Passagens sobre Leito

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Frases sobre leito, poemas sobre leito e outras passagens sobre leito para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Hino à Morte

Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu √Ęnimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas m√£os erguendo a inexor√°vel Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus
[passos,
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
‚ÄĒ Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus
[braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento…

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu √Ęnimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes,

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Quem é que Abraça o meu Corpo

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que falla da morte,
Docemente, ao meu ouvido?

√Čs tu, Senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

O nosso mundo esquece √†s vezes o valor especial do tempo passado junto ao leito dos doentes, porque somos avassalados pela pressa, pelo frenesim do fazer, do produzir, e nos esquecemos da dimens√£o da gratuitidade, de tomar conta. No fundo, por tr√°s desta atitude est√° com frequ√™ncia uma f√© morna, que esqueceu aquela palavra do Senhor que diz: ¬ęA mim mesmo o fizestes¬Ľ (Mateus 25:40).

No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas,
em meio às larvas e aos livores,
longe do mundo e dos terrores
que te infundia o aço das lanças;

longe dos reis e dos senhores
que te esqueceram nas andanças,
longe das taças e das danças,
e dos feéricos rumores;

longe das cálidas crianças
que ateavam fogo aos corredores
e se expandiam, quais vapores,
entre as alfaias e as faianças

de tua herdade, cujas flores
eram fatídicas e mansas,
mas que se abriam, fluidas tranças,
quando as tangiam teus pastores;

longe do fel, do horror, das dores,
é que recolho essas lembranças
e as deito agora, j√° sem cores,
no leito fundo em que descansas.

Cantata de Dido

J√° no roxo oriente branqueando,
As prenhes velas da troiana frota
Entre as vagas azuis do mar dourado
Sobre as asas dos ventos se escondiam.
A misérrima Dido,
Pelos paços reais vaga ululando,
C’os turvos olhos inda em v√£o procura
O fugitivo Eneias.
Só ermas ruas, só desertas praças
A recente Cartago lhe apresenta;
Com medonho fragor, na praia nua
Fremem de noite as solit√°rias ondas;
E nas douradas grimpas
Das c√ļpulas soberbas
Piam nocturnas, agoureiras aves.
Do marmóreo sepulcro
Atónita imagina
Que mil vezes ouviu as frias cinzas
De defunto Siqueu, com débeis vozes,
Suspirando, chamar: ‚Äď Elisa! Elisa!
D’Orco aos tremendos numens
Sacrifícios prepara;
Mas viu esmorecida
Em torno dos turícremos altares,
Negra escuma ferver nas ricas taças,
E o derramado vinho
Em pélagos de sangue converter-se.
Frenética, delira,
P√°lido o rosto lindo
A madeixa subtil desentrançada;
Já com trémulo pé entra sem tino
No ditoso aposento,
Onde do infido amante
Ouviu, enternecida,
Magoados suspiros, brandas queixas.
Ali as cruéis Parcas lhe mostraram
As ilíacas roupas que,

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Madrigal Excentrico

Tu que n√£o temes a Morte,
Nem a sombra dos cyprestes,
Escuta, Lyrio do Norte,
Os meus canticos agrestes:

……………………………………
……………………………………
……………………………………
……………………………………

Tu ignoras os desgostos
D’um cora√ß√£o torturado,
Mais tristes do que os soes postos,
Ou de que um bobo espancado!

Eu bem sei, ó Musa louca
Que n√£o conheces a magoa…
E tens um riso na boca
Como um cravo aberto n’agua…

Eu bem sei… bem sei que ris
Dos meus madrigaes modernos.
Sem cuidar, ó flor de liz!
Que h√£o de chegar-te os invernos!

Que nos corre a Mocidade,
Qual folha verde do val,
E ha de vir-te a tempestade,
√ď branco lyrio real!

Que has de ser como a açucena
Varrida pelo nordeste…
E os prantos da minha pena
Que h√£o de regar teu cypreste!

Que ha de a terra agreste e dura
Servir-te de ultimo leito…
E a pedra da sepultura
Quebrar teu corpo perfeito!

