Textos de Gustave Le Bon

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Textos de Gustave Le Bon. Conheça este e outros autores famosos em Poetris.

A Moda

As varia√ß√Ķes da sensibilidade sob a influ√™ncia das modifica√ß√Ķes do meio, das necessidades, das preocupa√ß√Ķes, etc., criam um esp√≠rito p√ļblico que varia de uma gera√ß√£o para outra e mesmo muitas vezes no espa√ßo de uma gera√ß√£o. Esse esp√≠rito publico, rapidamente dilatado por contacto mental, determina o que se chama a moda. Ela √© um possante factor de propaga√ß√£o da maior parte dos elementos da vida social, das nossas opini√Ķes e das nossas cren√ßas.
Não é só o vestuário que se submete às suas vontades. O teatro, a literatura, a política, a arte, as próprias idéias científicas lhe obedecem, e é por isso que certas obras apresentam um fundo de semelhança que permite falar do estilo de uma época.
Em virtude da sua acção inconsciente, submetemo-nos à moda sem que o percebamos. Os espíritos mais independentes a ela não se podem subtrair. São muito raros os artistas, os escritores que ousam produzir uma obra muito diferente das ideias do dia.
A influência da moda é tão pujante que ela obriga-nos, por vezes, a admirar coisas sem interesse e que parecerão mesmo de uma fealdade extrema, alguns anos mais tarde. O que nos impressiona numa obra de arte é muito raramente a obra em si mesma,

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A Sede de Explica√ß√Ķes

T√£o irredut√≠vel quanto a necessidade de crer, a necessidade de explica√ß√Ķes acompanha o homem desde o ber√ßo at√© ao t√ļmulo. Ela contribuiu para criar os seus deuses e diariamente determina a g√©nese de numerosas opini√Ķes. Essa necessidade intensa facilmente se satisfaz. As respostas mais rudimentares s√£o suficientes. A facilidade com que √© contentada foi a origem de grande n√ļmero de erros. Sempre √°vido de certezas definitivas, o esp√≠rito humano guarda muito tempo as opini√Ķes falsas fundadas na necessidade de explica√ß√Ķes e considera como inimigos do seu repouso aqueles que as combatem.
O principal inconveniente das opini√Ķes baseadas em explica√ß√Ķes err√≥neas √© que, admitindo-as como definitivas, o homem n√£o procura outras. Supor que se conhece a raz√£o das coisas √© um meio seguro de n√£o a descobrir. A ignor√Ęncia da nossa ignor√Ęncia tem retardado de longos s√©culos os progressos das ci√™ncias e ainda, ali√°s, os restringe. A sede de explica√ß√Ķes √© tal que sempre foi achada alguma para os fen√≥menos menos compreens√≠veis. O esp√≠rito tem mais satisfa√ß√£o em admitir que J√ļpiter lan√ßa o raio do que em se confessar ignorante em rela√ß√£o √†s causas que o fazem rebentar. Para n√£o confessar a sua ignor√Ęncia em certos assuntos, a pr√≥pria ci√™ncia muitas vezes se contenta com explica√ß√Ķes an√°logas.

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Opini√Ķes Influenciadas pelo Interesse

A maior parte das coisas pode ser considerada sob pontos de vista muito diferentes: interesse geral ou interesse particular, principalmente. A nossa aten√ß√£o, naturalmente concentrada sob o aspecto que nos √© proveitoso, impede que vejamos os outros. O interesse possui, como a paix√£o, o poder de transformar em verdade aquilo em que lhe √© √ļtil acreditar. Ele √©, pois, freq√ľentemente, mais √ļtil do que a raz√£o, mesmo em quest√Ķes em que esta deveria ser, aparentemente, o guia √ļnico. Em economia pol√≠tica, por exemplo, as convic√ß√Ķes s√£o de tal modo inspiradas pelo interesse pessoal que se pode, em geral, saber pr√©viamente, conforme a profiss√£o de um indiv√≠duo, se ele √© partid√°rio ou n√£o do livre c√Ęmbio.
As varia√ß√Ķes de opini√£o obedecem, naturalmente, √†s varia√ß√Ķes do interesse. Em mat√©ria pol√≠tica, o interesse pessoal constitui o principal factor. Um indiv√≠duo que, em certo momento, energicamente combateu o imposto sobre a renda, com a mesma energia o defender√° mais, se conta ser ministro. Os socialistas enriquecidos acabam, em geral, conservadores, e os descontentes de um partido qualquer se transformam facilmente em socialistas.
O interesse, sob todas as suas formas, n√£o √© somente gerador de opini√Ķes. Agu√ßado por necessidades muito intensas, ele enfraquece logo a moralidade.

