Citação de

A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida, no da morte.

Assim nos surpreendemos at√© ao absurdo, at√© √† incredibilidade, quando nos morre um parente, um conhecido, ou seja, de algum modo, uma frac√ß√£o de n√≥s; e s√≥ admitimos que ele tenha de facto morrido quando definitivamente se afastou para o passado, saiu do nosso mundo, deste mundo est√°vel, harm√≥nico, regular, e faz j√° parte das sombras indistintas de outrora, √©, em suma, uma fic√ß√£o: s√≥ entendemos a morte quando a sabemos de cor, quando ela n√£o significa j√° a aniquila√ß√£o de uma vida como a nossa, mas √© apenas as margens desta vida e que a prolongam, o nada que nunca a ela pode aceder, a pode p√īr em causa, quando ela √© o contorno que lhe n√£o altera a sua (a nossa) perenidade.