Poemas sobre Lados

164 resultados
Poemas de lados escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

N√£o Estou Pensando em Nada

N√£o estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
√Č-me agrad√°vel como o ar da noite,
Fresco em contraste com o ver√£o quente do dia,

N√£o estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
√Č ter a alma pr√≥pria e inteira.
Pensar em nada
√Č viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida…
N√£o estou pensando em nada.
E como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
H√° um amargo de boca na minha alma:
√Č que, no fim de contas,
N√£o estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada…

Abertura

Eu abria o r√°dio
eu abria o aparelho
era uma flor branca que eu abria
de sopro
eu soprava e eu abria a flor
A flor tocava m√ļsica com as v√°rias m√£os
das pétalas
A flor tocava uma simbolização dum tempo
caído podre de espera de cor branca
O tempo espera-se em pintar-se
de branco
para cegar uma cor
mas a minha flor abria-se de
pétalas
e as v√°rias m√£os escreviam um
piano por cima de teclas gr√£os v√°rios
seguidos uns aos outros.
Era assim uma harmonia
entre flor
tempo a querer-se de cor branca em cegar
era assim umas teclas cantarem filhos de gr√£os
por dentro dos gr√£os mesmos
unidos que eram em dimens√£o de lado
era assim um cantar-me o tempo todo
n√£o era assim um cantar-me o tempo todo
era assim um pairar-me
o tempo todo em Nijinsky
o tempo em um fazer-me ballet pelo quarto inteiro
quando eu tinha aberta a cabeça que imagino
da m√ļsica
Abria a pétala favorita do harém
onde no centro um sult√£o da flor
no centro que era o amarelo da flor
abria a pétala favorita da flor
e ent√£o
e era ent√£o que me soava dentro da manh√£
do quarto
uma m√ļsica desfibrada de tempo ser√īdio
como se tudo me fosse em longe
como se a m√ļsica levasse longe
o céu.

Continue lendo…

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes    loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina    realmente    os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual n√£o podemos contactar
sen√£o como amantes
de olhos fechados
e l√Ęmpadas nos dedos¬†¬†¬† e na boca

Exercício Espiritual

Ouço-os de todo o lado.
Eu é que sou assim.
Eu é que sou assado,
Eu é que sou o anjo revoltado,
Eu √© que n√£o tenho santidade…

Quando, afinal, ninguém
P√Ķe nos ombros a capa da humildade,
E vem.

O Maestro Sacode a Batuta

O maestro sacode a batuta,
A l√Ęnguida e triste a m√ļsica rompe …

Lembra-me a minha inf√Ęncia, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal
Atirando-lhe com, uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum c√£o verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo …

Prossegue a m√ļsica, e eis na minha inf√Ęncia
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um c√£o verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo…

Todo o teatro √© o meu quintal, a minha inf√Ęncia
Est√° em todos os lugares e a bola vem a tocar m√ļsica,
Uma m√ļsica triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de c√£o verde tornando-se jockey amarelo…
(T√£o r√°pida gira a bola entre mim e os m√ļsicos…)

Atiro-a de encontra √† minha inf√Ęncia e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um c√£o verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal…

Continue lendo…

Esta é a Forma Fêmea

Esta é a forma fêmea:
dos pés à cabeça dela exala um halo divino,
ela atrai com ardente
e irrecusável poder de atração,
eu me sinto sugado pelo seu respirar
como se eu n√£o fosse mais
que um indefeso vapor
e, a n√£o ser ela e eu, tudo se p√Ķe de lado
‚ÄĒ artes, letras, tempos, religi√Ķes,
o que na terra é sólido e visível,
e o que do céu se esperava
e do inferno se temia,
tudo termina:
estranhos filamentos e renovos
incontroláveis vêm à tona dela,
e a acção correspondente
é igualmente incontrolável;
cabelos, peitos, quadris,
curvas de pernas, displicentes m√£os caindo
todas difusas, e as minhas também difusas,
maré de influxo e influxo de maré,
carne de amor a inturgescer de dor
deliciosamente,
inesgotáveis jactos límpidos de amor
quentes e enormes, trémula geléia
de amor, alucinado
sopro e sumo em delírio;
noite de amor de noivo
certa e maciamente laborando
no amanhecer prostrado,
a ondular para o presto e proveitoso dia,
perdida na separação do dia
de carne doce e envolvente.

