

E esse tempo de exílio era o do verão;
era a excessiva gravidez do outono
com a vol√ļpia de maio em cada gr√£o:
um seio vi√ļvo, sem senhor nem dono.

Essa posteridade em seu esplendor
uma esperança de órfãos me parecia:
contigo ausente, o ver√£o teu servidor

emudeceu as aves todo o dia.
Ou tanto as deprimiu, que a folha arfava
e no temor do inverno desmaiava.

Tradução de Carlos de Oliveira

Caminho Da Glória

Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.

Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
√Č por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.

√Č por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminh

Os seres virginais que vêm da Terra,
Ensang√ľentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.

Aproveitar o Tempo

Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha…
O trabalho honesto e superior…
O trabalho √† Virg√≠lio, √† M√≠lton…
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
√Č t√£o pouco prov√°vel ser Milton ou ser Virg√≠lio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos – nem mais nem menos –
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E est√£o certas tamb√©m do lado de baixo que se n√£o v√™)…
P√īr as sensa√ß√Ķes em castelo de cartas, pobre China dos ser√Ķes,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paci√™ncias ou de passatempos –
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo…
Sim, verbalismo…
Aproveitar o tempo!
N√£o ter um minuto que o exame de consci√™ncia desconhe√ßa…
N√£o ter um acto indefinido nem fact√≠cio…
N√£o ter um movimento desconforme com prop√≥sitos…
Boas maneiras da alma…
Eleg√Ęncia de persistir…

Aproveitar o tempo!

Continue lendo…

Os Meus Livros

Os meus livros (que n√£o sabem que existo)
S√£o uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em v√£o vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha m√£o c√īncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estar√£o nessas folhas
Que n√£o sabem quem sou, n√£o nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-√£o para sempre.

Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
Afaga a cantaria
Cidade do homem
N√£o do lobo mas irm√£o
Capital da alegria

Braço que dormes
Nos braços do rio
Toma o fruto da terra
E teu a ti o deves
Lança o teu
Desafio

Homem que olhas nos olhos
Que n√£o negas
O sorriso a palavra forte e justa
Homem para quem
O nada disto custa
Ser√° que existe
L√° para as margens do oriente
Este rio este rumo esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
Na minha rota?

A Solid√£o

Ora, a solid√£o, ainda vai ter de aprender muito para saber o que isso √©, Sempre vivi s√≥, Tamb√©m eu, mas a solid√£o n√£o √© viver s√≥, a solid√£o √© n√£o sermos capazes de fazer companhia a algu√©m ou a alguma coisa que est√° dentro de n√≥s, a solid√£o n√£o √© uma √°rvore no meio duma plan√≠cie onde s√≥ ela esteja, √© a dist√Ęncia entre a seiva profunda e a casca, entre a folha e a raiz, Voc√™ est√° a tresvariar, tudo quanto menciona est√° ligado entre si, a√≠ n√£o h√° nenhuma solid√£o, Deixemos a √°rvore, olhe para dentro de si e veja a solid√£o, Como disse o outro, solit√°rio andar por entre a gente, Pior do que isso, solit√°rio estar onde nem n√≥s pr√≥prios estamos.

A Minha Luta

A minha luta √© para encontrar o centro, o n√ļcleo de toda uma infinidade de justifica√ß√Ķes, que superficialmente parecem satisfazer-me e s√£o, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa √ļltima me conduz, que for√ßa polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida n√£o √© tr√°gica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que s√£o condi√ß√Ķes de exist√™ncia e n√£o condena√ß√Ķes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das m√£os a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que √© uma pura alucina√ß√£o dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece cr√©dito, e, sobretudo, da raz√£o, que sabe que a √ļnica consci√™ncia do mundo √© ela pr√≥pria, princ√≠pio e fim de si mesma.

Memória Intrusiva

A tua mem√≥ria passa atrav√©s dos factos como de uma fila de vidra√ßas, ou de esta√ß√Ķes, ou de folhas de √°lbum. √Äs vezes, por√©m, paras numa, e √© como se toda a vida se fixasse a√≠. E giras em torno, numa obsess√£o. Somente √†s vezes tamb√©m, em vez de te fixares realmente, quando menos o julgas est√°s parado noutra folha, noutra janela, noutra paisagem.