Textos sobre Nuvens

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Textos de nuvens escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Homem Amesquinhado

Apesar do quadro negro de uma c√ļpula pol√≠tica e intelectual desvairada e grossa e de um povo abandonado a seu pr√≥prio destino, ainda havia ali, no pa√≠s, naquele espantoso ver√£o de 1955, uma consider√°vel energia vital, uma exaltada alegria de viver, acentuada, em alguns lugares e num ou noutro indiv√≠duo, ainda mais possu√≠do do gozo pleno de um extraodin√°rio senso l√ļdico tropical. Est√°vamos, poder√≠amos nos considerar como estando, num dos √ļltimos redutos do ser humano. Depois disso viria o fim, n√£o, como todos pensavam, com um estrondo, mas com um solu√ßo. A densa nuvem desceria, n√£o, como todos pensavam, feita de mol√©culas radioativas, mas da grosseria de todos os dias, acumulada, aumentada, transmitida, potenciada. O homem se amesquinharia, v√≠tima da mesquinharia do seu semelhante, cada dia menos atento a um gesto de gentileza, a um ato de beleza, a um olhar de amor desinteressado, a uma palavra dita com uma precisa propriedade. E tudo come√ßou a ficar densamente escuro, porque tudo era terrivelmente patrocinado por enlatadores de banha, fabricantes de chouri√ßo e vendedores de desodorante, de modo que toda a pretensa gra√ßa da vida se dirigia apenas √† barriga dos gordos, √† tripa dos porcos, ou, no m√°ximo de finura e eleg√Ęncia,

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As Desvantagens do Ateísmo

Parece-nos que o homem feliz n√£o colhe vantagem alguma em ser ateu. √Č-lhe t√£o agrad√°vel cismar que os seus dias se prolongar√£o al√©m da vida! Com que desespero n√£o deixaria ele este mundo, se acreditasse separar-se para sempre da felicidade! Debalde sobre a sua cabe√ßa se acumulariam todos os bens do s√©culo, que serviriam apenas para lhe tornar mais tormentoso o nada.
O rico pode tamb√©m contar com que a religi√£o lhe amplie os prazeres, mesclando-os com inexplic√°vel ternura; n√£o se lhe endurecer√° o cora√ß√£o, o gozo, escolho inevit√°vel das grandes prosperidades, n√£o o infastiar√°; que a religi√£o refrigera as sequid√Ķes da alma: √© o que representa esse √≥leo santo com que o cristianismo consagrava a realeza, a inf√Ęncia, e a morte, para as salvar da esterilidade.
O guerreiro arremessa-se ao combate: ser√° ateu esse filho da gl√≥ria? O que busca uma vida infinita consentir√° em termin√°-la? Aparecei sobre as vossas nuvens fulminantes, soldados inumer√°veis, antigas legi√Ķes da p√°tria! Famosas mil√≠cias de Fran√ßa, e agora mil√≠cias do c√©u, aparecei! Dizei aos her√≥is da nossa idade, do alto da cidade santa, que o bravo n√£o cai inteiro no tumulo, e que, ap√≥s ele, permanece alguma coisa mais que um v√£o renome.

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Escuta, Amor

Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.

Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.

Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti,

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O Maior Amor e as Coisas que Se Amam

Tomara poder desempenhar-me, sem hesita√ß√Ķes nem ansiedades, deste mandato subjectivo cuja execu√ß√£o por demorada ou imperfeita me tortura e dormir descansadamente, fosse onde fosse, pl√°tano ou cedro que me cobrisse, levando na alma como uma parcela do mundo, entre uma saudade e uma aspira√ß√£o, a consci√™ncia de um dever cumprido.

Mas dia a dia o que vejo em torno meu me aponta novos deveres, novas responsabilidades da minha intelig√™ncia para com o meu senso moral. Hora a hora a (…) que escreve as s√°tiras surge col√©rica em mim. Hora a hora a express√£o me falha. Hora a hora a vontade fraqueja. Hora a hora sinto avan√ßar sobre mim o tempo. Hora a hora me conhe√ßo, m√£os in√ļteis e olhar amargurado, levando para a terra fria uma alma que n√£o soube contar, um cora√ß√£o j√° apodrecido, morto j√° e na estagna√ß√£o da aspira√ß√£o indefinida, inutilizada.

