Textos sobre Escravos

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Textos de escravos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Defeito dos Homens Activos

Aos activos falta, habitualmente, a actividade superior: refiro-me √† individual. Eles s√£o activos enquanto funcion√°rios, comerciantes, eruditos, isto √©, como seres gen√©ricos, mas n√£o enquanto pessoas perfeitamente individualizadas e √ļnicas; neste aspecto, s√£o indolentes. A infelicidade das pessoas activas √© a sua actividade ser quase sempre um tanto absurda. N√£o se pode, por exemplo, perguntar ao banqueiro, que junta dinheiro, qual o objectivo da sua incans√°vel actividade: ela √© irracional. Os homens activos rebolam como rebola a pedra, em conformidade com a estupidez da mec√Ęnica. Todos os homens se dividem, como em todos os tempos tamb√©m ainda actualmente, em escravos e livres; pois quem n√£o tiver para si dois ter√ßos do seu dia √© um escravo, seja ele, de resto, o que quiser: pol√≠tico, comerciante, funcion√°rio, erudito.

O Sábio Face à Vida

Existe acaso algu√©m a quem possas colocar acima do s√°bio? O s√°bio tem, sobre os deuses, opini√Ķes piedosas. N√£o teme a morte em momento nenhum, considera-a o fim normal da natureza, julga que o termo dos bens √© f√°cil de atingir e de possuir, sabe que os males t√™m uma dura√ß√£o e uma gravidade limitadas; sabe o que √© mister pensar da fatalidade, da qual se constuma fazer uma ama desp√≥tica. Sabe que os acontecimentos nascem, uns da fortuna, outros de n√≥s pr√≥prios, porque a fatalidade √© cega e a fortuna inconstante; que o que vem de n√≥s n√£o est√° submisso a nenhuma tirania, sujeito a reproche e a elogio.
Com efeito, melhor fora acreditar nas narrativas mitol√≥gicas sobre os deuses que tornar-se escravo da fatalidade dos f√≠sicos. A mitologia consente a esperan√ßa de que, honrando os deuses, poderemos disp√ī-los a nosso favor, enquanto a fatalidade √© inexor√°vel. O s√°bio n√£o cr√™, como o vulgo, que a fortuna seja uma divindade, pois um deus n√£o pode agir de maneira desordenada. Nem √©, para ele, uma causa, dada a sua instabilidade. N√£o a admite como causa do bem e do mal, ou da vida feliz; n√£o obstante, sabe que pode trazer grandes bens ou grandes males.

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O Vil Metal

Tim√£o: Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (…) Basta uma por√ß√£o dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. √ď deuses!, por que isso? O que √© isso, √≥ deuses? (…) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabe√ßa dos √≠ntegros. Esse escravo dourado ata e desata v√≠nculos sagrados; aben√ßoa o amaldi√ßoado; torna ador√°vel a lepra repugnante; nomeia ladr√Ķes e confere-lhes t√≠tulos, genuflex√Ķes e a aprova√ß√£o na bancada dos senadores. √Č isso que faz a vi√ļva anci√£ casar-se de novo (…). Venha, mineral execr√°vel, prostituta vil da humanidade (…) eu o farei executar o que √© pr√≥prio da sua natureza.

Todos Somos Escravos

N√£o h√° raz√£o, caro Luc√≠lio, para s√≥ buscares amigos no foro ou no senado: se olhares com aten√ß√£o encontr√°-los-√°s em tua casa. Muitas vezes um bom material permanece inutilizado por falta de quem o trabalhe. Tenta, pois, e v√™ o resultado. Tal como √© estupidez comprar um cavalo inspeccionando, n√£o o animal, mas sim a sela e o freio, assim √© o c√ļmulo da estupidez julgar um homem pela roupa ou pela condi√ß√£o social, que, de resto, √© t√£o exterior a n√≥s como a roupa. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas pode ter alma de homem livre. ¬ę√Č um escravo¬Ľ. Mas em que √© que isso o diminui? Aponta-me algu√©m que o n√£o seja: este √© escravo da sensualidade, aquele da avareza, aquele outro da ambi√ß√£o, todos s√£o escravos da esperan√ßa, todos o s√£o do medo.
Posso mostrar-te um antigo c√īnsul sujeito ao mando de uma velhota, um ricalha√ßo submetido a uma criadita, posso apontar-te jovens filhos de nobil√≠ssimas fam√≠lias que se fazem escravos de bailarinos: nenhuma servid√£o √© mais degradante do que a voluntariamente assumida. A√≠ tens a raz√£o por que n√£o deves deixar que os nossos tolos te impe√ßam de seres agrad√°vel para com os teus escravos, em vez de os tratares com altiva superioridade.

