Passagens sobre Domínio

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Frases sobre dom√≠nio, poemas sobre dom√≠nio e outras passagens sobre dom√≠nio para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Os Acontecimentos Simult√Ęneos

Considera quantas coisas, no mesmo instante infinitesimal, se produzem simultaneamente em cada um de n√≥s, tanto no dom√≠nio do corpo como no da alma. Por isso te n√£o surpreender√° que muitos mais acontecimentos se produzam, ou antes, que eles se produzam todos a um tempo, no ser simultaneamente √ļnico e universal a que chamamos mundo.

O que Une uma Mulher a um Homem

O que une uma mulher a um homem n√£o passa por nada do que aparentemente vale. Passa por onde? N√£o, n√£o: pode n√£o ser por a√≠, embora seja fundamentalmente por a√≠. Porque mesmo a√≠ outros poderiam cumprir melhor, com o acr√©scimo do resto. H√° uma falha (uma falta) essencial na mulher que s√≥ um certo homem pode preencher. E n√£o √© necessariamente essa. O mais misterioso no dom√≠nio das rela√ß√Ķes √© o que se situa nas rela√ß√Ķes amorosas. Ou seja no que h√° de mais √≠ntimo, essencial, primeiro do ser humano. Um labreg√≥rio qualquer, torto, bronco, cabe√ßudo, pode ser amado pela mulher mais divinal e inteligente e ilustrada e refinada de figura. Haver√°, pois, para o homem dois mundos que n√£o comunicam entre si e que se separam na porta do quarto. Poucos s√£o os que a atravessam em gl√≥ria ‚ÄĒ idos da rua ou para a rua.

A mais terrível enfermidade do espírito humano é a mania do domínio.

A Dor e o Prazer

A natureza colocou o género humano sob o domínio de dois senhores soberanos: a dor e o prazer. Somente a eles compete apontar o que devemos fazer, bem como determinar o que na realidade faremos. Ao trono desses dois senhores está vinculada, por uma parte, a norma que distingue o que é recto do que é errado, e, por outra, a cadeia das causas e dos efeitos.
Os dois senhores de que falamos governam-nos em tudo o que fazemos, em tudo o que dizemos, em tudo o que pensamos, sendo que qualquer tentativa que façamos para sacudir esse senhorio outra coisa não faz senão demonstrá-lo e confirmá-lo. Através das suas palavras, o homem pode pretender abjurar tal domínio, porém na realidade permanecerá sujeito a ele em todos os momentos da sua vida.

Ser Devasso é Pior do que não Ter Domínio de Si

Uma vez que alguns prazeres s√£o necess√°rios e outros n√£o s√£o, e s√£o necess√°rios apenas at√© certo ponto, sem admitir excesso nem defeito, e uma vez que o mesmo se passa com os desejos e os sofrimentos necess√°rios, – devasso √© quem persegue o excesso no prazer ou prazeres excessivos, e, na verdade, quando os persegue por decis√£o pr√≥pria em vista do excesso e n√£o de qualquer outra consequ√™ncia da√≠ resultante. √Č for√ßoso que algu√©m deste g√©nero n√£o tenha nenhuma disposi√ß√£o natural para se arrepender do que faz, de tal sorte que √© incur√°vel. Pois, na verdade, quem for capaz de se arrepender pode ser curado. Quem n√£o sente falta nenhuma [destes prazeres] √© o oposto do devasso. Mas quem se encontrava na disposi√ß√£o interm√©dia √© temperado. De modo semelhante [devasso] √© tamb√©m quem foge aos sofrimentos do corpo [causados pela insatisfa√ß√£o do desejo], n√£o por lhes sucumbir, mas por uma decis√£o tomada pelo pr√≥prio.
Há também os que não chegam a tomar nenhuma decisão. Estes são obrigados a perseguir o prazer, e a procurar escapar ao sofrimento causado pelo desejo insatisfeito. Há assim diferenças entre esses dois modos de ceder ao prazer ora por uma decisão tomada ou sem decisão prévia.