Nem choro. Como chorar? Eu desejaria poder querer (desejar) trabalhar, febrilmente trabalhar para que esta p√°tria que v√≥s n√£o conheceis fosse grande como o sentimento que eu sinto quando n’ela penso. Nada fa√ßo. Nem a mim mesmo ouso dizer: amo a p√°tria, amo a humanidade. Parece um cinismo supremo. Para comigo mesmo tenho um pudor em diz√™-lo.

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O Interior da Alma

O olho do espírito em parte nenhuma pode encontrar mais deslumbramentos, nem mais trevas, do que no homem, nem fixar-se em coisa nenhuma, que seja mais temível, complicada, misteriosa e infinita. Há um espectáculo mais solene do que o mar, é o céu; e há outro mais solene do que o céu, é o interior da alma.
Fazer o poema da consci√™ncia humana, mas que n√£o fosse sen√£o a respeito de um s√≥ homem, e ainda nos homens o mais √≠nfimo, seria fundir todas as epopeias numa epopeia superior e definitiva. A consci√™ncia √© o caos das quimeras, das ambi√ß√Ķes e das tentativas, o cadinho dos sonhos, o antro das ideias vergonhosas: √© o pandem√≥nio dos sofismas, √© o campo de batalha das paix√Ķes. Penetrai, a certas horas, atrav√©s da face l√≠vida de um ser humano, e olhai por tr√°s dela, olhai nessa alma, olhai nessa obscuridade. H√° ali, sob a superf√≠cie l√≠mpida do sil√™ncio exterior, combates de gigante como em Homero, brigas de drag√Ķes e hidras, e nuvens de fantasmas, como em Milton, espirais vision√°rias como em Dante.

A Alma Hipertrofiada

O rapaz que aos vinte anos se inscreve no partido comunista ou que, de espingarda na mão, se junta à guerrilha das montanhas, está fascinado pela sua própria imagem de revolucionário: é ela que o distingue de todos os outros, é ela que o faz transformar-se em si próprio. Na origem da sua luta encontra-se um amor exacerbado e insatisfeito pelo seu eu, ao qual ele deseja dar contornos bem nítidos, antes de o enviar (realizando o gesto do desejo de imortalidade, tal como o descrevi) para o grande palco da História sobre o qual convergem milhares de olhares: e nós sabemos já, pelo exemplo de Mychkine e de Nastassia Philippovna, que sob os olhares intensantemente assestados nela a alma não pára de crescer, de inchar, de ganhar volume, para finalmente levantar voo em direcção ao firmamento como um aeróstato magnificamente iluminado.
O que incita as pessoas a erguerem o punho, a pegarem numa espingarda, a defenderem juntas causas justas ou injustas, n√£o √© a raz√£o, mas a alma hipertrofiada. √Č este o carburante sem o qual o motor da Hist√≥ria n√£o poderia funcionar e √† falta do qual a Europa teria ficado deitada na relva, a olhar pregui√ßosamente as nuvens que pairam no c√©u.

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A Nossa Vida é Estilhaçada pelo Pormenor

Vivemos mesquinhamente, quais formigas, ainda que a fábula nos relate que há muito tempo atrás fomos transformados em homens; como os pigmeus lutamos com gruas; e é erro sobre erro, remendo sobre remendo, e a nossa melhor virtude decorre de uma miséria supérflua e evitável. A nossa vida é estilhaçada pelo pormenor.
Um homem honesto dificilmente precisa de contar para al√©m dos seus dez dedos das m√£os, acrescentando, em caso extremo, os seus dez dedos dos p√©s, e o resto que se amontoe. Simplicidade, simplicidade, simplicidade! Digo: ocupai-vos de dois ou tr√™s afazeres, e n√£o de cem ou mil; contai meia d√ļzia em vez de um milh√£o e tomai nota das receitas e despesas na ponta do polegar. A meio do agitado mar da vida civilizada, tantas s√£o as nuvens, as tempestades, as areias movedi√ßas, tantos s√£o os mil e um imprevistos a ser levados em conta, que para n√£o se afundar, para n√£o ir a pique antes de chegar ao porto, um homem tem de ser um grande calculista para lograr √™xito.
Simplificar, simplificar, simplificar. Em vez de tr√™s refei√ß√Ķes por dia, se preciso for, comer apenas uma; em vez de cem pratos, cinco; e reduzir proporcionalmente as outras coisas.

