Passagens sobre Anos

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Frases sobre anos, poemas sobre anos e outras passagens sobre anos para ler e compartilhar. Leia as melhores cita√ß√Ķes em Poetris.

Há homens que lutam um dia, e são bons; há homens que lutam por um ano, e são melhores; há homens que lutam por vários anos, e são muito bons; há outros que lutam durante toda a vida, esses são imprescindíveis.

O tempo e a maré não esperam por ninguém Рmas o tempo pára sempre para uma mulher de trinta anos.

Em Custódia

Quatro pris√Ķes, quatro interrogat√≥rios…
Há três anos que as solas dos sapatos
Gasto, a correr de Herodes a Pilatos,
Como Cristo, por todos os pretórios!

Pulgas, baratas, percevejos, ratos…
Caras sinistras de espi√Ķes not√≥rios…
Fedor de escarradeiras e micr√≥bios…
Catingas de secretas e mulatos…

Para tantas pris√Ķes √© curta a vida!
– √ď Dutra! √ď Melo! √ď Valad√£o! √ď diabo!
Vinde salvar-me! Vinde em meu socorro!

Livrai-me desta fama imerecida,
Fama de Ravachol, que arrasto ao rabo,
Como uma lata ao rabo de um cachorro.

Este anoitecer vai ser divino, como deves calcular. Foi sempre a minha hora de trag√©dia, a hora dos meus nervos dolorosos, dos meus pensamentos doidos; foi sempre, a noitinha, o meu grande calv√°rio onde sobem devagarinho, em passos lentos, todas as minhas dores de muitos anos, todas as m√°goas que me t√™m dado, e √© nesta hora que eu rezo o meu verso, n√£o sei de que soneto: “Ergue-se a minha cruz dos desalentos”.

O fado esteve comigo desde sempre. Aos doze anos fazia chorar as pessoas que me ouviam cantar. A essa altura… acabava eu por chorar tamb√©m.

Onde Ser√° a Terra Prometida?

Triste época a nossa! Para que oceano correrá esta torrente de iniquidades? Para onde vamos nós, numa noite tão profunda? Os que querem tactear este mundo doente retiram-se depressa, aterrorizados com a corrupção que se agita nas suas entranhas.
Quando Roma se sentiu agonizar, tinha pelo menos uma esperança, entrevia por detrás da mortalha a Cruz radiosa, brilhando sobre a eternidade. Essa religião durou dois mil anos, mas agora começa a esgotar-se, já não basta, troçam dela; e as suas igrejas caem em ruínas, os seus cemitérios transbordam de mortos.
E nós, que religião teremos nós? Sermos tão velhos como somos, e caminharmos ainda no deserto, como os Hebreus que fugiam do Egipto.
Onde ser√° a Terra prometida?
Tentámos tudo e renegámos tudo, sem esperança; e depois uma estranha ambição invadiu-nos a alma e a humanidade, há uma inquietação imensa que nos rói, há um vazio na nossa multidão; sentimos à nossa volta um frio de sepulcro.
A humanidade come√ßou a mexer em m√°quinas, e ao ver o ouro que nelas brilhava, exclamou: ¬ę√Č Deus!¬Ľ E come esse Deus. H√° – e √© porque tudo acabou, adeus! adeus! – vinho antes da morte! Cada um se precipita para onde o seu instinto o impele,

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A Essência da Poesia

Não aprendi nos livros qualquer receita para a composição de um poema; e não deixarei impresso, por meu turno, nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria. Se narrei neste discurso alguns sucessos do passado, se revivi um nunca esquecido relato nesta ocasião e neste lugar tão diferentes do sucedido, é porque durante a minha vida encontrei sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para se endurecer nas minhas palavras, mas para me explicar a mim próprio.
Encontrei, naquela longa jornada, as doses necess√°rias para a forma√ß√£o do poema. Ali me foram dadas as contribui√ß√Ķes da terra e da alma. E penso que a poesia √© uma ac√ß√£o passageira ou solene em que entram em doses medidas a solid√£o e solidariedade, o sentimento e a ac√ß√£o, a intimidade da pr√≥pria pessoa, a intimidade do homem e a revela√ß√£o secreta da Natureza. E penso com n√£o menor f√© que tudo se apoia – o homem e a sua sombra, o homem e a sua atitude, o homem e a sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exerc√≠cio que integrar√° para sempre em n√≥s a realidade e os sonhos,