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N√£o Transformes o Teu Amigo em Escravo

A decepção não passa de baixeza. Se tu amaste um certo não sei quê no homem, que importa haver no mesmo homem outra coisa que te desagrada? Mas tu, não senhor; transformas logo a seguir em escravo quem amas ou quem te ama. Se ele não assume os encargos dessa escravidão, condena-lo.
O outro que fez? Tinha um amigo que lhe fazia presente do seu amor. Vai ele e transforma esse presente em dever. E a dádiva do amor tornou-se dever de beber a cicuta, tornou-se escravatura. O amigo não gostava da cicuta. O outro deu-se por desiludido, o que é ignóbil. Efectivamente, só pode haver decepção relativamente a um escravo que serviu mal.

A Fal√°cia do Homem Livre

C√° entre n√≥s, a servid√£o, de prefer√™ncia sorridente, √© pois inevit√°vel. Mas n√£o o devemos reconhecer. Quem n√£o pode fugir a ter escravos, n√£o valer√° mais que os chame homens livres? Por princ√≠pio, em primeiro lugar, e depois para os n√£o desesperar. √Č-lhes bem devida esta compensa√ß√£o, n√£o acha? Deste modo eles continuar√£o a sorrir e n√≥s manter-nos-emos de consci√™ncia tranquila. Sem o que, ser√≠amos for√ßados a voltar-nos para n√≥s mesmos, ficar√≠amos loucos de dor, ou at√© modestos, tudo √© de temer.

A Soberania da Alma

A alma sabe que as verdadeiras riquezas não se encontram onde nós as amontoamos: é a alma que nós devemos encher, não o cofre! Àquela devemos nós conceder o domínio sobre tudo, atribuir a posse da natureza inteira de modo a que os seus limites coincidam com o oriente e o ocaso, a que a alma, identicamente aos deuses, tudo possua, olhando soberanamente do alto os ricos e as suas riquezas Рesses ricos a quem menos alegria proporciona o que têm do que tristeza lhes dá o que aos outros pertence! Quando se eleva a tais alturas, a alma passa a cuidar do corpo (esse mal necessário!), não como amigo fiel, mas apenas como tutor, sem se submeter à vontade de quem está sob sua tutela.
Ningu√©m pode simultaneamente ser livre e escravo do corpo: para j√° n√£o falar de outras tiranias que o excessivo cuidado com ele nos imp√Ķe, a soberania do corpo tem exig√™ncias que s√£o aut√™nticos caprichos. A alma desprende-se dele ora com serenidade, ora de firme prop√≥sito – busca a sua sa√≠da sem se importar com a sorte dessa pobre coisa que para a√≠ fica! N√≥s n√£o ligamos import√Ęncia aos p√™los da barba ou aos cabelos que acab√°mos de cortar;

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Sonhar é Preciso

Sem sonhos, as pedras do caminho tornam-se montanhas, os pequenos problemas s√£o insuper√°veis, as perdas s√£o insuport√°veis, as decep√ß√Ķes transformam-se em golpes fatais e os desafios em fonte de medo.
Voltaire disse que os sonhos e a esperan√ßa nos foram dados como compensa√ß√£o √†s dificuldades da vida. Mas precisamos de compreender que os sonhos n√£o s√£o desejos superficiais. Os sonhos s√£o b√ļssolas do cora√ß√£o, s√£o projectos de vida. Os desejos n√£o suportam o calor das dificuldades. Os sonhos resistem √†s mais altas temperaturas dos problemas. Renovam a esperan√ßa quando o mundo desaba sobre n√≥s.

John F. Kennedy disse que precisamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram. Tem fundamento o seu pensamento, pois os sonhos abrem as janelas da mente, arejam a emoção e produzem um agradável romance com a vida.
Quem n√£o vive um romance com a sua vida ser√° um miser√°vel no territ√≥rio da emo√ß√£o, ainda que habite em mans√Ķes, tenha carros luxuosos, viaje em primeira classe nos avi√Ķes e seja aplaudido pelo mundo.

Precisamos de perseguir os nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem de ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar, ainda que nem todas as metas sejam atingidas.