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O Tabu e a Met√°fora

A metáfora é provavelmente a potência mais fértil que o homem possui. A sua eficiência chega a raiar os confins da taumaturgia e parece uma ferramenta de criação que Deus deixou esquecida dentro de uma das suas criaturas na ocasião em que a formou, como o cirurgião distraído deixa um instrumento no ventre do operado.
Todas as demais potências nos mantêm inscritos no interior do real, do que já é. O mais que podemos fazer é somar ou subtrair as coisas entre si. Só a metáfora nos facilita a evasão e cria entre as coisas reais recifes imaginários, floração de leves ilhas.
√Č verdadeiramente estranha a exist√™ncia no homem desta actividade mental que consiste em substituir uma coisa por outra, n√£o tanto no esfor√ßo de chegar √† segunda como no intento de esquivar a primeira. A met√°fora escamoteia um objecto mascarando-o por meio de outro, e n√£o teria sentido se n√£o v√≠ssemos nela um instinto que induz o homem a evitar as realidades.
Ao interrogar-se sobre qual poderia ser a origem da metáfora, um psicólogo recentemente descobriu, surpreendido, que uma das suas raízes se encontra no espírito do tabu. Houve uma época em que o medo foi a máxima inspiração humana,

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Quantas Vezes a Insónia é um Dom

Mas quantas vezes a ins√≥nia √© um dom. De repente acordar no meio da noite e ter essa coisa rara: solid√£o. Quase nenhum ru√≠do. S√≥ o das ondas do mar batendo na praia. E tomo caf√© com gosto, toda sozinha no mundo. Ningu√©m me interrompe o nada. √Č um nada a um tempo vazio e rico. E o telefone mudo, sem aquele toque s√ļbito que sobressalta. Depois vai amanhecendo. As nuvens se clareando sob um sol √†s vezes p√°lido como uma lua, √†s vezes de fogo puro. Vou ao terra√ßo e sou talvez a primeira do dia a ver a espuma branca do mar. O mar √© meu, o sol √© meu, a terra √© minha. E sinto-me feliz por nada, por tudo. At√© que, como o sol subindo, a casa vai acordando e h√° o reencontro com meus filhos sonolentos.

Exercitar a Vontade Naquilo que Podemos Ter de Melhor

Ponho-me a pensar na quantidade dos que exercitam o f√≠sico, e na escassez dos que ginasticam a intelig√™ncia; na aflu√™ncia que t√™m os gratuitos espect√°culos desportivos, e na aus√™ncia de p√ļblico durante as manifesta√ß√Ķes culturais; enfim, na debilidade mental desses atletas de quem admiramos as esp√°duas musculadas. E penso sobreutdo nisto: se o corpo pode, √† for√ßa de treino, atingir um grau de resist√™ncia tal que permite ao atleta suportar a um tempo os murros e pontap√©s de v√°rios advers√°rios, que o torna apto a aguentar um dia inteiro sob um sol abrasador, numa arena escaldante, todo coberto de sangue – n√£o ser√° mais f√°cil ainda dar √† alma uma tal robustez que a torne capaz de resistir sem ceder aos golpes da fortuna, capaz de erguer-se de novo ainda que derrubada e espezinhada?! De facto, enquanto o corpo, para se tornar vigoroso, depende de muitos factores materiais, a alma encontra em si mesma tudo quanto necessita para se robustecer, alimentar, exercitar. Os atletas precisam de grande quantidade de comida e bebida, de muitos unguentos, sobretudo de um treino intensivo: tu, para atingires a virtude, n√£o precisar√°s de dispender um tost√£o em equipamento! Aquilo que pode fazer de ti um homem de bem existe dentro de ti.

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Os Dois Infinitos

Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas: acima de nós, o céu estrelado; no nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também alargo a todos esses mundos visíveis).
Numa, a vis√£o de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha import√Ęncia, na medida em que me considero uma criatura animal que, depois de ter (n√£o se sabe como) gozado a vida durante um breve lapso de tempo,

