Textos sobre Instrumento

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Textos de instrumento escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

O Mal só nos Afecta na Medida em que o Deixarmos

Os homens (diz uma antiga máxima grega) são atormentados pelas ideias que têm das coisas, e não pelas próprias coisas. Haveria um grande ponto ganho para o alívio da nossa miserável condição humana se pudéssemos estabelecer essa asserção como totalmente verdadeira. Pois, se os males só entraram em nós pelo nosso julgamento, parece que está em nosso poder desprezá-los ou transformá-los em bem. Se as coisas se entregam à nossa mercê, por que não dispomos delas ou não as moldarmos para vantagem nossa? Se o que denominamos mal e tormento não é nem mal nem tormento por si mesmo, mas somente porque a nossa imaginação lhe dá essa qualidade, está em nós mudá-la. E, tendo essa escolha, se nada nos força, somos extraordinariamente loucos de bandear para o partido que nos é o mais penoso e dar às doenças, à indigência e ao desvalor um gosto acre e mau, se lhes podemos dar um gosto bom e se, a fortuna fornecendo simplesmente a matéria, cabe a nós dar-lhe a forma.
Porém vejamos se é possível sustentar que aquilo que denominamos por mal não o é em si mesmo, ou pelo menos que, seja ele qual for, depende de nós dar-lhe outro sabor e outro aspecto,

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O Intelecto Como Auxiliar da Felicidade

A filosofia tem de admitir que n√£o √© nela, mas sim na vida, que o homem deve encontrar as suas maiores satisfa√ß√Ķes; n√£o na biblioteca ou na cela mon√°stica, mas na satisfa√ß√£o dos seus instintos mais antigos. A felicidade √© inconsciente; s√≥ nos bafeja quando somos naturais; se nos detemos a analis√°-la, desaparece, porque n√£o √© natural determo-nos a analisar uma coisa. Se o intelecto contribui para a felicidade n√£o o faz como fonte prim√°ria, mas sim como meio de coordena√ß√£o, como instrumento harmonizador dos desejos. Neste sentido o intelecto pode ser um precioso auxiliar; e de contr√°rio de nada valeria realizarmos todos os nossos fins, porque os desejos cancelar-se-iam uns aos outros, dando como resultado uma triste futilidade.

A Mocidade Prop√Ķe, a Maturidade Disp√Ķe

√Č fun√ß√£o da mocidade ser profundamente sens√≠vel √†s novas ideias como instrumentos r√°pidos para dominar o meio; e √© fun√ß√£o da idade madura opor-se tenazmente a essas ideias ; isso faz com que as inova√ß√Ķes fiquem em experi√™ncia por algum tempo antes que a sociedade as ponha em pr√°tica. A maturidade atenua as ideias novas, redu-las de modo a caberem dentro da possibilidade ou a que s√≥ se realizem em parte. A mocidade prop√Ķe, a maturidade disp√Ķe, a velhice op√Ķe-se. A mocidade domina nos per√≠odos revolucion√°rios; a maturidade, nos per√≠odos de reconstru√ß√£o; a velhice, nos per√≠odos de estagna√ß√£o. ¬ęD√°-se com os homens¬Ľ, diz Nietzsche, ¬ęo mesmo que com as carvoarias na floresta. S√≥ depois que a mocidade se carboniza √© que se torna utiliz√°vel. Enquanto est√° a arder ser√° muito interessante, mas inc√≥moda e in√ļtil.¬Ľ

A Disposição da Razão

N√£o s√£o apenas as febres, as beberagens e os grandes infort√ļnios que abatem o nosso julgamento; as menores coisas do mundo o transtornam. E n√£o se deve duvidar, ainda que n√£o o sent√≠ssemos, que, se a febre cont√≠nua pode arrasar a nossa alma, a ter√ß√£ tamb√©m lhe cause alguma altera√ß√£o de acordo com o seu ritmo e propor√ß√£o. Se a apoplexia entorpece e extingue totalmente a vis√£o da nossa intelig√™ncia, n√£o se deve duvidar que a coriza a ofusque; e consequentemente mal podemos encontrar uma √ļnica hora da vida em que o nosso julgamento esteja na sua devida disposi√ß√£o, estando o nosso corpo sujeito a tantas muta√ß√Ķes cont√≠nuas e guarnecido de tantos tipos de recursos que (acredito nos m√©dicos) √© muito dif√≠cil que n√£o haja sempre algum deles andando torto.
De resto, essa doença não se revela tão facilmente se não for totalmente extrema e irremediável, pois a razão segue sempre em frente, mesmo torta, mesmo manca, mesmo desancada, tanto com a mentira como com a verdade. Assim, é difícil descobrir-lhe o erro e o desarranjo. Chamo sempre de razão essa aparência de raciocínio que cada qual forja em si Рessa razão por cuja condição pode haver cem raciocínios contrários em torno de um mesmo assunto,

