Textos sobre Partida

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Textos de partida escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Ter Objetivos

Qualquer dia que comece sem um objetivo, est√°, √† partida, condenado ao ¬ęera melhor n√£o ter sa√≠do da cama¬Ľ; como tal, torna–se fundamental saberes o que queres, o que tens e o que podes fazer sempre que o Sol nasce. Um simples objetivo √©, na realidade, suficiente para te motivar a viver todo o dia que tens pela frente, pois aniquila todo e qualquer sentimento de inutilidade, ansiedade e frustra√ß√£o que possas estar a viver. T√£o simples e ao mesmo tempo t√£o complicado. T√£o complicado porque sei, por experi√™ncia pr√≥pria e pelo que oi√ßo nas minhas sess√Ķes e palestras, que nem sempre √© f√°cil ter um objetivo di√°rio. Ou melhor, muitas das vezes, at√© o temos, mas como estamos desprovidos de estrat√©gia, a a√ß√£o nunca ocorre.
Mas vamos por partes, um objetivo é algo nato, pois ainda que de uma forma inconsciente o objetivo de cada bebé, por exemplo, é tornar-se autónomo, gatinhando primeiro, agarrando-se às coisas depois até, finalmente, começar a andar. Esta sensação de querermos sempre mais ou melhor é algo que nasce connosco e que apenas deixa de fazer sentido quando o estado emocional da pessoa é tão depressivo que se opta por desistir. Ter objetivos é como ter fome e comer,

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Os Amigos S√£o Pessoas que se Preferem

Se h√° um lugar onde a integridade pr√≥pria n√£o √© amea√ßada pela falta de verdade e pela aus√™ncia de liberdade, ele √©, sem d√ļvida, a amizade. Os amigos s√£o pessoas que se preferem. Cada amigo √©, por isso, uma rejei√ß√£o de muitas outras. Querer ser ¬ęamigo de toda a gente¬Ľ, usar indeliberadamente as palavras amigo e amiga para descrever todos os conhecimentos indistintivamente, prezar a amizade como valor abstracto sem investir energicamente numa pr√°tica particular – tudo isto √© um ego√≠smo guloso, escondendo a frieza e o interesse em reifica√ß√Ķes abstrusas de conceitos demasiado gerais, inevitavelmente presos a vis√Ķes fraudulentas da ¬ęhumanidade¬Ľ.

Recear a cria√ß√£o de inimigos √© querer impedir, logo √† partida, a cria√ß√£o de uma amizade. Uma das trag√©dias da nossa idade √© a invas√£o do dom√≠nio pessoal por valores que pertencem apenas ao dom√≠nio social. Assim, a liberdade, por exemplo, passou a ser um verdadeiro constrangimento do amor, da amizade. Certas no√ß√Ķes de autonomia acabam por destruir a base profunda de uma rela√ß√£o humana s√©ria e sentida: a lealdade. N√£o se pode querer amar e ser amado sem prescindir daquilo que se preza ser a ¬ęliberdade¬Ľ. A lealdade √© um constrangimento que se aceita e que se cumpre em nome de algo (de algu√©m) que se julga (porque se ama) mais precioso que a liberdade.

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Literatura Libertadora

A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores.
Homem livre, pois, o escritor – ou que visceralmente deseja s√™-lo. T√£o livre, ou t√£o necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situa√ß√Ķes para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade prolet√°ria, ele sempre encontrar√° raz√Ķes para a sua insubmiss√£o e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contesta√ß√£o inconsciente.