E has de, emfim, ser devorada
Na fria noute,

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A História da Humanidade em Três Palavras

Felipe lembrou-se da hist√≥ria do Rei do Oriente que, desejando conhecer a hist√≥ria da humanidade, recebeu de um s√°bio quinhentos volumes; ocupado com neg√≥cios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o s√°bio voltou e a sua hist√≥ria ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, j√° velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o s√°bio, velho e encanecido, trouxe um √ļnico volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, por√©m, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. A√≠ o s√°bio deu-lhe a hist√≥ria da humanidade numa √ļnica linha: “Nasceram, sofreram, morreram”.

Espectros

Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados
Me encheis as noites de agonia e susto!…

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia à mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,

Se a minh’alma h√°-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos tr√°gicos, malditos!
Se at√© dormindo, com ang√ļstia imensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!

Posse Cega

Afligir-se com o que se perdeu e não se rejubilar com o que foi salvo é necedade; só uma criança faria berreiro e atiraria fora o restante dos seus brinquedos se um lhe fosse tomado. Assim procedemos nós, quando a Fortuna nos é adversa num particular: tomamos o resto improfícuo com chorar e lamentarmo-nos.
РQue é que possuímos? Рpode-se perguntar.
Que é que não possuímos? Este homem uma reputação, esse uma família, aquele uma esposa, aquele outro um amigo. No seu leito de morte, Antipater de Tarso fez um inventário das boas coisas que lhe haviam sucedido na vida e nele incluiu, mesmo, uma viagem feliz, que fizera de Cilícia a Atenas. As coisas simples não devem ser negligenciadas, mas levadas em conta. Devemo-nos sentir gratos por estarmos vivos, bem, e por nos ser dado ver o sol; por não haver guerra nem revolução; por a terra e o mar estarem ao dispor de quem deseje plantar ou velejar; por nos ser consentido escolher entre falar e agir ou ficar quietos, em paz, gozando do nosso repouso.
A presença destas bençãos aumentará ainda mais o nosso contentamento se imaginarmos como seria se não estivessem presentes;

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Natal T√£o Pouco

Nasceu em Belém, ou Nazaré
(A nova teoria),
Este que nos é
O Pai-Nosso em cada dia?

Que importa onde nasceu,
Se num presépio, se num leito?
A verdade sou eu
A aguard√°-lo no peito.

Pois abro o coração
Pra o receber,
Quer venha ou n√£o
Do céu ou ventre de mulher.

Mas, ai! a adoração dura-me instantes!
Em breve irei neg√°-lo
Três vezes, antes
De cantar o galo!

Primeiras Vigílias

Dos revoltos lençóis sobre o deserto
Despejava-se, em ondas silenciosas,
O luar dessas noites vaporosas,
De seu l√Ęnguido c√°lix todo aberto.

Rangia a cama, e deslizavam, perto
Alvas, femíneas formas ondulosas;
E eu a idear, nas √Ęnsias amorosas,
Uns ombros nus, um colo descoberto.

E a gemer: – “Abeirai-vos de meu leito,
√ď sensuais vis√Ķes da adolesc√™ncia,
E inflamai-vos na pira em que me inflamo!

Fervem paix√Ķes despertas no meu peito;
Descai a flor virgínea da inocência,
E irrompe o fruto dolorido… Eu amo!”

Carpe Diem

Que faço deste dia, que me adora?
Peg√°-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou coloc√°-lo em m√ļsica, em palavra,
Ou grav√°-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas j√° se sombras vejo que se cobre
T√£o surdo ao sonho de ficar ‚Äď t√£o nobre.
J√° nele a luz da lua ‚Äď a morte ‚Äď mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

Junto Dele

Que terrivel tragedia ver a gente,
No seu exiguo e doloroso leito,
Uma creança morta, um Inocente,
Um pequenino Am√īr inda perfeito!

Oh que mimosa palidês tremente
A do g√©lido r√īsto contrafeito!
A as mãosinhas de cêra, docemente,
√ď d√īr, √≥ d√īr, cruzadas sobre o peito!

√ď Deus cruel que matas as Crean√ßas!
Auroras para o nosso coração,
Alegrias, alivios, esperanças!

Não sei quem és; eu não te entendo, Deus!
E penso, com terror, na escurid√£o
Desse teu Reino tragico dos C√©us…

Ode à Esperança

1

Vem, vem, doce Esperan√ßa, √ļnico al√≠vio
Desta alma lastimada;
Mostra, na c’roa, a flor da Amendoeira,
Que ao Lavrador previsto,
Da Primavera próxima dá novas.

