Textos sobre Amargos

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Textos de amargos escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Um Infinito Domingo à Tarde

Regra geral, um ser humano agora vive tanto que acaba por arrastar muito mais penas do que as que lhe dizem respeito, e isso acaba por notar-se-lhe no rosto. Uma das consequ√™ncias da crescente longevidade do habitante das sociedades desenvolvidas, em que, por outro lado, n√£o se costuma pensar demasiado, √© que, contrariamente ao que sucedia h√° algumas d√©cadas, os velhos de hoje t√™m tempo para assistir √† devasta√ß√£o da vida dos filhos, veem-nos praticamente envelhecer, fracassar, cansar-se da luta. Antes, na hora da morte dos pais, os filhos eram ainda fortes, tinham projetos, mulheres bonitas, um futuro aparentemente luminoso. Agora √© f√°cil que um av√ī contemple antes de morrer o div√≥rcio do neto (v√™-o aos domingos sentar-se √† mesa na casa da fam√≠lia, sem um c√™ntimo, com a camisa amarrotada), enquanto no mundo anterior a este, por raz√Ķes de tempo, o neto n√£o era mais do que uma crian√ßa que √†s vezes ia buscar √£ escola, a quem dava a m√£o no regresso a casa e ajudava a conseguir nos alfarrabistas os cromos que lhe faltavam na sua cole√ß√£o de futebolistas. Hoje, o velho que morre n√£o abandona um mundo em marcha cheio de projetos e promessas, como sucedia dantes,

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Lucidez Orgulhosa

Os te√≥logos h√° muito o notaram: a esperan√ßa √© o fruto da paci√™ncia. Dever√≠amos acrescentar: e da mod√©stia. O orgulhoso n√£o tem tempo de esperar… Sem querer nem poder estar √† espera, for√ßa os acontecimentos, como for√ßa a sua natureza; amargo, corrompido, quando esgota as suas revoltas, abdica: para ele, n√£o h√° qualquer forma interm√©dia. √Č ineg√°vel que √© l√ļcido; mas n√£o esque√ßamos que a lucidez √© pr√≥pria daqueles que, por incapacidade de amar, se dessolidarizam tanto dos outros como de si pr√≥prios.

Porqu√™ Camuflar as Nossas Convic√ß√Ķes?

Desde que nos propomos emitir uma verdade de acordo com as nossas convic√ß√Ķes damos logo a impress√£o de fazer ret√≥rica. Que esp√©cie de prestidigita√ß√£o vem a ser essa? Como √© que nos nossos dias n√£o poucas verdades, proferidas que sejam, por vezes, mesmo em tom pat√©tico, imediatamente ganham aspectos ret√≥ricos? Porqu√™ √© que na nossa √©poca cada vez h√° mais necessidade, quando pretendemos dizer a verdade, de recorrer ao humor, √† ironia, √† s√°tira? Porqu√™ ado√ßar a verdade como se se tratasse de uma p√≠lula amarga? Porqu√™ envolver as nossas convic√ß√Ķes num misto de altiva indiferen√ßa, digamos, de desprezo para com o p√ļblico? Numa palavra, porqu√™ certo ar de p√≠cara condescend√™ncia? Em nossa opini√£o, o homem de bem n√£o tem de envergonhar-se das suas convic√ß√Ķes, ainda mesmo que estas transpare√ßam sob a forma ret√≥rica, sobretudo se est√° certo delas.

Escravo de Si Mesmo

A suposi√ß√£o de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e import√Ęncia, tudo o que ela possa fazer ou produzir √© um elemento indispens√°vel da dignidade humana. (…) S√≥ os vulgares consentir√£o em atribuir a sua dignidade ao que fizeram; em virtude dessa condescend√™ncia ser√£o ¬ęescravos e prisioneiros¬Ľ das suas pr√≥prias faculdades e descobrir√£o, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo √© t√£o ou mais amargo e humilhante que ser escravo de outrem.

