Citação de

Os Meios de Comunicação Têm Sempre Razão

A domina√ß√£o intelectual √© dif√≠cil se n√£o dispomos de uma tribuna medi√°tica. Em vez de perdermos longos anos a reflectir sobre o sentido da vida, as rela√ß√Ķes entre homens e mulheres, a influ√™ncia da alimenta√ß√£o transg√©nica na produ√ß√£o leiteira das vacas normandas (conhe√ßo um investigador que passou quarenta anos a estudar as t√©rmitas; admite n√£o ter conseguido desvendar-lhes o segredo que, no seu entender, existe!) ou qualquer assunto mais ou menos relacionado com o destino da Humanidade, mais vale come√ßarmos por arranjar meios de aceder √† redac√ß√£o de um jornal ou, melhor, de um canal televisivo. Com efeito, √© a import√Ęncia do meio de comunica√ß√£o em termos de audi√™ncia que determina a supremacia de uma opini√£o. Qualquer tolice cat√≥dica emitida entre as 20 e as 20:30 horas √© mais cred√≠vel que a conclus√£o amadurecida de um col√≥quio de especialistas. Porqu√™ mais cred√≠vel? Porque mais acreditada.
O p√ļblico aprecia a confirma√ß√£o de que √© verdade aquilo que sente como verdadeiro (por exemplo, que os pol√≠ticos s√£o podres ou que a Madonna √© a mulher mais sensual do mundo). Este g√©nero de opini√£o, no entanto, s√≥ passa a ser uma evid√™ncia depois de ter sido santificado por um meio de comunica√ß√£o. O que a televis√£o realiza ao seu n√≠vel simplista √© o mesmo que a imprensa faz a um n√≠vel por vezes mais subtil e para um p√ļblico mais desperto. Para ter raz√£o, precisamos, pois, de dispor de uma audi√™ncia ou de ver corroborada a nossa opini√£o por uma inst√Ęncia. Ter raz√£o √© um problema de comunica√ß√£o, em que a arte de persuadir n√£o tem import√Ęncia por compara√ß√£o com o lugar e o canal que permitiu que a mensagem atingisse o p√ļblico.
Partindo desta constata√ß√£o que figura em todos os abeced√°rios da sociologia contempor√Ęnea, os esp√≠ritos alertas e estudiosos deveriam abandonar os seus gabinetes e juntar-se √† coorte de especialistas mediatizados. Eles que comecem por ocupar bons lugares na imprensa que haver√° sempre tempo, depois, para determinar o conte√ļdo das opini√Ķes que lhes permitir√£o ter raz√£o contra os seus colegas, encerrados nos seus laborat√≥rios ou bibliotecas.