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Poema do Futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a p√°gina, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

O Super-Detergente

N√≥s vivemos no tempo do record, do m√°ximo, do prest√≠gio do campe√£o. Todo o vocabul√°rio est√° cheio dos hiper ou dos super da propaganda comercial. Dizer que tal livro √© o melhor de h√° 30 anos equivale a dizer que este √© que √© de facto um superdetergente. De resto, os agentes publicit√°rios do material liter√°rio n√£o pretender√£o talvez enganar-nos. Eles sabem que sabemos que estamos no dom√≠nio do reclame. √Č uma actividade inocente como proclamarmos a excel√™ncia de um sab√£o. E √© exactamente por isso que eles usam sempre n√ļmeros redondos. Nunca dizem, por exemplo, que este √© o melhor livro de h√° 47 anos ou de h√° 23 anos e meio. Na realidade, eles n√£o t√™m um ponto de refer√™ncia para marcarem as datas. Falar em 30 ou 50 anos √© como usar uma ¬ęnumera√ß√£o indeterminada¬Ľ, como se diz em ret√≥rica. Gar√ß√£o, ao dizer da Dido moribunda que ¬ętr√™s vezes tenta erguer-se¬Ľ, n√£o pretende convencer-nos de que estiveram l√° a cont√°-las. Em todo o caso e de qualquer modo, dizer que este √© o melhor livro de h√° 50 anos afecta as pessoas impression√°veis. Mas por isso mesmo √© que existem as ag√™ncias de publicidade. E ningu√©m vai pedir-lhes satisfa√ß√Ķes por reclamar um produto contra a calv√≠cie que nos deixou talvez ainda mais depilados.

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Descida

O que tinha de ser j√° foi… E est√° perdida
aquela √Ęnsia de espera, de desejo e f√©,
e tudo o que virá será cópia esbatida
da Vida que foi Vida e hoje Vida n√£o √©…

Muito pouco de tudo ainda resta de p√©…
Agora, nunca mais estr√©ias… Repetida
a alma se reverá um desespero, até
que a vida j√° n√£o valha a pena ser vivida…

Do que foi canto e flor restam só as raízes,
e ao tédio que envenena os dias mais risonhos
repito: nunca mais estr√©ias… s√≥ reprises…

E que importa o que vier? Sejam anos ou meses?
– Nunca mais a beleza dos primeiros sonhos!
– Nunca mais a surpresa das primeiras vezes!

A um Crucifixo

Há mil anos, bom Cristo, ergueste os magros braços
E clamaste da cruz: há Deus! e olhaste, ó crente,
O horizonte futuro e viste, em tua mente,
Um alvor ideal banhar esses espaços!

Por que morreu sem eco, o eco de teus passos,
E de tua palavra (ó Verbo!) o som fremente?
Morreste… ah! dorme em paz! n√£o volvas, que descrente
Arrojaras de novo √† campa os membros lassos…

Agora, como ent√£o, na mesma terra erma,
A mesma humanidade é sempre a mesma enferma,
Sob o mesmo ermo c√©u, frio como um sud√°rio…

E agora, como ent√£o, viras o mundo exangue,
E ouviras perguntar ‚ÄĒ de que serviu o sangue
Com que regaste, √≥ Cristo, as urzes do Calv√°rio? ‚ÄĒ

Nos anos de 1913 e 1914 manifestei a opinião, em vários círculos, que, em parte, hoje estão filiados ao movimento nacional-socialista, de que o problema futuro da nação alemã devia ser o aniquilamento do marxismo.