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Regressar à Inocência

Seja como as crian√ßas, mantenha os olhos abertos, sem preconceitos escondidos atr√°s da vista. Se olhar com clareza, pequenas flores, ou peda√ßos de relva, ou borboletas, ou um p√īr do Sol proporcionar-lhe-√£o tanta felicidade quanto a que Gautama Buda encontrou na sua ilumina√ß√£o. Isto n√£o depende das coisas, mas sim da sua abertura. O conhecimento fecha-o; transforma-se numa cerca, numa pris√£o. Mas a inoc√™ncia abre todas as portas e todas as janelas.
O sol entra e uma brisa fresca flui.
De repente, o perfume das flores faz-lhe uma visita.
E de vez em quando um pássaro virá cantar uma canção e entrar por outra janela.
A inoc√™ncia √© a √ļnica religiosidade que existe.
A religiosidade não depende das escrituras sagradas nem do que se sabe sobre o mundo. Só depende de se estar preparado para ser como um espelho límpido, que nada reflecte.
Um total sil√™ncio, inoc√™ncia, pureza… e toda a exist√™ncia √© transformada para si. Cada momento passa a ser de √™xtase. As pequenas coisas, como beber uma ch√°vena de ch√°, tornam-se ora√ß√Ķes t√£o poderosas que nenhuma outra ora√ß√£o se lhes pode comparar. Basta observar uma nuvem a mover-se livremente no c√©u, e da inoc√™ncia surge uma sincronicidade.

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A História e o Progresso ao Sabor do Vento

Na sua maior parte a hist√≥ria faz-se sem autores. N√£o acontece a partir de um centro, mas da periferia. De pequenas causas. Talvez n√£o seja t√£o dif√≠cil como se pensa fazer do homem g√≥tico ou do grego antigo o homem da civiliza√ß√£o moderna. Porque a natureza humana √© t√£o capaz do canibalismo como da cr√≠tica da raz√£o pura; √© capaz de realizar as duas coisas com as mesmas convic√ß√Ķes e as mesmas qualidades, se as circunst√Ęncias forem prop√≠cias, e nesses processos a grandes diferen√ßas externas correspondem diferen√ßas internas m√≠nimas.
(…) O caminho da hist√≥ria n√£o √© o de uma bola de bilhar que, uma vez jogada, percorre uma determinada traject√≥ria; assemelha-se antes ao caminho das nuvens, ou ao de um vagabundo a deambular pelas vielas, que se distrai a observar, aqui uma sombra, ali um magote de gente, mais adiante o recorte curioso das fachadas, at√© que por fim chega a um ponto que n√£o conhece e por onde nem tencionava passar. H√° no decurso da hist√≥ria universal um certo erro de percurso. O presente √© sempre como a √ļltima casa de uma cidade, que de certo modo j√° n√£o faz bem parte do casario dessa cidade. Cada gera√ß√£o pergunta,

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Verosimilhança não é Verdade

Quase sempre as suspeitas nos inquietam; somos sempre o joguete desses boatos de opini√£o, que tantas vezes p√Ķe em fuga um ex√©rcito, quanto mais um simples indiv√≠duo. (…) n√≥s rendemo-nos prontamente √† opini√£o. N√£o fazemos a cr√≠tica das raz√Ķes que nos levam ao temor, n√£o as esquadrinhamos. Perdemos todo o sangue-frio, batemos em retirada, como os soldados expulsos do seu campo √† vista da nuvem de poeira que levanta uma tropa a galope, ou tomados de terror colectivo por causa de um boato semeado sem garante.
Não sei como, mas as falsidades perturbam-nos desde logo. A verdade traz consigo a sua própria medida; tudo quanto se funda sobre uma incerteza, porém, fica entregue à conjectura e às fantasias de um espírito perturbado.
Eis porque, entre as mais diversas formas do medo, n√£o h√° outra mais desastrosa, mais incoerc√≠vel que o medo p√Ęnico. Nos casos ordin√°rios, a reflex√£o √© falha; nestes, a intelig√™ncia est√° ausente.
Interroguemos, pois, cuidadosamente a realidade. √Č veros√≠mil que uma desgra√ßa venha a produzir-se? Verosimilhan√ßa n√£o √© verdade. Quantos acontecimentos ocorreram sem que os esper√°ssemos! Quantos acontecimentos esperados que jamais ocorreram! Mesmo que venham a produzir-se, que √© que lucraremos em nos anteciparmos √† nossa dor?

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Saber Sair na Hora Certa

N√£o esperar at√© ser sol poente. √Č m√°xima do cordo deixar as coisas antes que elas o deixem. Que se saiba converter em triunfo o pr√≥prio fenecer, pois √†s vezes mesmo o sol, ainda brilhante, costuma retirar-se numa nuvem para que n√£o o vejamos cair, e nos deixa suspensos, n√£o sabendo se ele se p√īs ou n√£o. Furte-se aos ocasos para n√£o rebentar de desdouros; n√£o espere que lhe voltem as costas, porque o sepultar√£o vivo para o sentimento e morto para a estima. O atilado dispensa a tempo o cavalo em que corre, e n√£o espera que, caindo, fa√ßa erguer-se o riso no meio da corrida; que a beleza quebre o espelho com tempo e com ast√ļcia, e n√£o com impaci√™ncia depois, ao ver o seu desengano.

