Passagens sobre Distração

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Frases sobre distra√ß√£o, poemas sobre distra√ß√£o e outras passagens sobre distra√ß√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Se Fosse Alguma Coisa, N√£o Poderia Imaginar

Monotonizar a exist√™ncia, para que ela n√£o seja mon√≥tona. Tornar an√≥dino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distrac√ß√£o. No meio do meu trabalho de todos os dias, ba√ßo, igual e in√ļtil, surgem-me vis√Ķes de fuga, vest√≠gios sonhados de ilhas long√≠nquas, festas em √°leas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu.
Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu.

Mais vale, na verdade, o patrão Vasques que os Reis do Sonho; mais vale, na verdade, o escritório da Rua dos Douradores do que as grandes áleas dos parques impossíveis. Tendo o patrão Vasques, posso gozar a visão interior das paisagens que não existem. Mas se tivesse os Reis do Sonho, que me ficaria para sonhar? Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de possível ?
(…) Posso imaginar-me tudo, porque n√£o sou nada. Se fosse alguma coisa, n√£o poderia imaginar. O ajudante de guarda-livros pode sonhar-se imperador romano; o Rei de Inglaterra n√£o o pode fazer, porque o Rei de Inglaterra est√° privado de o ser, em sonhos, outro rei que n√£o o rei que √©. A sua realidade n√£o o deixa sentir.

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A Distração e a Categorização da Vida

Mas tu, meu amgo, onde est√°s? Sobre a tua sorte, quanta coisa fascinante e absurda imagin√°mos! No entanto, tudo isso que imagin√°mos, v√™ tu, quantas vezes o n√£o foi tanto como resposta para as nossas interroga√ß√Ķes, como um motivo para nos distrairmos mais ainda… Porque a distrac√ß√£o √© a parte mais rebelde e a mais insidiosa da nossa condi√ß√£o. Ela infilta-se-nos n√£o apenas no nosso consentimento, nas tr√©guas que nos damos, mas at√© mesmo no que √© uma conquista da nossa rara grandeza.

A arte, o hero√≠smo, a pr√≥pria evid√™ncia da vertigem, do milagre, os sonhos da reden√ß√£o e da nobreza, tudo o que √© da nossa profunda unidade, um nada o reabsorve em solidez, em moeda de compra-e-venda para a transaccionarmos com os outros no mercado da vaidade, do passatempo, na grande feira da vida. H√° uma dist√Ęncia infinita entre a apari√ß√£o da verdade, a imediata evid√™ncia de seja o que for, e at√© mesmo o seu reconhecimento: quando olhamos a evid√™ncia pela segunda vez, j√° ela est√° alinhada, classificada, endurecida entre as coisas que nos cercam. Eis porque n√≥s ignoramos ou esquecemos depressa a face do que h√° de estranho nos factos mais banais: no da vida,

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Felicidade Interiorizada

¬ęPergunta-me onde, neste mundo, se pode encontrar a felicidade?¬Ľ Depois de numerosas experi√™ncias, convenci-me que ela reside apenas na satisfa√ß√£o em rela√ß√£o a n√≥s pr√≥prios. As paix√Ķes n√£o nos conseguem comunicar esse contentamento; desejamos sempre o imposs√≠vel – o que obtemos nunca nos satisfaz. Penso que as pessoas dotadas de uma s√≥lida virtude devem possuir uma grande por√ß√£o dessa satisfa√ß√£o, que me parece imprescind√≠vel para a felicidade; eu, no entanto, como n√£o me sinto suficientemente seguro para me satisfazer comigo pr√≥prio, dessa forma, procuro apoiar-me na verdadeira satisfa√ß√£o que comunica o trabalho.
Este, comunica-nos um bem real e aumenta a nossa indiferen√ßa em rela√ß√£o aos prazeres que s√£o s√≥ de nome e com os quais as pessoas de sociedade se t√™m de contentar. Eis, minha querida amiga, a minha modesta filosofia – a qual, sobretudo quando me encontro bem de sa√ļde, √© de efeito seguro. Isto, contudo, n√£o nos deve afastar das pequenas distrac√ß√Ķes que nos podem ocupar de vez em quando: um pequeno caso sentimental, de circunst√Ęncia, a visita a um belo pa√≠s ou as viagens, de modo geral, podem deixar na nossa mem√≥ria encantadores tra√ßos. Recordamo-nos mais tarde de todas estas emo√ß√Ķes, quando nos encontramos longe ou n√£o conseguimos encontrar outras,

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√Č tal a miser√°vel condi√ß√£o dos homens que t√™m de procurar na sociedade consola√ß√Ķes dos males da natureza, e na natureza consola√ß√Ķes aos males da sociedade. Quantos h√° que n√£o encontram numa e na outra distrac√ß√Ķes para as suas penas!

