Poemas sobre Subst√Ęncia

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Poemas de subst√Ęncia escritos por poetas consagrados, fil√≥sofos e outros autores famosos. Conhe√ßa estes e outros temas em Poetris.

Nas Praças

Nas pra√ßas vindouras ‚ÄĒ talvez as mesmas que as nossas ‚ÄĒ
Que elixires ser√£o apregoados?
Com rótulos diferentes, os mesmos do Egito dos Faraós;
Com outros processos de os fazer comprar, os que j√° s√£o nossos.

E as metafísicas perdidas nos cantos dos cafés de toda a parte,
As filosofias solit√°rias de tanta trapeira de falhado,
As id√©ias casuais de tanto casual, as intui√ß√Ķes de tanto ningu√©m ‚ÄĒ
Um dia talvez, em fluido abstrato, e subst√Ęncia implaus√≠vel,
Formem um Deus, e ocupem o mundo.
Mas a mim, hoje, a mim
N√£o h√° sossego de pensar nas propriedades das coisas,
Nos destinos que n√£o desvendo,
Na minha própria metafisica, que tenho porque penso e sinto.

N√£o h√° sossego,
E os grandes montes ao sol têm-no tão nitidamente!

Têm-no? Os montes ao sol não têm coisa nenhuma do espírito.
N√£o seriam montes, n√£o estariam ao sol, se o tivessem.

O cansaço de pensar, indo até ao fundo de existir,
Faz-me velho desde antes de ontem com um frio até no corpo.

E por que é que há propósitos mortos e sonhos sem razão?

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Vive-se Quando se Vive a Subst√Ęncia Intacta

Vive-se quando se vive a subst√Ęncia intacta
em estar a ser sua ardente   harmonia
que se expande em clara atmosfera
leve e sem delírio ou talvez delirando
no vértice da frescura onde a imagem treme
um pouco na vis√£o intensa e fluida
E tudo o que se vê é a ondeação
da transparência até aos confins do planeta
E h√° um momento em que o pensamento repousa
numa s√≠laba de ouro √Č a hora leve
do ver√£o a sua correnteza
azul H√° um paladar nas veias
e uma lisura de estar nas esp√°duas do dia
Que respiração tão alta da brisa fluvial!
Afluem energias de uma violência suave
Min√ļcias musicais sobre um fundo de brancura
A certeza de estar na fluidez animal

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a subst√Ęncia do tempo

A Casa Branca Nau Preta

Estou reclinado na poltrona, √© tarde, o Ver√£o apagou-se…
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu c√©rebro…
N√£o existe manh√£ para o meu torpor nesta hora…
Ontem foi um mau sonho que algu√©m teve por mim…
H√° uma interrup√ß√£o lateral na minha consci√™ncia…
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par…
Sigo sem aten√ß√£o as minhas sensa√ß√Ķes sem nexo,
E a personalidade que tenho est√° entre o corpo e a alma…

Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver s√≥ dois…
Um quarto estado pra alma, se s√£o tr√™s os que ela tem…
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
D√≥i-me por detr√°s das costas da minha consci√™ncia de sentir…

As naus seguiram,
Seguiram viagem n√£o sei em que dia escondido,
E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,
Os ritmos perdidos das can√ß√Ķes mortas do marinheiro de sonho…

√Ārvores paradas da quinta, vistas atrav√©s da janela,
√Ārvores estranhas a mim a um ponto inconceb√≠vel √† consci√™ncia de as estar vendo,

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Na Noite Terrível

Na noite terr√≠vel, subst√Ęncia natural de todas as noites,
Na noite de ins√īnia, subst√Ęncia natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra inc√īmoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma ang√ļstia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irrepar√°vel do meu passado ‚ÄĒ esse √© que √© o cad√°ver!
Todos os outros cad√°veres pode ser que sejam ilus√£o.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu n√£o fui, o que eu n√£o fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que s√≥ agora claramente vejo que deveria ter sido ‚ÄĒ
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso ‚ÄĒ e foi afinal o melhor de mim ‚ÄĒ √© que nem os Deuses fazem viver …

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;