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A Preguiça como Obstáculo à Liberdade

A pregui√ßa e a cobardia s√£o as causas por que os homens em t√£o grande parte, ap√≥s a natureza os ter h√° muito libertado do controlo alheio, continuem, no entanto, de boa vontade menores durante toda a vida; e tamb√©m por que a outros se torna t√£o f√°cil assumirem-se como seus tutores. √Č t√£o c√≥modo ser menor.
Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de boa vontade tomaram a seu cargo a superintendência deles. Depois de, primeiro, terem embrutecido os seus animais domésticos e evitado cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da carroça em que as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça, se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois aprenderiam por fim muito bem a andar.

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Nada Pior que a Frivolidade

A frivolidade, meu amigo, aniquila os homens que a ela se apegam; talvez n√£o haja v√≠cio que n√£o se deva preferir a ela, pois ainda √© melhor ser vicioso do que n√£o ser nada. O nada est√° abaixo do tudo, o nada √© o maior dos v√≠cios; e que n√£o me diga que √© ser alguma coisa o ser fr√≠volo: √© n√£o ser nem para a virtude, nem para a gl√≥ria, nem para a raz√£o, nem para os prazeres apaixonados. Direis talvez: gosto mais de um homem nulo para qualquer vitude do que daquele que s√≥ existe para o v√≠cio. Eu vos responderei: aquele que √© nulo para a virtude n√£o est√° por isso livre dos v√≠cios; ele pratica o mal por leviandade e por fraqueza; ele √© o instrumento dos maus que t√™m mais g√©nio. Ele √© menos perigoso do que um homem seriamente empenhado no mal, isso √© poss√≠vel; mas ser√° necess√°rio ser grato ao gavi√£o por ele s√≥ destruir os insectos e por ele n√£o destruir os rebanhos e os campos como os le√Ķes e as √°guias? Um homem corajoso e dotado de sabedoria n√£o teme um homem mau; mas n√£o pode impedir-se de desprezar um homem fr√≠volo.

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Fazer os Sonhos Levantarem Voo

Alguns sonhos são belos, outros poéticos; uns realizáveis, outros difíceis de serem concretizados; uns envolvem uma pessoa, outros, a sociedade; uns possuem rotas claras, outros, curvas imprevisíveis; uns são rapidamente produzidos, outros precisam de anos de maturação.

H√° muitos tipos de sonhos. Sonho de se apaixonar por algu√©m, de gerar filhos ou conquistar amigos. Sonho de tirar um curso, ter uma empresa, ter sucesso financeiro para si e para ajudar os outros. Sonho de ter sa√ļde f√≠sica e ps√≠quica, de ter paz interior e de viver intensamente cada momento da vida.
Sonho de ser um cientista, um m√©dico, um educador, um empres√°rio, um empreendedor, um profissional que fa√ßa a diferen√ßa. Sonho de viajar pelo mundo, de pintar quadros, escrever um livro, ser √ļtil ao pr√≥ximo. Sonho de aprender a tocar um instrumento, praticar desportos, bater recordes.

Muitos enterram os seus sonhos nos escombros dos seus problemas. Alguns soldados nunca mais foram motivados para a vida depois de verem os seus colegas morrerem em combate.
Alguns oradores nunca mais recuperaram a sua seguran√ßa depois de terem um ataque de p√Ęnico em p√ļblico. Alguns desportistas n√£o conseguiram repetir a sua performance depois de fazerem uma cirurgia correctiva ou serem apanhados no controlo antidoping.

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Palavras Gastas pelo Mau Uso

Diz-me se essa palavra a√≠ n√£o est√° singularmente vestida e poder√°s ver todas as minhas nuas antes das coisas que medito as terem coberto com uma libr√©. √Č uma vergonha que a maior parte das nossas palavras sejam instrumentos de que se fez, outrora, mau uso e que, muitas vezes, conservem o cheiro da imund√≠cie em que as emporcalharam os anteriores propriet√°rios. Quero trabalhar com palavras novas ou ent√£o – tenho necessidade para isso de menor ar do que uma ave exala nos seus cantos – nunca mais falar, a n√£o ser de mim para mim, por toda a eternidade.

