Textos sobre Evidência

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Textos de evidência escritos por poetas consagrados, filósofos e outros autores famosos. Conheça estes e outros temas em Poetris.

Os Feitos Simples s√£o os Mais Elogiados e Lembrados

Duas pátrias produziram dois heróis: de Tebas saiu Hércules; de Roma saiu Catão. Foi Hércules aplauso da orbe, foi Catão enfado de Roma. A um admiraram todos, ao outro esquivaram-se os romanos. Não admite controvérsia a vantagem que levou Catão a Hércules, pois o excedeu em prudência; mas ganhou Hércules a Catão em fama. Mais de árduo e primoroso teve o assunto de Catão, pois se empenhou em sujeitar os monstros dos costumes, e Hércules os da natureza; mas teve mais de famoso o do tebano. A diferença consistiu em que Hércules empreendeu façanhas plausíveis e Catão odiosas. A plausibilidade do cargo levou a glória de Alcides (nome anterior de Hércules) aos confins do mundo, e passará ainda além deles caso se alarguem. O desaprezível do cargo circunscreveu Catão ao interior das muralhas de Roma.
Com tudo isto, preferem alguns, e não os menos judiciosos, o assunto primoroso ao mais plausível, e pode mais com eles a admiração de poucos que o aplauso de muitos, sendo vulgares. Os milagres de ignorantes apelam aos empenhos plausíveis. O árduo, o primoroso de um superior assunto poucos o percebem, embora eminentes, sendo assim raros os que nele acreditam. A facilidade do plausível permite-se a todos,

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Entender, mais pelo Sentir que pela Raz√£o

Uma verdade só o é quando sentida Рnão quando apenas entendida. Ficamos gratos a quem no-la demonstra para nos justificarmos como humanos perante os outros homens e entre eles nós mesmos. Mas a força dessa verdade está na força irrecusável com que nos afirmamos quem somos antes de sabermos porquê.
Assim nos é necessário estabelecer a diferença entre o que em nós é centrífugo e o que apenas é centrípeto. Nós somos centrifugamente pela irrupção inexorável de nós com tudo o que reconhecido ou não Рe de que serve reconhecê-lo ou não? Рcomo centripetamente provindo de fora, se nos recriou dentro no modo absoluto e original de se ser.
S√≥ assim entenderemos que da ¬ędiscuss√£o¬Ľ quase nunca nas√ßa a ¬ęluz¬Ľ, porque a luz que nascer √© normalmente a de duas pedras que se chocam. Da discuss√£o n√£o nasce a luz, porque a luz a nascer seria a que iluminasse a obscuridade de n√≥s, a profundeza das nossas sombras profundas.
Decerto uma ideia que nos semeiem pode germinar e por isso as ideias √© necess√°rio que no-las semeiem. Mas a sua fertilidade n√£o est√° na nossa m√£o ou na estrita qualidade da ideia semeada, porque o que somos profundamente s√≥ se altera quando isso que somos o quer –

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Pergunta e Interrogação

Uma pergunta não interroga: uma pergunta diz a resposta. Porque uma pergunta está do lado do problema a resolver, do ainda simplesmente desconhecido; e a interrogação está do lado do insondável. A pergunta desenvolve-se na clara horizontalidade; a interrogação, na obscura verticalidade.
Como em jogo de cabra-cega, em que h√° seres √† nossa volta, a pergunta orienta-se entre os que lhe n√£o pertencem at√© achar o que procura. Mas a interroga√ß√£o n√£o encontra, porque nada h√° para achar. O limite da sua esperan√ßa est√° menos no triunfo de um encontro, do que no cansa√ßo, na resigna√ß√£o, ou na evid√™ncia natural do que nos coube, como nos √© evidente e tranquilo o termos cinco sentidos e n√£o mais. Mas at√© l√° o caminho √© longo e inimagin√°vel na imobilidade desta noite. Verdadeiramente √© √ļnica a sorte que nos visitou. Legaram-nos a tradi√ß√£o da pergunta-e-resposta como o passatempo de um jogo. Porque at√© mesmo o interrogar degenerou depressa em pergunta.