Prazer com Virtude

Que dizer do facto de tanto os homens bons como os maus terem prazer, e de os homens infames terem tanto gosto em cometer actos vergonhosos como os homens honestos t√™m nas suas ac√ß√Ķes excelentes? √Č por isso que os antigos prescreveram que se procurasse a vida melhor, n√£o a mais agrad√°vel, de forma a que o prazer fosse, n√£o o guia, mas um companheiro da vontade recta e boa. Na verdade, a natureza deve ser o nosso guia: a raz√£o observa-a e consulta-a. Por isso, viver feliz √© o mesmo que viver de acordo com a natureza. Passo a explicar o que quer isto dizer: se conservarmos os nossos dons corporais e as nossas aptid√Ķes naturais com dilig√™ncia, mas tamb√©m com impavidez, tomando-os como bens ef√©meros e fugazes; se n√£o nos tornarmos servos deles, nem nos submetermos a coisas exteriores; se as coisas que s√£o circunstanciais e agrad√°veis ao corpo forem para n√≥s como auxiliares e tropas ligeiras num castro (que obedecem, n√£o comandam); nesta medida, todas estas coisas ser√£o √ļteis √† mente.
N√£o se deixe o homem corromper pelas coisas externas e inalcan√ß√°veis, e admire-se apenas a si pr√≥prio, confiando no seu √Ęnimo e mantendo-se preparado para tudo,

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Antes de Vivermos, a Vida é Coisa Nenhuma

O homem come√ßa por existir, isto √©, o homem √© de in√≠cio o que se lan√ßa para um futuro e o que √© consciente de se projectar no futuro. O homem √© primeiro um projecto que se vive subjectivamente, em vez de ser musgo, podrid√£o ou couve-flor; nada existe previamente a esse projecto; nada existe no c√©u inintelig√≠vel, e o homem ser√° em primeiro lugar o que tiver projectado ser. N√£o o que tiver querido ser. Porque o que n√≥s entendemos ordinariamente por querer √© uma decis√£o consciente, e para a generalidade das pessoas posterior ao que se elaborou nelas. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me: tudo isto √© manifesta√ß√£o de uma escolha mais original mais espont√Ęnea do que se denomina por vontade.
(…) Escreveu Dostoievsky: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido.¬Ľ √Č esse o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe, e, por conseguinte, o homem encontra-se abandonado, porque n√£o encontra em si, nem fora de si, a que agarrar-se. Ao come√ßo n√£o tem desculpa. Se, na verdade, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o √© poss√≠vel explica√ß√£o por refer√™ncia a uma natureza humana dada e hirta;

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A Culpa é Sempre Nossa

Sempre admirei aqueles que nos fazem sentir culpados do que dantes nos julgáramos inocentes. A culpa é uma riqueza, à qual se vai acrescentando. O resultado oscila entre a lista telefónica e as Obras Completas mas pesa sempre.
Os grandes mestres s√£o os nossos pais e os nossos filhos – ambos mostram de onde veio a inspira√ß√£o para o pecado original. Ora se √© culpado por ter nascido e interrompido, ora se √© culpado por ter dado a nascer e n√£o se ter interrompido tanto quanto precisariam os nascidos.A culpa n√£o √© uma coisa que se tenha, como um pesco√ßo. √Č uma coisa que se transmite, como uma gripe. Tanto faz ser-se inocente ou culpado ¬ę√† partida¬Ľ, que tem aspas porque n√£o existe. Os malvados constipam-se tanto como os bonzinhos. Mas ambos s√£o vulner√°veis √† ideia que at√© fizeram por isso e merecem pagar.At√© com as l√Ęmpadas de casa de banho acontece. N√£o h√° dom√≠nio de banalidade que a culpa n√£o contamine. Tenho passado, nos √ļltimos anos, v√°rias semanas, dispersas no tempo, sem luz na casa de banho. Uso pilhas e a luz da lua, quando √© oferecida.Depois aparece o electricista que √© afoito e resolve tudo num segundo.

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Agrada-te a Ti

Nunca conseguir√°s agradar a todos, mas podes sempre agradar-te a ti.

Querer agradar a toda a gente é o primeiro passo para o desrespeito e o caminho mais rápido para a perdição.

√Č, ali√°s, t√£o perigoso e letal que chega a ofuscar toda a luz que nos alimenta e dizimar todo e qualquer sentido de vida com o qual tenhamos nascido. Quem escolhe essa via nunca passar√° de um p√°ssaro de asas partidas, fr√°gil e desesperado, que a qualquer momento pode ser pisado, ca√ßado, esmagado ou morto por qualquer um. E o que n√£o falta a√≠ √© gente que precisa cilindrar, torturar e macerar algu√©m para sentir algum bem-estar na sua vida.

N√£o te podes permitir isso.

N√£o podes querer ser o par de sapatos de toda a gente.