√Č por ter Esp√≠rito que me Aborre√ßo

√Č preciso esconjurar, da forma que nos for poss√≠vel, este diabo de vida que n√£o sei porque √© que nos foi dada e que se torna t√£o facilmente amarga se n√£o opusermos ao t√©dio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. √Č preciso, numa palavra, agitar este corpo e este esp√≠rito que se delapidam um ao outro na estagna√ß√£o e numa indol√™ncia que se confunde com um torpor. √Č preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho – e reciprocamente: s√≥ assim estes parecer√£o, ao mesmo tempo, agrad√°veis e salutares. Um desgra√ßado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadi√°veis, deve ser, sem d√ļvida, extremamente infeliz, mas um indiv√≠duo que n√£o fa√ßa mais do que divertir-se n√£o encontrar√° nas suas distrac√ß√Ķes nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o t√©dio e que este o prende pelos cabelos – como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detr√°s de cada distrac√ß√£o e espreitasse por cima do nosso ombro.
Não julgue, cara amiga, que eu só porque trabalho regularmente estou isento das investidas deste terrível inimigo; penso que, quando se tem uma certa disposição de espírito, é preciso termos uma imensa energia de forma a não nos deixarmos absorver e conseguir escapar,

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A Memória é Como o Ventre da Alma

Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória.
N√£o √© isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o esp√≠rito √© uma coisa e o corpo √© outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, n√£o √© de admirar. Aqui, por√©m, o esp√≠rito √© a mem√≥ria. Efectivamente, quando confiamos a algu√©m qualquer neg√≥cio, para que se lhe grave na mem√≥ra, dizemos-lhe: ¬ęv√™ l√°, grava-o bem no teu esp√≠rito¬Ľ. E quando nos esquecemos, exclamamos: ¬ęn√£o o conservei no esp√≠rito¬Ľ, ou ent√£o: ¬ęescapou-se-me do esp√≠rito¬Ľ; portanto, chamamos esp√≠rito √† pr√≥pria mem√≥ria.
Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?
N√£o h√° d√ļvida que a mem√≥ria √© como o ventre da alma. A alegria, por√©m, e a tristeza s√£o o seu alimento,

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O Cuidado pela Posteridade é Maior naqueles que não Deixam Posteridade

As alegrias dos pais s√£o secretas, como tamb√©m o s√£o os desgostos e os receios: n√£o sabem exprimir as primeiras, n√£o querem exprimir os segundos. As crian√ßas tornam mais suaves os nossos trabalhos, mas tornam amargas as nossas desgra√ßas; acrescem os cuidados da vida, mas mitigam a lembran√ßa da morte. A perpetuidade pela gera√ß√£o √© comum aos animais; mas a gl√≥ria, o m√©rito, e os nobres feitos s√£o pr√≥prios do homem. E certamente observar-se-√° que as obras e as institui√ß√Ķes mais nobres prov√™m de homens sem filhos, homens que transmitiram as imagens do seu esp√≠rito, j√° que n√£o transmitiram as dos seu corpo. Assim o cuidado pela posteridade √© maior naqueles que n√£o deixam posteridade.

Nunca Mostrar Espírito e Entendimento

Como ainda √© inexperiente quem sup√Ķe que, ao mostrar esp√≠rito e entendimento, recorre a um meio seguro para fazer-se benquisto em sociedade! Na verdade, na maioria das pessoas, tais qualidades despertam √≥dio e rancor, que ser√£o t√£o mais amargos quanto quem os sentir n√£o tiver o direito de externar o motivo, chegando at√© a dissimul√°-lo para si mesmo. Isso acontece da seguinte forma: se algu√©m nota e sente uma grande superioridade intelectual naquele com quem fala, ent√£o conclui tacitamente e sem consci√™ncia clara que este, em igual medida, notar√° e sentir√° a sua inferioridade e a sua limita√ß√£o. Essa conclus√£o desperta o √≥dio, o rancor e a raiva mais amarga.
(…) Mostrar esp√≠rito e entendimento √© uma maneira indirecta de repreender nos outros a sua incapacidade e estupidez. Ademais, o indiv√≠duo comum revolta-se ao avistar o seu oposto, sendo a inveja o seu instigador secreto. A satisfa√ß√£o da vaidade √©, como se pode ver diariamente, um prazer que as pessoas colocam acima de qualquer outro, mas que s√≥ √© poss√≠vel por interm√©dio da compara√ß√£o delas pr√≥prias com os demais. No entanto, nenhum m√©rito torna o homem mais orgulhoso do que o intelectual: s√≥ neste repousa a sua superioridade em rela√ß√£o aos animais.

