Passagens sobre Passatempo

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Frases sobre passatempo, poemas sobre passatempo e outras passagens sobre passatempo para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

ASAS E AZARES

Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso n√£o doi.

Conta e Tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e n√£o fiz conta,
N√£o quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e n√£o h√° tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
N√£o gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorar√£o, como eu, o n√£o ter tempo…

Penetr√°lia

Falei tanto de amor!… de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No rel√Ęmpago breve com que veio…

O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao p√ļblico recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

N√£o proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava… E ainda hoje, t√≠mido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.

Soneto VIII – O Tempo

Deus pede estrita conta de meu tempo,
√Č for√ßoso do tempo j√° dar conta;
Mas, como dar sem tempo tanta conta,
Eu que gastei sem conta tanto tempo?

Para ter minha conta feita a tempo
Dado me foi bem tempo e n√£o foi conta.
N√£o quis sobrando tempo fazer conta,
Quero hoje fazer conta e falta tempo.

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta
N√£o gasteis esse tempo em passatempo:
Cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! se os que contam com seu tempo
Fizessem desse tempo alguma conta,
N√£o choravam como eu o n√£o ter tempo.

Louvado Seja Amor em Meu Tormento

No tempo que de amor viver soía,
Nem sempre andava ao remo ferrolhado;
Antes agora livre, agora atado,
Em v√°rias flamas variamente ardia.

Que ardesse n’um s√≥ fogo n√£o queria
O Céu porque tivesse experimentado
Que nem mudar as causas ao cuidado
Mudança na ventura me faria.

E se algum pouco tempo andava isento,
Foi como quem co’o peso descansou
Por tornar a cansar com mais alento.

Louvado seja Amor em meu tormento,
Pois para passatempo seu tomou
Este meu t√£o cansado sofrimento!

Pergunta e Interrogação

Uma pergunta não interroga: uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a interrogação está do lado do insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a interrogação, na obscura verticalidade.
Como em jogo de cabra-cega, em que h√° seres √† nossa volta, a pergunta orienta-se entre os que lhe n√£o pertencem at√© achar o que procura. Mas a interroga√ß√£o n√£o encontra, porque nada h√° para achar. O limite da sua esperan√ßa est√° menos no triunfo de um encontro, do que no cansa√ßo, na resigna√ß√£o, ou na evid√™ncia natural do que nos coube, como nos √© evidente e tranquilo o termos cinco sentidos e n√£o mais. Mas at√© l√° o caminho √© longo e inimagin√°vel na imobilidade desta noite. Verdadeiramente √© √ļnica a sorte que nos visitou. Legaram-nos a tradi√ß√£o da pergunta-e-resposta como o passatempo de um jogo. Porque at√© mesmo o interrogar degenerou depressa em pergunta.

A moderação nos passatempos é remédio para a vida; e vejo magros, franzinos e desajeitados tanto os que pensam apenas no divertimento, quanto os que fazem aqueles benditos trabalhos pesados.

Passatempo: um dispositivo para promover a depressão. Exercício suave para a debilidade intelectual.

A Sociabilidade é Proporcional à Vulgaridade

O homem inteligente aspirar√°, antes de tudo, √† aus√™ncia de dor, √† serenidade, ao sossego e ao √≥cio, logo, procurar√° uma vida tranquila, modesta e o menos conflituosa poss√≠vel; por conseguinte, ap√≥s travar algum conhecimento com aqueles que chamamos de homens, escolher√° o reatraimento e, no caso de um grande esp√≠rito, at√© a solid√£o. Pois, quanto mais algu√©m tem em si mesmo, menos precisa do mundo exterior e menos tamb√©m os outros lhe podem ser √ļteis. Por isso, a emin√™ncia do esp√≠rito conduz √† insociabilidade. Sim, se a qualidade da sociedade pudesse ser substitu√≠da pela quantidade, valeria a pena viver at√© no grande mundo, mas infelizmente cem n√©scios empilhados n√£o d√£o um √ļnico homem razo√°vel. J√° aquele que est√° no outro extremo, assim que a necessidade lhe permitir recobrar o √Ęnimo, procurar√° passatempo e companhia a qualquer pre√ßo, e a tudo se acomodar√° facilmente, de nada fugindo a n√£o ser de si.
Pois √© na solid√£o, onde cada um est√° entregue a si mesmo, que se mostra o que ele tem em si mesmo. Nela, sob a p√ļrpura, o simpl√≥rio suspira, carregando o fardo irremov√≠vel da sua m√≠sera individualidade, enquanto o mais talentoso povoa e vivifica com os seus pensamentos o ambiente mais ermo.

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Viver o Dia-a-Dia

Sou forçado a considerar que o pior mal dos nossos dias, aquele que não permite que nada chegue a amadurecer, reside no facto de os homens deixarem que cada momento se consuma completamente no momento seguinte, que o dia se esgote em si mesmo, ou seja, em viverem exclusivamente o dia-a-dia sem qualquer perspectiva de futuro. Até já temos jornais destinados a diferentes partes do dia!
E n√£o custa acreditar que haja algu√©m com esperteza suficiente para inventar mais alguns pelo meio. Mas deste modo tudo o que se faz, tudo o que se empreende, se imagina ou se projecta vai sendo arrastado para o dom√≠nio p√ļblico; ningu√©m pode viver as suas alegrias ou as suas tristezas sem que isso se torne passatempo dos outros.