A Quem n√£o Tem Vaidade, n√£o lhe Importam que Outros a Tenham

Trazem os homens uma cont√≠nua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade √© como um instrumento, que tira dos nossos olhos os defeitos pr√≥prios, e faz com que apenas os vejamos em uma dist√Ęncia imensa, ao mesmo tempo que exp√Ķe √† nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que s√£o. A nossa vaidade √© a que nos faz ser insuport√°vel a vaidade dos mais; por isso quem n√£o tivesse vaidade, n√£o lhe importaria nunca, que os outros a tivessem.

Um Cérebro Ilimitado

Uma das coisas √ļnicas do c√©rebro humano √© que pode fazer apenas o que pensa poder fazer. No momento em que diz “A minha mem√≥ria j√° n√£o √© o que era” ou “Hoje n√£o me lembro de uma s√≥ coisa”, est√° de facto a treinar o c√©rebro para corresponder √†s suas diminu√≠das expetativas. Baixas expetativas equivalem a baixos resultados. A primeira regra do superc√©rebro √© que o seu c√©rebro est√° sempre a espiar os seus pensamentos. Assim escuta, assim aprende. Se lhe ensinar limita√ß√£o, o seu c√©rebro ficar√° limitado. Mas, e se fizer o oposto? E se ensinar o seu c√©rebro a ser ilimitado?

Pense no seu c√©rebro como sendo um piano de cauda Steinway. Todas as teclas est√£o no lugar, prontas a soar ao toque de um dedo. Seja um principiante a sentar-se ao teclado ou um virtuoso de renome mundial como Vladimir Horowitz ou Arthur Rubinstein, o instrumento √© fisicamente o mesmo. Mas a m√ļsica que dele ressoar√° ser√° inteiramente diferente. O principiante usa menos de 1% do potencial do piano; o virtuoso transcende os limites do instrumento.
Se o mundo da m√ļsica n√£o dispusesse de virtuosos, ningu√©m jamais adivinharia as coisas espantosas que um Steinway de cauda pode fazer.

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Espíritos Dirigentes e seus Instrumentos

Vemos grandes estadistas e, em geral, todos aqueles, que devem servir-se de muitas pessoas para a execu√ß√£o dos seus planos, comportarem-se ora de uma maneira, ora de outra: ou seleccionam muito apurada e cuidadosamente as pessoas que conv√™m aos seus projectos e lhes deixam, depois, uma liberdade relativamente grande, porque sabem que a natureza desses indiv√≠duos escolhidos os impele precisamente para onde eles pr√≥prios querem que eles v√£o; ou, ent√£o, escolhem mal, pegam mesmo no que t√™m √† m√£o, mas formam a partir desse barro algo que serve para os seus fins. Este √ļltimo g√©nero √© o mais violento, tamb√©m o que procura instrumentos mais submissos; o seu conhecimento dos homens √©, habitualmente, muito mais escasso, o seu desprezo pelos homens √© maior do que no caso dos esp√≠ritos mencionados em primeiro lugar, mas a m√°quina, que eles constroem, trabalha melhor, de maneira geral, que a m√°quina sa√≠da da oficina daqueles.

O Obstáculo Invisível

As for√ßas do homem n√£o s√£o concebidas como uma orquestra. No homem √© necess√°rio que todos os instrumentos toquem constantemente com toda a sua for√ßa. N√£o foram destinados a ouvidos humanos e n√£o disp√Ķem da dura√ß√£o de uma noite de concerto durante a qual cada instrumento pode esperar para se fazer valer.
Por vezes parece que as coisas ser√£o assim: tu tens tal tarefa a cumprir, disp√Ķes de tantas for√ßas quantas s√£o necess√°rias para a levar a bom termo (nem muito, nem muito pouco, sem d√ļvida te √© necess√°rio concentrares-te, mas n√£o tens que estar ansioso), com bastante tempo teu e boa vontade para o trabalho, onde est√° o obst√°culo ao √™xito da imensa tarefa? N√£o percas tempo a procur√°-lo, talvez n√£o exista.

O Saber como Ceptro ou como Folia

Amo e honro o saber, tanto como aqueles que o t√™m; dando-se-lhe o verdadeiro uso, √© a mais nobre e poderosa aquisi√ß√£o dos homens. Mas aqueles, e s√£o em n√ļmero infinito, que nele alicer√ßam o seu valor e a sua fundamental capacidade, que abdicam da intelig√™ncia na mem√≥ria, acolhidos √† sombra alheia, e nada podem sen√£o pelos livros – nesses aborre√ßo-o eu, se ouso diz√™-lo, um pouco mais do que a estupidez. Na minha terra e no meu tempo, a sabedoria melhora bastante as bolsas, raramente os esp√≠ritos. Se os encontra obtusos, pesa sobre eles e sufoca-os com a sua massa informe e indigesta; se lestos, logo os purifica, clarifica e subtiliza at√© o esgotamento. √Č coisa de qualidade quase indecisa; instrumento muito √ļtil √†s almas bem formadas, pernicioso e daninho √†s outras; ou antes, coisa de precios√≠ssima utilidade que se n√£o obt√©m barata; em certas m√£os √© um ceptro, noutras uma folia.