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O Perigo do Especialista

O especialista serve-nos para concretizar energicamente a esp√©cie e fazer ver todo o radicalismo da sua novidade. Porque outrora os homens podiam dividir-se, simplesmente, em s√°bios e ignorantes, em mais ou menos s√°bios e mais ou menos ignorantes. Mas o especialista n√£o pode ser submetido a nenhuma destas duas categorias. N√£o √© um s√°bio, porque ignora formalmente o que n√£o entra na sua especialidade; mas tampouco √© um ignorante, porque √© ¬ęum homem de ci√™ncia¬Ľ e conhece muito bem a sua frac√ß√£o de universo. Devemos dizer que √© um s√°bio ignorante, coisa sobremodo grave, pois significa que √© um senhor que se comportar√° em todas as quest√Ķes que ignora, n√£o como um ignorante, mas com toda a petul√Ęncia de quem na sua quest√£o especial √© um s√°bio.
E, com efeito, este √© o comportamento do especialista. Em pol√≠tica, em arte, nos usos sociais, nas outras ci√™ncias tomar√° posi√ß√Ķes de primitivo, e ignorant√≠ssimo; mas tomar√° essas posi√ß√Ķes com energia e sufici√™ncia, sem admitir ‚Äď e isto √© o paradoxal ‚Äď especialistas dessas coisas. Ao especializ√°-lo a civiliza√ß√£o tornou-o herm√©tico e satisfeito dentro da sua limita√ß√£o; mas essa mesma sensa√ß√£o √≠ntima de dom√≠nio e valia vai lev√°-lo a querer predominar fora da sua especialidade.

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Duas Espécies de Génio

H√° duas esp√©cies de g√©nio: um que, antes de mais, fecunda e quer fecundar outros, e outro que prefere ser fecundado e parir. E da mesma maneira h√° entre os povos geniais aqueles a quem coube o problema feminino da gravidez e a miss√£o secreta de formar, amadurecer e aperfei√ßoar – os gregos, por exemplo, foram um povo desta esp√©cie, assim como os franceses – ; e outros que t√™m de fecundar e ser a causa de novas ordens de vida, – como os judeus, os romanos e talvez, perguntando-se com toda a mod√©stia, os alem√£es? – povos atormentados e extasiados com febres desconhecidas e irresistivelmente impelidos para fora de si pr√≥prios, apaixonados e √°vidos de ra√ßas estranhas (aqueles que se ¬ędeixam fecundar¬Ľ -) e, com tudo isso, √°vidos de dom√≠nio, como tudo o que se sabe cheio de for√ßa geradora e, por conseguinte, escolhido ¬ępela gra√ßa de Deus¬Ľ. Estas duas esp√©cies procuram-se como o homem e a mulher; mas tamb√©m se d√£o mal mutuamente, – como o homem e a mulher.

O Super-Detergente

N√≥s vivemos no tempo do record, do m√°ximo, do prest√≠gio do campe√£o. Todo o vocabul√°rio est√° cheio dos hiper ou dos super da propaganda comercial. Dizer que tal livro √© o melhor de h√° 30 anos equivale a dizer que este √© que √© de facto um superdetergente. De resto, os agentes publicit√°rios do material liter√°rio n√£o pretender√£o talvez enganar-nos. Eles sabem que sabemos que estamos no dom√≠nio do reclame. √Č uma actividade inocente como proclamarmos a excel√™ncia de um sab√£o. E √© exactamente por isso que eles usam sempre n√ļmeros redondos. Nunca dizem, por exemplo, que este √© o melhor livro de h√° 47 anos ou de h√° 23 anos e meio. Na realidade, eles n√£o t√™m um ponto de refer√™ncia para marcarem as datas. Falar em 30 ou 50 anos √© como usar uma ¬ęnumera√ß√£o indeterminada¬Ľ, como se diz em ret√≥rica. Gar√ß√£o, ao dizer da Dido moribunda que ¬ętr√™s vezes tenta erguer-se¬Ľ, n√£o pretende convencer-nos de que estiveram l√° a cont√°-las. Em todo o caso e de qualquer modo, dizer que este √© o melhor livro de h√° 50 anos afecta as pessoas impression√°veis. Mas por isso mesmo √© que existem as ag√™ncias de publicidade. E ningu√©m vai pedir-lhes satisfa√ß√Ķes por reclamar um produto contra a calv√≠cie que nos deixou talvez ainda mais depilados.

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Uma Declaração de Amor

Uma declara√ß√£o de amor n√£o √© acontecimento do dom√≠nio p√ļblico, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multid√Ķes, desalinhando h√°bitos quotidianos; uma declara√ß√£o de amor √© um acto de grande intimidade que ergue um v√©u transparente de onde brotam mel e p√°ssaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a car√≠cia √ļnica, irrepet√≠vel, a leve percuss√£o que desenha no sil√™ncio a imagem do que se ama. E assim ter√° de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos n√£o possam encontrar o mapa do tesouro.

O Homem é um Animal Irracional

1. O homem √© um animal irracional, exactamente como os outros. A √ļnica diferen√ßa √© que os outros s√£o animais irracionais simples, o homem √© um animal irracional complexo. √Č esta a conclus√£o que nos leva a psicologia cient√≠fica, no seu estado actual de desenvolvimento. O subconsciente, inconsciente, √© que dirige e impera, no homem como no animal. A consci√™ncia, a raz√£o, o racioc√≠nio s√£o meros espelhos. O homem tem apenas um espelho mais polido que os animais que lhe s√£o inferiores.