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Escravo de Si Mesmo

A suposi√ß√£o de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e import√Ęncia, tudo o que ela possa fazer ou produzir √© um elemento indispens√°vel da dignidade humana. (…) S√≥ os vulgares consentir√£o em atribuir a sua dignidade ao que fizeram; em virtude dessa condescend√™ncia ser√£o ¬ęescravos e prisioneiros¬Ľ das suas pr√≥prias faculdades e descobrir√£o, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo √© t√£o ou mais amargo e humilhante que ser escravo de outrem.

As Infelizes Necessidades do Homem Civilizado

Um autor c√©lebre, calculando os bens e os males da vida humana, e comparando as duas somas, achou que a √ļltima ultrapassa muito a primeira, e que tomando o conjunto, a vida era para o homem um p√©ssimo presente. N√£o fiquei surpreendido com a conclus√£o; ele tirou todos os seus racioc√≠nios da constitui√ß√£o do homem civilizado. Se subisse at√© ao homem natural, pode-se julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o homem s√≥ tem os males que se criou para si mesmo, o que √† natureza se faria justi√ßa. N√£o foi f√°cil chegarmos a ser t√£o desgra√ßados. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ci√™ncias profundas, tantas artes inventadas, tantas for√ßas empregadas, abismos entulhados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados naveg√°veis, terras arroteadas, lagos cavados, pantanais dissecados, constru√ß√Ķes enormes elevadas sobre a terra, o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da esp√©cie humana, s√≥ nos podemos impressionar com a espantosa despropor√ß√£o que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do homem, que, para nutrir o seu orgulho louco, n√£o sei que v√£ admira√ß√£o de si mesmo,

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Preciso de Ti

O amor é bem capaz de ser a melhor maneira de nos encontrarmos connosco.
Preciso de ti para saber de mim.
Sei-o sempre que por minutos parece que vou perder-te, numa discussão das que vamos tendo. Discutir é abrir a válvula do amor, deixá-lo respirar, sangrá-lo para poder regressar à estrada. Nenhum amor aguenta sem sangrar.
Preciso de ti para pensar em mim.
Sei-o porque quando parece que vais eu vou também, deixo de saber quem sou, como sou. Para onde vou.
Preciso de ti para precisar de mim.
E os que não me entendem que vão para o raio que os parta. Os que dizem que isto não é nada recomendável, que isto não devia ser assim, que eu devia ser capaz de ser o que sou sem precisar de ti. Infelizes.
Preciso de ti para cuidar de mim.
O amor é bem capaz de ser precisar do outro para cuidarmos de nós.
E eu cuido-me. Quero estar viva para te poder amar. Conheces melhor motivo do que esse? √Č claro que amo os meus pais, a minha fam√≠lia toda, os meus gatos, aquilo que a vida me tem dado.

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O Adoçamento da Pílula Vocabular

√Č curioso verificar atrav√©s da l√≠ngua ‚ÄĒ espelho fiel de cada sociedade e de cada √©poca ‚ÄĒ como em certos aspectos essenciais da vida n√£o houve pr√°ticamente progresso nenhum, consistindo tudo quanto se fez num puro e vazio eufemismo de designa√ß√£o. Escravo, servo, criado, empregado, assalariado … ; demon√≠aco, possesso, maluco, doido, doente, nevrosado…

Na Paz Não Há Verdadeiro Progresso, o Egoísmo Impera

A ci√™ncia e a arte progridem sempre num primeiro per√≠odo imediato a uma guerra. A guerra renova-as, rejuvenesce-as, fomenta, fortalece, as ideias e imprime-lhes certo impulso. Numa larga paz, pelo contr√°rio, sucumbe tamb√©m a ci√™ncia. Indiscutivelmente o culto da ci√™ncia requer valor e at√© esp√≠rito de sacrif√≠cio. Mas quantos s√°bios resistem √† praga da paz? A falsa honra, o ego√≠smo e a √Ęnsia de prazeres superficiais, bestiais, fazem tamb√©m mossa no seu esp√≠rito. Procure o senhor acabar com uma paix√£o como a inveja, por exemplo; √© ordin√°rio e vulgar, mas com tudo isso penetra at√© nas nob√≠lissimas almas dos s√°bios. Tamb√©m o s√°bio acaba por querer ter a sua parte no brilho e esplendores gerais. Que significa, ante o triunfo da riqueza, o triunfo de uma descoberta cient√≠fica, a menos que seja t√£o estrondosa como a descoberta de um novo planeta? Parece-lhe que em tais circunst√Ęncias haver√° ainda muitos escravos do trabalho para o bem geral?

