Passagens sobre Garganta

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Frases sobre garganta, poemas sobre garganta e outras passagens sobre garganta para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Pecador

Este é o altivo pecador sereno,
Que os soluços afoga na garganta,
E, calmamente, o copo de veneno
Aos l√°bios frios sem tremer levanta.

Tonto, no escuro pantanal terreno
Rolou. E, ao cabo de torpeza tanta,
Nem assim, miser√°vel e pequeno,
Com t√£o grandes remorsos se quebranta.

Fecha a vergonha e as l√°grimas consigo…
E, o coração mordendo impenitente,
E, o coração rasgando castigado,

Aceita a enormidade do castigo,
Com a mesma face com que antigamente
Aceitava a delícia do pecado.

As Coisas Secretas da Alma

Em todas as almas h√° coisas secretas cujo segredo √© guardado at√© √† morte delas. E s√£o guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de ang√ļstia, em face dos amigos mais queridos – porque as palavras que as poderiam traduzir seriam rid√≠culas, mesquinhas, incompreens√≠veis ao mais perspicaz. Estas coisas s√£o materialmente imposs√≠veis de serem ditas. A pr√≥pria Natureza as encerrou – n√£o permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir – apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha s√£o as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os ¬ęisolados¬Ľ que todos n√≥s, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conhe√ßam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive – n√£o existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente – √≥ ideal dos amorosos! – eu tenho a certeza que se fundiriam numa s√≥. E os corpos morreriam.

Soneto 263 A Mama Cass

Se magra é minha Sandra carioca,
gordona foi Cassandra, outro tes√£o
das minhas fantasias, que hoje s√£o
lembranças se a vitrola, ao fundo, toca.

Mulher o meu desejo só provoca
se for ou varapau ou balof√£o:
oitenta ou oito; o meio termo n√£o.
Por isso a Mama Cass, morta, me choca.

Um simples sanduíche nos privava,
fatídico, entalado na garganta,
daquela voz famosa, que n√£o grava

mais coisas como aquilo que me encanta:
“Palavras de amor”. Cass, voc√™ foi brava!
Nenhum peso mais alto se alevanta!

Sete Haicais – um Poema

Este vale canta
– um p√°ssaro fez morada
em sua garganta.

O inverno me achou
lavrando a terra. Havia paz
no canto das p√°s.

Botas de soldado
frente ao mar. ‚Äď Vindes matar
até as gaivotas?

Partes para a guerra.
Sim, nada digas. Ouçamos
o rio de formigas.

A ideia da morte
vem-me ao colo e pede afagos
como um gato (abstracto).

Ah! amigo, amigo
Рalém da morte, que posso
repartir contigo?

Porque tudo j√°
foi dito, destravo a língua
no vazio, aos gritos!

Versos A Um C√£o

Que for√ßa pode, adstricta a ambri√Ķes informes,
Tua garganta est√ļpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solid√Ķes enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar
Dos teus antepassados vermiformes.

C√£o! – Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais. . .

E irá assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da ang√ļstia heredit√°ria dos seus pais!

Assim a Casa Seja

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Voltaste, j√° voltaste
J√° entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Ent√£o que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada
Voltaste, j√° voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Ent√£o que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Unidos pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que n√£o escurece nada

Amor, o que ser√°
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

J√° fuma o nosso fumo
J√° sobra a nossa manta
J√° veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta.

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A √°rvore do Outono
Coberta de cereja.

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Na Arca Aberta, o Justo Peca

Na arca aberta o justo peca,
n√£o em canastra fechada;
mas vós da minha coitada
fechada a fazeis caneca:
vindes l√° de seca e meca
com tal pressa e furor tal,
que fazeis, para meu mal,
com mau termo e ruim modo,
do meu queijo lama e lodo,
e do meu p√£o cinza e sal.