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A Tranquilidade do Assumir da Nossa Condição

Temos pelos nobres e para as pessoas de destaque um c√≠ume est√©ril, ou um √≥dio impotente que n√£o nos vinga de seu esplendor e eleva√ß√£o, e s√≥ faz acrescentar √† nossa pr√≥pria mis√©ria o peso insuport√°vel da felicidade alheia: que fazer contra uma doen√ßa de alma t√£o inveterada e contagiosa? Contentemo-nos com pouco e com menos ainda, se poss√≠vel; saibam perder na ocasi√£o; a receita √© infal√≠vel, e concordo em experiment√°-la: evito com isso ser empurrado na porta pela multid√£o de clientes ou cortes√£os que a casa de um ministro despeja diversas vezes por dia; penar na sala de audi√™ncia, pedir tremendo ou balbuciando uma coisa justa; suportar a gravidade do ministro, o seu riso amargo, e o seu laconismo. Ent√£o n√£o o odeio mais, e n√£o o invejo mais; ele n√£o me faz nenhuma s√ļplica, eu n√£o lhe fa√ßo nenhuma; somos iguais, a n√£o ser no facto dele n√£o estar tranquilo, e eu estar.
(…) Deve-se silenciar sobre os poderosos; h√° quase sempre adula√ß√£o ao dizer bem deles; h√° perigo em dizer mal enquanto vivem, e cobardia quando j√° morreram.

Sinceridade Proscrita

A verdade permanece sepultada sob as m√°ximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver √† arte de viver com baixeza. N√£o se p√Ķe diferen√ßa entre conhecer o mundo e engan√°-lo; e a cerim√≥nia, que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.
A ingenuidade deixa-se aos esp√≠ritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza √© olhada como um v√≠cio na educa√ß√£o. Nada de pedir que o cora√ß√£o saiba manter o seu lugar; basta que fa√ßamos como os outros. √Č como nos retratos, aos quais n√£o se exige mais do que parecen√ßa. Cr√™-se ter achado o meio de tornar a vida deliciosa, atrav√©s da do√ßura da adula√ß√£o.
Um homem simples que n√£o tem sen√£o a verdade a dizer √© olhado como o perturbador do prazer p√ļblico. Evitam-no, porque n√£o agrada; evita-se a verdade que anuncia, porque √© amarga; evita-se a sinceridade que professa porque n√£o d√° frutos sen√£o selvagens; temem-na porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais cara das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel, que faz com que nos vejamos t√£o disformes como somos.
Não há por que nos espantarmos, se ela é rara: é expulsa, proscrita por toda a parte.

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Dar Estilo ao Seu Car√°cter

¬ęDar estilo¬Ľ ao seu car√°cter… √© uma arte deveras consider√°vel que raramente se encontra! Para a exercer √© necess√°rio que o nosso olhar possa abranger tudo o que h√° de for√ßas e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, at√© que cada uma apare√ßa na sua raz√£o e na sua beleza e que as pr√≥prias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-√° acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se ter√° tirado um peda√ßo da primeira, √† custa, nos dois casos, de um paciente exerc√≠cio e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfar√ßou-se uma fealdade que se n√£o podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande n√ļmero de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: dar√£o os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a press√£o de um mesmo gosto que dominou e afei√ßoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Ser√£o as naturezas fortes e dominadoras que apreciar√£o as alegrias mais subtis nesta opress√£o,

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Os insensatos, que acreditam serem s√°bios, s√£o inimigos de si mesmos; fazem m√°s ac√ß√Ķes, das quais, por fim, s√≥ colhem frutos amargos.