O Prestígio da Poesia

O prest√≠gio da poesia √© menos ela n√£o acabar nunca do que propriamente come√ßar. √Č um in√≠cio perene, nunca uma chegada seja ao que for. E ficamos estendidos nas camas, enfrentando a perturbada imagem da nossa imagem, assim, olhados pelas coisas que olhamos. Aprendemos ent√£o certas ast√ļcias, por exemplo: √© preciso apanhar a ocasional distrac√ß√£o das coisas, e desaparecer; fugir para o outro lado, onde elas nem suspeitam da nossa consci√™ncia; e apanh√°-las quando fecham as p√°lpebras, um momento, r√°pidas, e rapidamente p√ī-las sob o nosso senhorio, apanhar as coisas durante a sua fortuita distrac√ß√£o, um interregno, um instante obl√≠quo, e enriquecer e intoxicar a vida com essas misteriosas coisas roubadas. Tamb√©m roub√°mos a cara chamejante aos espelhos, roub√°mos √† noite e ao dia as suas inextric√°veis imagens, roub√°mos a vida pr√≥pria √† vida geral, e fomos conduzidos por esse roubo a um equ√≠voco: a condena√ß√£o ou condana√ß√£o de inquilinos da irrealidade absoluta. O que excede a insolv√™ncia biogr√°fica: com os nomes, as coisas, os s√≠tios, as horas, a medida pequena de como se respira, a morte que se n√£o refuta com nenhum verbo, nenhum argumento, nenhum latroc√≠nio.
Vivemos demoniacamente toda a nossa inocência.

A Vida n√£o me Desapontou

N√£o, a vida n√£o me desapontou! Pelo contr√°rio, todos os anos a acho melhor, mais desej√°vel, mais misteriosa… desde o dia em que vejo a mim a grande libertadora, a ideia de que a vida podia ser experi√™ncia para aqueles que procuram saber, e n√£o dever, fatalidade, duplicidade!… Quanto ao pr√≥prio conhecimento, seja ele para outros aquilo que quiser, um leito de repouso, ou o caminho para um leito de repouso, ou distrac√ß√£o ou vagabundagem, para mim √© um mundo de perigos, √© um universo de vit√≥rias onde os sentimentos her√≥icos t√™m a sua sala de baile. ¬ęA vida √© um meio de conhecimento¬Ľ; quando se tem este princ√≠pio no cora√ß√£o, pode viver-se n√£o somente corajoso mas feliz, pode-se rir alegremente!

O costume português é deixar-se tudo em palavras mas palavras que são bolas de sabão deitadas ao ar para distrair pequeninos de seis anos.

A Religião e o Jornalismo São as Únicas Forças Verdadeiras

Todas as artes s√£o uma futilidade perante a literatura. As artes que se dirigem √† visualidade, al√©m de serem √ļnicos os seus produtos, e perec√≠veis, podendo portanto, de um momento para o outro, deixar de existir, n√£o existem sen√£o para criar ambiente agrad√°vel, para distrair ou entreter ‚ÄĒ exactamente como as artes de representar, de cantar, de dan√ßar, que todos reconhecem como sendo inferiores em rela√ß√£o √†s outras. A pr√≥pria m√ļsica n√£o existe sen√£o enquanto executada, participando portanto da futilidade das artes de representa√ß√£o. Tem a vantagem de durar, em partituras; mas essa n√£o √© como a dos livros, ou coisas escritas, cuja valia est√° em que s√£o partituras acess√≠veis a todos os que sabem ler, existindo ali para a interpreta√ß√£o imediata de quem l√™, e n√£o para a interpreta√ß√£o do executante, transmitida depois ao ouvinte.
As literaturas, porém, são escritas em línguas diferentes, e, como não há possibilidades de haver uma língua universal, nem, se vier a havê-la, será o grego antigo, onde tantas obras de arte se escreveram, ou o latim, ou o inglês ou outra qualquer, e se for uma delas não será as outras, segue que a literatura, sendo escrita para a posteridade, não a atinge senão,

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Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de m√°rmore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas…