Da Ideia do Belo em Geral

I РChamamos ao belo ideia do belo. Este deve ser concebido como ideia e, ao mesmo tempo, como a ideia sob forma particular; quer dizer, como ideal. O belo, já o dissemos, é a ideia; não a ideia abstracta, anterior à sua manifestação, não realizada, mas a ideia concreta ou realizada, inseparável da forma, como esta o é do principio que nela aparece. Ainda menos devemos ver na ideia uma pura generalidade ou uma colecção de qualidades abstraídas dos objectos reais. A ideia é o fundo, a própria essência de toda a existência, o tipo, unidade real e viva da qual os objectos visíveis não são mais que a realização exterior. Assim, a verdadeira ideia, a ideia concreta, é a que resume a totalidade dos elementos desenvolvidos e manifestados pelo conjunto dos seres. Numa palavra, a ideia é um todo, a harmoniosa unidade deste conjunto universal que se processa eternamente na natureza e no mundo moral ou do espírito.
Só deste modo a ideia é verdade, e verdade total.
Tudo quanto existe, portanto, só é verdadeiro na medida em que é a ideia em estado de existência; pois a ideia é a verdadeira e absoluta realidade. Nada do que aparece como real aos sentidos e à consciência é verdadeiro por ser real,

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O Conhecimento de nada Serve no Amor

O ¬ęconhece-te!¬Ľ do fil√≥sofo antigo, √© uma tolice. Quem √© que se conhece? Quem pode responsabilizar-se pelos seus actos de amanh√£? N√£o est√° definida a virtude nem o crime. Tu hoje levantas uma mulher do nada com o entusiasmo de um inspirado do c√©u; amanh√£ arrojas essa mulher ao nada com a for√ßa de um instrumento, que obedece ao bra√ßo imperioso de uma vontade superior. N√£o sabes se foste ontem, ou √©s hoje virtuoso… Somos lament√°veis, meu caro Guilherme. A deprava√ß√£o da ra√ßa humana prova-se em ti, e em mim, nesses que julgam beber mais puras as √°guas da fonte da ci√™ncia. A intelig√™ncia √© a corrup√ß√£o ostentando-se em toda a sua luz.

O Pensador

N√£o h√° nenhuma vida verdadeiramente intelectual em que a pol√©mica n√£o seja um acidente, um desn√≠vel entre o engenho e a cultura adquirida, por um lado, e, por outro, o meio ambiente; o pensador n√£o √©, por estrutura, polemista, embora n√£o fuja ante a pol√©mica, nem a considere inferior; o seu dom√≠nio √© no campo da paz, n√£o entre os instrumentos de guerra; quando a batalha se oferece sabe, como o fil√≥sofo antigo, marchar com a calma e a severa repress√£o dos instintos que o mundo inteiro, ante a sua profiss√£o, tem o direito de exigir; o seu dever de cidad√£o imp√Ķe-lhe que tome, ao ecoar da voz b√°rbara, a lan√ßa que defende as oliveiras sagradas e os r√≠tmicos templos. A sua linha, por√©m, o fio de cumeadas por que se alongam os seus passos melhores comportam apenas uma inven√ß√£o superadora, um perp√©tuo oferecer aos seus amigos humanos de toda a descoberta possibilidade de um caminho mais belo e mais nobre. V√™-se como um guia e um observador de horizontes que se estendam para al√©m dos limites do mar e dos limites do c√©u; a sua miss√£o √© a de p√īr ao alcance de todos os que novamente contemplaram os seus olhos e de os ajudar a percorrer a estrada que abriu ou desvendou;

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O Progresso n√£o se Deve ao Instinto Pr√°tico