Génio, Talento e Celebridade

Pode-se supor que a presen√ßa no mesmo homem de mais de um elemento intelectual facilitaria a sua imediata celebridade. At√© certo limite √© assim, mas o √© at√© um limite menor do que se poderia conjecturar na ociosidade da hip√≥tese. Um homem dotado ao mesmo tempo de grande g√©nio e de grande intelig√™ncia (como Shakespeare), ou de grande g√©nio e grande talento (como Milton), n√£o acumula na sua √©poca ou na seguinte os resultados do g√©nio e os resultados de outra qualidade. √Č que estes diferentes elementos intelectuais est√£o misturados por coexistirem no homem, e derrama-se na subst√Ęncia da intelig√™ncia ou do talento o sagrado veneno do g√©nio; a bebida √© amarga, embora retenha algo do seu gosto comum. Os antigos misturavam mel com vinho e achavam isso gostoso; mas o n√©ctar n√£o pode fazer qualquer vinho gostoso ao paladar da gente comum.
Um homem que pudesse ter em si pr√≥prio, em certo grau, g√©nio, talento e intelig√™ncia, estaria preparado para produzir impacto no seu tempo pela sua intelig√™ncia, na sua √©poca pelo seu talento e na generalidade dos futuros tempos e √©pocas pelo seu g√©nio. Mas como o seu g√©nio afectaria o seu talento e o seu talento e o seu g√©nio a sua intelig√™ncia –

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Conduta Apropriada

A maior parte das pessoas deixa-se irritar e exasperar pelos actos de neglig√™ncia, n√£o apenas de parentes e amigos como, inclusive, dos inimigos. Os ralhos, a irascibilidade, a inveja, a malevol√™ncia e o ci√ļme maligno s√£o pr√≥prios, t√£o-somente, das pessoas infectadas por tais pestil√™ncias, que afligem e oprimem gente insensata; brigas de vizinhos, apatia de amigos, mau procedimento de funcion√°rios no desempenho das suas obriga√ß√Ķes, s√£o inst√Ęncias disso. Coloca-te em lugar de destaque na lista das pessoas que abominam semelhante conduta; como os doutores em S√≥focles, que ¬ębile amarga com rem√©dio amargo purgam¬Ľ, exibes indigna√ß√£o e exaspera√ß√£o para fazer parelha com as suas paix√Ķes e destemperos. Isto √© il√≥gico. O neg√≥cio confiado √† tua administra√ß√£o √© realizado, em boa parte, n√£o por pessoas de car√°cter recto e direito, como instrumentos apropriados √† execu√ß√£o de um trabalho, mas por ferramentas tortas e defraudadas. N√£o imagines que seja de tua responsabilidade corrigi-las, ou que tal seja f√°cil de fazer. Mas se as usares de conformidade com o que s√£o, do mesmo modo por que os m√©dicos usam botic√Ķes ou pin√ßas cir√ļrgicas, revestindo-te da calma e da modera√ß√£o exigidas pela situa√ß√£o, o prazer que experimentar√°s com a tua s√°bia conduta ser√° maior do que o teu vexame pela crueza e deprava√ß√£o dos outros.