Os Professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que √© trabalhado pelos professores n√£o pode ser quantificado. N√£o h√° n√ļmeros ou casas decimais com suficiente precis√£o para medi-lo. A falta de quantifica√ß√£o n√£o √© culpa dos assuntos inquantific√°veis, √© culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores n√£o vendem o material que trabalham, oferecem-no. N√≥s, com o tempo, com os anos, com a dist√Ęncia entre n√≥s e n√≥s, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material √© nosso, achamos que n√≥s pr√≥prios somos esse material. Por ironia ou capricho, √© nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva.

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O Destino de Cada Homem é o Seu Maior Prazer

No ser vivo toda a necessidade essencial, que brota do pr√≥prio ser e n√£o lhe adv√©m de fora acidentalmente, vai acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade √© a cara, a facies da felicidade. E todo o ser √© feliz quando satisfaz o seu destino, isto √©, quando segue a encosta da sua inclina√ß√£o, da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando est√° a ser o que √© na verdade. Por esta raz√£o Schlegel dizia, invertendo a rela√ß√£o entre voluptuosidade e destino: ¬ęPara o que nos agrada temos g√©nio¬Ľ. O g√©nio, isto √©, o dom superlativo de um ser para fazer alguma coisa tem sempre simultaneamente uma fisionomia de supremo prazer. Num dia que est√° pr√≥ximo e gra√ßas a uma transbordante evid√™ncia vamo-nos ver surpreendidos e obrigados a descobrir o que agora somente parecer√° uma frase: que o destino de cada homem √©, ao mesmo tempo, o seu maior prazer.

A Celebridade é um Plebeísmo

Às vezes, quando penso nos homens célebres, sinto por eles toda a tristeza da celebridade.
A celebridade √© um plebe√≠smo. Por isso deve ferir uma alma delicada. √Č um plebe√≠smo porque estar em evid√™ncia, ser olhado por todos inflige a uma criatura delicada uma sensa√ß√£o de parentesco exterior com as criaturas que armam esc√Ęndalo nas ruas, que gesticulam e falam alto nas pra√ßas. O homem que se torna c√©lebre fica sem vida √≠ntima: tornam-se de vidro as paredes da sua vida dom√©stica; √© sempre como se fosse excessivo o seu traje; e aquelas suas m√≠nimas ac√ß√Ķes – ridiculamente humanas √†s vezes – que ele quereria invis√≠veis, coa-as a lente da celebridade para espectaculosas pequenezes, com cuja evid√™ncia a sua alma se estraga ou se enfastia. √Č preciso ser muito grosseiro para se poder ser c√©lebre √† vontade.
Depois, al√©m dum plebe√≠smo, a celebridade √© uma contradi√ß√£o. Parecendo que d√° valor e for√ßa √†s criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de g√©nio desconhecido pode gozar a vol√ļpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu g√©nio; e pode, pensando que seria c√©lebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que √© ele pr√≥prio.

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O Homem-Massa

Numa boa ordena√ß√£o das coisas p√ļblicas, a massa √© o que n√£o actua por si mesma. Tal √© a sua miss√£o. Veio ao mundo para ser dirigida, influ√≠da, representada, organizada ‚Äď at√© para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas n√£o veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir a sua vida √† inst√Ęncia superior, constitu√≠da pelas minorias excelentes. Discuta-se quanto se queira quem s√£o os homens excelentes; mas que sem eles ‚Äď sejam uns ou outros ‚Äď a humanidade n√£o existiria no que tem de mais essencial, √© coisa sobre a qual conv√©m que n√£o haja d√ļvida alguma, embora leve a Europa todo um s√©culo a meter a cabe√ßa debaixo da asa, ao modo dos estr√ļcios para ver se consegue n√£o ver t√£o radiante evid√™ncia. Porque n√£o se trata de uma opini√£o fundada em factos mais ou menos frequentes e prov√°veis, mas numa lei da ¬ęf√≠sica¬Ľ social, muito mais incomov√≠vel que as leis da f√≠sica de Newton. No dia em que volte a imperar na Europa uma aut√™ntica filosofia ‚Äď √ļnica coisa que pode salv√°-la ‚Äď, compreender-se-√° que o homem √©, tenha ou n√£o vontade disso, um ser constitutivamente for√ßado a procurar uma inst√Ęncia superior.

