Passagens sobre Podres

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Frases sobre podres, poemas sobre podres e outras passagens sobre podres para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Poema da malta das naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gib√£o.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a m√£o esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no ch√£o, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
N√£o se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

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O L√°zaro Da P√°tria

Filho podre de antigos Goitacases,
Em qualquer parte onde a cabeça ponha,
Deixa circunferências de peçonha,
Marcas oriundas de √ļlceras e antrazes.

Todos os cinocéfalos vorazes
Cheiram seu corpo. À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes,

Mostra aos montes e aos rígidos rochedos
A hedionda elefant√≠asis dos dedos…
H√° um cansa√ßo no Cosmos… Anoitece,

Riem as meretrizes no Casino,
E o L√°zaro caminha em seu destino
Para um fim que ele mesmo desconhece!

Os Meios de Comunicação Têm Sempre Razão

A domina√ß√£o intelectual √© dif√≠cil se n√£o dispomos de uma tribuna medi√°tica. Em vez de perdermos longos anos a reflectir sobre o sentido da vida, as rela√ß√Ķes entre homens e mulheres, a influ√™ncia da alimenta√ß√£o transg√©nica na produ√ß√£o leiteira das vacas normandas (conhe√ßo um investigador que passou quarenta anos a estudar as t√©rmitas; admite n√£o ter conseguido desvendar-lhes o segredo que, no seu entender, existe!) ou qualquer assunto mais ou menos relacionado com o destino da Humanidade, mais vale come√ßarmos por arranjar meios de aceder √† redac√ß√£o de um jornal ou, melhor, de um canal televisivo. Com efeito, √© a import√Ęncia do meio de comunica√ß√£o em termos de audi√™ncia que determina a supremacia de uma opini√£o. Qualquer tolice cat√≥dica emitida entre as 20 e as 20:30 horas √© mais cred√≠vel que a conclus√£o amadurecida de um col√≥quio de especialistas. Porqu√™ mais cred√≠vel? Porque mais acreditada.
O p√ļblico aprecia a confirma√ß√£o de que √© verdade aquilo que sente como verdadeiro (por exemplo, que os pol√≠ticos s√£o podres ou que a Madonna √© a mulher mais sensual do mundo). Este g√©nero de opini√£o, no entanto, s√≥ passa a ser uma evid√™ncia depois de ter sido santificado por um meio de comunica√ß√£o.

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O Fundo é o que Menos Falta Faz

Ser√° poss√≠vel plantar uma faia num jardim assim t√£o pequeno? Portas e janelas dos sete ¬ęateliers¬Ľ cont√≠guos ligam umas com as outras, no pequeno p√°tio onde eu e o meu irm√£o vivemos. A semente da faia √© uma banana um tanto podre ou uma batata. H√° umas velhas que n√£o andam nada contentes connosco. Mas se a faia crescer, nunca ser√° demasiado grande, e se n√£o cresce, de que servir√° plant√°-la? Ora, ao plant√°-la, os meus amigos foram dar com as pedras preciosas que eu tinha perdido.

E fala e ri e gesticula e grita. (teus olhos) entrava-nos alma adentro e via esta lama podre e com pesar nos fitava e com ira amaldiçoava e com doçura perdoava.

Antes que Seja Tarde

Amigo,
tu que choras uma ang√ļstia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as √°guas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solit√°rio
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu √©s o √ļnico habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dar√°
e esse ar de ren√ļncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha,
abre os braços e luta!
Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.

S√°tira

Besta e mais besta! O positivo √© nada…
(Perdoa, se em gram√°tica te falo,
Arte que ignoras, como ignoras tudo.)
Besta e mais besta! Na palavra embirro;
Que a besta anexa ao mais teu ser define.

D√°s-me louvor servil na voz do prelo,
Grande me crês, proclamas-me famoso,
Excelso, transcendente, incompar√°vel,
Confessas que d’Elmano a f√ļria temes…
E, débil estorninho, águias provocas,
Aves de Jove, que o corisco empunham!

√Čs de r√°bula vil corrupta imagem;
Tu vendes o louvor, como ele as partes,
Mas ele na enxovia inf√Ęmias paga,
E tu, com t√ļstios, que aos caloiros pilhas,
Compras gravatas, em que a tromba enorme
Sumas ao dia, que de a ver se embrusca,
Qual em tenra m√£ozinha esconde a face
Mimoso infante de pap√Ķes vexado.
√ötil descuido aos c√°rceres te furta,
À digna habitação de ti saudosa
(Digo, o Castelo), est√Ęncia equivalente
Aos méritos morais, que em ti reluzem.

De saloios vinténs larápio sujo,
A glória do teu ódio restitui
A quem no teu louvor desacreditas.
Se honrada pelos s√°bios d’Ulisseia
(D’Ulisseia n√£o s√≥,

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Psicologia De Um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escurid√£o e rutil√Ęncia,
Sofro, desde a epig√™nesis da inf√Ęncia,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugn√Ęncia…
Sobe-me √† boca uma √Ęnsia an√°loga √† √Ęnsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

j√° o verme – este oper√°rio das ru√≠nas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E h√°-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorg√Ęnica da terra!