As sensa√ß√Ķes fortes entontecem-me e fazem-me sofrer. A nossa vida neste velho Portugal, vida toda de resigna√ß√£o e sentimentalidade, vida estreita e mesquinha, sem horizontes nem ondas largas, conv√©m mais a uma velhota de 27 anos que vive pela imagina√ß√£o mais do que tu podes imaginar; na minha cadeira da Ilha, com um livro que me encanta sobre o rega√ßo eu viajo, √†s vezes, mais do que os maiores vagabundos, pelo mundo fora.

Sem Causa, Juntamente Choro e Rio

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

√Č tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando;
Num’ hora acho mil anos, e √© de jeito
Que em mil anos n√£o posso achar um’ hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

A Essência das Coisas

Nunca me conformei com um conceito puramente científico da Existência, ou aritmético-geométrico, quantitativo-extensivo. A existência não cabe numa balança ou entre os ponteiros dum compasso. Pesar e medir é muito pouco; e esse pouco é ainda uma ilusão. O pesado é feito de imponderáveis, e a extensão de pontos inextensos, como a vida é feita de mortes.
A realidade n√£o est√° nas apar√™ncias transit√≥rias, reflexos palpitantes, simulacros luminosos, um aflorar de quimeras materiais. Nem √© s√≥lida, nem l√≠quida, nem gasosa, nem electromagn√©tica, palavras com o mesmo significado nulo. Foge a todos os c√°lculos e a todos os olhos de vidro, por mais longe que eles vejam, ou se trate dum n√ļcleo at√≥mico perdido no infinitamente pequeno, ou da nebulosa Andr√≥meda, a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!
A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão. Esta apenas descobre um simples jogo de forças repetido ou modificado lentamente, gestos insubstanciais, formas ocas, a casca de um fruto proibido.
Mas o miolo é do poeta. Só ele saboreia a vida até ao mais íntimo do seu gosto amargoso,

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Memória Personalizada

N√£o acontece apenas que certas pessoas t√™m mem√≥ria e outras n√£o (…), mas, mesmo com mem√≥rias iguais, duas pessoas n√£o se lembram das mesmas coisas. Uma ter√° prestado pouca aten√ß√£o a um facto do qual a outra guardar√° um grande remorso, e em contrapartida ter√° apanhado no ar como sinal simp√°tico e caracter√≠stico uma palavra que a outra ter√° deixado escapar quase sem pensar. O interesse de n√£o nos termos enganado quando emitimos um progn√≥stico falso abrevia a dura√ß√£o da lembran√ßa desse progn√≥stico e permite-nos afirmar em breve que n√£o o emitimos. Enfim, um interesse mais profundo, mais desinteressado, diversifica as mem√≥rias das pessoas, de tal modo que o poeta que esqueceu quase tudo dos factos que outros lhe recordam ret√©m deles uma impress√£o fugidia.
De tudo isso, resulta que, passados vinte anos de aus√™ncia, encontramos, em lugar de esperados rancores, perd√Ķes involunt√°rios, inconscientes, e, em contrapartida, tantos √≥dios cuja raz√£o n√£o conseguimos explicar (porque esquecemos tamb√©m a m√° impress√£o que caus√°mos). At√© da hist√≥ria das pessoas que conhecemos melhor esquecemos as datas.

Natal Diferente

I

Catedrais de luz erguidas na cidade.
Neve artificial nas montras com brinquedos.
Soa um C√Ęntico antigo no vento da tarde
que arrefece. Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê de pasmo nesta hora de Natal.

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas.
Cinzenta é a cor do céu. Decerto vai chover.
No ambiente superficial
representam-se alegrias.
As notícias nos jornais agravam
o cepticismo deste Natal a haver.

Sinto-me vazio. Lasso. Sem vontade.
Uma grande ternura a boiar dentro de rnirn:
L√°stima, piedade, amor pelos humanos?
Mas de que serve comover-me assim?

Vou aceitar este Natal, tal como est√°.
Com √°lcool. Com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilus√Ķes.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

II

Meu Menino Jesus que deves estar no Céu
vem tiritar nas cidades sem calor.
Vem dar realidade a este dia, vem!
‚ÄĒ Trinta e tr√™s anos e a consci√™ncia em flor.
Mas n√£o venhas de fraldas: a Estrela j√° brilhou.
Traz o corpo macerado,

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