Poemas sobre Nuvens

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Poemas de nuvens escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Aerograma

Deus queira que esta
Vos mate a fome aos sentidos
Por agora

Deus queira que esta
Vos guarde a dor aos gemidos
Noite fora

Dançamos fandangos
Sobre uma navalha
P√°ssaros em bando
Em nuvens de limalha

E assim eu c√° vou indo.

Vem-me o fel à boca
As tripas ao coração
A noite tr√°s a forca pela sua m√£o

Sonho com fantasmas
De pele preta e luzidia
Com manuais de coragem e cobardia

Dizem que h√° sempre
Um barco azul para partir
Nosso hino
Embarca a alma
E os restos de um rosto a sorrir
Do destino

P√Ķe o meu retrato
No altar de S. Jo√£o
E uma vela com formato de canh√£o

Cansa-se esta escrita
Com dois dedos num baraço
Assim o quis a desdita
Vai um abraço.

Pedra no charco

Caiu uma pedra no charco,
caiu um penedo no rio,
caiu mais um cabo da boa esperança no mar,
p’r√° gente se agarrar.

Deix√°mos de ver as nuvens
que nos tapavam o céu,
pudemos sentir de perto a meiguice do tempo
onde a gente se escondeu.

√Č que hoje
nasceu mais um dia.
√Č que hoje
nasceu mais alguém.
√Č que hoje
nasceu um poeta na serra com a estrela da manh√£.

Foi quando os lobos uivaram,
foi quando o lince miou,
as ovelhas n√£o tinham fome
e a alcateia repousou.

E entre os uivos e os miados
o poeta abriu o choro.
E entre os vales e os cabeços,
cavalgando uma alcateia
o poema deslizou.

Nuvens

A metafísica será talvez
uma indisposição que se quer passageira.

Porém, eu continuo a inquietar-me
com as nuvens que s√£o arrastadas,

violentamente arrastadas, na direcção sudeste,
filtrando a luz do sol em obsessiva correria.

A Eterna Ausência

Eu aguardei com l√°grimas e o vento
suavizando o meu instinto aberto
no fumo do cigarro ou na alegria das aves
o surgimento anónimo
no grande cais da vida
desse navio nocturno
que me trazia aquela com l√°bios evidentes
e possuindo um perfil indubit√°vel,
mulher com dedos religiosos
e bra√ßos espirituais…

Aquela mulher-pir√Ęmide
com chamas pelo corpo
e gritos silenciosos nas pupilas.

Amante que n√£o veio como a noite prometera
numa suspensa nuvem acordar
meu cora√ß√£o de carne e alguma cinza…

Amante que ficou n√£o sei aonde
a castigar meus dias invol√ļveis
ou a afogar meu sexo na caveira
deste carnal desespero!…

N√£o Precisas de me Procurar

Aqui n√£o precisas de me procurar
para me encontrares, que eu estou,
omnipresente, em todo o ch√£o que pisas,
duplicando a tua sombra,
deixando um rasto de brisa,
um aroma de urze na marca dos teus passos.
Com esta roupa visitaremos os p√°tios,
os átrios de dança e do encantamento.
As nuvens aninhadas atr√°s da lua,
na olorosa paz da madrugada,
s√£o o mapa das err√Ęncias da fala
enquanto o coração, indefeso, capitula.

Cantigas

Quando vejo a minha amada
Parece que o Sol nasceu;
Cantai, cantai alvorada
√ď avezinhas do c√©u.

Nessas √°guas do Mondego
Se pode a gente mirar,
Elas procuram sossego…
E v√£o caminho do mar.

A rosa que tu me deste
Peguei-lhe, mudou de cor;
Tornou-se de azul-celeste
Como o céu do nosso amor.

N√£o me fales da janela,
Que te não ouço da rua;
Fala-me de alguma estrela,
Que te vou ouvir da Lua.

Dizes que a letra n√£o deve
Ser nunca miudinha;
Mas grada ou mi√ļda escreve,
Que o coração adivinha.

N√£o digas que me n√£o amas
A ver se tenho ci√ļme;
Os laços do amor são chamas,
E n√£o se brinca com lume.

A virgem dos meus amores
Sobressai entre as mais belas:
√Č como a rosa entre flores,
√Č como o Sol entre estrelas.

Eu zombo de sol e chuva,
Noite e dia, terra e mar;
Ais de uma pobre vi√ļva,
Se os ouço, dá-me em chorar.

A sombra da nuvem passa
depressa pela seara;

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Ausência

Nas horas do poente,
Os bronzes sonolentos,
– pastores das asc√©ticas planuras ‚Äď
Lançam este pregão ao soluçar dos ventos,
À nuvem erradia,
Às penhas duras:
РQue é dele, o eterno Ausente,
– Cantor da nossa melancolia?

Nas tardes duma luz de íntimo fogo,
Rescendentes de tudo o que passou,
Eu próprio me interrogo:
– Onde estou? Onde estou?
E procuro nas sombras enganosas
Os fumos do meu sonho derradeiro!

– Ventos, que novas me trazeis das rosas,
Que acendiam clar√Ķes no meu jardim?

РPastores, que é do vosso companheiro?

– Saudades minhas, que sabeis de mim?