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O Criador de Opini√£o

O papel de criador e director de movimentos de opini√Ķes pertence aos homens de Estado em todas as quest√Ķes que interessam a vida exterior de um pa√≠s. A sua tarefa √© extremamente penosa. Eles devem possuir, com efeito, uma mentalidade bastante desenvolvida para que a l√≥gica racional lhes sirva de guia, devendo, no entanto, actuar nos homens por influ√™ncias afectivas e m√≠sticas, estranhas √† raz√£o, √ļnicas, por√©m, capazes de acarret√°-los.
Esses grandes elementos morais, que cumpre saber manejar, ser√£o durante muito tempo ainda os mais possantes factores aptos a dirigir os povos. Eles n√£o criam os navios e os canh√Ķes, mas, como se exprimiu o almirante Togo, ¬ęs√£o a alma dos navios e dos canh√Ķes¬Ľ. As influ√™ncias irracionais, que provocam os movimentos de opini√Ķes, incessantemente mudam, conforme a luz vari√°vel que banha as coisas. Deve-se saber adivinh√°-las, quando se as quer dominar e n√£o esquecer que uma opini√£o qualquer universalmente aceite constituir√° sempre, para a multid√£o, uma verdade.

Uma Nação Sem Ideal Desaparece Rapidamente da História

Qualquer que seja a ra√ßa ou o tempo considerado, o objectivo constante da atividade humana foi sempre a pesquisa da felicidade, a qual consiste, em √ļltima an√°lise, ainda o repito, em procurar o prazer e evitar a dor. Sobre essa concep√ß√£o fundamental os homens estiveram constantemente de acordo; as suas diverg√™ncias aplicam-se somente √† id√©ia que se concebe da felicidade e aos meios de a conquistar.
As suas formas s√£o diversas, mas o termo que se tem em mira √© id√™ntico. Sonhos de amor, de riqueza, de ambi√ß√£o ou de f√© s√£o os possantes factores de ilus√Ķes que a natureza emprega para conduzir-nos aos seus fins. Realiza√ß√£o de um desejo presente ou simples esperan√ßa, a felicidade √© sempre um fen√≥meno subjectivo. Desde que os contornos do sonho se implantam um pouco no esp√≠rito, com ardor n√≥s tentamos obt√™-lo.
Mudar a concepção da felicidade de um indivíduo ou de um povo, isto é, o seu ideal, é mudar, ao mesmo tempo, a sua concepção da vida e, por conseguinte, o seu destino. A história não é mais do que a narração dos esforços empregues pelo homem para edificar um ideal e destruí-lo em seguida, quando, tendo-o atingido, descobre a sua fragilidade.

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A Maldade como Poderoso Elemento do Progresso Humano

Os sentimentos fixos e de forma constante qualificados de paix√Ķes constituem, tamb√©m, possantes factores de opini√Ķes, de cren√ßas e, por conseguinte, de conduta. Certas paix√Ķes contagiosas tornam-se, por esse motivo, facilmente colectivas. A sua ac√ß√£o √©, ent√£o, irresist√≠vel. Elas precipitaram muitos povos uns contra os outros nas diversas fases da hist√≥ria. As paix√Ķes podem excitar a nossa actividade, por√©m, alteram, as mais das vezes, a justeza das opini√Ķes, impedindo de ver as coisas como realmente s√£o e de compreender a sua g√©nese. Se nos livros de hist√≥ria s√£o abundantes os erros, √© porque, na maior parte dos casos, as paix√Ķes ditam a sua narrativa. N√£o se citaria, penso eu, um historiador que haja relatado imparcialmente a Revolu√ß√£o.
O papel das paix√Ķes √©, como vemos, muito consider√°vel nas nossas opini√Ķes e, por conseguinte, na g√©nese dos acontecimentos. N√£o s√£o, infelizmente, as mais recomend√°veis que t√™m exercido maior ac√ß√£o. Kant reconheceu a grande for√ßa social das piores paix√Ķes. A maldade √©, no seu ju√≠zo, um poderoso elemento do progresso humano. Parece, infelizmente, muito certo que, se os homens tivessem seguido o preceito do Evangelho ‚ÄúAmai-vos uns aos outros‚ÄĚ, ao inv√©s de obedecerem ao da Natureza, que os incita a se destru√≠rem mutuamente,