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Só o Homem Sabe que é Mortal

A √ļnica certeza da vida √© a morte. E √© a certeza em que menos se acredita. Toda a hist√≥ria do mundo assentou sempre na ignor√Ęncia de que se √© mortal. Aqueles mesmo que o sabem n√£o o v√™em ‚ÄĒ a n√£o ser em instantes de excep√ß√£o. Que seria o mundo com essa evid√™ncia sempre presente? S√≥ o homem sabe que √© mortal. Mas raramente o homem sobe at√© si. O animal pesa nele, mesmo no que n√£o √© do animal. Assim a arte, a cultura, poucas vezes funcionam como o que √© para o esp√≠rito, sendo para o que √© da nossa grosseria.

De que Serve Discutir as Ideologias?

Para compreendermos o homem e as suas necessidades, para o conhecermos naquilo que ele tem de essencial, n√£o precisamos de p√īr em confronto as evid√™ncias das nossas verdades. Sim, t√™m raz√£o. T√™m todos raz√£o. A l√≥gica demonstra tudo. Tem raz√£o aquele que rejeita que todas as desgra√ßas do mundo recaiam sobre os corcundas. Se declararmos guerra aos corcundas, aprenderemos rapidamente a exaltar-nos. Vingaremos os crimes dos corcundas. E, sem d√ļvida, tamb√©m os corcundas cometem crimes.
A fim de tentarmos separar este essencial, √© necess√°rio esquecermos por um instante as divis√Ķes que, uma vez admitidas, implicam todo um Cor√£o de verdades inabal√°veis e o inerente fanatismo. Podemos classificar os homens em homens de direita e em homens de esquerda, em corcundas e n√£o corcundas, em fascistas e em democratas, e estas distin√ß√Ķes s√£o incontest√°veis.
Mas sabem que a verdade é aquilo que simplifica o mundo, e não aquilo que cria o caos. A verdade é a linguagem que desencadeia o universal.
Newton n√£o ¬ędescobriu¬Ľ uma lei h√° muito disfar√ßada de solu√ß√£o de enigma, Newton efectuou uma opera√ß√£o criativa. Instituiu uma linguagem de homem capaz de exprimir simultaneamente a queda da ma√ß√£ num prado ou a ascens√£o do sol.

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As Novas Verdades

Nenhuma verdade nova, e completamente estranha √†s opini√Ķes correntes, quando demonstrada pelo primeiro que dela se apercebeu, ainda que com uma evid√™ncia e uma exactid√£o id√™nticas ou semelhantes √†s da geometria, conseguiu nunca, se as demonstra√ß√Ķes n√£o foram de natureza material, introduzir-se e fixar-se no mundo imediatamente, mas s√≥ com o decorrer do tempo, atrav√©s da pr√°tica e do exemplo: habituando-se os homens a acreditar nela como em qualquer outra coisa; ou melhor, acreditando geralmente por habitua√ß√£o e n√£o pela exactid√£o de experi√™ncias concebidas no seu esp√≠rito.
At√© que por fim essa verdade, come√ßando a ser ensinada √†s crian√ßas, √© comummente aceite, evocado com espanto o seu desconhecimento, e escarnecidas as opini√Ķes diferentes, tanto dos antepassados como dos contempor√Ęneos. E isto com tanto mais dificuldade e demora quanto maiores e mais importantes foram essas novas e incr√≠veis verdades, e, por conseguinte, subversoras de um maior n√ļmero de opini√Ķes radicadas nos esp√≠ritos. Nem mesmo os intelectos perspicazes e treinados sentem facilmente toda a efici√™ncia das raz√Ķes que demonstram essas verdades ianuditas e que excedem em muito os limites dos conhecimentos e dos h√°bitos desses intelectos, principalmente quando essas raz√Ķes e essas verdades se op√Ķem √†s cren√ßas neles arreigadas.