2

Vem, vem, doce Esperança, tu que animas
Na escravid√£o pesada
O aflito prisioneiro: por ti canta,
Condenado ao trabalho,
Ao som da braga, que nos pés lhe soa,

3

Por ti veleja o pano da tormenta
O marcante afouto:
No mar largo, ao saudoso passageiro,
(Da sposa e dos filhinhos)
Tu lhe pintas a terra pelas nuvens.

4

Tu consolas no leito o lasso enfermo,
C’os ares da melhora,
Tu d√°s vivos clar√Ķes ao moribundo,
Nos j√° vidrados olhos,
Dos horizontes da Celeste P√°tria.

5

Eu já fui de teus dons também mimoso;
A vida largos anos
Rebatida entre acerbos infort√ļnios
A sustentei robusta
Com os pomos de teus vergéis viçosos.

6

Mas agora, que M√°rcia vive ausente;
Que n√£o me alenta esquiva
C’o brando mimo dum de seus agrados,

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Insatisfeito

Quem ler os versos meus onde h√° certa tristeza
e certo desencanto suave e contrafeito,
poder√° num momento pensar, com certeza,
que trago inutilmente um cora√ß√£o no peito!…

E que vivo afinal inquieto e insatisfeito
de paix√£o em paix√£o… de surpresa em surpresa,
– como um rio a mudar o curso do seu leito
sem saber aonde o arrasta a própria correnteza!

E acertar√° talvez, – pois falta essa mulher
que consiga escrever seu nome em minha vida
sem deixar no passado outro nome qualquer…

Falta-me um grande amor… Falta-me tudo em suma!
E sinto a alma vazia, estranha e incompreendida
por ter amado tantas sem amar nenhuma!

Os Figos Pretos

РVerdes figueiras soluçantes nos caminhos!
Vós sois odiadas desde os seculos avós:
Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

– √ď verdes figueiras! √≥ verdes figueiras
Deixae-o fallar!
√Ā vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
Que bom que é amar!

– O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

– Quando eu for defunta para os esqueletos,
Ponde uma ao meu lado:
Tristinha, chorando, dar√† figos pretos…
De luto pezado!

– Os alde√Ķes para evitar vosso perfume
Sua respira√ß√£o suspendem, ao passar…
Com vossa lenha n√£o se accende, √° noite, o lume,
Os carpinteiros n√£o vos querem aplainar.

– Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
Que incensa o Senhor!
Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
Para o meu amor…

– As outras arvores n√£o s√£o vossas amigas…
M√£os espalmadas, estendidas, supplicantes,

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Aprendamos, Amor

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, t√£o longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.

Bailados do Luar

Pétalas de rosas
tombam lentamente, silenciosas…
E de vagar
vem entrando
a far√Ęndola r√≠tmica
e silente
dos g√≥ticos bailados do luar!…

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido…
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
p√°lido e vencido!…

No espaço azul e vago,
esvoaça subtiltmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!…

Estilhaçam-se, vibrando
numa √Ęnsia doentia,
os meus nervos nost√°lgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado…

As rosas v√£o tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada…
dos esp√°smicos beijos do luar…
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,

a procurar-te!

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F√°bula

Estavam ali diante dos meus olhos: era terrível e ao mesmo tempo fascinante.
Ao princípio pensei que ele a estava a matar, logo a seguir percebi que não, que talvez ambos estivessem a morrer, só depois qualquer apelo distante se fez carne em mim. Então todo eu fiquei amarrado aos seus gestos, àquela respiração fatigada e difícil, àquele balbucio que lhes saía ralo da boca.
Os seio de Maria ca√≠am nus da blusa. Uma das m√£os do carpinteiro perdia-se nos seus cabelos emaranhados, a outra parecia ter-se enterrado na areia. O resto era aquele corpo todo d√® homem: r√≠gido e fremente, ao mesmo tempo, √† for√ßa de concentrar todo o √≠mpeto nas n√°degas, arco de onde a flecha partia, para se cravar exasperada nas entranhas da rapariga. Parecia um cavalo ofegante ‚ÄĒ os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espa-lhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o c√©u branco de agosto. Mas a terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim a paz desceu ao mundo.
Maria olhava o carpinteiro com olhos rasos de espanto, como quem tivesse perdido tudo naquele instante.

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