Poemas sobre Primavera

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Poemas de primavera escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

E Eu te Beijava

E eu te beijava
sem me dar conta
de que n√£o te dizia:
Oh l√°bios de cereja!

Que grande rom√Ęntica
eras!
Bebias vinagre às escondidas
de tua avó.
Toda te enfeitaste como um
arbusto de primavera.
E eu estava enamorado
de outra. Vê que pena?
De outra que escrevia
um nome sobre a areia.

Tradução de Oscar Mendes

N√£o Me Sinto Mudar

N√£o me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros s√£o os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas d√ļvidas que apagasse o meu nome.
N√£o mudei. √Č um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

N√£o mudei. N√£o mudo. O meu pai est√° muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia h√° mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanh√£
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de n√£o estender as m√£os
de não erguer as asas da renovação.

Ser√° talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

Tradução de Albano Martins

Cada Coisa a seu Tempo Tem seu Tempo

Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
N√£o florescem no inverno os arvoredos,
Nem pela primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
N√£o puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas, sejam
Nossas palavras de reminiscência
(N√£o para mais nos serve
A negra ida do Sol) ‚ÄĒ

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa inf√Ęncia ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade,
Como quem comp√Ķe roupas
O outrora comp√ļnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que j√° fomos,

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Os Vencidos

Tres cavaleiros seguem lentamente
Por uma estrada erma e pedregosa.
Geme o vento na selva rumorosa,
Cae a noite do céo, pesadamente.

Vacilam-lhes nas m√£os as armas rotas,
Têm os corceis poentos e abatidos,
Em desalinho trazem os vestidos,
Das feridas lhe cae o sangue, em gotas.

A derrota, traiçoeira e pavorosa,
As fontes lhes curvou, com m√£o potente.
No horisonte escuro do poente
Destaca-se uma mancha sanguinosa.

E o primeiro dos três, erguendo os braços,
Diz n’um solu√ßo: ¬ęAmei e fui amado!
Levou-me uma vis√£o, arrebatado,
Como em carro de luz, pelos espaços!

Com largo v√īo, penetrei na esphera
Onde vivem as almas que se adoram,
Livre, contente e bom, como os que moram
Entre os astros, na eterna primavera.

Porque irrompe no azul do puro amor
O sopro do desejo pestilente?
Ai do que um dia recebeu de frente
O seu halito rude e queimador!

A flor rubra e olorosa da paix√£o
Abre languida ao raio matutino,
Mas seu profundo calix purpurino
Só reçuma veneno e podridão.

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A uma Mulher que Sendo Velha se Enfeitava

Escuta, ó Sara, pois te falta espelho
Para ver tuas faltas,
N√£o quero que te falte meu conselho
Em presun√ß√Ķes t√£o altas;
Lembro-te agora só, que és terra, e lodo,
E em terra h√°s de tornar-te deste modo,
Mas n√£o te digo, nem te lembro nada,
Porque h√° muito, que em terra est√°s tornada.

Que importa, que algum tempo a prata pura
De tuas m√£os nascesse,
E que de teus cabelos a espessura
As minas de ouro desse,
Se o tempo vil, que tudo troca, e muda,
Somente de ouro p√īs por mais ajuda
Em tuas m√£os de prata o amarelo,
E a prata de tuas m√£os em teu cabelo.

Se um tempo foram de marfim brunido
No século dourado,
Não vês, que o tempo as tem já consumido?
Não vês, que as tem gastado?
Deixa, Senhora, deixa os v√£os enredos,
Pois quando toco teus nodosos dedos,
Me parece, que apalpo sem enganos
Cinco cord√Ķes de frades Franciscanos.

Viciando a natureza com tuas tintas,
Com pincéis delicados
Jasmins, e rosas em teu rosto pintas,

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Para Todo o Sempre

O Poeta morre,
mas n√£o cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras…

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos…

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados t√£o reais…

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente…

– Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!

Canto

… e o vento,
o vento dos altos a que me dei,
a ti me trouxe
a ti me entregou.
Se em mim j√° estavas!
Pela boca, pelos olhos e pelas m√£os,
arreigado e voraz,
meu invasor enternecido.

Cinco vidas, nada menos,
cinco vidas querias ter.
Cinco vidas…
Mas uma, apenas, ardente, violenta e dissipada,
uma só não te bastaria?
Uma,
quintuplicada, centuplicada na hora inef√°vel,
no momento embriagado…
Uma, para me dares, para eu de ti receber,
vergada, sucumbida?
√Č primavera! sa√≠u-me da boca.
E tu sorriste.
Sorriste, creio.
Primavera e todas as esta√ß√Ķes‚Ķ
Chuva e sol, tempo sem idade.

Aqueles suaves, langues verdes, t√£o cariciosos;
os redondos troncos
e os musgos fofos;
os melros agrestes
e as campainhas roxas daquelas flores da minha inf√Ęncia,
de que me ensinaste o nome tão doce, tão estranho…
E as loucas nuvens corredias
e as pedras hier√°ticas
e as veredas am√°veis,
como se os ofereciam!
Amavam-nos,
N√£o o viste?
No passo certo em que ambos íamos
tudo,

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Ode à Esperança

1

Vem, vem, doce Esperan√ßa, √ļnico al√≠vio
Desta alma lastimada;
Mostra, na c’roa, a flor da Amendoeira,
Que ao Lavrador previsto,
Da Primavera próxima dá novas.

2

Vem, vem, doce Esperança, tu que animas
Na escravid√£o pesada
O aflito prisioneiro: por ti canta,
Condenado ao trabalho,
Ao som da braga, que nos pés lhe soa,

3

Por ti veleja o pano da tormenta
O marcante afouto:
No mar largo, ao saudoso passageiro,
(Da sposa e dos filhinhos)
Tu lhe pintas a terra pelas nuvens.