Abrir o Entendimento, Pela Amizade

O fruto da amizade √© saud√°vel e excelente para o entendimento, pois a amizade converte as tormentas e as tempestades dos sentimentos em dia l√≠mpido, e ilumina com luz solar as trevas e a confus√£o dos pensamentos. N√£o se deve entender com isso apenas os conselhos fi√©is que se recebem de um amigo. Antes deles, √© fora de d√ļvida que quem tenha a mente borbulhante de pensamentos lograr√° clarificar e ordenar o entendimento comunicando as suas ideias a outrem. Trar√° √† tona mais facilmente os pensamentos; orden√°-los-√° de maneira mais eficaz; julgar√° como parecem quando convertidos em palavras; em suma, far-se-√† mais s√°bio do que √©, alcan√ßando numa hora de palestra mais do que num dia inteiro de medita√ß√£o.
Disse bem Temístocles ao Rei da Pérsia, que o falar é como pano de Arras, desenfardado e posto à venda: nele, as imagens são exibidas, enquanto que, no pensamento, permanecem enfardadas. Este fruto da amizade, o de abrir o entendimento, não se restringe apenas aos amigos capazes de nos dar conselho (estes são, na verdade, os melhores); mesmo sem isso, aprendemos acerca de nós mesmos, trazemos os nossos pensamentos à luz e afiamos a agudeza do nosso engenho como se contra uma pedra de amolar,

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O Espírito em Transe

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa do ar, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale de felicidade.

O Gosto pela Cultura

√Č mais dif√≠cil encontrar um gentleman que um g√©nio. A marca mais distintiva de um homem culto √© a possibilidade de aceitar um ponto de vista diferente do seu; p√īr-se no lugar de outra pessoa e ver a vida e os seus problemas dessa perspectiva diferente. Estar disposto a experimentar uma ideia nova; poder viver nos limites das diverg√™ncias intelectuais; examinar sem calor os problemas escaldantes do dia; ter simpatia imaginativa, largueza e flexibilidade de esp√≠rito, estabilidade e equil√≠brio de sentimentos, calma ponderada para decidir – √© ter cultura.
(…) A cultura vem da contempla√ß√£o da natureza; do estudo da Literatura, Arte e Arquitectura com letras grandes; e do conhecimento pessoal das realidades emocionais da exist√™ncia. √Č uma escala de valores, ou m√©ritos, diferente da usada nas esferas dominadas pela ci√™ncia e pelo com√©rcio. Vivemos numa cultura onde o sucesso √© medido pelos bens materiais. √Č importante alcan√ßar objectivos materiais, mas ainda √© mais importante ser-se cidad√£o amadurecido, bem equilibrado e culto.

A cultura (…) est√° em n√≥s e n√£o sepultada em estranhas galerias. Significa bondade de esp√≠rito e √© a base de um bom car√°cter. A plenitude da vida n√£o vem das coisas exteriores a n√≥s;

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Paix√£o √önica

Quem me dera poder ver-te!
Ai! quem me dera dizer-te,
Que pude amar-te, e perder-te,
Mas olvidar-te… isso n√£o!
Que no ardor de outros amores,
Através de mil dissabores,
Senti vivas sempre as dores
Duma remota paix√£o.

Com que dorida saudade
Penso nessa mocidade,
Nessa vaga ansiedade,
Que soubeste compreender!
E tu só, só tu soubeste,
Que, num mundo, como este,
Qual florinha em penha agreste,
Pode a flor da alma morrer.

Orvalhaste-a quando ainda,
Ao nascer, singela e linda,
Respirava a esperança infinda,
Que consigo a inf√Ęncia tem.
Amparaste-a, quando o norte
Das paix√Ķes, soprando forte,
Lhe quiz dar r√°pida morte
Como √† c√Ęndida cecem!

E, depois, nuvem escura
Lá no céu desta ventura
Enlutou-me a aurora pura
Dos meus anos infantis.
Houve nesta vida um espaço,
Onde nunca dei um passo,
Em que não deixasse um traço
De paix√Ķes torpes e vis !

E não tenho outra memória
Que me inspire altiva gloria,
Nem outro nome na historia
De meus delírios fatais.

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