Tens de ser as tuas pernas, o teu próprio coração e a orientação da tua cabeça.

De que te adianta agradar a todos se isso pode ser desagrad√°vel para ti?

As pessoas só vão gostar todas de ti depois de morreres ou se escolheres ficar calado para sempre, o que, e na minha opinião, é apenas outra forma de estar morto,

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O Homem Superior

O maior triunfo do homem é quando se convence de que o ridículo é uma cousa sua que existe só para os outros, e, mesmo, sempre que outros queiram. Ele então deixa de importar-se com o ridículo, que, como não está em si, ele não pode matar.
Tr√™s cousas tem o homem superior que ensinar-se a esquecer para que possa gozar no perfeito silencio a sua superioridade ‚ÄĒ o ridiculo, o trabalho e a dedica√ß√£o.
Como n√£o se dedica a ningu√©m, tamb√©m nada exige da dedica√ß√£o alheia. S√≥brio, casto, frugal, tocando o menos poss√≠vel na vida, tanto para n√£o se incomodar como para n√£o approximar as cousas de mais, a ponto de destruir nelas a capacidade de serem sonhadas, ele isola-se por conveni√™ncia do orgulho e da desillus√£o. Aprende a sentir tudo sem o sentir directamente; porque sentir directamente √© submeter-se ‚ÄĒ submeter-se √† ac√ß√£o da cousa sentida.
Vive nas dores e nas alegrias alheias, Whitman ol√≠mpico, Proteu da compreens√£o, sem partilhar de viv√™-las realmente. Pode, a seu talante, embarcar ou ficar nas partidas de navios ‚ÄĒ e pode ficar e embarcar ao mesmo tempo, porque n√£o embarca nem fica. Esteve com todos em todas as sensa√ß√Ķes de todas as horas da sua vida.

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Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

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A Evolução da Criatividade

A experi√™ncia humana √© apenas ponto de partida, n√ļcleo s√≥lido e permanente onde assenta a experi√™ncia posterior da cria√ß√£o. Considero a cria√ß√£o o encaminhamento, at√© √†s consequ√™ncias extremas, de uma experi√™ncia em si mesma n√£o organizada. A descoberta do mundo n√£o possui, por ela pr√≥pria, finalidade ou coer√™ncia, nem constitui a salva√ß√£o desse mundo. Desde que seja poss√≠vel criar um corpo org√Ęnico em que a experi√™ncia, devidamente articulada, se baste, surge uma harmonia entre o sujeito e a sua experi√™ncia, quero dizer, o sujeito participa do cosmos. Este esfor√ßo da supera√ß√£o do caos exprime-se pela busca de uma linguagem. √ą ali√°s na linguagem que a experi√™ncia se vai tornando real. Se nela n√£o h√°, em sentido rigoroso, experi√™ncia do mundo. A esta conclus√£o vem chegando uma moderna filosofia da arte. A forma√ß√£o da linguagem √© um paciente, extenso, doloroso e, muitas vezes, desesperante caminho. O erro aparece como uma constante, mas existe a possibilidade de ser sempre menor. Entre um grau m√°ximo e um grau m√≠nimo de erro, situa-se a evolu√ß√£o. Progresso de linguagem, de adequa√ß√£o √†s finalidades, supera√ß√£o da experi√™ncia, purifica√ß√£o do tema ‚Äď eis onde se pode situar o sentido da evolu√ß√£o.

O Existencialista

Dostoievski escreveu: ¬ęSe Deus n√£o existisse, tudo seria permitido¬Ľ. A√≠ se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo √© permitido se Deus n√£o existe , fica o homem, por conseguinte , abandonado, j√° que n√£o encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, n√£o h√° desculpas para ele. Se, com efeito, a exist√™ncia precede a ess√™ncia, n√£o ser√° nunca poss√≠vel referir uma explica√ß√£o a uma natureza humana dada e imut√°vel; por outras palavras, n√£o h√° determinismo, o homem √© livre, o homem √© liberdade. Se, por outro lado, Deus n√£o existe, n√£o encontramos diante de n√≥s valores ou imposi√ß√Ķes que nos legitimem o comportamento. Assim, n√£o temos nem atr√°s de n√≥s, nem diante de n√≥s, no dom√≠nio luminoso dos valores, justifica√ß√Ķes ou desculpas. Estamos s√≥s e sem desculpas. √Č o que traduzirei dizendo que o homem est√° condenado a ser livre. Condenado, porque n√£o se criou a si pr√≥prio; e no entanto livre, porque uma vez lan√ßado ao mundo, √© respons√°vel por tudo quanto fizer. O existencialista n√£o cr√™ na for√ßa da paix√£o. N√£o pensar√° nunca que uma bela paix√£o √© uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos actos e que por conseguinte,