Quando as peras me levais,
ent√£o para peras levo,
pois vos pago o que n√£o devo,
e vós rindo vos ficais:
se pêra flamenga achais
a comeis em português,
e me fazeis d’essa vez,
com estrondo e com arenga,
os narizes √° flamenga
muito mal em que me pez.

Não vos escapam por pés
minhas cerejas bicais,
nem as ginjas garrafais,
se as tenho alguma vez:
porque mal, em que me pez,
como cerejas se v√£o
pelos pés á vossa mão
e da vossa m√£o √° minha,
a cereja é marouvinha
as ginjas galegas s√£o.

Passa hoje por lebre o gato,
por perdiz passa o francelho
por cap√£o o galo velho,

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A Manh√£

A rosada manh√£ serena desce
Sobre as asas do Zéfiro orvalhadas;
Um cristalino alj√īfar resplandece
Pelas serras de flores marchetadas;
Fugindo as lentas sombras dissipadas
V√£o em sutil vapor, que se converte
Em transparentes nuvens prateadas.
Sa√ļdam com sonora melodia
As doces aves na frondosa selva
O astro que benéfico alumia
Dos altos montes a florida relva;

Uma a cantiga exprime modulada
Com suave gorjeio, outra responde
Cos brandos silvos da garganta inflada,
Como os raios, partindo do horizonte,
Ferem, brilhando com diversas cores,
As claras √°guas de serena fonte.

Salve, benigna luz, que os resplandores,
Qual perene corrente cristalina,
Que de viçoso prado anima as flores,
Difundes da celeste azul campina,
Vivificando a lassa natureza,
Que no seio da noite tenebrosa
O moribundo sonho tinha presa.

Como alegre desperta e radiosa!
De encantos mil ornada se levanta,
Qual do festivo leito a nova esposa!
A mesma anosa, carcomida planta
Co matutino orvalho reverdece.
A √ļmida cabe√ßa ergue vi√ßosa
A flor, que rociada resplandece,
E risonha,

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Inania Verba

Ah! quem h√° de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca n√£o diz, o que a m√£o n√£o escreve?
– Ardes, sangras, pregada a’ tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava…

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, √© um sepulcro de neve…
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.

Quem o molde achar√° para a express√£o de tudo?
Ai! quem h√° de dizer as √Ęnsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confiss√Ķes de amor que morrem na garganta?!

Mais Vale Ser Surdo que Ensurdecido

Antigamente as pessoas queriam criar-se uma reputa√ß√£o: isso j√° n√£o basta, a feira tornou-se demasiado vasta; agora √© necess√°rio vender aos berros. A consequ√™ncia √© que mesmo as melhores gargantas for√ßam a voz e as melhores mercadorias n√£o s√£o oferecidas por org√£os enrouquecidos; j√° n√£o h√° g√©nio, nos nossos dias, sem clamor e sem rouquid√£o. √Čpoca vil para o pensador: devemos aprender a encontrar entre duas barulheiras o sil√™ncio de que se tem necessidade e a fingir de surdo at√© chegar a s√™-lo. Enquanto n√£o se tiver chegado a isso, corre-se o risco de perecer de impaci√™ncia e de dores de cabe√ßa.

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se eu não acho um modo de falar a mim mesmo a palavra me sufoca a garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter acesso a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e entra. Não quero ser vítima do acaso libertador.

As palavras proferidas pelo coração não tem língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler

2A Sombra – B√°rbara

Erguendo o c√°lix que o Xerez perfuma.
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;

Um dorso de Valqu√≠ria… alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, t√£o vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;

Garganta de um palor alabastrino,
Que harmonias e m√ļsicas respira…
No l√°bio – um beijo… no beijar – um hino;

Harpa eólia a esperar que o vento a fira,
– Um peda√ßo de m√°rmore divino…
– √Č o retrato de B√°rbara – a Hetaira.

W.C.

Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
j√° dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do √Ęnus provecto
dessas criaturas f√ļteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
¬ę√Č o som das √°guas que bate na garganta.¬Ľ
Aliviados ent√£o os cora√ß√Ķes repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d’alma.

Ama-me

Aos amantes é lícito a voz desvanecida.
Quando acordares, um s√≥ murm√ļrio sobre o teu ouvido:
Ama-me. Alguém dentro de mim dirá: não é tempo, senhora,
Recolhe tuas papoulas, teus narcisos. Não vês
Que sobre o muro dos mortos a garganta do mundo
Ronda escurecida?

Não é tempo, senhora. Ave, moinho e vento
Num vórtice de sombra. Podes cantar de amor
Quando tudo anoitece? Antes lamenta
Essa teia de seda que a garganta tece.

Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
T√£o intenso meu canto, t√£o flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, h√° de cantar comigo.

Toda a pessoa normal se sente tentada, de vez em quando, a cuspir nas mãos, içar a bandeira negra e sair por aí cortando gargantas.

No Mundo n√£o Tem Boa Sorte Sen√£o quem Tem por Boa a que Tem

Uma cousa sabei de mim: que queria antes o bem do mal, que o mal do bem; porque muito mais se sente o porvir, que o passado; e a morte, até matar, mata. Não sei se sereis marca de voar tão alto; porque, para tomar a palha a esta matéria, são necessárias asas de nebri. Mas vós sois homem de prol, e desculpa-me a conta em que vos tenho. E a que de mim vos sei dar, é que:

Esperança me despede,
tristeza n√£o me falece,
e tudo o mais m’aborrece.
J√° que mais n√£o mereceu
minha estrela,
só a tristeza conheço,
pois que para mim nasceu
e eu para ela.

No mundo n√£o tem boa sorte sen√£o quem tem por boa a que tem. E daqui me vem contentar-me, de triste. Mas olhai de que maneira:

Vivo assi ao revés,
tomando por certa vida
certa morte,
com que folgo, em que me pês,
pois minha sorte é servida
de tal sorte.

Uma cousa sabei: que o mal, ainda que às vezes o vejais louvar, não há quem o louve com a boca que o não taxe com o coração:

Ajudai-me a sofrer
vida t√£o sem sofrimento,

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Ser Português, Ainda

Para ser portugu√™s, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperan√ßas, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser portugu√™s, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demoli√ß√£o. T√≠nhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era p√°tria, doce e atrevida, se afasta √† medida que olhamos para ela, tal √© a √Ęnsia de apagamento e de perdi√ß√£o. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
√Č preciso defender violentamente as institui√ß√Ķes: a Universidade, o Parlamento,

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Os Homens Gloriosos

Sentei-me sem perguntas à beira da terra,
e ouvi narrarem-se casualmente os que passavam.
Tenho a garganta amarga e os olhos doloridos:
deixai-me esquecer o tempo,
inclinar nas m√£os a testa desencantada,
e de mim mesma desaparecer,
‚ÄĒ que o clamor dos homens gloriosos
cortou-me o coração de lado a lado.

Pois era um clamor de espadas bravias,
de espadas enlouquecidas e sem rel√Ęmpagos,
ah, sem rel√Ęmpagos…
pegajosas de lodo e sangue denso.

Como ficaram meus dias, e as flores claras que pensava!
Nuvens brandas, construindo mundos,
como se apagaram de repente!

Ah, o clamor dos homens gloriosos
atravessando ebriamente os mapas!

Antes o murm√ļrio da dor, esse murm√ļrio triste e simples
de l√°grima intermin√°vel, com sua centelha ardente e eterna.

Senhor da Vida, leva-me para longe!
Quero retroceder aos aléns de mim mesma!
Converter-me em animal tranquilo,
em planta incomunic√°vel,
em pedra sem respiração.

Quebra-me no giro dos ventos e das √°guas!
Reduze-me ao pó que fui!
Reduze a pó minha memória!

Reduze a pó
a memória dos homens,

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