Cita√ß√Ķes sobre Televis√£o

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Frases sobre televis√£o, poemas sobre televis√£o e outras cita√ß√Ķes sobre televis√£o para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Vivemos de Matar

Os vivos alimentam-se e engordam √†s custas dos mortos. √Č a ess√™ncia da natureza. Basta ver os document√°rios sobre a vida selvagem na televis√£o, aves corpulentas arrancando com o bico as tripas das v√≠timas, disputando-as entre si; a leoa de focinho enterrado na carne ensanguentada da zebra. Mas nem √© preciso ir t√£o longe: as prateleiras dos supermercados s√£o deprimentes cemit√©rios: paletes de cordeiro morto, ossos e costeletas de boi esfaqueado, v√≠sceras de vaca sacrificada, lombo de porco eletrocutado, tudo isso em embalagens fabricadas com restos de √°rvores abatidas. Vivemos do que matamos. Vivemos de matar, ou do que nos √© servido morto: os herdeiros consomem os despojos do predecessor, e isso nutre-os, fortalece-os no momento de levantar voo. Quanto maior a quantidade de carne consumida, mais alto e majestoso o voo. E mais elegante, claro. Nada que seja alheio √†s regras da natureza.

Poeta Castrado, N√£o!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corol√°rio
poema de m√£o em m√£o
l√£zudo publicit√°rio
malabarista cabr√£o.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado n√£o!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como j√° disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome j√° n√£o se fala
– √© t√£o vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte √© branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?

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[Problemas da sociedade contempor√Ęnea] A televis√£o, que mostra sobretudo pornografia, ou viol√™ncia, tiros, “mata e esfola”. As mulheres trabalham e n√£o est√£o ao lado dos filhos que ficam, sozinhos, a ver televis√£o. Hoje em dia h√° uma perda enorme de valores.

Estamos Neuróticos

Faz sentido que se esteja a enviar para o espa√ßo uma sonda para explorar Plut√£o enquanto aqui as pessoas morrem de fome? Estamos neur√≥ticos. N√£o s√≥ existe desigualdade na distribui√ß√£o da riqueza como tamb√©m na satisfa√ß√£o das necessidades b√°sicas. N√£o nos orientamos por um sentido de racionalidade m√≠nima. A Terra est√° rodeada de milhares de sat√©lites, podemos ter em casa cem canais de televis√£o, mas para que nos serve isto neste mundo onde tantos morrem? √Č uma neurose colectiva, as pessoas j√° n√£o sabem o que √© que lhes √© essencial para a sua felicidade.

O Enigma do Ser Humano

Encontramos uma pessoa que achamos interessante. Tentamos, como se costuma dizer, ¬ęsitu√°-la¬Ľ. (Tenho o h√°bito de fazer isso at√© com os senhores e as senhoras que l√™em as not√≠cias na televis√£o.) Nas nossas recorda√ß√Ķes, procuramos rostos parecidos com o que temos agora diante de n√≥s. O movimento lento das p√°lpebras faz lembrar um orador na Associa√ß√£o de Biologia, as comissuras dos l√°bios s√£o iguais √†s de um docente de Qu√≠mica em Uppsala nos anos cinquenta. Em suma, uma entoa√ß√£o que conhecemos ali, uma express√£o do rosto que recordamos de outro lado, e imaginamos que fic√°mos a compreender. Reconstitu√≠mos o desconhecido com o aux√≠lio do que conhecemos.
O psicanalista no seu consult√≥rio (nem sei se √© assim que se diz, nunca fui a nenhum) faz, em princ√≠pio, o mesmo: associa experi√™ncias, recorda√ß√Ķes, para encontrar as chaves do novo, do desconhecido, com que se confronta.
Mas as pe√ßas que vamos buscar, os factos a que recorremos, esse molho de chaves que s√£o os rostos antes encontrados e que fazemos tilintar na nossa m√£o, √©, tamb√©m ele, o desconhecido. Explicamos um enigma com outro enigma. √Č a mesma coisa que comprar um novo exemplar do mesmo jornal para confirmar uma not√≠cia em que n√£o acreditamos.