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Quando √Čs Atencioso e Comovente, Perco a Cabe√ßa

Henry,

Acabaste de sair. Disse ao Hugh que tinha de acrescentar algo ao meu trabalho. Tive de voltar para cima, para o meu quarto, outra vez, e ficar s√≥. Estava t√£o cheia de ti que tinha medo de mostrar a minha cara. Henry, nenhuma partida tua me deixou t√£o abalada. N√£o sei o que foi hoje que me atraiu a ti, que me fez fren√©tica por estar perto de ti, para dormir contigo, para te abra√ßar… Uma ternura louca e terr√≠vel… Um desejo de cuidar de ti… Foi uma grande dor para mim teres ido embora. Quando falas da maneira como falaste das M√§dchen [in Uniform] , quando √©s atencioso e comovente, perco a cabe√ßa.

Para ficar contigo por uma noite eu daria toda a minha vida, sacrificaria cem pessoas, deitaria fogo a Louveciennes, seria capaz de tudo. Isto não é para te preocupar, Henry, é só porque não consigo impedir-me de o dizer, que estou a transbordar, desesperadamente enamorada por ti como nunca estive por alguém. Mesmo que fosses embora amanhã de manhã, a ideia de estares a dormir na mesma casa teria sido um doce alívio do tormento que suporto esta noite, o tormento de ser cortada ao meio quando fechaste o portão atrás de ti.

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Nada Vence as Paix√Ķes Profundas de Cada Um

As paix√Ķes op√Ķem-se √†s paix√Ķes, e podem servir de contrapeso umas √†s outras; mas a paix√£o dominante n√£o se pode conduzir sen√£o pelo seu pr√≥prio interesse, real ou imagin√°rio, porque ela reina despoticamente sobre a vontade, sem a qual nada se pode. Contemplo humanamente as coisas, e acrescento nes¬≠se esp√≠rito: nem todo o alimento √© pr√≥prio para todos os cor¬≠pos; nem todos os objetos s√£o suficientes para tocar deter¬≠minadas almas. Quem acredita serem os homens √°rbitros soberanos dos seus sentimentos n√£o conhece a natureza; consiga-se que um surdo se divirta com os sons encantado¬≠res de Mureti, pe√ßa-se a uma jogadora, que est√° a jogar uma grande partida, que tenha a complac√™ncia e a sabedo¬≠ria de se enfadar durante a mesma, nenhuma arte pode faz√™-lo.
Os s√°bios enganam-se quando oferecem a paz √†s paix√Ķes: as paix√Ķes s√£o inimigas dela. Eles elogiam a mo¬≠dera√ß√£o para aqueles que nasceram para a ac√ß√£o e para uma vida agitada; que importa a um homem doente a delicadeza de um festim que lhe repugna? N√≥s n√£o conhecemos os defeitos de nossa alma; mas ainda que pud√©ssemos conhec√™-los, raramente haver√≠a¬≠mos de os querer vencer.
As nossas paix√Ķes n√£o s√£o distintas de n√≥s mesmos; al¬≠gumas delas s√£o todo o fundamento e toda a subst√Ęncia da nossa alma.

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A Dupla Realidade

A mente pregava-nos partidas. Fabricava est√≠mulos, treslia sinais. Les√Ķes e fissuras instalavam-se no corpo caloso dos nossos c√©rebros, dificultando a comunica√ß√£o entre as suas duas metades. Confundiam o hemisf√©rio da racionalidade e, nos momentos mais inconvenientes, obrigavam a entrar em ac√ß√£o aquele ao qual cabia o fabrico de hist√≥rias.