Continue lendo…

A Matança

N√£o penses
que a carne apenas é aquela oca
lívida carcaça
em imóvel galope alucinado,
embarrada numa trave da adega.

N√£o penses
que o milagre anual da salgadeira
vem sem morte e sem trabalhos. N√£o:

Contar-te-ei
que primeiro atam o porco em sua loja
com uma corda em torno do focinho
e o arrastam à força para o ar lavado e frio.

Contar-te-ei
que o porco luta e resiste: ora sentado
sobre os quartos traseiros (os futuros presuntos),
ora comicamente no solo as quatro patas
fincando com bravura se defende
da mal-agourada violação. Por fim, cedendo,
colocam-no, ainda contrafeito,
entre roncos, bufos e sac√Ķes,
no banco, deitado sobre o lado,
por forma a expor o vulner√°vel,
comestível coração.

Contar-te-ei
que quando a faca penetra nas entranhas,
qual punhal vingador de antiga fome,
o grito é tal, tão desolado e aflito,
t√£o humano, t√£o digno de compaix√£o,
t√£o de criatura insultada e indefesa –
que tenho de tapar a m√£os ambas os ouvidos
e recuar para os fundos da casa,

Continue lendo…

Marketing

Aqui a meu lado o bom cidad√£o
escolheu Sagres
que é tudo tudo cerveja
a pausa que refresca
a longa pausa de um longo cigarro King Size.
atenção ao marketing.
Eu n√£o gosto de cerveja
mas tenho de gostar que os outros gostem de cerveja
sobretudo da Sagres
para n√£o contrariar os fabricantes de cerveja.
atenção ao marketing.
ninguém contraria os fabricantes da Opel e da Super
[Silver
nem os fabricantes de alcatifas para panaceias
nem as panaceias nem os códigos e os édredons macios
nem as mensagens de natal dos estadistas
nem os negociantes de armas da Suiça
nem o homem da capa negra que virou costas ao
[Palmolive.

[…]
Sagres é uma boa cerveja
e eu acabarei por gostar da Sagres
como gosto do Rexina.
Sagres é a pausa que refresca e tem vitaminas
todas as bebidas da televisão têm vitaminas
mesmo as do programa literário que é detergente
e eu uso-as e sou um cidad√£o perfeito
e até já consigo adormecer sem hipnóticos
depois de tomar o Tofa descafeínado
e no Ver√£o visto cal√ß√Ķes de banho de fibras sint√©ticas
para me banhar na Torralta
cidad√£o perfeito perfeitamente bronzeado com o Ambre
[Solaire.

Continue lendo…

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem √°rvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
√ď meu amor nem minha m√£e
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

C√Ęntico ao Amor

Somos na obra do Mundo
um corpo em carne e desejo
que alimenta de alquimia
o tumulto do vento
que o tempo do teu corpo espalha
ao passar.

√Čs mar,
és rainha
és o sol da tarde confidente
és acácia perfumada
companheira coroada
voz de inquietação
és insónia de seda
nas paredes do meu corpo.
Sulcas a lembrança
batalhas a meu lado
vives comigo às escondidas
mesmo no dia
do meu suicídio.

Recordas-me a tarde
nos Champs Elysées
mas também em Roma, Veneza ou Madrid
minha companheira coroada
minha ac√°cia perfumada
trazes a tarde incendiada trazes
a tarde no teu olhar
lembras a praia
onde nas ondas mergulh√°mos,
vem contigo a madrugada
beijada de carícias,
meus olhos n√£o se cansam
s√£o fruto do teu reino
oh sempre bela
oh sempre rainha,
tua palavra determinante
tuas m√£os determinadas
tua alma vibrante
tua boca de eternidade
minha ac√°cia perfumada
minha coluna rainha
falas comigo baixinho
d√°s-me tua vontade em surdina.