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Exemplo Eficaz

O exemplo √© uma forma poderosa de sugest√£o, mas, para agir realmente, cumpre que ele cause impress√£o. Na educa√ß√£o, um √ļnico exemplo que impressione √© mais eficaz do que fracos exemplos muito tempo repetidos. Tive ensejo de verificar esse princ√≠pio ao domar cavalos ind√≥ceis. Uma impress√£o forte, embora √ļnica, tal como certa aplica√ß√£o muito dolorosa da espora, atua muito mais rapidamente do que fracas a√ß√Ķes freq√ľentemente repetidas.

O Efeito Nefasto da Afirmação e Repetição

A afirma√ß√£o e a repeti√ß√£o s√£o agentes muito poderosos pelos quais s√£o criadas e propagadas as opini√Ķes. A educa√ß√£o √©, em parte, baseada neles. Os pol√≠ticos e os agitadores de toda a natureza fazem disso um uso quotidiano. Afirmar, depois repetir, representa mesmo o fundo principal dos seus discursos.
A afirmação não precisa de se apoiar numa prova racional qualquer: deve, simplesmente, ser curta e enérgica, e cumpre que impressione. Pode-se considerar como tipo dessas três qualidades o manifesto seguinte, recentemente reproduzido em vários jornais:

Quem produziu o trigo, isto é, o pão para todos? O camponês!

Quem faz brotar a aveia, a cevada, todos os cereais? O camponês!

Quem cria o gado para dar a carne? O camponês!

Quem cria o carneiro para proporcionar a lã? O camponês!

Quem produz o vinho, a cidra, etc.? O camponês!

Quem nutre a caça? O camponês!

E, entretanto, quem come o melhor p√£o, a melhor carne?

Quem usa as mais belas roupas?

Quem bebe o bordeaux e o champagne?

Quem se aproveita da caça?

O burguês!!

Quem se diverte e repousa à vontade?

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O Regulador do Prazer e da Dor: o H√°bito

O h√°bito √© o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esfor√ßos. O mineiro habitua-se t√£o bem √† sua dura exist√™ncia que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandon√°-la e o condena a viver ao sol. O h√°bito, regulador da vida habitual, √© tamb√©m o verdadeiro sustent√°culo da vida social. Pode-se compar√°-lo √† in√©rcia, que se op√Ķe, em mec√Ęnica, √†s varia√ß√Ķes de movimento. A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar h√°bitos sociais, depois em n√£o permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos h√°bitos pesou muito tempo num povo, ele s√≥ se liberta desse jugo por meio de revolu√ß√Ķes violentas. O repouso na adapta√ß√£o, que o h√°bito consiste, n√£o se deve prolongar. Povos envelhecidos, civiliza√ß√Ķes adiantadas, indiv√≠duos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto √©, do h√°bito.

Seria in√ļtil dissertar longamente sobre o seu papel, que mereceu a aten√ß√£o de todos os fil√≥sofos e se tornou um dogma da sabedoria popular.