4

Tu consolas no leito o lasso enfermo,
C’os ares da melhora,
Tu d√°s vivos clar√Ķes ao moribundo,
Nos j√° vidrados olhos,
Dos horizontes da Celeste P√°tria.

5

Eu já fui de teus dons também mimoso;
A vida largos anos
Rebatida entre acerbos infort√ļnios
A sustentei robusta
Com os pomos de teus vergéis viçosos.

6

Mas agora, que M√°rcia vive ausente;
Que n√£o me alenta esquiva
C’o brando mimo dum de seus agrados,

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A Tua Boca

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um t√ļnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de √°gua
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Baladas Rom√Ęnticas – Verde…

Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre fest√Ķes, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!…
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho…
Como me pesa a solid√£o!

√ďrf√£o de amor e de carinho,
√ďrf√£o da luz do teu olhar,
РVerde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o cora√ß√£o…
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solid√£o!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais p√°lida do que o luar!
– Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar…
E digo a cada passarinho:
“N√£o cantes mais! que essa can√ß√£o
Vem me lembrar que estou sozinho,
No ex√≠lio desta solid√£o!”

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua m√£o!
Como inda √© verde este caminho…
Mas como o afeia a solid√£o!

Que amor n√£o me engana

Que amor n√£o me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor n√£o se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irm√£ cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crep√ļsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. M√ļsica suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na dist√Ęncia.
√Čramos livres. Fal√°vamos, sab√≠amos,
e am√°vamos serena e docemente.

Uma ang√ļstia delida, melanc√≥lica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as pris√Ķes,
as mortes, o amor vendido,
as l√°grimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
– apenas uma ang√ļstia melanc√≥lica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós Рde nós! Рcomo de um sonho.

Mistério

Teu corpo veio a mim. Donde viera?
Que flor? Que fruto? P√©tala indecisa…
Rima suave: Outono ou Primavera?
Teu corpo veio como vem a brisa…

Rosa de Maio, encastoada em luto:
O dos meus olhos e o do meu cabelo.
Um quarto para as onze! E esse minuto
Ai! nunca, nunca mais pude esquecê-lo!

Viu-se, primeiro, o rosto e o ombro, depois.
E a m√£o subiu das ancas para o peito…
‚ÄĒ Quem √©s? Sou teu… (Quando um e um s√£o dois,
Dois podem ser um só cristal perfeito!)

Um quarto para as onze! Caiu neve?
Abri os olhos! Era quase dia…
Ou bater de asas, cada vez mais leve,
De p√°ssaro na sombra que fugia?

Natal

1

A voz clamava no Deserto.

E outra Voz mais suave,
Lírio a abrir, esvoaçar incerto,
Tímido e alvente, de ave
Que larga o ninho, melodia
Nascente, docemente,
Uma outra Voz se erguia…

A voz clamava no Deserto…

Anunciando
A outra Voz que vinha:
Balbuciar de fonte pequenina,
Dando
√Ä luz da Terra o seu primeiro beijo…
Inef√°vel an√ļncio, dealbando
Entre as estrelas moribundas.

2

Das entranhas profundas
Do Mundo, eco do Verbo, a profecia,
– √Ä dist√Ęncia de S√©culos, – dizia,
Pressentia
Fragor de sismos, o dum mundo ruindo,
Redimindo
Os c√°rceres do mundo…

A voz dura e ardente
Clamava no Deserto…

Natal de Primavera,
A nova Luz nascera.
Voz do céu, Luz radiante,
Mais humana e mais doce
E irm√£ dos Poetas
Que a voz trovejante
Dos profetas
Solit√°rios.

3

A divina alvorada
Trazia
Lírios no regaço
E rosas.
Natal. Primeiro passo
Da secular Jornada,
Era um canto de Amor
A anunciar Calv√°rios,

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Três Poemas da Solidão

I

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele o meu lugar.
Desço à praia, mergulho as mãos no mar,
mas do mar, nos meus dedos, fica a espuma.

Meu jardim, minha cerca, meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói, como verruma.
Falar mas para quê? Só por falar?
J√° nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta, como feras,
e eu a pensar em velhas primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual, prazer e dor,
e a tua sementeira n√£o d√° flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

II

Tão só!
Cada vez s√£o mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)

Ah, n√£o fujam de mim!
N√£o mordo, n√£o arranho.
Direi:
‚ÄĒ ¬ęPois n√£o! Ora essa! Tem raz√£o¬Ľ.

Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como p√°ssaros mudos.

III

Solid√£o.
A multid√£o em volta
e o pensamento à solta
como alado corcel.

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Amigo Velho

(A Martins de Carvalho num dia dos seus anos)

Uma vez encontr√°mo-nos os dois
Nesse mar da política; depois,
Como diversa b√ļssola nos guia,
Cada qual foi seu rumo: todavia,
Em certas almas nunca se oblitera
A afeição de um companheiro antigo:
Sou para vós por certo o que então era;
E eu, como ent√£o na minha primavera,
Abraço o venerando e velho amigo!

Quando Tornar a Vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez j√° n√£o me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu √ļnico amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
√Č uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
H√° novas flores, novas folhas verdes.
H√° outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Bela D’Amor

Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o ‚Äėsplendor?
N√£o sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragr√Ęncia
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ing√©nua eleg√Ęncia
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu sen√£o amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se h√° no prado flor
Que Deus fizesse t√£o bela
Como te faz meu amor.

Frustração

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paix√Ķes tardias
S√£o ironias
Dos deuses desleais.