Continue lendo…

Contemplo o que n√£o Vejo

Contemplo o que n√£o vejo.
√Č tarde, √© quase escuro.
E quanto em mim desejo
Est√° parado ante o muro.

Por cima o céu é grande;
Sinto árvores além;
Embora o vento abrande,
Há folhas em vaivém.

Tudo é do outro lado,
No que h√° e no que penso.
Nem h√° ramo agitado
Que o céu não seja imenso.

Confunde-se o que existe
Com o que durmo e sou.
N√£o sinto, n√£o sou triste.
Mas triste é o que estou.

Os Anos de Ti para Mim

O teu cabelo volta a ondular-se quando choro. Com o azul dos
teus olhos
p√Ķes a mesa do nosso amor: uma cama entre o ver√£o e o
outono.
Bebemos o que alguém preparou, que não era eu, nem tu, nem
um terceiro:
sorvemos um √ļltimo vazio.

Miramo-nos nos espelhos do mar profundo e passamos mais
depressa um ao outro os alimentos:
a noite é a noite, começa com a manhã,
é ela que me deita a teu lado.

Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

Poema do homem-r√£

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-r√£s
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponder√°veis,
por entre as √°guas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores am√°veis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Com barbatanas calçadas
e pulm√Ķes a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Trit√Ķes escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trov√Ķes na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
N√£o h√° temores que me domem
√Č tudo meu, tudo meu.

A Arte de Ser Amada

Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou √°ria

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os ger√Ęnios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um h√ļmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que n√£o viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.

Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que n√£o h√°.
Sentou-se com suas √ļltimas j√≥ias.
E olha para o lado, imóvel.

Est√° vendo os sal√Ķes que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que n√£o existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas l√°grimas.

O Primeiro de Todos os Meus Sonhos

o primeiro de todos os meus sonhos era sobre
um amante e o seu √ļnico amor,
caminhando devagar(pensamento no pensamento)
por alguma verde misteriosa terra

at√© o meu segundo sonho come√ßar‚ÄĒ
o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam)

mas essa mera f√ļria cedo se tornou
silêncio:em mais vasto sempre quem
dois pequeninos seres dormem(bonecas lado a lado)
imóveis sob a mágica

para sempre caindo neve.
E ent√£o este sonhador chorou:e ent√£o
ela rapidamente sonhou um sonho de primavera
‚ÄĒonde tu e eu estamos a florescer

Tradução de Cecília Rego Pinheiro

Amizade

Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a m√£ozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol.

H√° Mais de Meia Hora

H√° mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o √ļnico intuito
De olhar para ela.
(Estes versos est√£o fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para c√° papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da “Enciclop√©dia Brit√Ęnica”.
Ao lado direito ‚ÄĒ
Ah, ao lado direito
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e n√£o lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!

Tudo isto é fado

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que n√£o sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que n√£o sabia
Mas vou-te dizer agora

Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ci√ļme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado

Se queres ser meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
√Č can√ß√£o que √© meu castigo
S√≥ basceu p’ra me perder
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu n√£o sei dizer

O Somno de Jo√£o

O Jo√£o dorme… (√ď Maria,
Dize √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…)

Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O Jo√£o seria… um morango!
Podia engulil-o um le√£o
Quando nasce! As pombas s√£o
Um poucochinho maiores…
Mas os astros s√£o menores!

O Jo√£o dorme… Que regalo!
Deixal-o dormir, deixal-o!
Callae-vos, agoas do moinho!
√ď mar! falla mais baixinho…
E tu, M√£e! e tu, Maria!
Pede √°quella cotovia
Que falle mais devagar:
N√£o v√° o Jo√£o, acordar…

O Jo√£o dorme… Innocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo somno profundo!
N√£o acordes para o mundo,
Póde affogar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto √©…

√ď Mae! canta-lhe a can√ß√£o,
Os versos do teu irm√£o:
¬ęNa Vida que a Dor povoa,
Ha só uma coisa boa,
Que √© dormir, dormir, dormir…
Tudo vae sem se sentir.¬Ľ

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… at√© morrer!

E tu vel-o-√°s crescendo
A teu lado (estou-o vendo
Jo√£o!

Continue lendo…