A Entrega Real

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu inv√≥lucro, e sem limite eu era. Por n√£o ser, era. At√© ao fim daquilo que eu n√£o era, eu era. O que n√£o sou eu, eu sou. Tudo estar√° em mim, se eu n√£o for; pois ‘eu’ √© apenas um dos espasmos instant√Ęneos do mundo.
Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior Рé tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana Рe só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.
E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só me posso agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

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O Medo do Fim

Alguns pensam que a felicidade √© a aus√™ncia de sofrimento… mas, na verdade, est√° errada essa ideia. A felicidade e o sofrimento s√£o ambos pilares fundamentais da exist√™ncia. Sem sofrimento a nossa humanidade n√£o seria provada e os nossos dias n√£o teriam valor. Assim tamb√©m a felicidade, sendo a alegria mais profunda, √© o que d√° sentido a todas as noites… n√£o s√£o realidades que se possam medir, mas n√£o deixam de ser algo t√£o concreto como as nossas duas m√£os, que sempre trabalham em conjunto, sabendo cada uma o seu papel e o seu valor.

Evitar a dor n√£o nos torna mais fortes.

Tememos as perdas. Tememos a morte. Talvez porque o nada é um abismo que assusta todos quantos têm uma vida com valor. Porque somos impelidos a defender o significado do que erguemos aqui. Não se quer aceitar que tudo quanto se construiu, durante uma vida, seja suprimido sem deixar rasto. Quantas vezes não é o momento do fim que se teme, mas antes o que se pode fazer até lá?
Caminhar rumo ao desconhecido é uma prova de coragem e de fé diante das evidências deste mundo. Os olhos não querem ver nem as pernas caminhar,

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O Poder da Ind√ļstria Cultural

O poder magn√©tico que sobre os homens exercem as ideologias, embora j√° se lhes tenham tornado decr√©pitas, explica-se, para l√° da psicologia, pelo derrube objectivamente determinado da evid√™ncia l√≥gica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa como verdade, e a verdade como mentira. Cada express√£o, cada not√≠cia e cada pensamento est√£o preformados pelos centros da ind√ļstria cultural. O que n√£o traz o vest√≠gio familiar de tal preforma√ß√£o √©, de antem√£o, indigno de cr√©dito, e tanto mais quanto as institui√ß√Ķes da opini√£o p√ļblica acompanham o que delas sai com mil dados factuais e com todas as provas de que a manipula√ß√£o total pode dispor. A verdade que intenta opor-se n√£o tem apenas o car√°cter de inveros√≠mil, mas √©, al√©m disso, demasiado pobre para entrar em concorr√™ncia com o altamente concentrado aparelho da difus√£o.

O Orgulho e a Vaidade

O orgulho √© a consci√™ncia (certa ou errada) do nosso pr√≥prio m√©rito, a vaidade, a consci√™ncia (certa ou errada) da evid√™ncia do nosso pr√≥prio m√©rito para os outros. Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser ‚ÄĒ pois tal √© a natureza humana ‚ÄĒ vaidoso sem ser orgulhoso. √Č dif√≠cil √† primeira vista compreender como podemos ter consci√™ncia da evid√™ncia do nosso m√©rito para os outros, sem a consci√™ncia do nosso pr√≥prio m√©rito. Se a natureza humana fosse racional, n√£o haveria explica√ß√£o alguma. Contudo, o homem vive a princ√≠pio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a no√ß√£o de efeito precede, na evolu√ß√£o da mente, a no√ß√£o de causa interior desse mesmo efeito. O homem prefere ser exaltado por aquilo que n√£o √©, a ser tido em menor conta por aquilo que √©. √Č a vaidade em ac√ß√£o.