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A fun√ß√£o da juventude depende do lugar em que residem. Por exemplo: para que servem os rapazes e as mo√ßas da Am√©rica? Resposta: para consumirem maci√ßamente. E os corol√°rios desse tipo de consumo s√£o: comunica√ß√Ķes em massa, publicidade em massa. Narc√≥ticos em massa (sob a forma de televis√£o, tranquilizantes, pensamentos positivos e cigarro). Agora que a Europa tamb√©m ingressou na produ√ß√£o em massa, para que servir√£o os seus rapazes e mo√ßas? Para consumirem maci√ßamente, exatamente como a juventude da Am√©rica. [‚Ķ] O destino da mocidade deve ser apenas se desenvolver harmoniosamente e se transformar em adultos plenamente realizados.

A informação banaliza os acontecimentos. Dou um exemplo: a primeira vez que se viram na televisão imagens de uma criança negra cheia de fome e com moscas a rodeá-la foi um momento marcante, só que agora já ninguém lhes liga devido à vulgarização. Alguém no outro dia proibia a divulgação de imagens dessas crianças negras com moscas à volta porque a sua repetição era perigosa. As pessoas habituam-se.

Pensar Custa

Pensar √© a todo momento e a todo custo. Pensar d√≥i, cansa e s√≥ traz aborrecimentos. Melhor √© n√£o pensar. Mas pensar n√£o √© facultativo. Se o c√©rebro, a m√≠nima parte dele que seja, deixa de estar alerta por um momento, penetram l√°, como parasitas dif√≠ceis de erradicar, ¬ęideias¬Ľ vindas da imprensa, do r√°dio, da televis√£o, da propaganda geral, dos produtos em s√©rie, do consumo degenerado, dos doutores em lei, arte, literatura, ci√™ncia, pol√≠tica, sociologia. Essa massa de desinforma√ß√£o, n√£o s√≥ in√ļtil como nociva, nos √©, ali√°s, imposta de maneira criminosa nos primeiros anos de nossa vida. E se, algum dia, chegamos a pensar no verdadeiro sentido do termo, todo o restante esfor√ßo da exist√™ncia √© para nos livrarmos de uma lament√°vel heran√ßa cultural. Pois, infelizmente, o c√©rebro humano √© um dos poucos √≥rg√£os do corpo que n√£o t√™m uma v√°lvula excretora. E as fezes culturais ficam l√°, nos envenenando pelo resto da vida, transformando o mais complexo e mais nobre √≥rg√£o do corpo numa imensa fossa, imunda e fedorenta. Um lament√°vel erro da Cria√ß√£o.

Os Professores

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que √© trabalhado pelos professores n√£o pode ser quantificado. N√£o h√° n√ļmeros ou casas decimais com suficiente precis√£o para medi-lo. A falta de quantifica√ß√£o n√£o √© culpa dos assuntos inquantific√°veis, √© culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores n√£o vendem o material que trabalham, oferecem-no. N√≥s, com o tempo, com os anos, com a dist√Ęncia entre n√≥s e n√≥s, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material √© nosso, achamos que n√≥s pr√≥prios somos esse material. Por ironia ou capricho, √© nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva.

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Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro.

As can√ß√Ķes e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que n√£o falem dos ser√Ķes a ver televis√£o no sof√°? N√£o h√° explica√ß√£o. O amor tamb√©m √© estar no sof√°, tapados pela mesma manta, a ver s√©ries m√°s ou filmes maus. Talvez chova l√° fora, talvez fa√ßa frio, n√£o importa. O sof√° √© quentinho e fica mesmo √† frente de um aparelho onde passam as s√©ries e os filmes mais parvos que j√° se fizeram. Daqui a pouco come√ßam as televendas, tamb√©m servem.

Antes de ser baleado, sempre suspeitei de estar vendo televisão, em vez de estar vivendo a vida. As pessoas às vezes dizem que a maneira como as coisas acontecem em filmes é irreal, mas na verdade é o modo como as coisas acontecem na vida que é irreal.

Queixas de um Utente

Pago os meus impostos, separo
o lixo, j√° n√£o vejo televis√£o
h√° cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
p√ļblicos, raramente me esque√ßo
de deixar √°gua fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e n√£o cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
n√£o estou a ver resultado nenhum.

Acho a televisão muito educativa. Toda as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro.

Pedra Filosofal

Eles n√£o sabem que o sonho
é uma constante da vida
t√£o concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles n√£o sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho √°lacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles n√£o sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pin√°culo de catedral,
contraponto, sinfonia,
m√°scara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
p√°ra-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cis√£o do √°tomo, radar,
ultra-som, televis√£o,
desembarque em foguet√£o
na superfície lunar.

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