‚ÄúQue s√£o os nossos princ√≠pios naturais‚ÄĚ, diz Pascal, ‚Äúsen√£o os nossos princ√≠pios acostumados. E nas crian√ßas,

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A Tirania Individual e a Tirania Colectiva

As diverg√™ncias de opini√£o n√£o resultam, como por vezes supomos, das desigualdades de instru√ß√£o daqueles que as manifestam. Elas notam-se, com efeito, em indiv√≠duos dotados de intelig√™ncia e de instru√ß√£o equivalentes. Disso se convencer√° quem percorrer as respostas aos grandes inqu√©ritos colectivos destinados a elucidar certas quest√Ķes bem definidas.
Entre os in√ļmeros exemplos fornecidos pela leitura das suas actas, mencionarei apenas um, muito t√≠pico, publicado nos Anais de Psicologia do sr. Binet. Querendo informar-se quanto aos efeitos da redu√ß√£o do programa de hist√≥ria da filosofia nos liceus, enviou um question√°rio a todos os professores incumbidos desse ensino. As respostas foram nitidamente contradit√≥rias, pois uns declaravam desastroso o que os outros julgavam excelente. ¬ęN√£o se compreende¬Ľ, conclui o Sr. Binet com melancolia, ¬ęque uma reforma que consterna um professor, pare√ßa excelente a um dos seus colegas. Que li√ß√£o para eles sobre a relatividade das opini√Ķes humanas, mesmo entre pessoas competentes!¬Ľ.
Contradi√ß√Ķes da mesma esp√©cie invariavelmente se manifestaram em todos os assuntos e em todos os tempos. Para chegar √† ac√ß√£o, o homem teve, entretanto, de escolher entre essas opini√Ķes contr√°rias. Como operar tal escolha, sendo a raz√£o muito fraca para a determinar?
Somente dois m√©todos foram descobertos at√© hoje: aceitar a opini√£o da maioria ou a de um √ļnico,

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A Alma Popular é Totalmente Dominada por Elementos Afectivos e Místicos

A ac√ß√£o cada vez mais consider√°vel das multid√Ķes na vida pol√≠tica imprime especial import√Ęncia ao estudo das opini√Ķes populares. Interpretadas por uma legi√£o de advogados e professores, que as transp√Ķem e lhe dissimulam a mobilidade, a incoer√™ncia e o simplismo, elas permanecem pouco conhecidas. Hoje, o povo soberano √© t√£o adulado quanto foram, outrora, os piores d√©spotas. As suas paix√Ķes baixas, os seus ruidosos apetites, as suas ininteligentes aspira√ß√Ķes suscitam admiradores. Para os pol√≠ticos, servidores da plebe, os factos n√£o existem, as realidades n√£o t√™m nenhum valor, a natureza deve-se submeter a todas as fantasias do n√ļmero.
A alma popular (…) tem, como principal caracter√≠stica, a circunst√Ęncia de ser inteiramente dominada por elementos afectivos e m√≠sticos. N√£o podendo nenhum argumento racional refrear nela as impuls√Ķes criadas por esses elementos, ela obedece-lhes imediatamente.
O lado m√≠stico da alma das multid√Ķes √©, muitas vezes, mais desenvolvido ainda do que o seu lado afectivo. Da√≠ resulta uma intensa necessidade de adorar alguma coisa: deus, feiti√ßo, personagem ou doutrina.
(…) O ponto mais essencial, talvez, da psicologia das multid√Ķes √© a nula influ√™ncia que a raz√£o exerceu nelas. As ideias suscept√≠veis de influenciar as multid√Ķes n√£o s√£o ideias racionais, por√©m sentimentos expressos sob forma de ideias.

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Os Elementos Fixadores da Personalidade

Os res√≠duos ancestrais formam a camada mais profunda e mais est√°vel do car√°cter dos indiv√≠duos e dos povos. √Č pelo seu ‚Äúeu‚ÄĚ ancestral que um ingl√™s, um franc√™s, um chin√™s, diferem t√£o profundamente.
Mas a esses remotos atavismos sobrep√Ķem-se elementos suscitados pelo meio social (casta, classe, profiss√£o, etc.), pela educa√ß√£o e ainda por muitas outras influ√™ncias. Eles imprimem √† nossa personalidade uma orienta√ß√£o assaz constante. Ser√° o ‚Äúeu‚ÄĚ, um pouco artificial, assim formado, que exteriorizaremos cada dia.
Entre todos os elementos formadores da personalidade, o mais activo, depois da ra√ßa, √© o que determina o agrupamento social ao qual pertencemos. Fundidas no mesmo molde pelas id√©ias, as opini√Ķes e as condutas semelhantes que lhes s√£o impostas, as individualidades de um grupo: militares, magistrados, padres, oper√°rios, marinheiros, etc., apresentam numerosos car√°cteres id√™nticos.
As suas opini√Ķes e os seus ju√≠zos s√£o, em geral, vizinhos, porquanto sendo cada grupo social muito nivelador, a originalidade n√£o √© tolerada nele. Aquele que se quer diferenciar do seu grupo tem-no inteiramente por inimigo.
Essa tirania dos grupos sociais, na qual insistiremos, n√£o √© in√ļtil. Se os homens n√£o tivessem por guia as opini√Ķes e a maneira de proceder daqueles que os cercam,