Lucidez sem Ignor√Ęncia nem Sobranceria

Possivelmente n√£o √© sem raz√£o que atribu√≠mos √† ingenuidade e ignor√Ęncia a facilidade de crer e de se deixar persuadir: pois parece-me haver aprendido outrora que a cren√ßa era como uma impress√£o que se fazia na nossa alma; e, na medida em que esta se encontrava mais mole e com menor resist√™ncia, era mais f√°cil imprimir-lhe algo. Assim como, necessariamente, os pesos que nele colocamos fazem pender o prato da balan√ßa, assim a evid√™ncia arrasta a mente (C√≠cero). Quanto mais vazia e sem contrapeso est√° a alma, mais facilmente ela cede sob a carga da primeira persuas√£o. Eis porque as crian√ßas, o vulgo, (…) e os doentes est√£o mais sujeitos a ser conduzidos pelas orelhas (ou seja, pelo que ouvem). Mas tamb√©m, por outro lado, √© uma tola presun√ß√£o ir desdenhando e condenando como falso o que n√£o nos parece veross√≠mil; esse √© um v√≠cio habitual nos que pensam ter algum discernimento al√©m do comum. Outrora eu agia assim, e, se ouvia falar de esp√≠ritos que retornam, ou do progn√≥stico das coisas futuras, de encantamentos, de feiti√ßarias, ou contarem alguma outra hist√≥ria que eu n√£o conseguisse compreender, vinha-me compaix√£o pelo pobre povo logrado por essas loucuras. Mas actualmente acho que eu pr√≥prio era no m√≠nimo igualmente digno de pena;

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Caridade Hipócrita

Nos √ļltimos tempos, preocupava-o sobretudo as mis√©rias das classes – por sentir que nestas democracias industriais e materialistas, furiosamente empenhadas na luta pelo p√£o ego√≠sta, as almas cada dia se tornavam mais secas e menos capazes de piedade.
¬ęA Fraternidade (dizia ele numa carta de 1886, que conservo) vai-se sumindo, principalmente nestas vastas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam em se amontoar e lutar; e, atrav√©s do constante deperecimento dos costumes e das simplicidades rurais, o Mundo vai rolando a um ego√≠smo feroz. A primeira evid√™ncia deste ego√≠smo √© o desenvolvimento ruidoso da filantropia. Desde que a caridade se organiza e se consolida em institui√ß√£o, com regulamentos, relat√≥rios, comit√©s, sess√Ķes, um presidente e uma campainha, e do sentimento natural passa a fun√ß√£o oficial – √© porque o homem, n√£o contando j√° com os impulsos do seu cora√ß√£o, necessita obrigar-se publicamente ao bem pelas prescri√ß√Ķes dum estatuto.Com os cora√ß√Ķes assim duros e os Invernos t√£o longos, que vai ser dos pobres?…¬Ľ

A Génese de um Poema

A maior parte dos escritores, sobretudo os poetas, preferem deixar supor que comp√Ķem numa esp√©cie de espl√™ndido frenesim, de ext√°tica intui√ß√£o; literalmente, gelar-se-iam de terror √† ideia de permitir ao p√ļblico que desse uma espreitadela por detr√°s da cena para ver os laboriosos e incertos partos do pensamento, os verdadeiros planos compreendidos s√≥ no √ļltimo minuto, os in√ļmeros balbucios de ideias que n√£o alcan√ßaram a maturidade da plena luz, as imagina√ß√Ķes plenamente amadurecidas e, no entanto, rejeitadas pelo desespero de as levar a cabo, as op√ß√Ķes e as rejei√ß√Ķes longamente ponderadas, as t√£o dif√≠ceis emendas e acrescentas, numa palavra, as rodas e as empenas, as m√°quinas para mudan√ßa de cen√°rio, as escadas e os al√ßap√Ķes, o vermelh√£o e os posti√ßos que em 99% dos casos constituem os acess√≥rios do histri√£o liter√°rio.
(…) No que a mim diz respeito, n√£o compartilho da repugn√Ęncia de que falei e nunca senti a m√≠nima dificuldade em rememorar a marcha progressiva de todas as minhas obras. Escolho O Corvo por ser a mais conhecida. Proponho-me demonstrar claramente que nenhum pormenor da sua composi√ß√£o se pode explicar pelo acaso ou pela intui√ß√£o, que a obra se desenvolveu, a par e passo, at√© √† sua conclus√£o com a precis√£o e o rigor l√≥gico de um problema matem√°tico.

