Poemas sobre Dedos

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Poemas de dedos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual n√£o podemos contactar
sen√£o como amantes
de olhos fechados
e l√Ęmpadas nos dedos¬†¬†¬† e na boca

Meu corpo, que mais receias?

-Meu corpo, que mais receias?
-Receio quem n√£o escolhi.

-Na treva que as m√£os repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos…
Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem n√£o escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.

O Jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispers√Ķes, transpar√™ncia de estruturas,
pausas de areia e de √°gua, f√°bulas min√ļsculas.

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direc√ß√Ķes de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsa√ß√Ķes de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murm√ļrio de omiss√Ķes, um c√Ęntico do √≥cio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros vol√ļveis.
√Č aqui, √© aqui que se renova a luz.

Incubadora

Era t√£o pequena a m√£o que
nem o seu dedo mendinho

conseguia agarrar. Pesava
quinhentos gramas e respirava

sem ajuda do ventilador
O coração da sua mãe quase

que n√£o batia com receio de
que ele sufocasse sob o peso

do seu amor

Vertentes

As palavras esperam o sono
e a m√ļsica do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro n√£o a primeira quebra

A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores

H√° um olhar que entra pelas paredes da terra
sem l√Ęmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre ext√°tica que se alarga

A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar

Deslizo no teu dorso sou a m√£o do teu seio
sou o teu l√°bio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a √°gua cai sem tempo

com a polpa dos dedos

com
a polpa
dos dedos
abro
o teu sorriso
gota
a
gota

até desmoronar
as vigas
dos meus olhos

Procuro-te

Procuro a ternura s√ļbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um p√°ssaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da √°gua entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou m√ļsica.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o p√£o e a √°gua,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manh√£ de maio.

Um p√°ssaro e um navio s√£o a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas n√£o quando se ama,
n√£o quando apertamos contra o peito
uma flor √°vida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solid√£o,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

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Hora

Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta – por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solit√°rias,
As minhas m√£os est√£o cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.

As M√£os que se Procuram

Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As m√£os que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto o outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.

[Amor Condusse Noi Ad Una Morte]

Rei Destronado

O teu lugar vaz√£o!… E esteve cheio,
Cheio de mocidade e de ternura!
Como brilhava a tua formosura!
Que luz divina te doirava o seio!

Quando a camisa tépida despias,
– Sob o reflexo do cabelo louro,
De pé, na alcova, ardias e fulgias
Como um ídolo de ouro.

Que fundo o fogo do primeiro beijo,
Que eu te arrancava ao l√°bio recendente!
Morria o meu desejo… outro desejo
Nascia mais ardente.

Domada a febre, l√Ęnguida, em meus bra√ßos
Dormias, sobre os linhos revolvidos,
Inda cheios dos √ļltimos gemidos,
Inda quentes dos √ļltimos abra√ßos…

Tudo quanto eu pedira e ambicionara,
Tudo meus dedos e meus olhos calmos
Gozavam satisfeitos nos seis palmos
De tua carne saborosa e clara:

Reino perdido! glória dissipada
T√£o loucamente! A alcova est√° deserta,
Mas inda com o teu cheiro perfumada,
Do teu fulgor coberta…

Definição do Amor

“Amor √© fogo que arde sem se ver
é ferida que doi e não se sente
é um contentamento descontente
√© dor que desatina sem doer”
(Cam√Ķes)

Que o poeta de todos os poetas
me conceda boa estrela
que a estrela de todos os astros
me premeie na lapela
prémios de honor
prefiro os muitos
oferecidos pelas m√£os do amor
coroando o amor e seus heterónimos
nem vão caber nos Jerónimos

Amores anónimos não há
e assim foi pela madrugada
mesmo que seja um “assim fosse”
vou nomear-te namorada
ninguém já soube o que é o amor
se o amor é aquilo que ninguém viu
uma cor que fugiu
de um pano leve
e pairou serena e breve
no ar
(Pousa agora, borboleta
na pena deste poeta:)