Precisamos de nos desfazer do actual preconceito que atribui o desenvolvimento da ci√™ncia moderna, vista a sua aplicabilidade, a um desejo pragm√°tico de melhorar as condi√ß√Ķes da vida humana na terra. A hist√≥ria mostra claramente que a moderna tecnologia resultou n√£o da evolu√ß√£o daquelas ferramentas que o homem sempre havia inventado para atenuar o labor e de erigir o artif√≠cio humano, mas exclusivamente da busca de conhecimento in√ļtil, inteiramente desprovido de senso pr√°tico.
Assim, o rel√≥gio, um dos primeiros instrumentos modernos n√£o foi inventado para os fins da vida pr√°tica, mas exclusivamente para a finalidade altamente ¬ęte√≥rica¬Ľ de realizar certas experi√™ncias com a natureza. √Č certo que esta interven√ß√£o, logo que a sua utilidade pr√°tica foi percebida, mudou o ritmo e a pr√≥pria fisionomia da vida humana; mas isto, do ponto de vista dos inventores, foi um mero acidente.
Se tiv√©ssemos de confiar apenas nos chamados instintos pr√°ticos do homem, jamais teria havido qualquer tecnologia digna de nota; e, embora as inven√ß√Ķes t√©cnicas hoje existentes tragam em si um dado impulso que, provavelmente, gerar√° melhoras at√© um certo ponto, √© pouco prov√°vel que o nosso mundo condicionado √† t√©cnica pudesse sobreviver, e muito menos continuar a desenvolver-se, se consegu√≠ssemos convencer-nos de que o homem √©,

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Viver sem Sofrimento

Os prazeres ardentes s√£o moment√Ęneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobi√ßar √© viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-Ihe uma parte da exist√™ncia. O mal √© nocivo √† plenitude da vida por que √© sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos amea√ßa, e receamos que as for√ßas defensivas nos fale√ßam, suspendem-se os outros movimentos do nosso cora√ß√£o, e ent√£o pouco h√° que esperar de n√≥s, por que se torna incerto o nosso destino. O bem-estar de grande numero de individuos, que vivem retirados das agita√ß√Ķes, depende mais da sua disposi√ß√£o habitual de pensamento que da influ√™ncia de causas exteriores. A crise moral pode surpreend√™-los e mago√°-los momentaneamente; mas a for√ßa dos acontecimentos √© meramente relativa. Os sofrimentos s√£o mais ou menos intensos, conforme a √©poca em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflex√£o me bastam. A maior parte dos objectos encerram e presentam, indirectamente pelo menos, as propriedades oportunas. P√ī-las em ac√ß√£o √© no que assenta a industria da felicidade. Ha a√≠ que farte instrumentos fecundos de prazeres √ļteis; ponto √© saber mene√°-los. Quem n√£o sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto √©, reflectir √© o que mais importa…

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Como Amo

Como? Mas como √© que eu escrevi nove livros e em nenhum deles eu vos disse: Eu vos amo? Eu amo quem tem paci√™ncia de esperar por mim e pela minha voz que sai atrav√©s da palavra escrita. Sinto-me de repente t√£o respons√°vel. Porque se sempre eu soube usar a palavra ‚ÄĒ embora √†s vezes gaguejando ‚ÄĒ ent√£o sou uma criminosa se n√£o disser, mesmo de um modo sem jeito, o que quereis ouvir de mim. O que ser√° que querem ouvir de mim? Tenho o instrumento na m√£o e n√£o sei toc√°-lo, eis a quest√£o. Que nunca ser√° resolvida. Por falta de coragem? Devo por conten√ß√£o ao meu amor, devo fingir que n√£o sinto o que sinto: amor pelos outros?
Para salvar esta madrugada de lua cheia eu vos digo: eu vos amo.
N√£o dou p√£o a ningu√©m, s√≥ sei dar umas palavras. E d√≥i ser t√£o pobre. Estava no meio da noite sentada na sala de minha casa, fui ao terra√ßo e vi a lua cheia ‚ÄĒ sou muito mais lunar que solar. √Č uma solid√£o t√£o maior que o ser humano pode suportar, esta solid√£o me toma se eu n√£o escrever: eu vos amo. Como explicar que me sinto m√£e do mundo?

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A Razão é um Instrumento do Prazer

N√£o existe objecto das nossas paix√Ķes, n√£o importa qu√£o vil ou despre¬≠z√≠vel possa parecer, que deixemos de julgar como bom quando senti¬≠mos prazer em possu√≠-lo. (…) Todas as coisas s√£o merecedoras de amor ou avers√£o, seja em si mesmas, seja por meio de algo a que este¬≠jam associadas; e, quando somos movidos por alguma paix√£o, n√≥s rapidamente descobrimos no objecto o bem ou o mal que a alimenta. (… ) Isso √© suficiente para fazer a raz√£o, comumente um instrumento do prazer, funcionar de modo a defender a causa desse prazer.