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O Que é Escrever?

Escrever √© isto: comover para desconvocar a ang√ļstia e aligeirar o medo, que √© sempre experimentado nos povos como uma infus√£o de laborat√≥rio, cada vez mais sofisticada. Eu penso que o escritor com maior sucesso (n√£o de livraria, mas de indigna√ß√£o social profunda) √© aquele que protege os homens do medo: por aud√°cia, del√≠rio, fantasia, piedade ou desfigura√ß√£o. Mas porque a po√©tica precis√£o de dum acto humano n√£o corresponde totalmente √† sua evid√™ncia. Ama-se a palavra, usa-se a escrita, despertam-se as coisas do sil√™ncio em que foram criadas. Depois de tudo, escrever √© um pouco corrigir a fortuna, que √© cega, com um j√ļbilo da Natureza, que √© precavida.

O Que Procuro na Literatura

Que √© que eu procuro na literatura? Que √© que me arrasta para este combate intermin√°vel e sempre votado ao fracasso? Como √© imbecil pensar-se que se escreve para se ¬ęter nome¬Ľ e as vantagens que nisso v√™m. Espera-se decerto sempre fazer melhor, mas s√≥ porque sempre se falhou. Assim se sabe tamb√©m que se vai falhar de novo. N√£o se escreve para ningu√©m, o problema decide-se apenas entre n√≥s e n√≥s. Mas h√° um lugar inating√≠vel e cada nova tentativa √© uma tentativa para o alcan√ßar.
O desejo que nos anima é o de fixar, segurar pela palavra o que entrevemos e se nos furta. Julgamos às vezes que o atingimos, mas logo se sabe que não. Miragem perene de uma presença luminosa, de um absoluto de estarmos inundados dessa evidência, encantamento que nos deslumbra no instante e nesse instante se dissolve.
O que me arrasta nesta luta sem fim é o aceno de uma plenitude de ser, a integração perfeita do que sou no milagre que me entreluz, a transfiguração de mim e do mundo no que fulgura e vai morrer.
Recaído de cada vez no mais baixo, na grossa naturalidade de que sou feito,

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A Dádiva da Evidência de Si

Que havia, pois, mais para a vida, para responder ao seu desafio de milagre e de vazio, do que viv√™-la no imediato, na execu√ß√£o absoluta do seu apelo? Eliminar o desejo dos outros para exaltar o nosso. Queimar no dia-a-dia os restos de ontem. Ser s√≥ abertura para amanh√£. A vida real n√£o eram as leis dos outros e a sua san√ß√£o e o seu teimoso estabelecimento de uma comunidade para o furor de uma plenitude solit√°ria. O absoluto da vida, a resposta fechada para o seu fechado desafio s√≥ podia revelar-se e executar-se na uni√£o total com n√≥s mesmos, com as for√ßas derradeiras que nos trazem de p√© e s√£o n√≥s e exigem realizar-se at√© ao esgotamento. Este ¬ęeu¬Ľ solit√°rio que achamos nos instantes de solid√£o final, se ningu√©m o pode conhecer, como pode algu√©m julg√°-lo? E de que serve esse ¬ęeu¬Ľ e a sua descoberta, se o condenamos √† pris√£o? Sab√™-lo √© afirm√°-lo! Reconhec√™-lo √© dar-lhe raz√£o. Que ignore isso o que ignora que √©. Que o despreze e o amordace o que vive no dia-a-dia animal. Mas quem teve a d√°diva da evid√™ncia de si, como condenar-se a si ao sil√™ncio prisional? Ningu√©m pode pagar, nada pode pagar a gratuitidade deste milagre de sermos.

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