2. Sendo assim, toda a vida social procede de irracionalismos vários, sendo absolutamente impossível (excepto no cérebro dos loucos e dos idiotas) a ideia de uma sociedade racionalmente organizada, ou justiceiramente organizada, ou, até, bem organizada.

3. A √ļnica coisa superior que o homem pode conseguir √© um disfarce do instinto, ou seja o dom√≠nio do instinto por meio de instinto reputado superior. Esse instinto √© o instinto est√©tico. Toda a verdadeira pol√≠tica e toda a verdadeira vida social superior √© uma simples quest√£o de senso est√©tico, ou de bom gosto.
4. A humanidade, ou qualquer nação, divide-se em três classes sociais verdadeiras: os criadores de arte; os apreciadores de arte; e a plebe.

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A Alma Dominada pela Solid√£o

Se protegerdes com demasiada devoção o jardin secret da tua alma, ele pode facilmente começar a florescer de um modo excessivamente luxuriante, transbordar para além do espaço que lhe estava reservado e tomar mesmo pouco a pouco posse da tua alma de domínios que não estavam destinados a permanecer secretos. E é possível que toda a tua alma acabe por se tornar um jardim bem fechado, e que no meio de todas as suas flores e dos seus perfumes ela sucumba à sua solidão.

Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em portugu√™s, √© claro. Criei-me em Recife. […] E nasci para escrever. A palavra √© meu dom√≠nio sobre o mundo.

Prazer Convicto ou sem Domínio

Quem age em vista do prazer e o persegue, por convic√ß√£o e decis√£o, parece ser melhor do que quem n√£o age por c√°lculo, mas por falta de dom√≠nio. Ou seja, o primeiro parece poder ser mais facilmente corrigido, porque pode ser convencido a alterar as suas convic√ß√Ķes. Na verdade, o prov√©rbio: ¬ęSe a √°gua √© capaz de sufocar, porque a bebemos?¬Ľ parece poder aplicar-se a quem n√£o se domina.
Se alguém age por ter sido convencido a fazer o que faz, deixará de o fazer se for convencido de outro modo. Contudo, estando ele agora convencido de que deve fazer uma coisa, ainda assim fará uma coisa diferente. Ainda, se perda de domínio e o autodomínio podem ser ditos a respeito de tudo na existência, quem é que existe com uma absoluta falta de domínio? Porque ninguém perde o domínio a respeito de tudo. Contudo, dizemos de alguns que têm uma falta de domínio absoluta.

A Verdade Simbólica

Quando a inteligência aborda o estudo da vida, necessariamente trata o ser vivo como o inerte, aplicando a esse novo objecto as mesmas formas, transportando para esse novo domínio os mesmos hábitos que deram tão certo no antigo. E tem razão em fazer isso, pois somente sob essa condição o ser vivo oferecerá à nossa acção o mesmo campo que a matéria inerte. Mas a verdade à qual se chega assim torna-se absolutamente relativa à nossa faculdade de agir. Nada mais é do que uma verdade simbólica.

O Antagonismo Racial

O elemento puramente instintivo n√£o constitui sen√£o uma pequena parte do √≥dio racial e n√£o √© dif√≠cil de vencer. O medo do que √© estrangeiro, que √© a sua principal ess√™ncia, desaparece com a familiaridade. Se nenhum outro elemento o formasse, toda a perturba√ß√£o desapareceria logo que pessoas de ra√ßas diferentes se habituassem umas √†s outras. Mas h√° sempre pretextos para se odiarem os grupos estrangeiros. Os seus h√°bitos s√£o diferentes dos nossos e portanto (em nossa opini√£o) piores. Se triunfam, √© porque nos roubam as oportunidades; se n√£o triunfam, √© porque s√£o miser√°veis vagabundos. A actual popula√ß√£o do mundo descende dos sobreviventes de longos s√©culos de guerras e por instinto est√° √† espreita de ocasi√Ķes de hostilidade colectiva.

O desejo de ter um inimigo fixa-se no cora√ß√£o desse instinto racista e constr√≥i √† sua volta um edif√≠cio monstruoso de crueldade e de loucura. Tais conflitos representam hoje uma cat√°strofe universal e n√£o j√° somente, como outrora, um desastre para os vencidos: da√≠ as inquieta√ß√Ķes do nosso tempo. √Č por isso que √© mais importante do que nunca conseguir um certo grau de dom√≠nio racional sobre os nossos sentimentos destruidores.

Em geral o ódio racial tem duas origens,

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