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Cont√°gio Mental

O cont√°gio mental representa o elemento essencial da propaga√ß√£o das opini√Ķes e das cren√ßas. A sua for√ßa √©, muitas vezes, bastante consider√°vel para fazer agir o indiv√≠duo contra os seus interesses mais evidentes. As inumer√°veis narra√ß√Ķes de mart√≠rios, de suic√≠dios, de mutila√ß√Ķes, etc., determinados por cont√°gio mental fornecem uma prova disso.
Todas as manifesta√ß√Ķes da vida ps√≠quica podem ser contagiosas, mas s√£o, especialmente, as emo√ß√Ķes que se propagam desse modo. As ideias contagiosas s√£o s√≠nteses de elementos afectivos.
Na vida comum, o cont√°gio pode ser limitado pela ac√ß√£o inibidora da vontade, mas, se uma causa qualquer – violenta mudan√ßa de meio em tempo de revolu√ß√£o, excita√ß√Ķes populares, etc. – v√™m paralis√°-la, o cont√°gio exercer√° facilmente a sua influ√™ncia e poder√° transformar seres pac√≠ficos em ousados guerreiros, pl√°cidos burgueses em terr√≠veis sect√°rios. Sob a sua influ√™ncia, os mesmos indiv√≠duos passar√£o de um partido para outro e empregar√£o tanta energia em reprimir uma revolu√ß√£o quanto em foment√°-la.
O contágio mental não se exerce somente pelo contacto direto dos indivíduos. Os livros, os jornais, as notícias telegráficas, mesmo simples rumores, podem produzi-lo.
Quanto mais se multiplicam os meios de comunicação tanto mais se penetram e se contagiam. A cada dia estamos mais ligados àqueles que nos cercam.

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Cren√ßa e Intoler√Ęncia

A necessidade de f√© n√£o foi absolutamente provocada pelas religi√Ķes; foi ela, ao contr√°rio, que as suscitou. As divindades n√£o fazem mais do que fornecer um objecto ao nosso desejo de crer. Desde que ele se desvia das divindades, o homem entrega-se a uma f√© qualquer, quimeras pol√≠ticas, sortil√©gios ou feiti√ßos. (…) Uma das mais constantes caracter√≠sticas gerais das cren√ßas √© a sua intoler√Ęncia. Ela √© tanto mais intransigente quanto mais forte √© a cren√ßa. Os homens dominados por uma certeza n√£o podem tolerar aqueles que n√£o a aceitam.

Não há Civilização sem Constrangimento

Toda a civiliza√ß√£o traduz constrangimento e sujei√ß√£o. Aprendendo, sob a rigorosa lei das primeiras obriga√ß√Ķes sociais, a dominar um pouco as suas impuls√Ķes, o primitivo desprendeu-se da animalidade pura e chegou √† barb√°rie. For√ßado a refrear-se mais, ele elevou-se at√© √† civiliza√ß√£o. Esta s√≥ se mant√©m enquanto persiste o dom√≠nio do homem sobre si mesmo.
Semelhante sujeição exige um esforço em todos os instantes. Seria quase impossível se os hábitos, que a educação pode fixar, não acabassem por o facilitar, tornando-o inconsciente.
Suficientemente desenvolvida, a disciplina interna pode chegar assim a substituir a disciplina externa; mas, quando não se soube criar uma, cumpre resignar-se a suportar a outra. Recusar uma e outra é retroceder aos tempos de barbárie. Os sentimentos conduzem-nos sempre, mas nenhuma sociedade pode subsistir sem que os membros aprendam a mantê-los nos limites abaixo dos quais começam a anarquia e a decadência.
Os sentimentos refreados pelas necessidades sociais, que codificam as leis, n√£o s√£o por essa raz√£o destru√≠dos. Libertadas das suas peias, as impuls√Ķes naturais primitivas reaparecem sempre. Explicam-se assim as viol√™ncias que acompanham as revolu√ß√Ķes. O civilizado retrocede √† barb√°rie.