√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
√Č uma cor que d√° na vida
o amor
é uma luz que dá na cor
mas é uma batalha perdida
que se trava com ardor
é uma cor que dá na vida
o amor
dor que desatina sem doer

Se devagar se vai ao longe
devagar te quero perto
mesmo que o que arde nunca cure
vou beijar-te a sol aberto
é já dos livros que o instante
se parece tanto com a eternidade
e que o amor,

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Aerograma

Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
P√°ssaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu c√° vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite tr√°s a forca pela sua m√£o

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que h√° sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

P√Ķe o meu retrato
No altar de S. Jo√£o
E uma vela com formato de canh√£o

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.

A Eterna Ausência

Eu aguardei com l√°grimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio nocturno
que me trazia aquela com l√°bios evidentes
e possuindo um perfil indubit√°vel,
mulher com dedos religiosos
e bra√ßos espirituais…

Aquela mulher-pir√Ęmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que n√£o veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu cora√ß√£o de carne e alguma cinza…

Amante que ficou n√£o sei aonde
a castigar meus dias invol√ļveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!…

Que não Arrefeça em Nós

Que não arrefeça em nós
nem a luz nem o fogo
e que a fome entardecida
pela penumbra da fadiga dos olhos
nunca renuncie ao sabor dos frutos
ou à febre da sede dos lábios.
Assim se faça tudo, amor,
à medida do que se ama,
que o corpo prostrado pelo êxtase
não conhece tréguas nem assombro.
Desenha-me na paz dos azulejos
com o meu perfil de ave anoitecida
e inaugura no meu peito
a festa circular dos dedos
tatuando ilhas em redor do coração.
Esquiva, demoras-te no verso
o instante de lume de uma revelação
e quando voltas é sempre
com uma promessa de partida
e quando partes é sempre
com um an√ļncio de caos, de temor
na clara √°gua do olhar. Deixo-te agora
amar, indefesa, para resgate da alma.

O Poeta

Triste, lá vai à ronda dos segredos
O maluco que rouba quanto vê.
Branco, do coração aos dedos,
√Č todo antenas onde apenas l√™.

Murcha-lhe nos pés o rosmaninho
E a própria rosa, de o sentir, descora;
Mas é um Deus que passeia o seu caminho
A beber a amargura de quem chora.

Magro, l√° passa, e l√° se vai consigo
A luz das coisas e a flor de tudo.
√Č um bruxo lento, tenebroso e antigo,
Pálido, sério, solitário e mudo.

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no h√ļmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta √Ęnfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manh√£s idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilus√£o

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Nenhuma Morte Apagar√° os Beijos

Nenhuma morte apagar√° os beijos
e por dentro das casas onde nos am√°mos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estar√£o para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada

desvender√° em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paix√£o os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

A Função do Amor é Fabricar Desconhecimento

a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto,os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode n√£o se
importar
se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
‚ÄĒo medo tem morte menor;e viver√° menos quando a morte acabar)

que afortunados s√£o os amantes(cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram)que sonham,criam e matam
enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta:
pode n√£o ser sempre assim;e eu digo
que se os teus l√°bios,que amei,tocarem
os de outro,e os teus ternos fortes dedos aprisionarem
o seu coração,como o meu não há muito tempo;
se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar
naquele silêncio que conheço,ou naquelas
grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado,

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Alheamento

Meu corpo estira√ßado, l√Ęnguido, ao logo do leito.

O cigarro vago azulando os meus dedos.

O r√°dio… a m√ļsica…

A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da m√ļsica…

Ausência!, minha doce fuga!

Estranha coisa esta, a poesia,
que vai entornando m√°goa nas horas
como um orvalho de l√°grimas, escorrendo dos vidros
duma janela,

numa tarde vaga, vaga…

Ascens√£o

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais vis√≠vel para o mais rec√īndito
Рaté que os lábios fossem
n√£o o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.