A Meu Pai Depois De Morto

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus l√°bios que os meus l√°bios osculam
Micro-organismos f√ļnebres pululam
Numa fermentação gorda de cidra.

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra!…

Podre meu Pai! E a m√£o que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de org√≠acos festins!…

Amo meu Pai na at√īmica desordem
Entre as bocas necrófagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins!

O Inseguro

A eterna can√ß√£o: Que fiz durante o ano, que deixei de fazer, por que perdi tanto tempo cuidando de aproveit√°-lo? Ah, se eu tivesse sido menos apressado! Se parasse meia hora por dia para n√£o fazer absolutamente nada ‚ÄĒ quer dizer, para sentir que n√£o estava fazendo coisas de programa, sem cor nem sabor. A√≠, a fantasia galopava, e eu me reencontraria como gostava de ser; como seria, se eu me deixasse…
Não culpo os outros. Os outros fazem comigo o que eu consinto que eles façam, dispersando-me. Aquilo que eu lhes peço para fazerem: não me deixarem ser eu-um. Nem foi preciso rogar-lhes de boca. Adivinharam. Claro que eu queria é sair com eles por aí, fugindo de mim como se foge de um chato. Mas não foi essa a dissipação maior. No trabalho é que me perdi completamente de mim, tornando-me meu próprio computador. Sem deixar faixa livre para nenhum ato gratuito. Na programação implacável, só omiti um dado: a vida.

Que sentimento tive da vida, este ano? Que escava√ß√£o tentei em suas jazidas? A que profundidade cheguei? Substitu√≠ a no√ß√£o de profundidade pela de altura. N√£o quis saber de minera√ß√Ķes. Cravei os olhos no espa√ßo,

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Enterro de Luxo

L√° vai o enterro de luxo
puxado por sete cavalos
l√° vai a rosa de pl√°stico
na lapela do cad√°ver.

L√° vai o defunto imberbe
boiando em madeira nobre
lá vai a língua bilingue
com seu sotaque podre.

L√° vai o queixo amarrado
lá vai a gravata oblíqua
montada na escorreguenta
garupa da metafísica.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai a conta banc√°ria
l√° vai a calva engomada
l√° vai o ouro da c√°rie.

L√° vai o enterro de luxo
levado por ventos negros
l√° v√£o os pend√Ķes de luto
com seus narizes alegres.

L√° vai o enterro de luxo
l√° vai o perfil de √°rabe
tangido pra correnteza
vol√ļvel da eternidade.

Enquanto os homens exercem seus podres poderes Morrer e matar de fome, de raiva e de sede S√£o tantas vezes gestos naturais(…)

A Maior Desgraça da Vida

A maior desgra√ßa da vida, vistas bem as coisas, acaba por n√£o ser a morte. Salvo aqueles casos catastr√≥ficos, que sob o ponto de vista do aniquilamento s√£o uma perfeita maravilha, morre-se quando esta coisa que se chama corpo, por uma raz√£o ou por outra, est√° podre. Quando, afinal, a ele pr√≥prio j√° lhe n√£o apetece viver. A desgra√ßa verdadeira √© esta de n√≥s andarmos aqui a namorar o c√©u, a pisar a terra, a investir contra o mar ‚ÄĒ e nem o c√©u, nem a terra, nem o mar saberem sequer que a gente existe.

O Homem n√£o Deseja a Paz

Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no conv√≠vio inter-humano n√£o √© afinal a paz, a conc√≥rdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente √© a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infort√ļnio. Ele n√£o foi feito para a conquista de seja o que for, mas s√≥ para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra √© um bem (Hegel, por exemplo), mas √© isso que no fundo desejam. A guerra √© o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquieta√ß√£o em ac√ß√£o. Da paz se diz que √© ¬ępodre¬Ľ, porque √© o estarmos reca√≠dos sobre n√≥s, a inactividade, a derrota que sobrev√©m n√£o apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado √© o mais feliz pela necessidade inilud√≠vel de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu n√£o tem paz sen√£o por algum tempo no seu cora√ß√£o alvoro√ßado. A guerra √© o estado natural do bicho humano, ele n√£o pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vit√≥ria alcan√ßada √© o est√≠mulo insuport√°vel para vencer outra vez.

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A vida √© um processo fluente e em alguns lugares do caminho coisas desagrad√°veis ocorrer√£o. Podem deixar cicatrizes, mas a vida continua a fluir. √Č como a √°gua fluente, que ao estagnar-se, torna-se podre; n√£o pare! Continue bravamente, porque cada experi√™ncia nos ensina uma li√ß√£o.

O Deus-Verme

Factor universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabund√Ęncia ou na mis√©ria,
Verme Рé o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua di√°ria ocupa√ß√£o f√ļnerea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a m√£o…

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!