Cita√ß√Ķes de Ant√≥nio Dam√°sio

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Frases, pensamentos e outras cita√ß√Ķes de Ant√≥nio Dam√°sio para ler e compartilhar. Os melhores escritores est√£o em Poetris.

Do meu ponto de vista, o que se passa √© que alma e o esp√≠rito, em toda a sua dignidade e dimens√£o humana, s√£o os estados complexos e √ļnicos de um organismo. Talvez a coisa que se torna mais indispens√°vel fazermos, enquanto seres humanos, seja a de recordar a n√≥s pr√≥prios e aos outros a complexidade, a fragilidade, a finitude e a singularidade que nos caracterizam.

√Ä primeira vista, n√£o existe nada de caracteristicamente humano nas emo√ß√Ķes, uma vez que √© bem claro que os animais tamb√©m t√™m emo√ß√Ķes. No entanto, h√° qualquer coisa de muito caracter√≠stico no modo como as emo√ß√Ķes est√£o ligadas √†s ideias, aos valores, aos princ√≠pios e aos ju√≠zos complexos que s√≥ os seres humanos podem ter, sendo nessa liga√ß√£o que reside a nossa ideia bem leg√≠tima de que a emo√ß√£o humana √© especial. A emo√ß√£o humana n√£o se reduz ao prazer sexual ou ao pavor de r√©pteis. Tem a ver, igualmente, com o horror de testemunhar o sofrimento e com a satisfa√ß√£o de ver cumprida a justi√ßa.

O sofrimento proporciona-nos a melhor protecção para a sobrevivência, uma vez que aumenta a probabilidade de darmos atenção aos sinais de dor e agirmos no sentido de evitar a sua origem ou corrigir as suas consequências.

Para que servem os sentimentos? Poder-se-ia argumentar que as emo√ß√Ķes sem sentimentos seriam mais do que suficientes para a regula√ß√£o da vida e para a promo√ß√£o da sobreviv√™ncia. Por√©m, n√£o √© esse o caso. Na orquestra√ß√£o da sobreviv√™ncia √© extremamente valioso ter sentimentos. As emo√ß√Ķes s√£o √ļteis em si mesmas, mas √© o processo de sentir que alerta o organismo para o problema que a emo√ß√£o come√ßou a resolver.

Estamos programados para reagir com uma emoção de modo pré-organizado quando determinadas características dos estímulos, no mundo ou nos nossos corpos, são detectadas individualmente ou em conjunto.

O processo simples de sentir come√ßa por dar ao organismo o incentivo para se ocupar dos resultados da emo√ß√£o (o sofrimento come√ßa pelos sentimentos, embora seja real√ßado pelo conhecer, e o mesmo se pode dizer sobre a alegria). O sentir constitui, tamb√©m, pedra angular para a etapa seguinte ‚Äď o sentimento de conhecer que sentimos. Por sua vez, o conhecer √© pedra angular para o processo de planeamento de respostas espec√≠ficas e n√£o estereotipadas que podem, quer complementar uma emo√ß√£o, quer garantir que os ganhos imediatos obtidos pela emo√ß√£o possam ser mantidos ao longo do tempo. Por outras palavras ¬ęsentir¬Ľ os sentimentos prolonga o alcance da emo√ß√£o, ao facilitar o planeamento de formas de respostas adaptativas, originais e feitas √† medida da situa√ß√£o.

Para nós, portanto, no princípio foi a existência e só mais tarde chegou o pensamento. E para nós, o presente, quando vimos ao mundo e nos desenvolvemos, começamos ainda por existir e só mais tarde pensamos.

O √Ęmago cerebral antigo encarregar-se-ia da regula√ß√£o biol√≥gica b√°sica, na cave, enquanto nos andares de cima o neocortex deliberaria com sensatez e subtileza. Em cima, no c√≥rtex, encontrar-se-ia a raz√£o e a for√ßa de vontade, enquanto em baixo, no subcortex, se encontraria a emo√ß√£o e todas aquelas coisas fracas e carnais.

Existimos e depois pensamos e s√≥ pensamos na medida que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e opera√ß√Ķes do ser.

Dado que também temos a capacidade de reflectir e planear, temos um meio de controlar a influente tirania da emoção: chama-se razão. Ironicamente, claro, os motores da razão também requerem emoção, o que significa que o poder da razão é por vezes bem modesto.

Ao longo da maior parte do século XX, a emoção não foi digna de crédito nos laboratórios. Era demasiado subjectiva, dizia-se. Era demasiado fugidia e vaga. Estava no pólo oposto da razão, indubitavelmente a mais excelente capacidade humana, e a razão era encarada como totalmente independente da emoção…A emoção não era racional, e estudá-la também não era.

Sem qualquer excep√ß√£o, homens e mulheres de todas as idades, de todas as culturas, de todos os graus de instru√ß√£o e de todos os n√≠veis econ√≥micos t√™m emo√ß√Ķes, est√£o atentos √†s emo√ß√Ķes dos outros, cultivam passatempos que manipulam as suas pr√≥prias emo√ß√Ķes, e governam as suas vidas, em grande parte, pela procura de uma emo√ß√£o, a felicidade, e pelo evitar das emo√ß√Ķes desagrad√°veis. √Ä primeira vista, n√£o existe nada de caracteristicamente humano nas emo√ß√Ķes, uma vez que √© bem claro que os animais tamb√©m t√™m emo√ß√Ķes. No entanto, h√° qualquer coisa de muito caracter√≠stico no modo como as emo√ß√Ķes est√£o ligadas √†s ideias, aos valores, aos princ√≠pios e aos ju√≠zos complexos que s√≥ os seres humanos podem ter , sendo nessa liga√ß√£o que reside a nossa ideia bem leg√≠tima de que a emo√ß√£o humana √© especial. A emo√ß√£o humana n√£o se reduz ao prazer sexual ou ao pavor de r√©pteis. Tem a ver, igualmente, com o horror de testemunhar o sofrimento e com a satisfa√ß√£o de ver cumprida a justi√ßa.

A trama de nossa mente e de nosso comportamento √© tecida ao redor de ciclos sucessivos de emo√ß√Ķes seguidas por sentimentos, que se tornam conhecidos e geram novas emo√ß√Ķes, numa polifonia cont√≠nua que sublinha e pontua pensamentos espec√≠ficos em nossa mente e a√ß√Ķes do nosso comportamento.

A concepção de organismo humano esboçado neste livro e a relação entre emoção e a razão que emerge dos resultados aqui discutidos sugerem, no entanto, que o fortalecimento da racionalidade requer que seja dada maior atenção à vulnerabilidade do mundo interior.

Podemos educar as nossas emo√ß√Ķes, mas n√£o suprimi-las completamente, e os sentimentos interiores que vamos tendo s√£o a melhor testemunha do nosso insucesso.

A dor e o prazer n√£o s√£o imagens g√©meas ou sim√©tricas uma da outra, pelo menos n√£o o s√£o em termos de suas fun√ß√Ķes no apoio √† sobreviv√™ncia. De certa forma, e a maior parte das vezes, √© a informa√ß√£o associada √† dor que nos desvia do perigo iminente, tanto no momento presente como no futuro antecipado, √Č dif√≠cil imaginar que os indiv√≠duos e as sociedades que se regem pela busca do prazer, tanto ou ainda mais que pela fuga √† dor, consigam sobreviver.