O Descontentamento Consigo Próprio

O caso √© o mesmo em todos os v√≠cios: quer seja o daqueles que s√£o atormentados pela indol√™ncia e pelo t√©dio, sujeitos a contantes mudan√ßas de humor, quer o daqueles a quem agrada sempre mais aquilo que deixaram para tr√°s, ou dos que desistem e caem na indol√™ncia. Acrescenta ainda aqueles que em nada diferem de algu√©m com um sono dif√≠cil, que se vira e revira √† procura da posi√ß√£o certa, at√© que adormece de t√£o cansado que fica: mudando constantemente de forma de vida, permanecem naquela ¬ęnovidade¬Ľ at√© descobrirem n√£o o √≥dio √† mudan√ßa, mas a pregui√ßa da velhice em rela√ß√£o √† novidade. Acrescenta ainda os que nunca mudam, n√£o por const√Ęncia, mas por in√©rcia, e vivem n√£o como desejam, mas como sempre viveram. As caracter√≠sticas dos v√≠cios s√£o, pois, inumer√°veis, mas o seu efeito apenas um: o descontentamento consigo pr√≥prio.
Este descontentamento tem a sua origem num desequil√≠brio da alma e nas aspira√ß√Ķes t√≠midas ou menos felizes, quando n√£o ousamos tanto quanto desej√°vamos ou n√£o conseguimos aquilo que pretend√≠amos, e ficamos apenas √† espera. √Č a inevit√°vel condi√ß√£o dos indecisos, estarem sempre inst√°veis, sempre inquietos. Tentam por todas as vias atingir aquilo que desejam, entregam-se e sujeitam-se a pr√°ticas desonestas e √°rduas,

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Receita para o Sucesso e Boa Fama

Nunca te lances em v√°rias empresas ao mesmo tempo: n√£o ser√°s admirado por te dispersares. Mais vale ser bem sucedido numa √ļnica, mas brilhante. Falo por experi√™ncia.
No início da tua carreira, não te poupes nem a longas horas de reflexão nem aos mais rudes esforços. Também não tomes iniciativas, se não tiveres a certeza de ter bom êxito. Tão brilhante quando te estreias como em qualquer outra coisa: uma vez conquistada a fama, mesmo os teus erros serão títulos de glória.
Quando estiveres assoberbado por um assunto que te compete, recusa completamente tudo o que possa distrair a tua aten√ß√£o. De facto, se se perceber que faltaste – ainda que minimamente – aos deveres do teu cargo, imediatamente isso te ser√° apontado. E, n√£o obstante tudo o mais que possas ter feito, n√£o obstante o fardo das preocupa√ß√Ķes que te oprimiam, a tua falha ser√° imputada a essa tarefa suplementar.
Quando te lan√ßas numa empresa, nunca te associes a uma pessoa mais competente ou mais experiente que tu. De igual modo, quando visitas algu√©m, n√£o te fa√ßas acompanhar por um terceiro que tenha melhores rela√ß√Ķes com o anfitri√£o que tu.
Se tiveres de deixar um cargo,

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A Felicidade Provém da Plena Posse das Suas Faculdades

O √≥dio √† raz√£o, t√£o frequente nos nossos dias, √© devido em grande parte ao facto dos movimentos da raz√£o n√£o serem concebidos duma forma suficientemente fundamental. O homem dividido contra si mesmo procura est√≠mulos e distrac√ß√Ķes; ama as paix√Ķes fortes, n√£o por raz√Ķes profundas, mas porque moment√Ęneamente elas lhe permitem evadir-se de si pr√≥prio e afastam dele a dolorosa necessidade de pensar.
Toda a paix√£o √© para ele uma forma de intoxica√ß√£o, e desde que n√£o pode conceber uma felicidade fundamental, a intoxica√ß√£o parece-lhe o √ļnico al√≠vio para o seu sofrimento. Isso, no entanto, √© o sintoma duma doen√ßa de ra√≠zes profundas. Quando n√£o h√° tal doen√ßa, a felicidade prov√©m da plena posse das suas faculdades. √Č nos momentos em que o esp√≠rito est√° mais activo, em que menos coisas s√£o esquecidas que se sentem alegrias mais intensas. Esta √©, sem d√ļvida, uma das melhores pedras de toque da felicidade. A felicidade que exige intoxica√ß√£o de n√£o importa que esp√©cie, √© falsa e n√£o d√° qualquer satisfa√ß√£o. A felicidade que satisfaz verdadeiramente √© acompanhada pelo completo exerc√≠cio das nossas faculdades e pela compreens√£o plena do mundo em que vivemos.

Eu e ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de m√°rmore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem m√°s ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas…