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J√° Estou a Ficar Velho

J√° estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspens√£o el√°stica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de gin√°stica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e j√° me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em ch√£o de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
j√° tudo bem pensado considero
se n√£o devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte t√£o somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas n√£o sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha subst√Ęncia seja feito
e tome, noutro mundo,

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O Tumulto

O tumulto concentrado da minha imagina√ß√£o intelectual…
Fazer filhos √† raz√£o pr√°tica, como os crentes en√©rgicos…
Minha juventude perpétua
De viver as coisas pelo lado das sensa√ß√Ķes e n√£o das responsabilidades.
(√Ālvaro de Campos, nascido no Algarve, educado por um tio-av√ī, padre,
que lhe instilou um certo amor √†s coisas cl√°ssicas.) (Veio para Lisboa muito novo …)
A capacidade de pensar o que sinto, que me distingue do homem vulgar
Mais do que ele se distingue do macaco.
(Sim, amanh√£ o homem vulgar talvez me leia e compreenda a subst√Ęncia do meu ser,
Sim, admito-o,
Mas o macaco j√° hoje sabe ler o homem vulgar e lhe compreende a subst√Ęncia do ser.)

Se alguma coisa foi por que é que não é
Ser não é ser?

As flores do campo da minha inf√Ęncia, n√£o as terei eternamente,
Em outra maneira de ser?
Perderei para sempre os afetos que tive, e até os afetos que pensei ter?
H√° algum que tenha a chave da porta do ser, que n√£o tem porta,
E me possa abrir com raz√Ķes a intelig√™ncia do mundo?

O Ter Deveres

O ter deveres, que prolixa coisa!
Agora tenho eu que estar à uma menos cinco
Na Esta√ß√£o do Rossio, tabuleiro superior ‚ÄĒ despedida
Do amigo que vai no “Sud Express” de toda a gente
Para onde toda a gente vai, o Paris …

Tenho que l√° estar
E acreditem, o cansaço antecipado é tão grande
Que, se o “Sud Express” soubesse, descarrilava…

Brincadeira de crianças?
N√£o, descarrilava a valer…
Que leve a minha vida dentro, arre, quando descarrile!…

Tenho desejo forte,
E o meu desejo, porque √© forte, entra na subst√Ęncia do mundo.

Alotropia

Parar o tempo,
manej√°-lo,
subst√Ęncia d√≥cil,
reversível.

Alotropia verbal
sem duração,
pura escolha
da memória.

O Amor em Visita

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso l√ļbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o p√£o for invadido pelas ondas –
seu corpo arder√° mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arder√° para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bord√Ķes da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze,

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Existir é Ser Possível Haver Ser

Ah, perante esta √ļnica realidade, que √© o mist√©rio,
Perante esta √ļnica realidade terr√≠vel ‚ÄĒ a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
‚ÄĒ Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
N√£o, n√£o se empequena… se transforma em outra coisa ‚ÄĒ
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
‚ÄĒAquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,

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Estar S√≥ √© Estar no √ćntimo do Mundo

Por vezes   cada objecto   se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim t√£o breve e t√£o profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos d√°
a cintilante subst√Ęncia do s√≠tio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre min√ļsculas luzes
E √© astro imediato de um l√ļcido sono
fluvial e um n√ļbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo

O Corpo Insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas réstias mais íntimas,
as gl√Ęndulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aqu√°ticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar, h√° ainda um outro
corpo incluído,
mas um corpo aquém
de ser s√£o ou podre,
um repuxo, um magma,
subst√Ęncia solta,
com pulm√Ķes.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o p√Ķem em pr√°tica
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,

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Namorados do Mirante

Eles eram mais antigos que o silêncio
A perscrutar-se intimamente os sonhos
Tal como duas s√ļbitas est√°tuas
Em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
Os seus corpos sem tempo em pura cinza.
A Remontavam √†s origens ‚ÄĒ a realidade
Neles se fez, de subst√Ęncia, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
Como um hictus, houvesse adormecido
Dele apenas restava o eterno grito
Da esp√©cie ‚ÄĒ tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
Como duas estrelas que gravitam
Juntas para, depois, num grande abraço
Rolarem pelo espaço e se perderem
Transformadas na magma incandescente
Que milénios mais tarde explode em amor
E da matéria reproduz o tempo
Nas gal√°xias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o sil√™ncio…