A Graça

Que harmonia suave
√Č esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
N√£o sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

√Čs tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solid√£o do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: ¬ęAcorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.¬Ľ
√Čs tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d’ouro e p√ļrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
√Čs tu, √©s tu!, que ao p√īr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus,

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O Sentimento dum Ocidental

I

Avé-Maria

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
H√° tal soturnidade, h√° tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O g√°s extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposi√ß√Ķes, pa√≠ses:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edifica√ß√Ķes somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquet√£o ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueir√Ķes, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Cam√Ķes no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu n√£o verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

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A Bicicleta pela Lua Dentro – M√£e, M√£e

A bicicleta pela lua dentro – m√£e, m√£e –
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer sen√£o sonhar
ao contr√°rio quando novembro empunha –
m√£e, m√£e – as tellhas dos seus frutos?
As nuvens, avi√Ķes, merc√ļrio.
Novembro Рmãe Рcom as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos – filho, filho.
Janeiro com outono sonha ent√£o.
Canta nesse espanto Рmeu filho Рos satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Avi√Ķes passam no teu nome –
minha m√£e, minha m√°quina –
merc√ļrio (ouvi dizer) est√° cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as √°rvores crescem ao contr√°rio.
Apresento-te novembro: avi√£o
limpo como um alfabeto. E as praças
d√£o a sua neve descascada.
M√£e, m√£e ‚ÄĒ como janeiro resplende
nos sat√©lites. Filho ‚ÄĒ √© a tua mem√≥ria.

E as letras est√£o em ti, abertas
pela neve dentro. Como √°rvores, avi√Ķes
sonham ao contr√°rio.

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Arrojos

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, ext√°tico e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clar√£o dos rel√Ęmpagos noturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sab√£o das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem j√° n√£o tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas,

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Extravio

Onde começo, onde acabo,
se o que est√° fora est√° dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que j√° n√£o ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manh√£, esta sala.

Quando Eu n√£o te Tinha

Quando eu n√£o te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo.
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e pr√≥xima …
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor ‚ÄĒ
Tu n√£o me tiraste a Natureza …
Tu mudaste a Natureza …
Trouxeste-me a Natureza para o pé de mim,
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.
N√£o me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.

Romantismo

Quem tivesse um amor, nesta noite de lua,
para pensar um belo pensamento
e pous√°-lo no vento!

Quem tivesse um amor – longe, certo e imposs√≠vel –
para se ver chorando, e gostar de chorar,
e adormecer de l√°grimas e luar!

Quem tivesse um amor, e, entre o mar e as estrelas,
partisse por nuvens, dormente e acordado,
levitando apenas, pelo amor levado…

Quem tivesse um amor, sem d√ļvida e sem m√°cula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria…
Ah! quem tivesse… (Mas, quem teve? quem teria?)

Aves

ter-te suspensa
do meu lume
na fogosa boca
o ardume
a explodir
tu
ardida e intacta
sonho e nuvem
voz exacta
um soltar
de aves
em p√Ęnico
na relva do olhar

Elevação

Por cima dos pa√ļes, das montanhas agrestes,
Dos rudes alcantis, das nuvens e do mar,
Muito acima do sol, muito acima do ar,
Para além do confim dos páramos celestes,

Paira o espírito meu com toda a agilidade,
Como um bom nadador, que na √°gua sente gozo,
As penas a agitar, gazil, voluptuoso,
Atrav√©s das regi√Ķes da et√©rea imensidade.

Eleva o v√īo teu longe das montureiras,
Vai-te purificar no éter superior,
E bebe, como um puro e sagrado licor,
A alvinitente luz das límpidas clareiras!

Neste bisonho dai’ de m√°goas horrorosas,
Em que o fastio e a dor perseguem o mortal,
Feliz de quem puder, numa ascens√£o ideal,
Atingir as mans√Ķes ridentes, luminosas!

De quem, pela manh√£, andorinha veloz,
Aos domínios do céu o pensamento erguer,
‚ÄĒ Que paire sobre a vida, e saiba compreender
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Tradução de Delfim Guimarães

Nos Foge o Tempo

Se mais que aéreas nuvens pressuroso,
Se mais que inquietas ondas inconstante,
Nos foge o Tempo; √© in√ļtil o saudoso
Pranto, dado a quem foge; eu incessante
Quero abarcar, e com ardor ansioso
Entranhar na alma cada alegre instante:
Pois que a vida é passagem, as lindas flores
Bom é colher na estrada dos Amores.

Símbolos

S√≠mbolos? Estou farto de s√≠mbolos…
Mas dizem-me que tudo é símbolo,
Todos me dizem nada.
Quais s√≠mbolos? Sonhos. ‚ÄĒ
Que o sol seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a lua seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Que a terra seja um s√≠mbolo, est√° bem…
Mas quem repara no sol sen√£o quando a chuva cessa,
E ele rompe as nuvens e aponta para tr√°s das costas,
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua sen√£o para achar
Bela a luz que ela espalha, e n√£o bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes,
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar tamb√©m √© terra…
Bem, v√°, que tudo isso seja s√≠mbolo…
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doura a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora com o namorado que a deixou?

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o tempo subitamente solto

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de √°gua, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas √°rvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

Andáva a Lua nos Céus

Andáva a lua nos céus
Com o seu bando de estrellas.

Na minha alcova,
Ardiam vellas,
Em candelabros de bronze.

Pelo ch√£o, em desalinho,
Os velludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.

Elle olhava-me scismado;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e n√ļa
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delirio
Procurou √°vidamente,
E √°vidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para Elle,
E, encostado ao meu hombro,
Fallou-me d’um pagem loiro
Que morrêra de Saudade,
√Ā beira-mar, a cantar…

Olhei o céu!
Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombría.

D√©ram-se as bocas n’um beijo,
– Um beijo nervoso e lento…
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecêra cansado
E que eu beij√°ra loucamente
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho… at√© cahir.

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