A Dor e o Tédio São os Dois Maiores Inimigos da Felicidade

O panorama mais amplo mostra-nos a dor e o t√©dio como os dois inimigos da felicidade humana. Observe-se ainda: √† medida que conseguimos afastar-nos de um, mais nos aproximamos do outro, e vice-versa; de modo que a nossa vida, na realidade, exp√Ķe uma oscila√ß√£o mais forte ou mais fraca entre ambos. Isso origina-se do facto de eles se encontrarem reciprocamente num antagonismo duplo, ou seja, um antagonismo exterior ou oubjectivo, e outro interior e subjectivo. De facto, exteriormente, a necessidade e a priva√ß√£o geram a dor; em contrapartida, a seguran√ßa e a abund√Ęncia geram o t√©dio. Em conformidade com isso, vemos a classe inferior do povo numa luta constante contra a necessidade, portanto contra a dor; o mundo rico e aristocr√°tico, pelo contr√°rio, numa luta persistente, muitas vezes realmente desesperada contra o t√©dio. O antagonismo interior ou subjectivo entre ambos os sofrimentos baseia-se no facto de que, em cada indiv√≠duo, a susceptibilidade para um encontra-se em propor√ß√£o inversa √† susceptibilidade para o outro, j√° que ela √© determinada pela medida das suas for√ßas espirituais. Com efeito, a obtusidade do esp√≠rito est√°, em geral, associada √† da sensa√ß√£o e √† aus√™ncia da excitabilidade, qualidades que tornam o indiv√≠duo menos suscept√≠vel √†s dores e afli√ß√Ķes de qualquer tipo e intensidade.

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A Virtude do Aforista

A excel√™ncia dos aforismos n√£o consiste tanto na express√£o de algum sentimento raro e abstruso, como na compreens√£o de algumas √≥bvias e √ļteis verdades em poucas palavras. N√≥s frequentemente ca√≠mos em erros e distrac√ß√Ķes, n√£o porque os verdadeiros princ√≠pios de ac√ß√£o n√£o sejam conhecidos, mas porque, durante algum tempo, eles n√£o s√£o recordados; e o aforista pode, ent√£o, ser enumerado justamente entre os benfeitores do g√©nero humano que contrai as grandes regras da vida em senten√ßas curtas, que podem ser facilmente colocadas na mem√≥ria, e serem ensinadas atrav√©s da lembran√ßa frequente para que possam ocorrer periodicamente √† mente.

Um Mundo de Vidas

N√≥s vivemos da nossa vida um fragmento t√£o breve. N√£o √© da vida geral – √© da nossa. √Č em primeiro lugar a restrita por√ß√£o do que em cada elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos h√° a intensidade com o que poder√≠amos viver, a profundeza, as ramifica√ß√Ķes. N√≥s vivemos √† superf√≠cie de tudo na parte deslizante, a que √© facilidade e fuga. O resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distrac√ß√£o. Mas h√° sobretudo a zona incomensur√°vel dos poss√≠veis que n√£o poderemos viver. Porque em cada instante, a cada op√ß√£o que fazemos, a cada op√ß√£o que faz o destino por n√≥s, correspondem as inumer√°veis op√ß√Ķes que nada para n√≥s poder√° fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de uma fal√™ncia ou benef√≠cio fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se percorrer um s√≥. Em cada momento h√° in√ļmeros poss√≠veis, favor√°veis ou desfavor√°veis, diante de n√≥s. Mas √© um s√≥ o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida v√£o-nos ficando para tr√°s mil solu√ß√Ķes que se abandonaram e n√£o poder√£o jamais fazer parte da nossa vida. Regresso √† minha inf√Ęncia e entonte√ßo com as milhentas possibilidades que se me puseram de parte.

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A √ļnica solu√ß√£o que nos pode acompanhar at√© ao fim da vida √© a mais complicada e saud√°vel. √Č n√£o querermos ser ¬ęeu¬Ľ mas apenas mais inteligentes, tolerantes, s√°bios e interessantes; mais pensativos, mais abertos, mais divertidos, mais pr√≥ximos do divertimento que √© a vida – esse grande desvio (que √© o aut√™ntico significado de ¬ędivertimento¬Ľ); uma distrac√ß√£o permanente.

A √ļnica Doen√ßa √© n√£o Haver Paix√£o

A √ļnica doen√ßa √©
n√£o haver paix√£o.

H√° pessoas que encontram no mundo um mero
local de passagem, pessoas que n√£o sentem o que
vêem, que não tocam o que encontram; há pessoas
que n√£o percebem que tudo o que existe foi criado
para apaixonar, para absolutamente apaixonar.

Se n√£o houver paix√£o
para que serve haver a vida?

H√° pessoas
e depois existes tu.

Tu e a loucura de quereres devorar o que te
rodeia, tu e essa puls√£o incontrol√°vel para todos
os segundos serem os finais, para todos os instantes
da vida terem desesperadamente de valer pela vida toda.

Se não houver o que tu és
para que serve haver o amor?

E depois existo eu. A apaixonada que ensinaste
a apaixonar-se. Antes de ti n√£o havia o tes√£o, havia
talvez uma ligeira excitação quando algo de muito
grande me acontecia. Antes de ti n√£o sabia a
beleza do medo, a sensação sem igual de um coração nas
mãos. Antes de ti não sabia que um coração ou está
nas m√£os ou anda a rastejar pelos ch√£os.

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√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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