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Dist√Ęncia e Longa Aus√™ncia Prejudicam Qualquer Amizade

Dist√Ęncia e longa aus√™ncia prejudicam qualquer amizade, por mais desgostoso que seja admiti-lo. As pessoas que n√£o vemos, mesmo os amigos mais queridos, aos poucos se evaporam no decurso do tempo at√© ao estado de no√ß√Ķes abstractas, e o nosso interesse por elas torna-se cada vez mais racional, de tradi√ß√£o. Por outro lado, conservamos interesse vivo e profundo por aqueles que temos diante dos olhos, nem que sejam apenas os animais de estima√ß√£o. T√£o presa aos sentidos √© a natureza humana. Por isso, aqui tamb√©m s√£o s√°bias as palavras de Goethe: O tempo presente √© um deus poderoso.
Os amigos da casa s√£o chamados assim com justeza, pois s√£o amigos mais da casa do que do dono, portanto, assemelham-se antes aos gatos do que aos c√£es.
Os amigos dizem-se sinceros; os inimigos o são. Sendo assim, deveríamos usar a censura destes para nosso autoconhecimento, como se fosse um remédio amargo.
Os amigos são raros na necessidade? Não, pelo contrário! Mal fazemos amizade com alguém, e logo ele estará em dificuldade, pedindo dinheiro emprestado.

O Perfeito Controle da Alegria e da Dor

Alegria desmedida e dor muito violenta acometem sempre e apenas a mesma pessoa: pois ambas se condicionam reciprocamente e s√£o tamb√©m condicionadas juntas por uma grande vivacidade do esp√≠rito. Ambas s√£o causadas, n√£o pelo simples presente, mas pela antecipa√ß√£o do futuro. No entanto, visto que a dor √© essencial √† vida e, pelo seu grau, √© tamb√©m determinada pela natureza do sujeito – o que implica que, na realidade, modifica√ß√Ķes repentinas, sendo sempre externas, n√£o podem mudar o seu grau -, na base do j√ļbilo ou da dor excessivos h√° sempre um erro e uma falsa cren√ßa: por conseguinte, essas duas exalta√ß√Ķes do esp√≠rito poderiam ser evitadas com o uso do ju√≠zo.

Todo o j√ļbilo desmedido repousa sempre na ilus√£o de ter encontrado na vida algo que n√£o se pode encontrar realmente, isto √©, uma satisfa√ß√£o dur√°vel dos desejos ou preocupa√ß√Ķes tormentosos e sempre renascentes. Mais tarde, √© inevit√°vel que nos separemos de cada ilus√£o dessa esp√©cie, pagando-a ent√£o, quando desaparece, com igual dor amarga, independentemente da alegria que o seu surgimento nos tenha proporcionado.
Nesse sentido, ela assemelha-se por completo a uma altura da qual o √ļnico momento de descer novamente √© a queda, de maneira que deveria ser evitada: e toda a dor repentina ou excessiva √© justamente apenas a queda de tal altura,

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Amizade Sem Sinceridade

Acredita-se ter encontrado um meio de tornar a vida deliciosa atrav√©s da bajula√ß√£o. Um homem simples que apenas diz a verdade √© visto como o perturbador do prazer p√ļblico. Foge-se dele porque n√£o agrada a ningu√©m; foge-se da verdade que ele enuncia, porque √© amarga; foge-se da sinceridade que proclama porque apenas traz frutos selvagens; tem-se receio dela porque humilha, porque revolta o orgulho que √© a mais estimada das paix√Ķes, porque √© um pintor fiel que nos faz ver qu√£o disformes somos.
N√£o admira que seja t√£o rara: em toda a parte (a sinceridade) √© perseguida e proscrita. Coisa maravilhosa, ela encontra a custo um ref√ļgio no seio da amizade.
Sempre seduzidos pelo mesmo erro, só fazemos amigos para ter pessoas particularmente destinadas a nos agradarem: a nossa estima resume-se à sua complacência; o fim dos consentimentos acarreta o fim da amizade. E quais são esses consentimentos? O que é que mais nos agrada nos amigos? São os contínuos elogios que lhes cobramos como tributos.
A que se deve que j√° n√£o haja verdadeira amizade entre os homens? Que esse nome n√£o seja mais do que uma armadilha que empregam com vileza para seduzir? ¬ę√Č, diz um poeta (Ov√≠dio),

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