Ser Português é Difícil

Os Portugueses t√™m algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso pa√≠s e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou ¬ęculpa de sermos portugueses¬Ľ. N√£o queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta mis√©ria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses t√™m o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor pa√≠s do mundo. Se lhes perguntarmos ‚ÄúQual √© actualmente o melhor e o maior pa√≠s do mundo?‚ÄĚ, n√£o arranjam resposta. Nem dizem que √© a Uni√£o Sovi√©tica nem os Estados Unidos nem o Jap√£o nem a Fran√ßa nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem s√≥, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: ¬ęPodia ter sido Portugal…¬Ľ E isto que vai salvando os Portugueses: t√™m vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas ¬ętamb√©m n√£o v√£o ao ponto de quererem ser outra coisa¬Ľ.

Revela-se aqui o que n√≥s temos de mais insuport√°vel e de comovente: s√≥ nos custa sermos portugueses por n√£o sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo n√£o √© aquele de quem diz ‚ÄúPortugal √© o melhor pa√≠s do mundo‚ÄĚ (esse √© simplesmente parvo ou parvamente simples),

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Estou convencido, pela fé e pela experiência, de que se manter sobre a Terra não é uma provação, mas um passatempo Рse vivermos de maneira simples e sábia.

O meu passatempo favorito é deixar passar o tempo, ter tempo, aproveitar o meu tempo, perder o tempo, viver a contratempo.

Di√°logo da Vida e o Tempo

V. Quem chama dentro em mi? – T. O tempo ousado
V. Entraste sem licença? РT. Tenho-a há muito.
V. Que me queres? РT. Que me ouças. РV. Já te escuto.
T. Prometes de me crer? – V. Fala avisado.

T. Errada vás. РV. Também tu vás errado.
T. Essa é condição minha. РV. Esse é meu fruto.
T. √Čs mulher descuidada. – V. √Čs velho astuto.
T. Erro sem dano meu. – V. Ass√°s tens dado.

T. Ai, vida como passas? – V. Perseguida.
T. De quem? – V. De ti. – T. O Tempo o gosto nega.
V. O tempo é ar. РT. A Vida é passatempo.

V. Tu já nem Tempo és. РT. Nem tu és já Vida.
V. Vai para louco. – T. Vai-te para cega.
– Vedes como se v√£o a Vida e o Tempo?

Ser Livre

√Č mais dif√≠cil ser livre do que puxar a uma carro√ßa. Isto √© t√£o evidente que receio ofender-vos. Porque puxar uma carro√ßa √© ser puxado por ela pela raz√£o de haver ordens para puxar, ou haver carro√ßa para ser puxada. Ou ser mesmo um passatempo passar o tempo puxando. Mas ser livre √© inventar a raz√£o de tudo sem haver absolutamente raz√£o nenhuma para nada. √Č ser senhor total de si quando se √© senhoreado. √Č darmo-nos inteiramente sem nos darmos absolutamente nada. √Č ser-se o mesmo, sendo-se outro. √Č ser-se sem se ser. Assim, pois, tudo √© complicado outra vez. √Č mesmo poss√≠vel que sofra aqui e ali de um pouco de engasgamento. Mas s√≥ a estupidez se n√£o engasga, √≥ merit√≠ssimos, na sua forma de ser quadr√ļpede, como v√≥s o deveis saber.

O Verdadeiro √ďcio

A verdadeira riqueza √© apenas a riqueza interior da alma, tudo o resto traz mais problemas do que vantagens (Luciano). Algu√©m assim rico interiormente de nada precisa do mundo exterior a n√£o ser um presente negativo, a saber, o √≥cio, para poder cultivar e desenvolver as suas capacidades espirituais e fruir a sua riqueza interior. Portanto, requer propriamente apenas a permiss√£o para ser ele mesmo durante toda a sua vida, a cada dia e a cada hora. Se algu√©m estiver destinado a imprimir, em toda a ra√ßa humana, o tra√ßo do seu esp√≠rito, haver√° para ele apenas uma felicidade e infelicidade, ou seja, a de poder aperfei√ßoar as suas disposi√ß√Ķes e completar as suas obras – ou disso ser impedido. O resto √©-lhe insignificante. Sendo assim, vemos os grandes esp√≠ritos de todos os tempos atribu√≠rem o valor supremo ao √≥cio. Pois este vale tanto quanto o homem. A felicidade parece residir no √≥cio, diz Arist√≥teles, e Di√≥genes La√©rcio relata que S√≥crates louva o √≥cio como a mais bela posse.
Tamb√©m corresponde a isso o facto de Arist√≥teles declarar a vida filos√≥fica como a mais feliz. De modo semelhante, diz na Pol√≠tica: “Poder exercer livremente as pr√≥prias aptid√Ķes, sejam elas quais forem,

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