Passagens sobre Surdos

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O Acto de Criação é de Natureza Obscura

O acto de cria√ß√£o √© de natureza obscura; nele √© imposs√≠vel destrin√ßar o que √© da raz√£o e o que √© do instinto, o que √© do mundo e o que √© da terra. Nunca nenhum dualismo serviu bem o poeta. Esse ¬ępastor do Ser¬Ľ, na t√£o bela express√£o de Heidegger, √©, como nenhum outro homem, nost√°lgico de uma antiga unidade. As mil e uma antinomias, t√£o escolarmente elaboradas, quando n√£o pervertem a primordial fonte do desejo, pecam sempre por cindir a inteireza que √© todo um homem. N√£o h√° vit√≥ria definitiva sem a reconcilia√ß√£o dos contr√°rios. √Č no mar crepuscular e materno da mem√≥ria, onde as √°guas ¬ęsuperiores¬Ľ n√£o foram ainda separadas das ¬ęinferiores¬Ľ, que as imagens do poeta sonham pela primeira vez com a prec√°ria e fugidia luz da terra.
Diante do papel, que ¬ęla blancheur d√©fend¬Ľ, o poeta √© uma longa e s√≥ hesita√ß√£o. Que Ifig√©nia ter√° de sacrificar para que o vento prop√≠cio se levante e as suas naves possam avistar os muros de Tr√≥ia? Que aug√ļrios escuta, que enigmas decifra naquele rumor de sangue em que se debru√ßa cheio de afli√ß√£o? Porque ao princ√≠pio √© o ritmo; um ritmo surdo, espesso, do cora√ß√£o ou do cosmos ‚ÄĒ quem sabe onde um come√ßa e o outro acaba?

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IX

De outras sei que se mostram menos frias,
Amando menos do que amar pareces.
Usam todas de l√°grimas e preces:
Tu de acerbas risadas e ironias.

De modo tal minha atenção desvias,
Com tal perícia meu engano teces,
Que, se gelado o coração tivesses,
Certo, querida, mais ardor terias.

Olho-te: cega ao meu olhar te fazes …
Falo-te – e com que fogo a voz levanto! –
Em v√£o… Finges-te surda √†s minhas frases…

Surda: e nem ouves meu amargo pranto!
Cega: e nem vês a nova dor que trazes
À dor antiga que doía tanto!

A verdade é que, como forma muitas vezes
não se harmoniza com a intenção da arte,
porque a matéria é surda a responder.

Falando Ao Céu

Falas ao Céu, Amor! Em vão tu falas!
Mas o céu, esse é velho, esse é velhinho,
Todo ele é branco, faz lembrar o linho
Dos leitos alvos onde tu te embalas.

A alma do céu é como velhas salas
Sem ar, sem luz, como lares sem vinho
Sem √°gua e p√£o, sem fogo e sem carinho,
Sem as mais toscas, as mais simples galas.

Sempre surdo, hoje o c√©u √© mudo, √© cego…
Jamais o coração ao céu entrego,
Eu que t√£o cego vou por entre abrolhos.

Mas se queres tornar jovem e louro
D√°-lhe o bord√£o do teu amor um pouco
Fala e vista, com a vida dos teus olhos…

Coroemo-nos Pois uns para os Outros

Tuas, não minhas, teço estas grinaldas,
Que em minha fronte renovadas ponho.
Para mim tece as tuas,
Que as minhas eu n√£o vejo.
Se n√£o pesar na vida melhor gozo
Que o vermo-nos, vejamo-nos, e, vendo,
Surdos conciliemos
O insubsistente surdo.
Coroemo-nos pois uns para os outros,
E brindemos uníssonos à sorte
Que houver, até que chegue
A hora do barqueiro.

Poupar a Vontade

Em compara√ß√£o com o comum dos homens, poucas coisas me atingem, ou, dizendo melhor, me prendem; pois √© razo√°vel que elas atinjam, contanto que n√£o nos possuam. Tenho grande zelo em aumentar pelo estudo e pela reflex√£o esse privil√©gio de insensibilidade, que em mim √© naturalmente muito saliente. Desposo – e consequentemente me apaixono por – poucas coisas. A minha vis√£o √© clara, mas detenho-a em poucos objectos; a sensibilidade, delicada e male√°vel. Mas a apreens√£o e aplica√ß√£o, tenho-a dura e surda: dificilmente me envolvo. Tanto quanto posso, emprego-me todo em mim; por√©m mesmo nesse objecto eu refrearia e suspenderia de bom grado a minha afei√ß√£o para que ela n√£o se entregasse por inteiro, pois √© um objecto que possuo por merc√™ de outr√©m e sobre o qual a fortuna tem mais direito do que eu. De maneira que at√© a sa√ļde, que tanto estimo, ser-me-ia preciso n√£o a desejar e n√£o me dedicar a ela t√£o desenfreadamente a ponto de achar insuport√°veis as doen√ßas. Devemos moderar-nos entre o √≥dio e o amor √† voluptuosidade; e Plat√£o receita um caminho mediano de vida entre ambos.
Mas √†s paix√Ķes que me distraem de mim e me prendem alhures, a essas certamente me oponho com todas as minhas for√ßas.

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Nascença Eterna

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.

Dist√Ęncia Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.

Os que te dizem n√£o,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Sen√£o seu olho cego, ouvido surdo?

Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.

Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.

Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que n√£o te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Sen√£o o dia de outras plagas.

Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.

Choro De Vagas

Não é de águas apenas e de ventos,
No rude som, formada a voz do Oceano.
Em seu clamor Рouço um clamor humano;
Em seu lamento – todos os lamentos.

S√£o de n√°ufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano;
Agarrados a um mastro, ou t√°bua, ou pano,
Vejo-os varridos de tuf√Ķes violentos;

Vejo-os na escurid√£o da noite, aflitos,
Bracejando ou já mortos e de bruços,
Largados das mar√©s, em ermas plagas…

Ah! que s√£o deles estes surdos gritos,
Este rumor de preces e soluços
E o choro de saudades destas vagas!

Essas inj√ļrias passavam despercebidas tanto pelo padre como pelo corcunda. Quas√≠modo era surdo demais e Cl√°udio pensador demais.

Soneto XXXIX

Argos para outras cousas, Polifemo
Só para esta, despois que a noite abraça,
Que astuto caçador da surda caça,
Que sereia te p√īs em tanto extremo?

Torna mancebo em ti, que a vida temo
Te seja a sombra deste teixo escassa,
Ou qual figueira ao touro te desfaça
O lustre, o brio, o teu valor supremo.

Deixa seco e sem glória o tronco verde
Com seus torcidos nós a branca hera,
Este de honra, ser, vida, te despoja.

Porque despois n√£o digas “quem soubera?”
O nome funeral de quem te perde,
Se ousa a língua dizê-lo, aqui se arroja.

Musa Impassível I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o c√Ęndido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos n√£o quero a l√°grima; n√£o quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

D√°-me o hemist√≠quio d’ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d’alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o √°spero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de m√°rmores partidos.

Ainda que f√īssemos surdos e mudos como uma pedra, a nossa pr√≥pria passividade seria uma forma de ac√ß√£o.

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo.
E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestra√ß√£o que no seu cr√Ęnio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a evers√£o do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo.

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!

Carpe Diem

Que faço deste dia, que me adora?
Peg√°-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou coloc√°-lo em m√ļsica, em palavra,
Ou grav√°-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas j√° se sombras vejo que se cobre
T√£o surdo ao sonho de ficar ‚Äď t√£o nobre.
J√° nele a luz da lua ‚Äď a morte ‚Äď mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)