O Prestígio é Sempre Enganador

Tendo a generalidade das opini√Ķes que a educa√ß√£o nos inculca, unicamente a educa√ß√£o por base, facilmente nos habituamos a admitir, com prontid√£o, um conceito defendido por um personagem aureolado de prest√≠gio.
Sobre os assuntos t√©cnicos da nossa profiss√£o, somos capazes de formular conceitos muito seguros; mas, no tocante ao resto, n√£o procuramos sequer raciocinar, preferindo admitir, com os olhos fechados, as opini√Ķes que nos s√£o impostas por um personagem ou um grupo dotado de prest√≠gio.
De facto, quer se seja estadista, artista, escritor ou s√°bio, o destino depende, sobretudo, da quantidade de prest√≠gio que se possui e, por conseguinte, do grau de sugest√£o inconsciente que se pode criar. O que determina o √™xito de um homem √© a domina√ß√£o mental que ele exerce. O completo imbecil, entretanto, alcan√ßa √™xito, algumas vezes, porquanto, n√£o tendo consci√™ncia da sua imbecilidade, jamais hesita em afirmar com autoridade. Ora, a afirma√ß√£o en√©rgica e repetida possui prest√≠gio. O mais vulgar dos ¬ęcamelos¬Ľ, quando energicamente afirma a imagin√°ria superioridade de um produto, exerce prest√≠gio na multid√£o que o circunda.
(…) Mesmo entre s√°bios eminentes, o prest√≠gio √©, muitas vezes, um dos factores mais certos de uma convic√ß√£o. Para os esp√≠ritos ordin√°rios, ele o √© sempre.

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Prazer e Dor S√£o as √önicas Certezas da Vida

Os filósofos têm tentado abalar todas as nossas certezas e mostrar que do mundo conhecemos apenas aparências. Possuiremos sempre, porém, duas grandes certezas, que nada poderia destruir: o prazer e a dor. Toda a nossa actividade deriva delas. As recompensas sociais, os paraísos e os infernos criados pelos códigos religiosos ou civis baseiam-se na acção dessas certezas, cuja evidente realidade não pode ser contestada.
Desde que a vida se manifesta, surgem o prazer e a dor. N√£o √© o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ. Se dissesse: ‚ÄúSinto, logo existo‚ÄĚ ao inv√©s de: ‚ÄúPenso, logo existo‚ÄĚ, Descartes estaria muito perto da verdade. Assim modificada, a sua f√≥rmula aplica-se a todos os seres e n√£o a uma fra√ß√£o apenas da humanidade. Dessas duas certezas poder-se-ia deduzir a completa filosofia pr√°tica da vida. Fornecem uma resposta segura √† eterna pergunta t√£o repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esfor√ßos, j√° que a morte nos espera e o nosso planeta se extingar√° um dia?
Porquê? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza condena-nos a procurar o prazer e a evitar a dor.
O oper√°rio, curvado sob o peso do trabalho,

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A Influência dos Livros e dos Jornais

Os jornais e os livros exercem no nascimento e na propaga√ß√£o das opini√Ķes uma influ√™ncia imensa, conquanto inferior √† dos discursos. Os livros actuam muito menos que os jornais, pois a multid√£o n√£o os l√™. Alguns foram, contudo, bastante poderosos pela sua influ√™ncia sugestiva para provocar a morte de milhares de homens. Tais s√£o as obras de Rousseau, verdadeira b√≠blia dos chefes do Terror, ou A Cabana do Pai Tom√°s, que contribuiu muito para a sanguinolenta guerra de secess√£o na Am√©rica do Norte. Outras obras como Robinson Crus√≥e e os romances de J√ļlio Verne exerceram grande influ√™ncia nas opini√Ķes da juventude e determinaram muitas carreiras.
Essa for√ßa dos livros era, sobretudo, consider√°vel quando se lia pouco. A leitura da B√≠blia no tempo de Cromwel criou na Inglaterra um n√ļmero avultado de fan√°ticos. Sabe-se que na √©poca em que foi escrito Dom Quixote, os romances de cavalaria exerciam uma ac√ß√£o t√£o perniciosa em todos os c√©rebros que os soberanos espanh√≥is vedaram, finalmente, a venda desses livros.
Hoje, a influ√™ncia dos jornais √© muito superior √† for√ßa dos livros. S√£o em n√ļmero incalcul√°vel as pessoas que t√™m unicamente a opini√£o do jornal que elas l√™em.