Longe disso, procura-se a gl√≥ria e cai-se no charlatanismo, na procura do efeito, e antes de mais nada no utilitarismo… visto que tamb√©m se quer, ao mesmo tempo, ser rico. Na arte acontece o mesmo que na ci√™ncia: id√™ntica √Ęnsia do efeito,

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A Eficiência no Trabalho, Hoje em Dia

A improbidade e inefici√™ncia profissionais s√£o talvez as caracter√≠sticas distintivas da nossa √©poca. O art√≠fice de outrora tinha que trabalhar; o oper√°rio actual tem de fazer uma m√°quina trabalhar. √Č um simples capataz de escravos de metal; torna-se t√£o embrutecido como um capataz de escravos, mas menos interessante, porque nem sequer se lhe pode chamar tirano.
Tal como o capataz de escravos se torna escravo da sua função e adquire, desse modo uma mentalidade de escravo, ainda que de um escravo mais afortunado, também o capataz de máquinas se transforma numa mera alavanca biótica, numa espécie de mecanismo de arranque associado a um motor.

Participar na produção em massa pode permitir que um homem continue a ser um ser humano decente; na verdade, é algo tão vil que não o afecta necessariamente. Mas participar na produção em massa não permite que ele continue a ser um operário humano decente.
A eficiência é menos complexa, hoje em dia. A ineficiência pode, por isso, passar facilmente por eficiência e ser, na verdade, eficiente.

Vaidade e Vanglória

Era uma linda inven√ß√£o de Esopo a do moscardo que, sentado no eixo da roda, dizia: ¬ęQuanta poeira fa√ßo levantar!¬Ľ Assim h√° muitas pessoas v√£s que quando um neg√≥cio marcha por si ou vai sendo movido por agentes mais importantes, desde que estejam relacionados com ele por um s√≥ pormenor, imaginam que s√£o eles quem conduz tudo: os que t√™m que ser facciosos, porque toda a vaidade assenta em compara√ß√Ķes. T√™m de ser necessariamente violentos, para fazerem valer as suas jact√Ęncias. N√£o podem guardar segredo, e por isso n√£o s√£o √ļteis para ningu√©m, mas confirmam o prov√©rbio franc√™s: Beaucoup de bruit, peu de fruit.
Este defeito não é, porém, sem utilidade para os negócios políticos: onde houver uma opinião ou uma fama a propagar, seja de virtude seja de grandeza, esses homens são óptimos trombeteiros.
(…) A vaidade ajuda a perpetuar a mem√≥ria dos homens, e a virtude nunca foi considerada pela natureza humana como digna de receber mais do que um pr√©mio de segunda m√£o. A gl√Ķria de C√≠cero, de S√©neca, de Pl√≠nio o Mo√ßo, n√£o teria durado tanto tempo se eles n√£o fossem de algum modo vaidosos; a vaidade √© como o verniz, que n√£o s√≥ faz brilhar,

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O Engodo da Felicidade como Recompensa

Toda essa ideia de uma felicidade como recompensa Рque outra coisa seria, portanto, senão uma ilusão moral: um título de crédito com o qual se compra de ti, homem empírico, os teus prazeres sensíveis de agora, mas que só é pagável quando tu mesmo não precisas mais do pagamento. Pensa sempre nessa felicidade como um todo de prazeres que são análogos aos prazeres sacrificados agora. Ousa, apenas, dominar-te agora; ousa o primeiro passo de criança em direcção à virtude: o segundo já se tornará mais fácil para ti. Se continuares a progredir, notarás com espanto que aquela felicidade que esperavas como recompensa do teu sacrifício, mesmo para ti não tem mais nenhum valor. Foi intencionalmente que se colocou a felicidade num ponto do tempo em que tens de ser suficientemente homem para te envergonhares dela. Envergonhar, digo eu, pois, se nunca chegas a sentir-te mais sublime do que aquele ideal sensível de felicidade, seria melhor que a razão jamais te tivesse falado.
√Č exig√™ncia da raz√£o n√£o precisar mais de nenhuma felicidade como recompensa, t√£o certo quanto √© exig√™ncia tornar-se mais conforme √† raz√£o, mais aut√≥nomo, mais livre. Pois, se a felicidade ainda pode recompensar-nos – a n√£o ser que se interprete o conceito de felicidade contrariamente a todo o uso da linguagem -,

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A Doutrina Perfeita

Muitas vezes as pessoas dirigem-se a mim, dizendo: ¬ęvoc√™, que √© independente¬Ľ. N√£o sou assim; continuamente devo ceder a pequenas f√≥rmulas sofisticadas que corrompem, que d√£o um sentido inverso √† nossa orienta√ß√£o, que fazem com que a transpar√™ncia do cora√ß√£o se turve. Continuamente a nossa inseguran√ßa, o ego√≠smo, o esp√≠rito legalista, a mesquinhez, a vaidade, toda a esp√©cie de circunst√Ęncias que tomam o partido da vida como desfrute √† sensa√ß√£o se sobrep√Ķem √† luz interior. S√≥ a f√© √© independente. S√≥ ela est√° para al√©m do bem e do mal.