Talvez tivesse sido o caso. Lera sobre isso. O c√©rebro podia ser mentiroso, e as ilus√Ķes √≥pticas n√£o passavam do menor dos seus truques. Um pequeno desequil√≠brio entre o espl√©nio e o f√≥rnix era suficiente para a instaura√ß√£o de uma esp√©cie de dupla-realidade ‚ÄĒ pelo menos at√© que se impusesse o dilema l√≥gico capaz de produzir o curto-circuito capaz de a desmontar. E nem nesse momento um homem poderia considerar-se a salvo, porque, como qualquer curto-circuito, tamb√©m esse era de consequ√™ncias imprevis√≠veis.

Uma Direc√ß√£o, e N√£o Solu√ß√Ķes

A diferen√ßa entre solu√ß√£o e direc√ß√£o √© esta: a solu√ß√£o √© sempre um rem√©dio passageiro para disfar√ßar a desgra√ßa. Ao passo que a direc√ß√£o √© a pr√≥pria dignidade posta nas m√£os do desgra√ßado para que deixe de o ser, e a direc√ß√£o √ļnica √© a garantia perp√©tua dessa dignidade. E foi o que fez Goethe: Descobriu a direc√ß√£o √ļnica. Artista, na verdadeira acep√ß√£o da palavra; Artista √© aquele que precede a pr√≥pria ci√™ncia. Por isso Goethe afastou-se de quantas realidades irrealiz√°veis onde costumam habitar instaladas as gentes. E impass√≠vel, desde cima, assistiu ao desenrolar da trag√©dia. E viu o mundo inteiro por cima de todas as cabe√ßas, e viu a Europa toda e com cada um dos seus peda√ßos, e viu cada indiv√≠duo da Humanidade como um pequenino astro tonto que nem sabe sequer ir na par√°bola da sua pr√≥pria traject√≥ria, e viu que de todos os seres deste mundo o √ļnico que errava o seu fim era o Homem, o dono da Terra! E viu que era na Humanidade que estavam os √ļnicos seres deste mundo que n√£o cumpriam com o seu pr√≥prio destino, e finalmente viu! Viu com os seus pr√≥prios olhos o que ningu√©m tinha visto antes dele.

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O Sustent√°culo do Amor

A paz √© algo que nenhum homem pode dar a outro. Um dos fins mais importantes para quem arrisca ser quem √© ser√° o de construir a sua pr√≥pria paz. Esta resulta de um trabalho duro de equil√≠brio das vontades, de uma harmoniza√ß√£o √°rdua das diferentes dimens√Ķes interiores, como o pensar e o sentir; √© um estado √°gil e din√Ęmico que, ao limite, permite ultrapassar e vencer qualquer adversidade.
A paz não é o estado de quem vive uma ausência de conflitos, é o resultado da conciliação corajosa das diferentes forças que, dentro e fora de cada homem, tentam prevalecer sobre as demais, menosprezando-se mutuamente.

Muitos são os que julgam ter encontrado a paz quando se livram do sonho do amor. Estão enganados, o caminho até à felicidade é ainda longo para quem cansado assim se contenta, repousando de uma luta que nem chegou a começar.

A paz é um ponto de passagem de quem ruma à plenitude da vida. A paz é o ponto de partida para o amor, que por sua vez lança o homem para a felicidade. A paz é o ponto de chegada dos que sofrem as dores mais profundas.

A verdade é tranquila.

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A Incapacidade de Amar Alguém

Para falar com franqueza, n√£o considero grave a incapacidade de amar algu√©m. O que significa amar? Na sua maioria, as pessoas coabitam sem necessidade de um sentimento que desconhecem at√© ao momento em que o leem num romance ou o veem num filme. O facto de, √† partida, n√£o sabermos o que √©, indica talvez que se trata de algo que n√£o existe dentro de n√≥s, que nos √© inculcado, ou que importamos. Se n√£o estou em erro, era um velho fil√≥sofo franc√™s que dizia que, quando um homem exprime o muito que ama a senhora marquesa, o muito que aprecia a sua intelig√™ncia ‚ÄĒ como √© harmoniosa nos seus movimentos, que ideias t√£o extraordin√°rias tem, que sensibilidade t√£o requintada exibe ‚ÄĒ, aquilo que realmente quer dizer √© que est√° doido por foder com ela. Julgo que h√° a√≠ alguma verdade. Confundimos empatia ou compaix√£o com desejo, julgamos querer acarinhar, proteger, quando na verdade queremos penetrar, violar.