Os Elementos do Car√°cter

O car√°cter √© constitu√≠do por um agregado de elementos afectivos aos quais se sobrep√Ķem, mesclando-se muito pouco a eles, alguns elementos intelectuais. S√£o sempre os primeiros que d√£o ao indiv√≠duo a sua verdadeira personalidade. Sendo numerosos os elementos afectivos, a sua associa√ß√£o formar√° variados elementos: activos, contemplativos ap√°ticos, sensitivos, etc. Cada um deles actuar√° diferentemente sob a ac√ß√£o dos mesmos excitantes.
Os agregados constitutivos do car√°cter podem ser fortemente ou, ao contr√°rio, fracamente cimentados. Aos agregados s√≥lidos correspondem as individualidades fortes, que se mant√™m n√£o obstante as varia√ß√Ķes de meio e de circunst√Ęncias. Aos agregados mal cimentados correspondem as mentalidades moles, incertas e mut√°veis. Elas modificar-se-iam a cada instante sob as influ√™ncias mais insignificantes se certas necessidades da vida quotidiana n√£o as orientassem, como as margens de um rio canalizam o seu curso.
Por mais est√°vel que seja o car√°cter, permanece sempre ligado, no entanto, ao estado dos nossos √≥rg√£os. Uma nevralgia, um reumatismo, uma perturba√ß√£o intestinal, transformam o j√ļbilo em melancolia, a bondade em maldade, a vontade em indol√™ncia. Napole√£o, doente em Warteloo, j√° n√£o era Napole√£o. C√©sar, disp√©ptico, n√£o teria, sem d√ļvida, transposto o Rubicon.
As causas morais actuam também no carácter ou, pelo menos,

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Dificuldade de Prever o Comportamento de qualquer Pessoa, o Nosso Inclusivamente

Sendo vari√°vel o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ, que √© dependente das circunst√Ęncias, um homem jamais deve supor que conhece outro. Pode somente afirmar que, n√£o variando as circunst√Ęncias, o procedimento do indiv√≠duo observado n√£o mudar√°. O chefe de escrit√≥rio que j√° redige h√° vinte anos relat√≥rios honestos, continuar√° sem d√ļvida a redigi-los com a mesma honestidade, mas cumpre n√£o o afirmar em demasia. Se surgirem novas circunst√Ęncias, se uma paix√£o forte lhe invadir a mente, se um perigo lhe amea√ßar o lar, o insignificante burocrata poder√° tornar-se um celerado ou um her√≥i.
As grandes oscila√ß√Ķes da personalidade observam-se quase exclusivamente na esfera dos sentimentos. Na da intelig√™ncia, elas s√£o muito fracas. Um imbecil permanecer√° sempre imbecil.
As poss√≠veis varia√ß√Ķes da personalidade, que impedem de conhecermos a fundo os nossos semelhantes, tamb√©m obstam a que cada qual se conhe√ßa a si pr√≥prio. O ad√°gio ‚ÄúNosce te ipsum‚ÄĚ dos antigos fil√≥sofos constitui um conselho irrealiz√°vel. O ‚Äúeu‚ÄĚ exteriorizado representa habitualmente uma personalidade de empr√©stimo, mentirosa. Assim √©, n√£o s√≥ porque atribu√≠mos a n√≥s mesmos muitas qualidades e n√£o reconhecemos absolutamente os nossos defeitos, como tamb√©m porque o nosso ‚Äúeu‚ÄĚ cont√©m uma pequena por√ß√£o de elementos conscientes, conhec√≠veis em rigor, e, em grande parte,

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