Estar para al√©m do bem e do mal aplica-se a Cristo. ¬ęPerdoa ao teu inimigo, oferece a outra face¬Ľ – disse Ele. N√£o √© um conselho para humilhados, n√£o √© um preceito para m√°rtires. Nisso aparece Cristo mal interpretado, a ponto de o cristianismo ter sido considerado uma religi√£o de escravos. Mas esquecemos que Cristo, como Homem, teve a experi√™ncia-limite, uma vis√£o do inconsciente absoluto, o que quer dizer que a sua consci√™ncia foi saturada, para al√©m do bem e do mal. Esse homem que perdoa ao seu inimigo n√£o o faz por contrariedade do seu instinto, por repara√ß√£o dos seus pecados; mas porque n√£o pode proceder de outra maneira.

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Uma Obediência Passiva

O homem, bobo da sua aspira√ß√£o, sombra chinesa da sua √Ęnsia in√ļtil, segue, revoltado e ign√≥bil, servo das mesmas leis qu√≠micas, no rodar imperturb√°vel da Terra, implacavelmente em torno a um astro amarelo, sem esperan√ßa, sem sossego, sem outro conforto que o abafo das suas ilus√Ķes da realidade e a realidade das suas ilus√Ķes. Governa estados, institui leis, levanta guerras; deixa de si mem√≥rias de batalhas, versos, est√°tuas e edif√≠cios. A Terra esfriar√° sem que isso valha. Estranho a isso, estranho desde a nascen√ßa, o soI um dia, se alumiou, deixar√° de alumiar; se deu vida, dar√° a si a morte. Outros sistemas de astros e de sat√©lites dar√£o porventura novas humanidades; outras esp√©cies de eternidades fingidas alimentar√£o almas de outra esp√©cie; outras cren√ßas passar√£o em corredores long√≠nquos da realidade m√ļltipla. Cristos outros subir√£o em v√£o a novas cruzes. Novas seitas secretas ter√£o na m√£o os segredos da magia ou da Cabala. E essa magia ser√° outra, e essa Cabala diferente. S√≥ uma obedi√™ncia passiva, sem revoltas nem sorrisos, t√£o escrava como a revolta, √© o sistema espiritual adequado √† exterioridade absoluta da nossa vida serva.

√Ālvaro de

Entender os Nossos Impulsos

O dom√≠nio de si pr√≥prio, embora eu n√£o negue de forma alguma a sua necessidade em muitas circunst√Ęncias, n√£o √© a melhor forma de conseguir que um ser humano se conduza bem. Tem o inconveniente de diminuir a energia e as faculdades criadoras. √Č como uma pesada armadura que ao mesmo tempo que impede o vosso bra√ßo de bater nos vossos vizinhos, o torna igualmente incapaz de um movimento √ļtil. Os que n√£o t√™m outro apoio al√©m da disciplina que se imp√Ķem a si pr√≥prios, tornam-se obstinados e timoratos com receio de si pr√≥prios.
Mas os impulsos aos quais eles não permitem qualquer saída, continuam a existir neles a tal como os rios represados, cedo ou tarde transbordarão. As forças a que nós contrariamos a função natural que é o desabrochar da nossa própria vida, ou se atrofiam ou acabam por ter uma saída perturbando a vida de outrem. Elas procurarão qualquer saída do género das que não representam nenhum perigo para nós, por exemplo, a tirania doméstica. Se essa saída não for suficiente, há outras que o podem ser. Há sempre condenados e párias a quem a sociedade permite torturar e isso não comporta nenhum risco.
Esses p√°rias,

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O Estado como Suporte para uma Vida Feliz

Os homens não se associam tendo em vista apenas a existência material, mas, antes, a vida feliz, pois, se fosse de outra forma, uma colectividade de escravos ou de animais seria um Estado, quando, na realidade, isto é uma coisa impossível, porque esses seres não têm qualquer participação na felicidade, nem na vida fundamentada em uma vontade livre.