A Tranquilidade da Alma não se Alcança em Viagens

Pensas que s√≥ a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de ap√≥s uma t√£o grande viagem e uma t√£o grande variedade de locais visitados n√£o teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves √© mudar de alma, n√£o de clima. Ainda que atravesses a vastid√£o do mar, ainda que, como diz o nosso Verg√≠lio, as costas, as cidades desapare√ßam no horizonte, os teus v√≠cios seguir-te-√£o onde quer que tu v√°s. Do mesmo se queixou um dia algu√©m a S√≥crates: ¬ęPorqu√™ admirar-te da inutilidade das tuas viagens,¬Ľ – foi a resposta, – ¬ęse para todo o lado levas a mesma disposi√ß√£o? A causa que te aflige √© exactamente a mesma que te leva a partir!¬Ľ De facto, em que pode ajudar a mudan√ßa de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agita√ß√£o carece de sentido. Andares de um lado para o outro n√£o te ajuda em nada, porque andas sempre na tua pr√≥pria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso n√£o h√° terra alguma que te possa dar prazer!
Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro!

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O Significado dos Sonhos

Os meu sonhos eram de muitas esp√©cies mas representavam manifesta√ß√Ķes de um √ļnico estado de alma. Ora sonhava ser um Cristo, a sacrificar-me para redimir a humanidade, ora um Lutero, a quebrar com todas as conven√ß√Ķes estabelecidas, ora um Nero, mergulhado em sangue e na lux√ļria da carne. Ora me via numa alucina√ß√£o o amado das multid√Ķes, aplaudido, desfilando ao longo (…), ora o amado das mulheres, atraindo-as arrebatadoramente para fora das suas casas, dos seus lares, ora o desprezado por todos embora o eleito do bem, por todos a sacrificar-me. Tudo o que lia, tudo o que ouvia, tudo o que via ‚ÄĒ cada ideia vinda de fora, cada (…), cada acontecimento era o ponto de partida de um sonho. Vinha de um circo e ficava em casa ousando imaginar-me um palha√ßo, com luzes em arco √† minha volta. Via soldados passarem na minha mente a falarem com uma vis√£o de mim pr√≥prio, tratando-me por capit√£o, chefiando, ordenando, vitorioso. Quando lia algo acerca de aventureiros imediatamente me convertia neles, por completo. Quando lia algo acerca de criminosos, morria por cometer crimes at√© me apavorar com o meu desarranjo mental. Conforme as coisas que via, ou ouvia, ou lia, vivia em todas as classes sociais,

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A Vida é uma Eternidade

Sabemos que vamos morrer e que estaremos mortos tanto tempo como n√£o estivemos √† espera para nascer. √Č banal dizer-se que a vida √© um intervalo ou uma passagem ou um instante. N√£o √©. A vida √© uma excep√ß√£o generosamente comprida √† regra nem triste nem alegre da inexist√™ncia.
A vida est√° para o nada como o planeta Terra est√° para o sistema solar a que pertence. Sim, pode haver vida noutros planetas. Mas ser√° uma vida que vale a pena viver? Ou que apenas vale a pena estudar?

Sabemos que temos muito tempo de vida: muito mais do que precisamos. O direito à preguiça e à procrastinação está consagrado na nossa vida e faz logo, à partida, parte dela.
Sabemos que somos obrigados a pensar, errada e repetidamente, que o tempo em que estamos vivos √© importante. E que as nossas no√ß√Ķes de decl√≠nio (“dantes √© que era bom; os jovens de hoje n√£o sabem o que perdem”) s√£o lugares-comuns de todas as gera√ß√Ķes antes de n√≥s.

Sabemos que não há ninguém que não envelheça, desde o bebé que nasceu neste segundo até ao velho que, por ter morrido agora mesmo, deixou de envelhecer.

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